O estranho eremita

11 Ato 11 - A fúria dos deuses


“Um verídico tapa do pessimismo, foi como acordar de um sono profundo tropeçando na cama após levantar.”


Apreciei o gramado, mal comecei a conhecer a vida, e já anunciava a minha volta a arcaica morada que beirava uma epígrafe. Pássaros passavam em rasantes voos procurando alimento e vitalidade. A pelugem deles não me aquecia, haviam irracionalmente aflorado seus instintos de sobrevivência, na África contemporânea esperam a presa finalmente desencarnar para com bicadas abrir seu corpo que aos poucos vira comida de vermes. Servirei de adubo para o gramado no fim das contas.
Levantei e tornei andar, as aves levantaram voos com seus bateres de asas jocosos, a minha única felicidade naquelas horas era o cafuné feito pela minha própria essência.
A imensidão do oceano remetia lembranças de alto mar, minha vontade era tão intensa a ponto de me levar pular nas violentas águas em busca de mais algum mistério a ser desvendado. Surgia no meu centro nervoso, o deslumbrar de uma fobia até então adormecida, o medo de ter receio do que encontrar além de um cruzamento, medo de encontrar fogo donde provém muita fumaça.
Para você que nunca teve grande chance para conhecer o mundo como a palma de sua mão, descrevo-lhe: Diverso, uma extraordinária miscelânea, cores que ilustravam um céu formado por amores, sentimentos e aspirações, prédios e parques, panteras e borboletas em um mesmo ecossistema... Sabe o que seria digno de contemplação? Essas características serem diferentes de fugazes. Já dizia Machado de Assis: “Os adjetivos passam, e os substantivos ficam”.
Estive em constante fuga, agora tenho a certeza de que estou sendo caçado, e estou por um triz, ou melhor, por um eclipse. Devo ir de encontro com o tornado? Ou esperar que o mesmo me alcance? Devo entrar no covil desconhecido iluminado por lamparinas inexistentes? Ou adormecer na cama da conformidade? Dúvidas e perguntas ignorantes de um depravado, esse seria o título ideal.
Apressei o passo, o teto celestial ganhava um aspecto acinzentado, os pássaros não mais cantavam e a trilha sonora inesquecível transmutou-se em uma melodia misteriosa. Ao longe um raio surgiu, um clarão ecoou entre os cantos da Terra. Já me aproximava de casa quando a tempestade deu as cartas, raios desenhando um mosaico de neon em sagrada altitude, corri e tive meus passos estagnados por um aviso brutal, relâmpagos de ira preencheram as nuvens que sobre mim pairavam, meus olhos esbugalhados não venciam o jogo de gato e rato, aves desesperadas em um só rajada voaram mordazes para os seus abrigos, até que em raios consecutivos uma a uma foram caindo diante de mim, beijando o chão com fumaças saindo de seus corpos e se misturando a umidade. Uma chuva de pássaros conseguiu assustar o apático. O único ser humano que sobrou, dotado de extrema racionalidade, sobrou para uma única finalidade: Divertimento.
Deixei-me assustar e sofri as consequências exasperado, abri a porta com certa relutância do vento que causava trepidação no vidro, meu corpo estava abaixo de zero, todavia não há como matar quem já está morto.
Para ter uma ideia, de três em três dias estou sujeito a esse frio intenso, o banho na costa custa muito mais do que alguns pingos de água.
A ferrenha artilharia pesada dos deuses, arrancou-me suspiros de receio, persisti na posição, esperando que a tormenta fosse passageira como todas as outras. Após os foguetes e assassinatos, sobrou o chuvisco manso, meu organismo aparentava ter saído de uma guerra, fadigado e fraco repousou na cama e adormeceu, nos meus sonhos, lembranças lúgubres e incertas arranharam o meu inconsciente.
Pesadelos são diversos, monstros, pestes, perseguições... Incapacidade. Cada um guarda um horror dentro da cabeça, vaga pela noite em busca deles, na maioria das vezes esbarra em terrores dos outros. Não posso dizer afirmativamente que foi um sonho que tive, mas sim uma lembrança que veio à tona. Em uma das minhas viagens pelos oceanos dessa vida, apreciei a noite e o dia, o repouso e a profundidade. Estive abaixo de mim em diversas situações, contudo acima não estive. Em mergulhos, deixava minha pele tornar-se fluídos, libertava minha alma entre os confins, as recompensas variavam, as vezes ela me trazia grandes peixes, em outras ocasiões, monstros escondidos nas conchas. Acostumei-me com isso, pois a naturalidade da vida permite naturalmente uma falha, todavia o nosso Narciso não abre mão a um erro, nos martiriza diante do penar, mesmo sabendo que o errar é humanitário, e que no fim não importa o seus erros e sim o que aprendeu com eles.
Em um desses momentos, estive tempo o bastante por baixo d’água para perceber o efêmero momento que nos resta. Podemos transformar minutos em horas ou o contrário, podemos converter vampiros em lobisomens, voar alto e cair baixo. A beleza do viver estava ali, peixes coloridos envolta de corais, criaturas esquisitas e até belas, Luas e Sóis grafados em peles que enfeitavam o alto mar. O único predador no âmbito, aguardava em estado respiratório nulo, trocando carícias com o infinito e brincando com a ilusão, os realistas diriam que o lapso no tempo não durou mais do que trinta segundos, os sonhadores, como eu, abriríamos os olhos e deixaríamos a água invadir só para dizer: “O tempo é um artifício, a vida é o troféu...”, não despeitei todos os outros sofredores, incluindo-me entre eles, haviam os que passavam fome na África, viciados em Amsterdã, dominados por jogos de azar na propulsora Las Vegas, suicidas nos países baixos, materialistas enganados pelo próprio dinheiro, afogados em desejos que nunca serão supridos por uma cédula. Apenas me conformei que a desigualdade sempre existirá, e que a equidade pode chegar ao ponto material, entretanto a igualdade moral será oscilante, e de vertiginosa mudança entre os tempos, um guerreiro romano pode ter sido muito mais evoluído do que ditadores especializados em estratégias militares, apenas apreciei meu momento e agradeci a chance, rogando mentalmente pelos que não puderam estar ali e nunca terão a chance de ouro.
Após longas e sublimes danças com o horizonte azul, retornei à superfície quebrando o meu estado de meditação. Um verídico tapa do pessimismo, foi como acordar de um sono profundo tropeçando na cama após levantar.