O espinho e a rosa
2 Capítulo 2
Maria não havia acordado bem aquela manhã. Não sabia direito, mas não se sentia disposta, e com certeza não era por causa das dores nas costas. Não eram um incômodo tão grande, o que a exasperava era um cansaço esquisito que percorria todo o seu corpo. Não aguentando ficar em pé, pediu licença à Quitéria e foi se deitar um pouco. Nem fazia muito tempo que estava na cama, quando ouviu batidas na porta.
— Entre – disse a jovem.
E qual não foi a surpresa de Maria ao ver Celso ali, um tanto tímido, com um livro nas mãos.
— Celso? O que…
— Soube que não se sentiu bem hoje. Vim ver se já se sente melhor.
Maria sorriu. Celso era uma caixinha de surpresas, ora gentil, ora um estúpido. Ela gostava mais da primeira versão.
— Não é nada para se preocupar, apenas uma dor nas costas.
— Bem – disse o rapaz – em todo caso, trouxe um livro para você se distrair.
A moça levantou-se da cama, tomou o livro que ele lhe estendera e leu o título em voz alta.
— “Estrela da manhã”, Manuel Bandeira.
— É de poesias, achei que fosse gostar.
— Muito gentil de sua parte, Cels…
O nome dele ficou no ar; a expressão de Maria o alarmou, e tão logo percebeu que a moça iria desmaiar, Celso a segurou nos braços.
— Maria, o que houve? Céus, você está quente!
— Eu… eu não… não sei…
— Está a arder em febre! Quitéria! Quitéria! Venha aqui, rápido!
Quitéria não custou a aparecer à porta, e logo assustou-se com o que viu.
— Seu Celso, o que faz aqui?
O rapaz havia levantado a jovem nos braços, e a colocava na cama, arrumando as almofadas para lhe dar mais conforto.
— Maria quase desmaiou, corra até titia e diga-lhe para chamar um médico, ela está com febre, rápido!
A velha empregada saiu às pressas. Celso observava Maria, quase desfalecida, e em seu íntimo temia o que pudesse ser a causa da febre repentina. Não sabia muito sobre gravidez, mas imaginava que qualquer doença era um risco enorme para uma mulher naquelas condições.
— Maria, por favor, abra os olhos… Maria!
Ele tomou o rosto dela entre as mãos e a acariciou. Beijou-lhe a testa; estava muito quente. Decidiu permanecer ali até que o médico chegasse. Agarrou-lhe as mãos, tão quente quanto, e levou-as ao peito.
— Por favor… — sussurrou, quase em súplica.
Anastácia, quase que naquele instante, adentrou o quarto.
— Celso! O que aconteceu?
O rapaz, ajoelhado ao lado da cama, levantou-se rapidamente, o rosto corado, totalmente embaraçado por ter sido pego num momento como aquele.
— Vim trazer um livro para Maria, a fim de distraí-la, titia, mas… ela passou mal. Está com febre.
Anastácia sentou-se à beira da cama, e pôs a mão na testa da moça.
— Está em chamas. Bem que a achei muito pálida quando a vi logo cedo. Fez bem, Celso, em vir vê-la, quem sabe o que poderia ter acontecido se ela estivesse sozinha.
Celso levou uma das mãos à boca, a fim de reprimir qualquer reação mais expansiva. Fazendo um grande esforço para se controlar diante da tia, respondeu cuidadosamente.
— Ainda bem mesmo, titia.
Não demorou muito para que Dr. Lauro chegasse para examinar a doente. Durante todo o tempo, Celso ficou no quarto, recusando-se a sair. Pôs o livro que trouxera para a moça em cima da escrivaninha, e observava a jovem disfarçadamente através do reflexo do espelho, tentando desesperadamente ocultar seus sentimentos. Anastácia conversava com Dr. Lauro sobre o que podia ser a doença de Maria, visivelmente preocupada.
— As causas podem ser inúmeras – dizia o médico – e na condição em que Maria se encontra, até mesmo um simples resfriado requer muito cuidado, porque não é qualquer remédio que pode ser receitado para ela.
— Sim, Dr. Lauro, eu entendo – respondeu Anastácia – Mas qual o seu prognóstico?
— Irei fazer um exame de sangue, mas o que eu posso dizer desde já é que Maria não pode fazer muito esforço, nem sofrer fortes emoções. Qualquer contrariedade que lhe cause estresse pode até mesmo antecipar o parto, o que seria muito arriscado.
— Arriscado como, doutor? – perguntou Celso, sem conseguir se conter.
— Bom, um parto prematuro é sempre um grande risco, tanto para a mãe quanto para o bebê.
— Então… Maria e o bebê podem…
— Não se atreva a completar esta frase, Celso! – reagiu fortemente Anastácia – Deus há de manter Maria e o bebê sãos e salvos. Vou rezar para que isso não passe de um susto. Dr. Lauro, faça o que puder para ajudá-la, sim? Eu lhe acompanho até a porta.
Anastácia e o médico saíram, mas Celso continuou ali, completamente atordoado.
— Maria… – disse, olhando para a moça inerte na cama, branca como cera – Não…
Sentou na cama, aos pés da jovem, e emocionado deixou transparecer o que sentia há tanto.
— Por favor… Fique comigo…
E o silêncio inundou o quarto, interrompido apenas por um suspiro.
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