O espetáculo da minha vida
1 Parabéns pelo show
Notas iniciais
E mais uma vez, aqui estou eu, prestes a entrar no palco e fazer mais uma apresentação que, provavelmente, vai me render mais um primeiro lugar. Vou fazer um solo dessa vez. Mais um solo. A minha mãe é dona de uma companhia de artes, então desde muito pequena eu faço ballet, mais como uma obrigação que uma diversão, entende. Minha mãe é completamente obcecada por ballet, e como quando ela era pequena não tinha condições suficientes pra fazer aulas, ela me fez fazer. É como se ela se visse em mim e, finalmente, pudesse dizer, quando eu ganho algum prêmio, eu venci.
Sou arrancada de dentro de meu mais profundo pensamento por minha mãe
— Liza, minha filha, você é a próxima. – Fala ela, me levando até o lado da entrada do palco, onde vejo um enorme espelho que deveria ter, no mínimo, uns dois metros de altura por um de comprimento.
Eu passo a apresentação toda da outra menina olhando no espelho e imaginando o que as pessoas pensam quando elas me veem. Eu estou vestindo um desses corpetes e uma daquelas saias armadas que eu nunca me dei ao trabalho de perguntar o nome. Eles são de uma cor clara, não branco, mas parecido. Não acho que dê um contraste muito bom com a minha pele bronzeada artificialmente pra parecer perfeita, ou com os meus olhos negros, muito menos com o meu cabelo cor de vinho que está, nesse exato momento, amarrado em um coque muito firme. Olho para baixo. Minhas sapatilhas, ou seja lá como se chamam, brilham de uma forma tão intensa que poderiam cegar qualquer um. Eu poderia passar o dia todo olhando no espelho e imaginando mil coisas, mas percebo que a menina que estava se apresentando há pouco acaba de passar ao meu lado, e estão anunciando meu nome.
— E agora, a dançarina de número vinte e quatro, Liz Mello. – A esse chamado, os meus pés tomam vida própria e me guiam até o palco num movimento ensaiado. Vou até o meio, e sinto todos olharem pra mim, os holofotes estão todos de múltiplas cores, mas, ainda sim, todos em mim.
Olho pra a fileira da frente e vejo a minha mãe, o Luiggi, meu coreógrafo, uns fotógrafos e o meu pai. Sinto um frio crescer em minha barriga, como se fosse algum tipo de medo, ou de vergonha, mas então a minha música começa a tocar e eu, novamente, sinto meu corpo agir por conta própria. Ele gira, salta, faz qualquer movimento que o Luiggi classifica como gracioso, faz algo pra que eu deite no chão, levante novamente, dê piruetas, a música acaba e eu, automaticamente, me despeço e saio do palco. Vou para o camarim, onde todas as outras garotas esperam o resultado, então eu sento na cadeira que tem o meu nome escrito e espero junto com elas, mas eu espero em silêncio, e elas não calam a boca.
Não é como se eu odiasse elas, entende, mas é como se eu não aprovasse o modo que elas vivem. Elas vivem da beleza e para a beleza, e isso pra mim é totalmente inadmissível. Posso dizer que até o ato de dar rodopios no ar pra entreter uma plateia venha a parecer meio fútil, mas acredite em mim quando digo que, realmente, só faço isso pela minha mãe e nada mais. Nem disso eu gosto, na verdade. Então, não por me achar melhor que elas, odiá-las ou manter alguma apatia por elas, mas pelo fato de desaprová-las prefiro me manter longe, ainda que isso possa ser um pouco doloroso.
As apresentações acabaram, eles nos chamam no palco para a apresentação. Me levanto e vou como todas as outras, só que dessa vez, os movimentos não me parecem tão mecânicos. O homem anuncia os lugares e eu fiquei em segundo. Fico surpresa, mas aceito e vou para o carro. Aceito... Sim, eu aceito, diferente da minha mãe.
— Esses juízes estavam cegos de não te dar o primeiro lugar, Liz.
— Concordo. – Disse Luiggi, que hoje iria jantar conosco.
— Você estava ótima, meu bem. Não importa qual a colocação, você pra mim foi a melhor. – Fala meu pai. Alguém em que posso confiar em meio a esse mundo patético. Ele está do meu lado, ao volante.
— Ótima nada, se foi pro segundo lugar, aconteceu alguma coisa. – Respondeu, sem ser perguntada, a minha mãe. Ela pode ser um pouco bipolar as vezes.
— Concordo. – Disse Luiggi.
— Não vamos começar com isso agora, certo, Célia? – Perguntou meu pai. – Não foi culpa da Liza.
— Não, não foi.
— Concordo. – Falou, novamente, Luiggi.
— Se teve alguma coisa errada foi com a coreografia. – Falou mamãe, encarando Luiggi com cara feia.
— Concor... Pera ai! Nisso eu não concordo não. – Não tive como reprimir um sorriso, mesmo em meio a tanta tristeza, e esta, com certeza, não se devia ao fato de ter pedido.
— Concorda sim! – Falou minha mãe, em tom autoritário.
— Parou, mãe! – Eu disse. – Você sabe que dia é hoje?
— Claro que sei! – Ela disse.
— Então qual é?
— Dia 5 de janeiro, o dia em que você levou o seu primeiro segundo lugar. Tenho que dar um jeito de esconder esse...
— Não, mãe! – Eu berrei. – Hoje é o meu aniversário, mas a senhora estava ocupada demais com a competição que esqueceu o aniversário da própria filha.
— Minha filha...
— Mãe, até gente que eu nem falo me desejou feliz aniversário, e você, minha mãe, se esqueceu. – Com sorte, pegamos a discussão assim que o carro entrou na garagem. Tirei rapidamente o meu cinto, ainda com a roupa da apresentação e em meio ao silêncio constrangedor, pedi a bênção, dei tchau ao Luiggi, subi até o meu quarto e lá me tranquei.
Afinal, o que eu precisaria usar em uma noite que não tivesse em um frigobar, um banheiro e em minhas prateleiras? Peguei o meu celular, coloquei Blank Space pra tocar e mergulhei na banheira. Esse havia sido um longo dia, mas faria de tudo pra que a noite fosse breve.
Boa noite.
Fale com o autor