Notas iniciais
Geeeeeente, eu demorei mais que o normal para postar dessa vez! Mas também não demorei muito xD Não tenho muito o que dizer aqui nas notas iniciais :3 Só espero que gostem, e vejo vocês lá embaixo s2

Perdi o controle da minha respiração, parecia que o oxigênio estava acabando. Abri meus lábios, inspirando e expirando rapidamente pela boca, e senti a dor quando eles se racharam. Para aumentar meu desespero, Gard continuou a andar, me fazendo deitar contra o chão, e apoiar a bochecha nas pedras enquanto me atropelava. Eu não tinha nem forças para dizer a ele que aquilo me mataria. Só consegui ficar parada, sentindo meu peito subir e descer contra uma superfície que pinicava.

Então um clarão de luz me fez piscar várias vezes. O peso sobre meu corpo sumiu, e depois senti Gard abocanhando minha mochila e me puxando para cima.

Para cima? Assim que me vi sob o céu azul, olhei para baixo, e vi um enorme quadrado negro na areia. Levantada, estava uma porta eletrônica, Gard devia tê-la empurrado. Pensar que estávamos ali em baixo nos segundos anteriores me fez desviar o olhar rapidamente. Puxei a mochila e tomei um pouco de água do cantil que trazia, dando um pouco também para Gard. Peguei dois pães e cada um comeu o seu em silêncio — embora o do lobo fosse maior que a minha cabeça.

Então finalmente levantei o olhar e me deparei com o deserto à frente. Ao longe podia ver uma floresta que parecia em miniatura pela distância, e imaginei ser o Vilarejo. Parecia que nós havíamos pegado um atalho subterrâneo.

Girando em cento e oitenta graus, pude ver quando a paisagem mudava de floresta para deserto, e por fim para um terreno montanhoso. A pouco mais de um quilômetro, se agigantava uma montanha anã. Sabia disso porque eu podia ver duas portas duplas de ferro negro absorvendo toda a iluminação ao seu redor.

Me virei para Gard. “Procure uma caverna para ficar até que eu volte”.

Oozin pretendia ver os anões, e eles eram aliados dos Seres da Natureza, mas, mesmo assim, eu sentia medo enquanto corria na direção do portão. Havia me preparado, tirando a coroa — coisa que devia ter feito desde que saí do Vilarejo, se não tivesse sido algo tão repentino, e seguido de momentos de adrenalina —, e a escondendo na mochila. Também cobri o rosto com capuz, porque era melhor que eles tivessem a hesitação da dúvida, que a certeza do ataque.

Quando estava a alguns metros da entrada, avistei duas pequenas figuras, que pareciam discutir, de repente se calarem e me observarem. Os anões eram robustos, e estavam cobertos de placas de metal negro. Seguravam machados maiores que o comprimento de seus braços e escudos que lhes cobriam o corpo quase todo. Os elmos lhes davam aparências selvagens, pois se estendiam para frente no queixo, como se tivessem uma enorme mandíbula animalesca. Apenas os pequenos olhos desconfiados, e as bocas rodeadas pelas barbas e bigodes, eram visíveis.

Eu não me lembrava de já ter visto anões antes, embora já tivesse estudado sobre eles, mas ver aqueles seres tão pequenos era surpreendente. E pareciam até mesmo ameaçadores! Aparentemente, sua força física era tanta quanta descrita nos pergaminhos da academia. Gostaria de vê-los em uma batalha.

Os dois guardiões do portão estreitaram os olhos ainda mais. Com toda certeza, não em uma batalha contra mim. Me aproximei até estar diante deles, e derrubei o capuz.

— Ah, Nick, é um dos orelhudos.

— Acho que é uma fêmea, Knock.

— Uma fêmea, de fato. E aí, garota, tudo na boa? — Knock abriu um sorriso largo com vários dentes de ouro.

Abri um meio sorriso. Anões eram mesmo tão amigáveis com os elfos?

— Você deve ser do esconderijo, certo? Eu nunca gravo a cara de vocês.

Esconderijo? Me segurei para não perguntar do que se tratava. Como Oozin dissera, os anões tiravam várias conclusões aleatórias se não abríssemos a boca.

— Na verdade, eu estou meio perdida — disse, em tom de desculpas.

Eles se entreolharam, e minhas mãos se retorceram involuntariamente. Então soltaram gargalhadas retumbantes, que pareceram subir pelas pedras da montanha e se espalharem pelo céu.

— Esses orelhudos, nunca se sabe qual a próxima que se vai ouvir deles. Leva ela lá, Nick, e, se encontrar o idiota do Lup, mande ele pra cá.

Nick se virou para o portão e bateu duas vezes o machado contra o ferro, que se abriu para um largo corredor de pedra. Segui Nick de perto, agradecendo pelo teto ser alto o suficiente para que eu andasse de pé. Dentro da montanha era mais agradável do que eu imaginava, mas as tochas eram o único meio de iluminação.

— Não ligue para o Knock — Nick disse de repente. — Ele acha que por ser amigo de um Ser da Natureza, pode falar com todos do mesmo jeito.

— Eu não me importo — declarei, sorrindo. — O jeito como ele fala... é divertido.

Nick me olhou de esguelha, e parecia prestes a falar algo, quando algo veio rolando em nossa direção em alta velocidade e bateu contra minhas pernas. O susto me fez puxar uma flecha da aljava, mas a bola contra meus pés se desenrolou em um anão.

— Ai, ai, ai. Não sabia que tinha uma árvore nesse corredor.

— Não existem árvores dentro da montanha, Lup.

— Ah, sim, sim, então deve ser um Natural. — Ele ergueu olhos brilhantes para mim e acenou com a mão, como se estivéssemos distantes. Bom, de certa forma estávamos. — E aí, garota?

Olhei para Nick, que balançou a cabeça e empurrou o escudo e o machado para Lup.

— Vá para o portão, estou indo com ela para o Esconderijo. Knock está te esperando.

— Para o portão? Mas que droga, esse é o seu turno. Você é sujo, Nick, você é sujo. — E caminhou para o portão ainda resmungando.

Soltei uma risadinha, sem conseguir me conter. Todos os anões eram assim?

— Vamos, garota, tenho mais o que fazer.

Todos os anões, menos o Nick. Engoli em seco e o segui pelo corredor que parecia não ter mais fim.

— O que mais você faz por aqui?

Nick me lançou o mesmo olhar de quando falei que anões eram divertidos. Fitei uma tocha na parede quando notei que estava falando coisas como alguém que nunca havia ido até a montanha.

— O que você acha que faço? — De repente, o corredor se abriu para uma enorme área, cheia de mesas, cadeiras e anões que corriam e riam e falavam para todos os lados. Havia centenas de barris e canecas para todos os lados. — Bebo, é claro! — E soltou uma grande gargalhada.

Olhei para ele, sem entender. O clima havia mudado totalmente.

— Relaxe, moça, os anões são do bem. Eu sei que você não é daqui, mas se você está fora daquele Vilarejo, só pode ser do bem também! Vamos pegar uma bebida.

Tentei dizer que não bebia, mas Nick já estava cumprimentando a todos, e com uma caneca em mãos. Enquanto eu passava, todos me diziam “e aí?” também, e me peguei comparando-os com os humanos. Os anões eram relaxados, alegres e amigáveis. Nós estudávamos que eles eram preguiçosos e só trabalhavam quando a guerra estava diante de seus portões. Bem, talvez isso fosse verdade, mas o modo de viver deles parecia bem mais atrativo.

— E aí, princesa?

Um arrepio correu minha espinha. Tinham me descoberto? Tudo que Oozin me pedira era para que não revelasse meu status, e eles haviam descoberto tão rapidamente. Antes que pudesse pensar no que dizer, um anão se agarrou à minha perna esquerda.

— Você é linda como uma princesa, quer beber comigo?

Acabei soltando uma risada ao perceber que entendera errado. E agora tinha um anão agarrado à minha perna.

— Deixe ela, Par, a Natural está comigo.

— Você é um chato, Nick. Ele não está deixando você se divertir, não é, princesa? Diga a ele que quer ficar comigo.

Olhei para Nick, sem saber o que dizer. O anão riu e afastou Par de mim, depois segurando minha mão — de forma que acabei curvada —, e me puxando para serpentear pelo local até chegar a um corredor. No meio do caminho ele havia trocado a caneca vazia por uma cheia.

— Vou te levar até o Esconderijo. Lá eles adoram conhecer gente nova, não que venha muita gente nova do seu povo por aqui, mas vai se sentir mais confortável lá.

Queria dizer que os anões me deixavam confortável, que gostava da forma como eram leves e descontraídos.

— E então, qual é a sua história? — Nick perguntou.

— Como?

— A sua história. Por que saiu do Vilarejo, como veio parar aqui.

— Ér... Eles queriam me aprisionar nos Cipós de Vento porque quebrei uma regra…

— Os Cipós? — Ele parecia surpreso ao erguer as grossas sobrancelhas. — Achei que não usavam mais aquilo.

— Não usam. Enfim, Oozin me salvou e me mandou para cá.

— Oozin? Ah, aquele velho, já é o segundo que manda para cá, acha que porque somos amigos pode ficar mandando gente desabrigada... Sem ofensas, garota. Digo isso, mas nunca impedimos Caster de ficar pulando por nossas pedras e bebendo a nossa cerveja. Aquele ali deveria ter nascido anão.

— Você conhece Caster? — indaguei animada, estava curiosa sobre os aventureiros de meu avô, e também me perguntava se um deles poderia ser Lucas.

— Todos conhecem Caster. Ele está conosco há mais de um século. E não parece arrependido disso, diga-se de passagem.

— O que vocês sabem sobre os seres humanos? — perguntei, sem conseguir me conter.

— Seres humanos? Não muito, provavelmente menos do que vocês. Por que a pergunta?

— A forma como vocês falam... Se parece muito com a deles.

— Ah, ah! Agora entendi porque queriam aprisionar você. — Nick gargalhou. — Pode ficar à vontade para ir ao mundo de lá enquanto estiver em nossas montanhas. Os Naturais daqui vivem se comunicando com o mundo humano.

Aquela frase me chamou a atenção. O que ele queria dizer com “Naturais dali”? Então realmente existiam Seres da Natureza que nasciam fora do Vilarejo?

O corredor terminou em uma porta redonda de madeira com um pequeno retângulo no alto. Nick bateu três vezes, e então o retângulo foi aberto, revelando um par de olhos amarelos.

— Senha?

— Sério, Karl?

— Essa não é a senha, senhor anão.

Nick bufou.

— Eu amo os olhos do Karl — murmurou.

— Eu não ouvi a senha, senhor, diga mais alto.

— Abra essa maldita porta ou juro que vou arrebentá-la com você junto, orelhudo dos infernos! — berrou.

A porta foi escancarada, e meus ouvidos foram preenchidos por risadas melodiosas. Fiquei entorpecida por um momento, e enquanto tentava compreender tantas gargalhadas élficas, cinco pares de olhos curiosos se voltaram para mim.

— E a senhorita seria? — O garoto dos olhos, Karl, se curvou diante de mim e deu uma piscadela, sorrindo.

Os cabelos castanhos eram bagunçados, com cachos que se reviravam para todos os lados — eu nunca tinha visto um elfo com cabelos cacheados! Era bastante alto, e seu rosto parecia ter uma fixa expressão alegre.

— An... — comecei a dizer, e então parei. Pensei um pouco instante antes de retomar a fala: — Annie.

— Seja bem vinda ao nosso humilde lar, Annie. Eu sou Karl, o bobo da corte, como o velho anão aí já disse. — O elfo meneou para Nick. — Esta adorável dama ao meu lado é Lizzie, nossa mascote.

— Olá — A pequena elfa enrubesceu e acenou para mim, rapidamente voltando os olhos para Karl. Ela nem disfarçava, pensei, abafando uma risada.

Lizzie me dava vontade de apertar, notei imediatamente. As bochechas eram coradas, e ela não devia ter nem 1.90m de altura, sendo surpreendemente baixa. Os olhos eram lilás, apenas um tom mais claros que os meus, e se destacavam em contraste com seus cabelos extremamente negros.

— Depois dela estão os gêmeos Jhon e Jhonny, não me pergunte, foram os malditos anões que deram esses nomes. Eles são responsáveis pelos nossos mantimentos, tudo que precisar é só pedir para eles — continuou Karl.

— E aí, garota? — disse um deles, enquanto o outro só confirmou com a cabeça. Eles pareciam muito com os anões, apesar dos traços élficos. Me perguntei se eles haviam nascido de uma mistura racial, se é que isso era possível.

— E por último, mas não menos importante, Mog, nosso diplomata.

— Diplomata? Pensei que ele era o líder — falou Nick, se ajeitando em uma poltrona.

Meus olhos pousaram em Mog. Os cabelos dele eram impecavelmente loiros e caíam ao redor do seu rosto e testa cortado de forma irregular, encaracolando-se nas orelhas. A pele tinha um bronzeado dourado e parecia emitir uma aura de poder. Seus olhos eram da cor do lago do Vilarejo durante o pôr do sol — uma mistura de laranja rosado com o predominante azul. Ele me fitava com intensidade, como se me desafiasse. Os ombros estavam rígidos e eram largos, de forma que eu sentia vontade de tocá-los. Os cotovelos apoiados casualmente nas pernas abertas, com as mãos caindo entre elas mostravam sua confiança.

Engoli em seco. Mog desviou o olhar quando Karl retomou a fala:

— Já disse que nós escolhemos Luc como líder.

Luc? De Lucas? Meu coração disparou, mas eles estavam completamente alheios à mim.

— E Luc rejeitou o cargo. — A voz de Mog era baixa e calma; lenta, como se falasse com uma criança. — Passando o mesmo para mim. Por que mesmo que nos apresentou para uma estranha, Karl?

— Esqueça o que eu disse sobre ser o diplomata, diplomatas devem ser mais simpáticos.

— Eu faltei com a simpatia, senhorita Annie? — Ele voltou os olhos profundos para mim.

— Eu... Quero dizer... Não, de forma alguma. — Franzi o cenho, ele estava usando algum tipo de magia para confundir os meus sentidos?

— Mas você está faltando. — Minhas sobrancelhas se ergueram, como assim? — É incômodo que fique olhando para mim dessa forma só porque não está acostumada à deformidades.

Eu queria perguntar do que ele estava falando, mas minha boca se moveu antes que eu pudesse pensar direito.

— É lindo, eu só estava admirada com o quanto é lindo.

Cobri as mãos com a boca, já sentia o sangue esquentando em minhas bochechas, virei de costas, e já ia correr em direção à porta quando senti uma mão segurar meu pulso. E então a sala foi preenchida pela risada de Karl, que estava me segurando.

— Você não sabe mesmo agir com garotas, Mog. Seu rosto está parecendo um tomate agora. Se você aceitasse meus elogios másculos, não passaria por uma situação dessas.

— Elogios másculos? — Mog emitiu um som de desgosto. — Desculpe, Annie, mas você deve ser a primeira pessoa que entra aqui e não repara a parte óbvia.

Eu respirei fundo e virei mais uma vez. Agora meu cérebro processava do que Mog havia falado. Para começo de conversa, do joelho para baixo, as pernas dele afinavam de uma só vez, de forma que provavelmente ele não podia andar. Notei que a cadeira na qual estava sentado era móvel. Seus braços e tronco provavelmente eram tão fortes devido ao esforço para se movimentar sem as pernas.

Os gêmeos possuíam cada um apenas um braço. Jhon tinha o esquerdo e Jhonny o direito.

Karl tinha cicatrizes enormes ao redor dos lábios e seu corpo se movia de forma estranha de acordo com sua respiração. Ele abriu um sorriso constrangido.

— Meus pulmões não funcionam perfeitamente, então, acho que meu corpo se movimenta tentando consertar isso.

— E eu... — Lizzie estava com a voz extremamente baixa.

Notei que ela não aparentava ter nada de diferente. Talvez não tivesse nada de errado mesmo com ela. Eu não precisava esperar que todos tivessem algum problema.

— Não precisa dizer, Lizzie... — Karl disse amavelmente, mas a garota sorriu para ele e balançou a cabeça.

— Eu nasci sem coração, e só não morri porque era impossível segundo as leis da Árvore da Vida. Então Luc deu um jeito de criar um órgão artificial, que faz o mesmo trabalho, através de magia, antes que me mandassem para fora do Vilarejo.

Aquilo me pegou de surpresa. O que os humanos não dariam para que existisse algo assim no mundo deles? E então algo me chamou a atenção.

— Antes que te mandassem para fora do Vilarejo? — indaguei, franzindo o cenho.

Os cinco trocaram olhares. Nick parecia adormecido no canto. A atmosfera do ambiente agora era completamente diferente de antes. Foi Mog quem falou:

— As crianças naturais que nascem com deformidades são mandadas para cá. O Rei e a Rainha não aceitam Seres da Natureza como nós, mas também não podem nos matar e ir contra a Árvore, portanto, nos colocam aos cuidados dos anões. Mas... — Ele abaixou a cabeça. — Mas fora do Vilarejo, poucos de nós sobrevivem.

— O Rei e a Rainha... — sussurrei sem ter a intenção de dizer qualquer coisa.

Meus pais nunca fariam uma coisa dessas. Fariam?

Notas finais
Fariam? hahhaahhaha e então, o que acharam dos anões? Eu, particularmente, amo eles >< e esses elfos "rejeitados"? Os podres do mundo mágico estão começando a ser revelados hsuahsuahsuah ... E será que Analu está mais perto de encontrar o Lucas? :3 Não demoro a postar o próximo, amores! Até o próximo ;*