O escolhido
3 Violet Schreave

Erro novamente a nota seguinte. Chega, é oficial não consigo me concentrar nem mesmo no violino. Adoro tocar violino. As pessoas dizem que herdei essa habilidade da minha mãe, assim como as madeixas ruivas que emolduram meu rosto. Eu não diria que herdei as habilidades dela, pelo contrário, nem chego aos seus pés.
Minha vida inteira foi preenchida pela música, com as canções e performances de minha mãe. Antes de se casar com meu pai, ela pertencia a casta cinco, que naquela época era conhecida como a classe dos artistas. Atualmente ela engloba as antigas castas seis, sete e oito, que foram eliminadas no decorrer do reinado de meu pai. Os sulistas dizem que estamos apenas enganando o povo dando- lhes falsas esperanças sobre a eliminação das castas.Tenho em mente que a retirada delas é um processo lento e que pode perdurar até depois do meu mandado. Contudo manterei firme o projeto que meus pais começaram.
Sinto algo macio ronçar minha perna, olho para baixo e vejo dois grandes olhos verdes me encarando de volta.
– Aí está você. Por onde andou?
Pego Felícia no colo e ela ronrona para mim.
– Não vi você o dia todo mocinha o que andou fazendo? — Acaricio seu pelo laranja.
Apesar de saber que ela nuca irá responder é reconfortante conversar com a minha gata. As vezes ela me olha tão profundamente como se realmente estivesse entendendo minhas aflições.
Ouço leves batidas na porta. Dou um longo suspiro, coloco Felícia gentilmente na cama e aliso a saia do vestido antes de me dirigir a porta. Josephine esta parada na soleira do meu quarto.
– Alteza seus pais gostariam de encontrá-la no escritório.
Sinto meu corpo tremer levemente de nervosismo.
– Esta tudo bem alteza?
– Sim, tudo ótimo. — Respondo com um sorriso nervoso. Antes que ela me faça mais perguntas continuo. — Escritório, né? Então já vou indo, não posso deixar meus pais esperando.
Fecho a porta e rapidamente desvio de Josephine e me dirijo as escadas. Desço quase correndo, para não ser abordada por ninguém e continuo até chegar a grande porta da cor vinho do escritório do rei.
Minhas mãos tremem quando bato na porta. Não demora muito ela é aberta e vejo postado em frente a mim Aspen Leger.
– Boa noite alteza. — diz curvando-se
– Olá comandante Leger. Como vai Lucy e o pequeno Tomen?
– Eles estão muito bem, obrigado.
– Violet querida...
Minha mãe se aproxima de mim com seus cabelos ruivos e um esvoaçaste vestido azul claro. Ela é linda, de um jeito único. Não apenas pelo seus cabelos acobreados, mas pela sua forma segura e diferente de ver o mundo. Meu pai me disse uma vez que foi isso que fez ele apaixonar-se por ela no primeiro momento em que a viu discutindo com um soldado para tomar um pouco de ar. Ela parecia tão frágil, mas lutava por tudo que acreditava e amava.
Ela me toma em um abraço e por um segundo me sinto pequenina de novo, correndo para seus braços para me confortar depois de um pesadelo.
– Venha querida, seu pai e eu precisamos conversar com você. — diz levando me pela mão para o interior do escritório de meu pai. — Obrigada Aspen, mais tarde terminamos.
– Sim majestade. — diz fazendo uma mesura.
Minha mãe fecha a porta. Olho ao redor e me sinto confortada. Passei muitas tarde nessa sala quando era menor. Papai costumava sentar conosco perto da lareira e lia sobre o antigo Estados Unidos da América. Ambs sempre ficava entediada e buscava algum papel para desenhar, esse acabou se tornando seu hobbie favorito.
Vejo meu pai sentado atrás da mesa, mas assim que me vê, ele levanta e se aproxima de mim e desposita um beijo em minha testa.
– Ví, sua mãe e eu precisamos conversar com você sobre algo importante. — Vejo um certo desconforto em seus olhos.
Minha seleção. Penso mas sem coragem de pronunciar em voz alta.
Sempre sonhei em encontrar alguém que eu ame e que me ame também. Um homem que seria meu companheiro e um bom pai para meus filhos.
É claro que existe a possibilidade de eu encontrá-lo durante a seleção, assim como meu pai encontrou minha mãe. Mas isso parece tão frio para mim, como se eu fosse escolher um sapato ou um vestido que irei usar no dia seguinte. Nunca pensei que encontraria o amor da minha vida dessa forma.
Contudo eu era a herdeira do trono, tinha um país inteiro como responsabilidade. O casamento para mim, basicamente se resumiu em encontrar um bom homem para comigo governar Illéa. Pelo fato de eu ser uma garota sempre tive que manter as expectativas sobre mim bem altas. Sempre fui alvo de chacotas dos sulistas. "Como seremos governados por uma mulher" era o que eles diziam. Então o povo sempre esperava mais de mim. E eu provaria que o rebeldes estavam errados que eu seria uma excelente soberana e se necessário fosse que eu enfrentasse uma seleção eu faria.
– Seu aniversário de dezoito anos será daqui a quatro semanas. — vejo ele respirar fundo. — Bem... Ao chegar na maior idade é esperado que o herdeiro ou herdeira do trono escolha um consorte para com ele governar o país quando chegar a hora.
– Eu entendo as regras da minha posição pai. — susurro.
– Quando você nasceu tinhamos os planos de aproxima-la do príncipe Píetro, para que um dia vocês pudessem casar e reforçar a aliança com a Itália.
Píetro é o segundo filho da rainha Nicoletta, um belo rapaz e extremamente gentil, seria um excelente rei, mas nunca sentimos nada um pelo outro.
– E o que mudou no plano de vocês?- indago.
– Quando você completou quinze anos, boatos sobre seu casamento começaram a surgir entre as províncias. Os sulistas de alguma forma descobriram nossos planos e implantaram no povo antipatia de um estrangeiro governar Illéa.
Minhas mãos começam a suar, tento enxuga-las na saia do vestido sem chamar atenção. Não deu muito certo. Minha mãe se aproxima de mim e coloca as mãos em meu ombro.
– O que seu pai quer dizer é que o ideal seria que seu marido pertencesse a Illéa.
– Vocês estão sugerindo uma seleção?
Os dois trocam olhares preocupados.
– Filha eu jamais faria você passar por isso se você não quisesse. Eu sei o que é estar em uma seleção e seu pai já teve uma seleção.
– Esta tudo bem mãe. Sempre compreendi as responsabilidades de minha posição.
Vejo uma mistura de orgulho e tristeza em seus olhos. Meu pai acaricia meu rosto e sorri para mim.
– Você é igualzinha a sua mãe. Luta pelo que acredita.
Retribuo o sorriso e pelo canto dos olhos percebo que minha mãe sustenta um meio sorriso para meu pai.
– Quando serão enviadas as cartas?
– Assim que voltarmos da Itália.
Tão cedo? Penso mas não digo em voz alta. Apenas confirmo com a cabeça.
– Eu acho que vou indo para meu quarto, estou um pouco cansada.
– É claro.
Meu pai me abraça e beija minha testa novamente.
Minha mãe me acompanha até a porta, assim que cruzamos a soleira ela me encara e sorri. Um sorriso triste.
– Nunca pensei que minhas meninas fossem passar por uma seleção. Você tem certeza que...
seguro
sua mão e tento parecer confiante quando respondo
– Esta tudo bem mãe. Não é o fim do mundo, quem sabe eu não encontro minha alma gêmea, assim como papai encontrou a senhora.
Ela sorri, dessa vez um sorriso nostálgico.
Beijo a sua bochecha e começo a me encaminhar para a escadas.
Quando estou na metade, uma das criadas, Charlotte me aborda.
– Alteza eu estava procurando a senhorita. Sua irmã saiu com o jovem Woodwork, e pediu que entregasse isso para a senhorita.
Ela me entrega um envelope extremamente rosa e brilhoso. Abro e dentro encontro o convite da tal festa.
Enquanto encaro aquele convite a frase de Amberly ecoa em minha mente.
"Daqui a pouco vai ter que enfrentar uma seleção, casar com alguém que não conhece e ficar presa nesse castelo pra sempre."
– Charlotte, gostaria de ir a uma festa agora a noite?
– Uma festa senhorita?
– Aham, mas antes precisamos achar um jeito de esconder meu cabelo.
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