O espírito do Lobo
1 Capítulo único
Notas iniciais
A noite hoje estava ainda mais calma do que as outras. O vento passava, balançando as folhas. Levantei-me de onde estava, antes de acabar adormecendo. Hoje a ronda era por minha conta, e eu ainda tinha que checar o norte.
Desde a luta contra os Volturi, nós nunca mais tivemos problemas. Não havendo perigo para a tribo, não há porque existir duas matilhas de lobos. Agora, apenas Leah, Quil e eu ainda nos transformávamos. Quil porque queria esperar a Clair crescer, eu porque queria me manter sempre jovem, para viver minha eternidade ao lado da minha Nessie...
Parei então para refletir o quanto eu sou sortudo. Eu não precisei esperar tanto tempo quanto o Quil vai precisar. Nessie agora era adulta. Eu a amava. Amaria com ou sem imprinting. Mas o mais incrível é que esse amor é correspondido. Inexplicavelmente, minha pequena também me ama. E não há alegria maior do que ser amado. Saber que você não vai ficar sozinho. Que terá uma família. Filhos, talvez.
Um barulho estranho na floresta me tirou de meus devaneios. Apurei meus sentidos e pude ouvir passos se aproximando de mim. E um cheiro indecifrável. Não era um vampiro, mas também não era um humano. Parecia com o cheiro de um híbrido, como de Nessie, ou aquele tal de Nahuel, mas não do tipo que eu costumo sentir. É como se fosse uma parte vampira e parte outra coisa.
Foi então que ouvi uma fraca agitação nos arbustos. Fiquei paralisado por um momento, para então seguir em direção do barulho. Mas no momento que cheguei perto, tudo estava perfeitamente parado de novo.
De repente, uma forte dor me atingiu em cheio. Minha cabeça rodava. Meu corpo tremia involuntariamente enquanto tudo parecia girar em círculos ao meu redor. Nunca tinha sentido nada parecido antes.
Somente quando levei as mãos para segurar minhas têmporas, em uma tentativa vã de fazer a dor parar, que percebi que não estava mais na forma de lobo. Eu havia voltado a minha forma humana. Não sei se pela dor ou por influência desse estranho ser que me atacava.
Cambaleei para trás e caí de joelhos. As mãos firmes, pressionando o ponto onde minha cabeça latejava. Foi quando consegui levantar a cabeça e a vi.
Parada perto dos arbustos, lá estava a criatura. Uma jovem, com pele de um tom avermelhado como o meu, mas pálido, e cabelo preto brilhante, liso como seda, que alcançava seus joelhos.
Seus olhos vermelho-carmim estavam fixos nos meus, enquanto sua boca sussurrava algo como uma canção. As palavras eram desconhecidas, mas notei que ela as repetia de maneira rítmica.
Um movimento de suas mãos, e eu fui arremessado contras as árvores. Senti minha pele ser arranhada pelos galhos e o osso de meu braço se quebrando. Caí deitado, sem conseguir me mexer.
Enquanto entoava seu canto de morte, ela ia se aproximando de mim cada vez mais, me olhando fixamente.
Meu nariz queimou com seu cheiro doce e ao mesmo tempo podre. Ela se ajoelhou e cravou suas unhas em meu peito, como se tentasse arrancar meu coração fora, e aumentou o ritmo da canção que repetia incessantemente. Senti o calor tão conhecido se mover pelo meu corpo, saindo de minhas pernas e braços e se concentrando em meu peito.
A criatura então levantou suas mãos, como se elas puxassem algo. Foi então que eu vi algo inimaginável até para um lobisomem. Uma névoa brilhante, parecida com o cosmos, começou a sair de meu peito, como se escapassem pelas feridas feitas pelas unhas da criatura. A névoa então flutuou sobre meu corpo e começou a tomar forma. A forma de um lobo. Foi então que percebi que aquele era o meu eu-lobo. Ou como diziam meus ancestrais, o meu lobo-espírito.
Quando a criatura focou novamente em meus olhos, aquela dor lancinante me atingiu, mas antes de ser totalmente dominado pela escuridão, eu consegui ver meu lobo-espírito desaparecer no ar.
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Deitado em minha cama, absorto em meus pensamentos, eu fitava o teto iluminado pela luz do dia que entrava pela janela do enorme quarto, de minha nova casa.
Um ano já se passara desde aquele encontro com a estranha jovem.
Um ano de buscas, perguntas e uma agoniante falta de respostas para o que ela fizera comigo.
Após testes e mais testes, tentativas falhas, chegamos a conclusão de que de fato eu não era mais um lobo-espírito, ou um transfigurador, como os Cullens preferem dizer.
Assumi minha condição humana, afinal, não havia mais opções para mim. Talvez eu conseguisse lidar bem com tudo isso. Mas eu estava errado. No momento em que Nessie aceitou que eu era totalmente humano, o desespero tomou conta dela. E, conseqüentemente, de mim.
Não teríamos mais uma eternidade para vivermos o nosso amor.
Com tanto medo ela ficou, que, com menos de dois meses, nós nos casamos. Eu disse que ela não precisaria exagerar tanto assim, eu iria envelhecer, mas demoraria pelo menos uns setenta anos até eu morrer, mas ela me respondeu prontamente que para quem planejava viver uma eternidade juntos, míseros setenta anos não são nada. Ela queria aproveitar cada minuto que tínhamos juntos.
Olhei para o relógio. Ainda eram sete horas da manhã. Eu devia estar acordado a pelo menos umas duas horas. Não conseguia dormir. Não depois de ser acordado com o choro copioso de minha amada Nessie.
Parei meus pensamentos para observar minha esposa, que dormia tranquilamente, agarrada a mim, de uma forma quase que desesperada, como se ela fosse me perder a qualquer momento.
Era só nisso que ela pensava. Todas as noites seus pesadelos eram sobre a minha morte. Das maneiras mais diversas possíveis que um humano poderia morrer. Mas o que mais me preocupava em tudo isso não eram as diversas maneiras como eu poderia morrer, afinal a morte é a única certeza que um ser humano possui em sua imprevisível vida. O que mais me machucava era a dor que ela transmitia para mim. A dor que ela sentia ao me perder para sempre. Eu sabia que Nessie me amava, mas me preocupava saber que minha perda causaria nela uma dor tão forte que, mesmo em sonhos, a fazia imaginar formas de se juntar a mim no outro mundo. E isso eu não poderia permitir. O término de minha existência não poderia por um fim na existência de minha pequena.
Desvencilhei-me cuidadosamente de seus braços e levantei, indo em direção ao banheiro. Talvez um banho quente me ajudasse. Mas as perguntas sem respostas ainda passeavam pela minha mente, como serpentes fazendo seu ninho.
Lembrei da pequena discussão que tive com Nessie ontem. Após mais uma bateria de exames, realizadas a cada três meses pelo Dr. Cullen, o mesmo diagnóstico foi dado. Os 24 pares de cromossomos ainda estavam lá. Pelo menos geneticamente eu ainda era um híbrido. Por isso Nessie me acusava de não querer mais me transformar, já que fisicamente não havia nada que me impedisse.
Parei para observar o reflexo no espelho. Eu estava bem diferente. Era como se em apenas um ano, meu corpo envelhecesse os anos que eu deixara para trás. Eu estava nitidamente mais magro, não tanto quanto eu era antes da transformação. Os músculos, menores e menos visíveis agora, ainda estavam lá, mantendo meu corpo torneado. Meu cabelo, um pouco mais comprido, crescia bagunçado para cima, e a barba por fazer me dava um ar de maturidade. A imagem do menino-homem no espelho agora fazia jus aos meus vinte e três anos, mas as olheiras causadas pelas noites mal dormidas e pela incerteza do futuro me davam alguns anos a mais.
Meu olhar pousou sobre meu braço direito e fiquei admirando a tatuagem que ainda estava ali. Mas isso era devido à tinta permanente. Não havia mais a mensagem que ela transmitia. Tudo isso se fora. Eu não fazia mais parte da matilha. Não era mais digno de possuir tal sinal.
Uma vez, Jasper me contou que os Incas também possuíam uma lenda na qual uma pessoa poderia obter o espírito de um animal. Em uma tribo específica, eles acreditavam no espírito do lobo. Cada criança tinha seu próprio lobo, para que, ao completar dezesseis anos, ela fosse marcada. Quando o lobo morresse, seu espírito então passaria para seu dono.
Mas agora, nem nessa lenda eu poderia mais me incluir. A marca estava lá. Mas não havia mais espírito de lobo.
Entrei no banho e deixei a água quente cair sobre minha cabeça. Conforme a água batia em meu corpo, uma sensação de alívio me dominava. Mas o alívio físico estava longe de ser um remédio para meus problemas. Relembrar dessa lenda fez minha mente me remeter à conversa que tive com meu pai há alguns meses.
Flashback
– Filho, posso falar com você? – A voz de trovão de meu pai preencheu meu quarto.
– Claro. – Respondi automaticamente, sentado em minha cama, enquanto terminava de encaixotar as coisas que levaria para minha nova casa.
Billy chegou mais perto de mim e olhou-me com uma expressão que continha um misto de preocupação e tristeza.
– Bom, filho... – ele começou, tentando procurar as palavras – Sabe, eu sei que toda essa correria, as preocupações da Renesmee e com todos a sua volta te olhando como se você fosse algo extraordinário, está te deixando nervoso.
– É... um pouco. – Respondi, fitando as mãos.
– Mas eu preciso que você saiba de uma coisa Jacob. – Seu tom de voz me fez olhar para ele. – Filho, só depende de você.
– Só depende de mim o quê? – Perguntei incrédulo, mas já sabendo a resposta.
– Você pode voltar a ser um lobo-espírito... se você realmente quiser.
– Como assim, pai? Você acha que eu estou gostando dessa situação? – Perguntei com um misto de raiva e decepção. Por que meu pai me diria isso?
– Não, filho, apenas me escute, ok? – Ele perguntou, olhando-me fixamente. Assenti. – Eu cresci em um mundo onde a magia era real e podíamos senti-la correndo em nosso sangue. Lembro de, ainda bem pequeno, estar no colo de meu pai e ver meu avô se transformar em um grande lobo. Por anos, ansiei pelo dia em que um vampiro cruzasse nossas terras e eu me transformasse em um lobo poderoso, protetor da tribo. Mas isso nunca aconteceu. Era difícil de aceitar. Então eu conheci sua mãe, me casei, e cada dia que passava eu agradecia pela paz que tínhamos e por poder ter minha família em segurança. Quando você nasceu filho, percebi que tudo que eu via como uma mágica herança era na verdade uma maldição, um fardo. Quando te segurei nos braços pela primeira vez eu jurei a mim mesmo que você teria a vida pacífica que eu tive. – Sua voz falhou por um momento. Mas meu pai não é do tipo que chora. Ele recuperou seu autocontrole e continuou. — Sabe por que nós nunca fomos embora daqui? Ou mesmo por que eu não te levava comigo para pescar? – Neguei com a cabeça – Porque eu tinha medo Jacob. Medo de levar você perto demais de um vampiro e acordar seu lobo-espírito. Eu faria qualquer coisa para te proteger. Mas não pude. Os Cullens voltaram e eu sabia exatamente o que aconteceria com você. Tentei te alertar inúmeras vezes. Mas você não me escutou. E quando você se transformou pela primeira vez? Não sabe como foi difícil para mim, filho, te ver daquele jeito. Você estava na forma de lobo, mas eu podia sentir a sua dor, a sua agonia.
Lembrei-me das conversas que tinha com meu pai, antes de acreditar em tudo, e de como eu achava ele um supersticioso. Depois minha mente voltou ao pior dia de minha vida. A primeira transformação. Eu estava completamente perdido, com raiva e com medo ao mesmo tempo. Meu pai tentava me acalmar, mas eu só ficava com mais raiva ainda, me perguntando o que ele escondia de mim. Mas ele já tinha me alertado do que poderia acontecer. Eu que não dei ouvidos. Quando finalmente consegui voltar à forma humana, tudo que consegui fazer foi chorar. Chorar como nunca havia chorado antes.
– A questão é que nós dois encaramos a transformação como uma maldição. E talvez seja isso que esteja te impedindo de ter o lobo-espírito de volta. No fundo filho, você não quer voltar a se transformar. Apesar de tudo, parte de você viu com alívio o espírito do lobo deixar seu corpo. Era a sua salvação.
– Pode ser que antes eu até pensasse assim, pai. Mas eu não quero ser humano. Os outros rapazes podem levar uma vida normal, ao lado de suas esposas humanas. Mas eu não.
– Então, filho. Você se lembra da lenda de Taha Aki, não lembra? – Assenti. – Na época do Grande Chefe não havia ciência. Não havia essa história de vinte e quatro pares de cromossomos transferidos de pai para filho. Havia apenas magia, transferida de pai para filho. E nada disso impediu que ele se transformasse no primeiro lobo-espírito. Foi sua raiva, seu amor por seu povo e o ódio que tinha por Utlapa que o fez romper o corpo do lobo e se transformar novamente em um homem.
– Mas eu não sou Taha Aki, pai. – Respondi, com certo ar de obviedade.
– Eu sei. Mas você é tão especial quanto ele. Taha Aki foi o primeiro em diversas coisas, mas você também. Veja bem, Jacob. Quantas coisas inimagináveis aconteceram graças a você? Pela primeira vez, alguém de fora da tribo ouviu nossas histórias. Nunca pensaríamos em lobos e vampiros lutando lado a lado. Nossa tribo nunca teve duas matilhas antes. Me diga, quantos lobos tiveram um imprinting pela filha de um vampiro? – A medida que ele ia listando minhas “proezas” eu ia constando que definitivamente eu não ligava muito para os tabus de nossa tribo — Você é especial Jacob! Seu potencial supera qualquer um que já tenha existido. Eu acredito em você filho. Agora, basta você também acreditar que pode.
A água quente ainda batia em meu corpo, enquanto as palavras de meu pai ecoavam em minha mente.
Basta você também acreditar que pode.
Mas o que eu posso fazer? Já tentamos de tudo para acordar o lobo em mim novamente. Certa vez, Jasper até me levou onde seus amigos nômades estavam. A idéia era que, em contato com vampiros de olhos vermelhos, o lobo sentisse o perigo e retornasse. Mas nada ocorreu. Segundo ele, parte de mim sabia que eles eram amigos, pelo menos dos Cullens, e não me atacariam. E, mesmo se atacassem, Jasper poderia me proteger. Ele teve a idéia de me deixar sozinho com vampiros desconhecidos. Às vezes o pássaro só aprende a voar quando está caindo, ele disse. Mas essa idéia foi totalmente rejeitada por Nessie e Bella, que se recusavam a me colocar em perigo.
Saí do banho e vesti uma roupa confortável. Nessie ainda dormia, então resolvi descer para fazer nosso café da manhã. Só assim para eu conseguir comer alguma coisa gostosa. Ultimamente minha pequena me obriga a comer apenas coisas saudáveis. Cada dia ela parece com um suco milagroso diferente.
Me servi com um pouco de suco e fiz umas panquecas. Aproveitei que ela ainda estava dormindo e caprichei na calda.
– Hey! Pode parar! – Sua voz soou atrás de mim.
– Ah... Nessie, só hoje? – Implorei como uma criança.
– Nada disso! Hoje eu vou te fazer um suco de gengibre e legumes que vai controlar sua taxa de açúcar. E depois nós vamos fazer uma caminhada. – Ela disse mandona. – Eu só quero te manter o mais saudável possível. – Seus lábios se esticaram em um sorriso forçado, mas seus olhos denunciavam sua tristeza.
– Ok. Mas só se durante a caminhada, você aproveitar para caçar. – Disse tocando suas olheiras.
Tomei aquela coisa com gosto horrível que ela chamou de suco – o que um homem não faz para agradar sua mulher? — e saímos em uma caminhada pela floresta de La Push.
Logo Ness achou dois cervos para saciar sua sede. Ultimamente, ela tem se alimentado bem mais do que está acostumada. Tanto de sangue, quanto de comida humana. Acho que ela deve estar ansiosa com alguma coisa.
Passamos o dia todos na floresta. A lua já brilhava no céu.
– Sentiu esse cheiro? – Ness perguntou levantando-se bruscamente de onde estava com sua presa. Dessa vez, um pequeno esquilo.
– Não. Como ele é? – Perguntei indo em sua direção. Realmente, eu sinto falta dos meus sentidos aguçados.
– É um cheiro estranho... meio doce, meio podre..
Não pode ser!
Mas antes que eu pudesse alertar Nessie, a criatura surgiu por trás dela nos arbustos.
– Olá de novo, Jacob Black! – Sua voz de sino e com profundo desprezo, me fez sentir uma raiva como nunca eu havia sentido. Nessie correu para meu lado. Não precisaria explicar-lhe quem ela era.
– O que você quer? Quem é você? O que você fez comigo? – Cuspi as perguntas enquanto a encarava. Nessie me segurava, como se tentasse me alertar que eu não tinha mais como me defender.
– São tantas perguntas... Mas vamos lá. Você sabe o que eu quero. Quero você. Morto. – Ela sorriu com desdém. Então mirou Ness. – E ela também. Mas para ela eu tenho outro destino.
Aquilo só fez minha raiva aumentar. Mas eu não podia fazer nada. Renesmee e eu nos segurávamos um ao outro. Como se tentássemos, ao mesmo tempo, nos proteger e impedir que atacássemos.
– Já quem eu sou, é mais difícil de explicar. Mas vamos lá. – Ela sentou-se em um galho de árvore próximo a nós, com ar de superioridade, como se não tivesse medo. – Você conhece as lendas do seu povo, certo? – Assenti. – Pois bem, eu vou contá-las do meu ponto de vista agora.
Assustei-me com aquilo. Como assim o ponto de vista dela? Quem essa criatura era afinal?
– Eu vivi aqui há muitos séculos Jacob. Fazia parte das tribos dos makahs.Se lembra deles? Estão quase extintos agora. Pois bem. Nossa tribo sempre teve um tratado de paz com a sua tribo. Mas nem tudo era aceito de bom grado. A magia de vocês era poderosa demais. Na verdade, nós tínhamos medo. Eu cresci ouvindo como os Quileutes eram poderosos, e como, antes, quando eram guerreiros-espíritos, podiam controlar os ventos e os animais. E que depois, passaram a se transformar em lobos-espíritos. Vivíamos com medo de que alguém como Utlapa surgisse e tentasse tomar nossas terras. Como combateríamos enormes lobos? – Seus olhos fitavam o nada enquanto falava, como se voltasse ao tempo. – Então, um dia as moças de minha tribo começaram a desaparecer misteriosamente. Elas eram minhas amigas, sabia? – Ela fitava-me. Agora, com dor. – Nossa tribo entrou em desespero. O dia que tantos temíamos havia chegado. Meu pai era um grande guerreiro e conhecia muito sobre a magia de sua tribo. Um dia, depois que a quinta moça desapareceu, ele foi a floresta, pedir aos espíritos da Natureza para nos ensinar como derrotar vocês. Eles então ensinaram a ele como expulsar o espírito do lobo existente no guerreiro. Meu pai era um guerreiro cauteloso. Então, é claro, me ensinou.
– Então, foi isso o que você fez comigo? – Perguntei. – Mas como... como você..
– Calma, eu vou te explicar tudo. – Ela disse, de forma tranqüila. Então, fitou novamente o nada. – Um dia, eu e minhas primas resolvemos sair para testar o que eu havia aprendido. Eu disse que poderia protegê-las. Mas não pude. Para minha surpresa, não era um lobo. Eu mal conseguir ver seus movimentos. Quando percebi, minhas primas estavam mortas, e a criatura me olhava com seus olhos vermelhos. A mulher disse-lhe algo que eu não entendi. Só sei que, ao invés de ser agraciada com a morte, ele me levou ao inferno, onde fiquei por três dias.
– Eles transformaram você? – Nessie perguntou com a voz trêmula.
– Eles me salvaram! – Ela disse, vitoriosa. – Se tornaram meus novos pais. Me deram uma vida incrível, inimaginável! Uma vida onde eu não precisava mais temer os lobos.
– Mas nós não matamos ninguém! – Gritei para ela – Foram eles. Eles eram os monstros.
– Você não entende, não é? Um ano depois eu voltei. Queria reencontrar minhas irmãs. Entrei em casa sem ninguém perceber, e as levei comigo. Eu queria que elas fossem como eu. Mas não consegui resistir. Quando eles chegaram, eu estava com uma de minhas irmãs morta em meus braços. Teresa então me levou, enquanto Martin ficou para resolver tudo. Ele iria transformar minha outra irmã. Mas ele nunca voltou. Teresa veio procurá-lo e também não voltou. – Seus olhos se fitaram em mim, com ódio. – Seu povo os matou. Durante séculos eu procurei vingança. Mas as matilhas sempre eram grandes demais para que eu as enfrentasse sozinha. Os lobos nunca se separavam. Da última vez que estive aqui, eram mais de 17. Vocês não perceberam minha presença porque estavam ocupados demais tentando derrotar os Volturi. E foi aí, que eu encontrei a minha chance. O tal de Caius se mostrou muito propício em me dar o apoio necessário. Eu rondei vocês por anos, até o momento oportuno. E, agora, eu vou matar você, levar a pequena Renesmee, os Volturi a matarão por carregar uma criança mestiça...
Nessie e eu nos entreolhamos quando ela disse aquilo. Minha pequena balançou a cabeça, como se não soubesse de nada.
– Own... Vocês não sabem? Tenho observado vocês há muito tempo Jacob. Você não percebeu que ela está comendo mais do que é costume? Confie em mim. Ela está grávida.
Uma mistura de alegria e medo tomou conta de mim. E eu pude ver meus sentimentos refletidos no olhar de Renesmee. Ela levou as mãos instintivamente ao ventre. E sorriu para mim, como se tivesse sentido a confirmação.
– Bom, então Caius simplesmente adorou a notícia! E cá estou eu para levar a híbrida para Volterra. – Ela se voltou para mim – Não antes de arrancar os restos do meu pai que o seu carrega como um prêmio no pescoço! – Ela esbravejou e, em segundos, eu era novamente arremessado contra as árvores.
Em meio a dor eu tentei lembrar das palavras de meu pai. Enquanto a mulher atacava Nessie, a arremessando de um lado para outro, eu buscava forças para lutar. Eu precisava proteger minha mulher. Meu pai. Meu filho.
Eu não tinha mais forças, mal consegui andar, mas a raiva que eu estava sentindo ao ver aquele ser atacando minha amada era tão forte que me ergueram.
Percebi então o quanto estava errado. Eu dependia do lobo. Eu queria o lobo! Ele não seria mais um intruso em meu corpo. Graças a ele, eu era um protetor, um guerreiro. Eu precisava dele!
Comecei a repetir uma espécie de mantra que meu pai me ensinou, com cada vez mais e mais vontade.
De repente um vento forte soprou, balançando as árvores. A criatura então parou de machucá-la e me olhou. Ela sabia o que aquilo significava. Senti uma névoa me envolver e penetrar meu corpo. O conhecido calor percorria novamente minha espinha e eu o acolhi de bom grado. Olhei com fúria para a criatura, a fazendo recuar.
Mas era tarde demais.
Em menos de um segundo, meu corpo explodiu no grande lobo e minhas garras a rasgaram em mil pedaços.
Eu ainda ofegava, sem acreditar no que estava acontecendo. Nessie, ainda caída, olhava para mim sorrindo.
Foi então que uma idéia passou por minha cabeça. Nós sabíamos agora o que estava por vir. Sabíamos que precisávamos nos preparar para uma grande batalha. Mas eles também precisavam saber quem enfrentariam.
E eles iriam saber.
Sorri imediatamente ao perceber o quão cinematográfico isso pareceria. Mas eu não me importava. Eu precisava fazer isso.
Enchi meus pulmões de ar, batendo forte minhas patas no chão, e apontei meu focinho para o alto, fitando a lua cheia que iluminava os céus bem acima de mim. Então, como em um grito de vitória, aliviei meu peito das incertezas e angústias que o comprimiam.
Meu uivo ecoou alto por todos os quatro cantos, levando, a quem pudesse ouvir, o meu recado: o Alpha estava de volta.
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