Notas iniciais
Eu ainda existo? Eu ainda existo! Só posso pedir perdão de joelhos pela demora. Já faz mais de um ano, e eu vou até entender se todo mundo já tiver desistido de mim e não passar mais por aqui. Eu NÃO vou desistir de PdE, estou tentando compensar com esse capítulo maior que o normal xD tenho muito o que falar, mas vou deixar pro final, porque se vocês ainda estiverem por aqui, devem querer ler logo ♥

Tive a impressão de que o ambiente ficou mais pesado. Não havia qualquer tensão ao meu redor vinda dos outros ali presentes, mas a saliva desceu com certa dificuldade pela minha garganta. Senti como se tivesse escalado alto com meu orgulho, e então sido empurrada do pico.

Continuei encarando Farm por um instante que pareceu eterno. Umedeci os lábios, antes de retomar a fala.

— Nada — disse, por fim. — Nada os impede de me mandar de volta para o Vilarejo. Então eu seria aprisionada, e alguém que está tentando fazer alguma diferença nesse mundo que foi profundamente alterado e corrompido estaria fora de jogo. Em algum momento, da forma como as coisas estão, a guerra virá, e vocês não sairão ilesos.

A Anã puxou um sorriso de canto, revelando um dente de ouro brilhante.

— Você está realmente achando que é a nossa heroína. — Farm se inclinou para frente. — Mas quem te colocou nessa posição, Analu?

Estreitei os olhos. Haviam me chamado ali para distribuir insultos?

— Me desculpe — declarei, decidindo tomar um caminho diferente. — Eu entrei em vosso território sem permissão, escondendo minha verdadeira identidade, e trouxe para a montanha do vosso povo problemas do meu lar. — Fiz uma reverência e me ergui novamente. — Isso não irá se repetir.

Virei as costas, concentrando a Energia nos pés para poder sair dali rapidamente. Uma prevenção para o caso de realmente cumprirem aquela ideia de me mandar de volta para o Vilarejo. E foi quando o uivo do vento informou que um objeto pesado vinha em minha direção.

Meus reflexos me fizeram colocar-me a alguns metros acima dali, agachada enquanto observava o que realmente acontecia.

O machado não chegou a acertar o lugar que eu estivera, ele estava preso à lateral de uma rocha, com uma flecha negra presa em sua lâmina, o ponto em que as armas se encontravam emitindo um brilho azulado. Do outro lado, Mog abaixava o braço que segurava um grande arco negro estilizado.

— Ela desviou, Mog — disse Farm, de repente seu tom de voz completamente diferente.

— Mas podia não ter desviado — murmurou o elfo, os olhos coloridos encarando a Anã com certa impaciência. — Qual a necessidade de tudo isso? Havia outros meios de testá-la.

— Oh, meu querido, não pense no que poderia ter acontecido. De qualquer forma, você a protegeu. Magia, hum? Parece que tem aperfeiçoado suas habilidades.

— Kol — Mog chamou o líder com impaciência na voz.

— Ah? Sim! — ele riu, jogando as pequenas pernas para cima por um instante. — Pode olhar nossos arquivos o quanto quiser, garota… Podemos abrir um barril agora? Tiramos Karfok do estoque para hoje!

Os Anões ali presentes gritaram e ergueram os braços em festa, sumindo pelos buracos nas paredes, dando a impressão de que eu estava em um enorme formigueiro.

Fiquei parada, porque afinal não estava entendendo nada. O que se passara ali?

Endireitei o corpo, que estivera em posição de defesa até aquele momento, como se eu fosse um animal selvagem, e olhei para os elfos presentes.

Mog conversava com os líderes com uma intimidade diferente, de um jeito que não consegui identificar, mas os outros olhavam em minha direção.

Abaixei as orelhas e escalei até eles, me vendo parada diante de quatro elfos dos quais eu não conseguia identificar a expressão.

— Eu posso ver? — Lizzie foi a primeira a dizer, estendendo a mão.

Demorei um pouco a entender, mas por fim retirei a coroa da cabeça, que estivera parecendo mais pesada que o normal até aquele instante, e entreguei à garotinha. Ela segurou o objeto com curiosidade e colocou sobre a própria cabeça por um instante, suas bochechas adquirindo um tom avermelhado quando me pegou a encarando. Sorri.

— Você é uma linda princesa — Karl disse para Lizzie, curvando o corpo e ajeitando o cabelo da outra, promovendo um encabulamento ainda maior na pequena elfa.

Senti um aquecimento no coração com o afeto, ao mesmo tempo que um aperto. Culpa. Pus-me sobre um joelho e apoiei a mão sobre o lado esquerdo do peito.

— Também devo desculpas à vocês. Por ter omitido a minha identidade, é claro, mas principalmente pelo que meu povo fez. — Reclinei a cabeça, fazendo alguns fios do cabelo deslizarem para meu rosto. — Não só como Princesa, estou tomando isso como algo pessoal, e farei com que mais nenhum Ser da Natureza seja expulso do Vilarejo por motivos estúpidos e mesquinhos.

Um par de mãos repousaram sobre meus cabelos e ergui os olhos, vendo os gêmeos apoiando cada uma das palmas únicas em minha cabeça. Eles sorriram com certa timidez.

— Nós não perdoamos alguém de joelhos — murmurou John, e os dois engancharam os meus braços e me ergueram. — Mas um amigo como um igual.

Segurei a sensação ardente que cresceu no fundo dos meus olhos, e puxei os dois para um abraço torto, ouvindo Karl e Lizzie rirem. Quando me afastei, lancei novamente um olhar na direção de Mog, que conversava ainda com Farm, enquanto pegava de volta a coroa que Lizzie estendia e a guardava.

— Eles são como mãe e filho — explicou Karl, notando minha dúvida e me fazendo desviar a atenção, desconcertada. — Também não entendo essa coisa.

Sorri, voltando para os gêmeos.

— Imagino que vocês possam me levar à biblioteca — comentei, vendo os dois pares de olhos idênticos brilharem.

A biblioteca dos anões era um acervo gigantesco. Assim como todo canto da Montanha, era um lugar escavado de forma irregular, mas ali havia um charme natural, vários pontos dos quais despontavam brilhos coloridos de pedras preciosas. A iluminação mágica dava um ar ainda mais exótico ao lugar.

Adentrei no espaço observando a forma engraçada como as estantes eram horizontais, saindo das paredes de pedra com mecanismos móveis que permitiam guardá-las de volta nas pedras.

— Geralmente não fechamos as gavetas — disse John.

— Apenas quando ocorrem ataques, para que não sejam roubados — completou Johnny.

Assenti, chegando perto de um conjunto qualquer e passando a mão pelos pergaminhos. Puxei um deles para cima e o abri, revelando uma série de traços ininteligíveis.

— Ei, garota! — uma voz masculina entoou em acusação. — Onde pensa que está colocando as mãos sujas?

Ergui os olhos e observei um ser maior que eu parado do outro lado da estante. Mais que dois metros e meio, fácil, fácil. Estreitei os olhos.

— Quem é você?

— A pergunta com toda certeza não é minha, princesinha — rebateu em tom irônico, fazendo um seguida uma reverência sarcástica. Eu começava a odiar meu próprio título. — Caster, o próprio.

— Caster! — emiti, observando-o agora com maior curiosidade. O elfo que Oozin havia dito estar percorrendo as montanhas. — Tem notícias de meu avô? — continuei, esperançosa.

— Felizmente, não o vejo desde que saí do Vilarejo, ou possivelmente seria só o seu cadáver.

Aquilo me tirou a fala. Havia jogado minha preocupação com Oozin para o fundo da minha mente, porque sabia que de nada ela adiantaria, mas a fala displicente e áspera de Caster trouxera de volta a sensação sufocante.

— Pois o verá em breve com vida, Oozin está chegando aqui — rebati, surpresa com a estabilidade de minha voz.

Caster ergueu as sobrancelhas, dando de ombros. Ergueu um pergaminho e o jogou em minha direção, dando um bocejo exageradamente teatral.

— Analise isso daí, parece haver alguma coisa escondida. Ouvi dizer que estão abrindo o estoque de Karfok hoje — emitiu quando começou a se afastar.

— Não vai me ajudar? Me fornecer informações? — indaguei, erguendo as sobrancelhas.

— Não sabe o que é Karfok, princesinha? A bebida mais amarga deste mundo e do outro! Nada mais saboroso! Não perderia meu tempo aqui com você em dias normais, mas hoje a impossibilidade extrapola todos os limites. Como diriam os humanos: se vira!

Fiquei encarando suas costas altas até sumirem de vista, e abaixei os olhos para o pergaminho que Caster havia me lançado. Nunca iria imaginar que um dos ajudantes de meu avô seria daquela forma. Seriam os outros dois iguais?

— Vocês não têm um bibliotecário para me ajudar? Uma catalogação… — indaguei aos gêmeos, que só então notei estarem concentrados em algum documento de engenharia.

— Caster faz o trabalho quando está na montanha — John respondeu, mal erguendo os olhos por um instante.

— Mas ele pouco fica aqui — Johnny disse em tom de encerramento.

Guardei o pergaminho de traços estranhos e abri o papel que Caster me lançara ainda contrariada, e encarei em confusão o papel vazio. Limpo.

— Ele tá de zoeira — resmunguei, pouco notando o palavreado humano. — Vocês têm alguma ideia de como fazer aparecer coisas invisíveis?

Os gêmeos ergueram os olhos na minha direção. Jhon coçou a cabeça, antes de falar:

— Nós não entendemos de coisas que não têm parafusos e engrenagens.

— Quem melhor entende de magia é Luc, mas ele não está aqui — completou o outro.

— Você pode pedir ajuda ao Mog, até onde sei ele estuda magia com Farm desde sempre… — John continuou.

Remexi as orelhas, incomodada. Eles falavam naturalmente sobre os dois irmãos lidarem com magia. Talvez fosse algo de que eu não tivesse completo conhecimento, mas sabia o suficiente.

O assunto retomou outro pensamento que eu tentava esquecer. Luc havia assassinado Seres da Natureza. Por mais que sentisse que eram palavras vazias, eu havia presenciado a cerimônia dos corpos. As coisas estavam acontecendo tão rápido, que as informações se acumulavam em minha cabeça cheias de questionamento.

Eu havia cedido tão facilmente à Luc apenas em busca de conforto e familiaridade, talvez fosse uma forma de fugir do que sabia agora e voltar para a rebeldia juvenil. E, no entanto, nada daquilo fazia sentido. Por que um garoto que salvara aqueles Seres da Natureza das montanhas e que vivia por eles teria tirado a vida de tantos outros?

Os gêmeos aparentemente já haviam se esquecido de mim novamente, e decidi que não procuraria Mog. Queria um tempo de paz, silêncio, solidão. Tentar descobrir o que quer que houvesse naquele papel e, quem sabe, alguma pista para continuar o que Oozin havia começado.

Por alguns minutos, eu apenas dei voltas inúteis pelo lugar, até entender relativamente como era organizado. E era bom saber que havia um padrão, que não apenas eram colocados aleatoriamente, já que não havia um bibliotecário.

Na horizontal, os pergaminhos dividiam-se por raça. Parecia haver tudo sobre todo tipo de criatura ali. Desde as mais famosas até aquelas das quais eu nem sabia a existência. Verticalmente, eram separados por período. Os mais recentes ficavam nos níveis inferiores.

Na área mais profunda da biblioteca, encontravam-se manuscritos sobre a origem dos mundos e mapas. Recolhi alguns livros antigos sobre mapas e formas de codificação, e estendi sobre uma das pedras lisas. Sentei em uma cadeira de ferro e comecei a diminuir a pilha que havia ficado à minha frente.

Depois de algum tempo, cansada e com dor nas costas, resolvi voltar para o Esconderijo.

O caminho não foi tão difícil de encontrar, pedindo ajuda para alguns Anões. O lugar era mesmo um labirinto e deveria ser uma boa base de guerra, invasores facilmente se perderiam na escuridão.

Assim que entrei no Esconderijo, Lizzie virou-se para mim. A expressão, normalmente doce, estava tensa.

— Por que você está aqui? — ela indagou.

— Eu vim só descansar um pouco… — respondi, automaticamente na defensiva, confusa.

— Pessoal! Ela está aqui! — Sua voz soou mais alta, chamando os outros, que logo apareceram.

Karl bateu o punho contra a parede de pedra assim que emergiu do corredor.

— Você é a princesa e não fez nada! Nós e muitos outros fomos expulsos um a um. A Lizzie poderia… — A voz dele falhou — ...poderia ter morrido!

Busquei Mog com o olhar, mas ele fitava um ponto qualquer no chão. Minha garganta havia secado num instante, e minha mente estava vazia. Não sabia o que dizer. Eles não haviam entendido? Eu… não poderia ter feito nada, certo?

— Esperava mesmo que eles seriam tão complacentes, só porque normalmente são amigáveis? — A voz baixa de Mog me surpreendeu pela amargura. — Você, como princesa, está diretamente ligada às decisões do Vilarejo. Sabe tudo que acontece política, econômica e socialmente. Não foi você mesma quem disse que sabe sobre tudo para se tornar “mestre da academia”? — disse, ironizando minha mentira. — Nós não nascemos para viver nas montanhas, a maioria dos Anões nos vêem como incômodos ou invasores. Somos vez atrás de outra rejeitados por ser… assim. E você acha que apenas o seu discurso vazio de que fará algo vai resolver tudo? Que vai apagar as coisas pelas quais passamos? Você acha mesmo, Analu? Me diga! Analu!

Ergui a cabeça de uma vez e encarei os livros à minha frente. Perdida, fiquei um tempo na mesma posição.

— Analu! — Ouvi Mog mais uma vez. — Você está bem?

Virei o rosto, sentindo o pescoço dolorido, e vi Mog ao meu lado me encarando de forma misteriosa.

Havia sido um sonho. Um pesadelo. Ainda estava na biblioteca, com a bunda dormente pelo tempo na cadeira de ferro e um livro com folhas babadas sob meus braços. Nunca havia voltado para o Esconderijo. Nem ouvido aquelas palavras duras. Mas eu sabia que elas estiveram em minha mente desde que soube sobre meus pais os expulsarem do Vilarejo.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei com a voz meio rouca, soando mais ríspida do que pretendia.

Mog ergueu as sobrancelhas. Os olhos me encaravam fixamente de um jeito muito incômodo.

— Os gêmeos disseram que você estava me procurando.

Limpei o canto da boca e me espreguicei enquanto minha bunda voltava a regair, começando a pinicar.

— Não exatamente. Mas talvez você me ajude a ter algum progresso.

Ouvi quando as rodas da cadeira de Mog se aproximaram e ele avançou o corpo para frente. Sua mão segurou a ponta da minha orelha direita, me fazendo virar a cabeça, e o rosto dele encontrou-se bem próximo ao meu. Entreabri os lábios, surpresa.

— O… que foi? — perguntei, segurando a respiração.

— Suas orelhas estão retraídas desde que a acordei. Está com medo de alguma coisa?

Segundos infinitos se passaram. Por motivos inexplicáveis, a lembrança de Luc me beijando na frente de Mog surgiu em minha mente, e acabei me afastando de forma abrupta. Minha orelha direita queimava.

— Apenas… não gosto de ser acordada. — Pigarreei. — Preciso desvendar um mapa em branco. Aqui. — Mudei drasticamente de assunto, estendendo a folha para Mog, que continuou me fitando por alguns instantes antes de dar atenção ao mapa.

— Existem muitas maneiras de esconder tinta — ele comentou, e sua voz estava falhando.

A folha adquiriu um leve brilho azulado, antes de voltar ao normal. Observei Mog, sabendo que ele usava magia. Fazer algo aparentemente simples como aquilo havia machucado?

— Não foi escondido por magia. Não há como revelar com magia. — De certa forma, fiquei decepcionada, mas também estranhei a oscilação anormal mais uma vez em sua voz. Foi a vez dele pigarrear.

— Você está bem? Machucou muito?

— Sobre o que você está falando? — Mog ergueu os olhos para os meus.

— A magia que você usou. A magia machuca quem a usa e a quem é infringida, certo?

— Analu — Pausa. — Magia não machuca a não ser que você tenha essa intenção. De onde tirou isso?

Perdi a fala. Magia não… machucava? Era um fato alterado na mente dos Seres da Natureza ou meus pais haviam decidido mentir sobre isso também? Mas então…

— Então por que você pareceu alterado por um momento? — indaguei, ainda mais confusa.

Os olhos de Mog abriram-se mais que o normal. Os tons de amarelo e laranja de seus olhos sobreporam-se ao azul. Ele parecia ter sido pego no flagra, ou ainda como se estivesse... vulnerável.

Soltei a respiração assim que o elfo voltou ao normal.

— Porque estava frustrado por não conseguir desvendar o mapa — murmurou.

Um silêncio estranho se seguiu. Minha mente vagou para vários lugares sem permissão, como se quisesse ir para bem longe dali. Encarando o tampo da mesa, eu decidi que a experimentação era mais efetiva que a teoria.

— Onde podemos arranjar fogo?

As fornalhas dos Anões estavam vazias. Karfok realmente colocava-os todos de férias. Elas ficavam no ponto mais alto do interior da Montanha Norte, segundo Mog disse. Eram gigantescas e ficavam lado a lado, grandes bocas de fogo fantasmagóricas, abandonadas (naquele momento). Metais retorcidos estavam jogados para todo lado numa confusão só e os cristais de iluminação pareciam pálidos.

Mog e eu ateamos fogo em um pedaço de madeira para tentar aquecer a folha, mas nada aconteceu. Realmente achei que seria como nos filmes do mundo humano.

Estava quase jogando o mapa direto no fogo, quando um anão (Lup, acredito eu) entrou afobado no local. Empurrou para trás o elmo que caíra sobre seus olhos.

— Mog e a outra Natural — disse, ainda com a respiração entrecortada. — Luc acabou de chegar com Oozin, eles estão no Esconderijo. Mand… para variar… me mandaram vir buscar vocês.

Pude sentir nitidamente quando meu coração deu um solavanco no peito. Antes mesmo de pensar em qualquer coisa, já armazenei Energia nos pés para correr. Estava prestes a disparar, quando Mog me segurou.

— Você irá se perder — alertou, inalterável.

Ainda assim, avançou com a cadeira rapidamente. Segui-o de perto, com a Energia se acumulando dentro de mim pela ansiedade. Retorcendo as mãos, chamei por Arco inconscientemente, mas não houve resposta.

Engoli em seco, me adiantando assim que chegamos ao Esconderijo. Me retraí automaticamente assim que vi Lizzie, mas ela me olhava apenas com preocupação.

Oozin estava em um dos quartos nos fundos, e eu tive de me esforçar para não jogar-me direto para cima dele. Estava adormecido, mas notei que a respiração era instável. Olhando mais de perto, vi que uma de suas mãos estava completamente queimada.

Uma mão repousou em meu ombro.

— Ele vai ficar bem. Tentei curá-lo, mas não foi o suficiente para deixá-lo cem por cento. Um pouco de descanso e Oozin estará novo em folha — Luc afirmou.

Acenei com a cabeça e me afastei, sem tirar os olhos de meu avô.

— Onde… Como você o encontrou? — indaguei.

— Com a ajuda de Gard. Saímos juntos pelo deserto e ele farejou o cheiro de Oozin no deserto. Parece que ele se arrastou por alguns metros e então se apoiou em um conjunto de pedras não muito longe daqui.

Me aproximei da cama, e assustei quando chutei alguma coisa. Desviei o olhar e vi que as coisas dele estavam no chão ao lado da cama. Me abaixei e observei a bolsa parcialmente rasgada e a aljava vazia. O arco dele também estava ali, opaco devido à fraqueza de seu dono.

— Certo… — Fiquei parada, sem saber o que fazer. Restava esperar que Oozin acordasse, mas eu não deveria depender tanto dele.

— O que é isso? — Luc indagou, puxando da minha mão o papel que eu nem notava segurar.

— Aparentemente, há algo escondido aí.

Luc desamassou a folha e a observou por um momento. Realizou a mesma magia que Mog fizera mais cedo, deixando o objeto azulado. Mas nada de diferente aconteceu. Balançou a cabeça e me devolveu.

— Mog também havia tentado descobrir, mas parece que foi escondido com outra coisa que não magia — comentei.

Foi só quando Luc saiu do local que percebi que Mog estivera parado na porta até então. Ele seguiu o irmão mais novo de perto, e a tensão entre eles me incomodou. Segui para perto da parede e ouvi a voz baixa dos dois no corredor.

— Por que não disse à ela que a folha não tem segredo algum? — Luc indagou, parecendo irritado.

Silêncio.

— Luc…

— Estava querendo se aproveitar da situação? Qual diabos é o seu problema, Mog? Além de fazer de tudo para me manter longe, quer roubar a garota que eu amo?

Me afastei rapidamente da porta e sentei no chão, segurando a bolsa de Oozin. Do que Luc estava falando? Sobre o que aqueles dois estavam falando? Isso definitivamente não era hora para ter aquele tipo de discussão.

“... a garota que eu amo.” Aquilo parecia soar bem.

Abri os olhos abruptamente no corpo de Luana e me apoiei à parede. Deveria ter pego no sono em Arret, e tão profundamente que caí no mundo humano sem perceber. Não queria discutir com a garota novamente, então agradeci que ela estivesse encolhida no fundo de nossas mentes. Parecia ainda estar irritada comigo. Justo.

Estava no meio da rua, e algumas pessoas olhavam de forma estranha pelo meu mal súbito. Endireitei o corpo, e percebi que amassava um papel na mão direita.

Ergui-o automaticamente, permanecendo paralisada ao reconhecer o pergaminho que tentara desvendar em Arret. Não havia como ele estar ali. Não devia estar.

“O que é isso?” Luana indagou, emergindo da escuridão. “Não estava comigo antes.”

Devagar, abri o objeto sem me dar ao trabalho de piscar. Podia sentir a curiosidade crescente da humana misturar-se à minha. Quando completamente esticado, vi que havia ocorrido uma mudança. E não se tratava de um mapa, como eu pensara.

Uma única frase aparecera.

Você pode curá-los.

Notas finais
Olá! Agora um olá direito! Tenho algumas coisitas para dizer. Nesse meio tempo que sumi e não escrevi/postei, não fiquei à toa sobre PdE. Pelo contrário! Fui incentivada por alguns de vocês a transformar a história em um livro, e eu pretendo fazer isso. Eu revisei, nesse meio tempo, todos os capítulos que já tem. Algumas coisas serão mudadas. O que permanece igual? Quase tudo. Os personagens, as cenas que já rolaram, a narração em primeira pessoa. O que vai mudar? 1. Esse título sempre foi provisório pela falta da imaginação da parte da autora aqui, mas eu decidi intitular o livro decentemente como O Espelho de Arret. 2. Junto com o título, a capa. Porque eu precisava de uma capa cujo autor realmente disponibilizasse a imagem para uso, e essa que está agora eu catei de algum lugar sem permissão xD 3. O que ficou aqui como prólogo se tornou o primeiro capítulo, e eu reformulei um prólogo com a lenda da Dama de Gelo. 4. Lembram que eu chamava os correspondentes do mundo humano de Aliud? Com o novo nome, eles se tornam os "Espelhos". 5. Menos erros nos capítulos anteriores, ê o/ Agora a grande questão. Eu comecei a postar a fic com o novo nome, nova capa e modificações no Wattpad. Queria fazer da mesma forma aqui, mas postar como uma nova história está fora de cogitação devido a tudo que vocês, leitores, já deixaram aqui: comentários, recomendações, acompanhamentos. E eu tô falando como se vocês não tivessem desistido de mim (e eu espero que não, de coração) xD Bem, eu queria perguntar: vocês ficarão bravos se eu fizer essas devidas modificações por cima dessa história? Reforçando, vai ser a mesma, só que melhorada em detalhes. Eu poderia simplesmente fazer e tal, mas acho que vocês ficariam perdidos se eu mudasse nome e capa e aí aparecesse uma notificação ai de uma obra parecendo desconhecida (tipo, que?). Enfim, falei demais, são as saudades ♥ Espero que ainda estejam comigo! Beijinhos ;*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.