O escolhido
11 Príncipe Píetro

As cortinas são abertas abruptamentes, permitindo que o sol invada meu quarto, aumentando a dor de cabeça. A mesma pessoa que interrompeu meu sono, arranca minha coberta.
– Ei! — viro e uma pequena velhinha esta me encarando de volta.
– Sabe que horas são?
– Ah sei lá, só me deixa dormir Berta. — digo colocando o travesseiro na cara.
– Nada disso menino! — diz puxando meu pé — Eles chegam em alguma horas!
Ela continua puxando meu pé, até que desisto de voltar a dormir.
– Eles quem? — digo encarando Roberta.
– O rei e a rainha de Illéa. — diz me olhando como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.
E era. Eu tinha esquecido completamente.
– Droga! — digo pulando da cama.
Não dou nenhum um passo direito, quando tropeço no meu cobertor que está jogado no chão, e caio. Roberta me olha, com aquele seu costumeiro olhar reprovador.
– Quanto você bebeu ontem?
– Ei a culpa foi sua! Você jogou o cobertor no chão.
– É tanto faz, agora vai logo lavar esse rosto, que está horrível, vou mandar trazerem algo pra você comer. — diz se encaminhando para a porta, enquanto a encaro ainda no chão.
Nossa relação sempre foi assim, uma espécie de amor e ódio, desde que eu me lembre. Roberta era uma velhinha durona, mas me amava como uma mãe, ela criou a mim e meus irmãos, Antônio e Annabelle.
Antônio era o mais velho, o orgulho dos meus pais, um verdadeiro monarca e o futuro rei. Annabelle estava no auge dos seus onze anos, era adorável como a grande maioria das meninas na sua idade.
Eu era o que Berta dizia, sua dor de cabeça constante, vivia me metendo em encrenca e nunca a deixava descansar. O que obviamente era um exagero e tanto, quer dizer, eu não era o cara mais responsável do mundo, mas garanto que devem existir piores.
Levanto e lentamente me encaminho para o banheiro. Ligo a torneira, e verifico a temperatura da água. Extremamente gelada, o que eu precisava para acordar. Deixo ligada às torneiras, para que a banheira seja preenchida, recosto-me no balcão da pia e fico relembrando a festa de ontem. Foi muito boa, não era a melhor que eu tinha ido, mas dava pro gasto, afinal estava lotado de garotas bonitas. Não estava muito no clima, por isso fiquei com apenas duas garotas, uma delas era uma ruiva muito sexy. Ruiva... Violet, diabos!
Volto a realidade, na qual eu estou atrasado para buscá-la. Violet... Acho que não a vejo faz uns três anos. Ela é uma garota incrível, meiga, inteligente e muito linda, mas eu não conseguia vê-la além do que como uma irmã, por qual eu tenho grande carinho. Fiquei extremamente aflito, quando descobri a dois anos que tanto os pais dela, quanto os meus tinham planos de nos casar. Eu entrei em pânico, não queria casar com ela, seria como casar com Annabelle, além do mais eu não estava pronto para casar, ainda tinha muito o que aproveitar. Enfim, por alguma sorte do destino, eles mudaram de ideia, algo a ver com os rebeldes de Illéa, sei lá.
– Píetro! Quero você aqui fora em dez minutos! — ouço a voz de Berta através da porta, enquanto ela a esmurra furiosamente.
– Tá, eu já sei! — digo bufando e entro na banheira com a água gelada.
Eu tinha razão, qualquer partícula do meu corpo que estivesse sonolenta, foi despertada no segundo em que entrei na banheira. Tomo um banho rápido. Assim que saio do banheiro enxugando o cabelo, encontro Berta com os braços cruzados, batendo com o pé no chão.
– Anda, estamos ficando sem tempo. Senta logo e come alguma coisa. — diz indicando a bandeja de comida em cima da mesa. — Então, o que andou aprontando ontem?
Sento na mesa e começo a passar geleia na torrada.
– Por que sempre espera que eu faça algo de errado? — digo sorrindo.
Ela retribui o sorriso.
– Por que você é o meu menininho levado, quando vai encontrar alguma garota que dê um jeito em você?
– Hunf, como se existisse alguma garota que consiga essa proeza. — digo fazendo careta. — Além do mais, não quero me casar tão cedo, quero aproveitar o máximo de garotas que eu puder.
Dou uma piscadela e levo um tapa na cabeça.
– Píetro eu te amo como se fosse meu filho, mas se algum dia engravidar uma garota que não seja sua esposa eu te castro.
Eu me engasgo com suco, quando começo a gargalhar, minha gargalhada/tosse é tão contagiante que logo Berta se junta a mim, e começa a rir.
Depois de tomar o café e conversar com Berta sobre a noite de ontem, o que me rendeu mais tapas na cabeça e alguns puxões de orelhas, eu amarro minha gravata preta e jogo um colete bege por cima, seguido de um blazer preto. Sou analisado pelos olhos de Berta, mas no fim sou liberado.
Saio do quarto em direção ao corredor e desço as escadas. Chegando no salão de entrada me deparo com um circo montado, não no sentido literal, só estava uma bagunça lá embaixo.
– Píetro!
Ouço a voz de Annabelle e quando viro para procura-la, seus bracinhos me agarram com força.
– Vamos ter uma parada, não é demais?!
– Parada, como assim?
– Antônio teve a ideia de trazer a família real de Illéa em uma espécie de parada, com marcha sinfônica e tudo mais! Vamos ficar em uma carruagem aberta, para as pessoas poderem nos ver com eles. — diz dando pulinhos de alegria.
Franzo a testa e me aproximo de meu irmão que não está muito distante, conversando com sua esposa Clarissa.
– Pra que isso tudo?
– Nada, só quis dar uma recepção mais acalorada para nossos convidados.- diz sorrindo
– Não acha que exagerou um pouco?
– Quando receber a oportunidade de programar a recepção de convidados de outras nações, você escolhe fazer do seu jeito. — diz me olhando irritado. — Quero fazer uma parada.
Dou de ombros.
– Não ligo pra essas tarefas bobas, faça o que quiser, por mim tanto faz, mas não espere que eu sente ridiculamente naquilo. — digo indicando a carruagem enorme que pode ser vista pela janela.
Ele me encara irritado e eu apenas sorrio para ele, que fica mais irritado ainda e se afasta. Clarisse fica para trás.
– Eu disse a ele que era exagerado. — diz e solta um suspiro. — Mas ele sempre gosta de impressionar e algum nobre indicou para ele na festa passada.
– Sério? Que nobre? — digo lembrando da festa de aniversário de Annabelle, no mês passado.
Ela franze a testa tentando lembrar, mas por fim da de ombros.
– Não lembro, na verdade nunca o tinha visto antes, ele disse que era de Illéa. — diz e segue para junto de meu irmão.
Que estranho... Clarissa era uma boa fisionomista, sempre lembrava do nome dos nobres e de seus rostos, mas enfim, era típico de Antônio aceitar uma ideia espalhafatosa como aquela, ele seria um bom rei, mas não podia evitar coisas como essa. Só espero que nada dê errado.
Sinto as mãos de Annabelle novamente em meu blazer.
– Vamos, vamos, vamos. — diz me puxando na direção da carruagem.
– Ah não, não, não Belle eu vou em um dos carros que irão atrás. — respondo já me encaminhando para o primeiro carro preto da fila.
Entro sem esperar que ela me siga, afinal ela estava adorando tudo aquilo não perderia a chance de ir na carruagem. O motorista já estava dentro do carro esperando para sair.
– Quanto tempo vamos levar para chegar no aeroporto acompanhando isso . — indico a carruagem bem à frente.
– Uma hora no máximo, alteza.
Recosto-me no banco bufando. Como Meus pais poderiam ter aceitado aquela palhaçada? Era completamente desnecessário.
A porta abre e Berta senta ao meu lado.
– Por que essa cara?
– Porque essa ideia do Anotnio é ridícula! Sem contar que é demorada.
– Voce já parou para pensar que as meninas Schreave nunca viram uma parada na vida delas?
– O que?
– Violet e Amberly nunca viram uma parada.
– Como voce sabe? — indago
– O país delas é assolado por rebeldes que querem matá-las e aos seu país a cada minuto e a qualquer oprtunidade, acha mesmo que eles teriam o privilégio de desfilar em coisas assim. — abre os braços indicando ao redor. — E dar brecha para serem atacados?
O seu comentário me faz sentir um pouco de vergonha pela minha atitude.
Vejo meus pais subirem na carruagem, seguidos de Annabelle, Antônio e Clarissa. Assim que todos estão confortáveis, nós partimos.
Continuo sem saber o que dizer a Berta, então decido apreciar a vista. Pela janela do carro vejo que toda Roma parou seus afazeres para apreciar a parada preparada por meu irmão e devo adimitir não estava tão ruim. As pessoas nas ruas balançam fervorosamente a bandeira italiana e as vezes eu até via umas bandeiras de Illéa.
Desde o casamento do rei Maxon com América Singer, e com retiradas das castas em Illéa, nossos países se tornaram grandes aliados. Rainha América tinha se tornado uma amiga querida da minha mãe, junto com Georgia Illéa. Por isso cresci muito próximo as princesas Violet e Amberly, e de Olívia.
Gostava muito de Amberly e Violet, quanto a Olívia eu não a conheço muito bem, pois com quartoze ou quinze anos, ela parou de vir a Itália, eu só a via quando ia para Illéa. Mesmo quando éramos menores não éramos próximos, ela era muito maluca as vezes, sempre se envolvendo em projetos sociais e coisas do tipo, sem falar que não era muito bonita o que não despertava meu interesse por assim dizer.
Estava tão absorto em meus pensamentos e as vezes apreciando a parada que nem percebi o tempo passar e logo estávamos parados em frente ao aeroporto, que foi praticamente todo fechado para a chegada da família real.
Bem a tempo pois vejo a comitiva de Illéa saindo, não é muito grande como esperava que fosse, eles sempre traziam o pessoal necessário, a grande maioria dali eram soldados.
Desço do carro enquanto minha família desce da carruagem. Meus pais cumprimentam rei Maxon e rainha América, enquanto Antônio e sua esposa ficam um pouco atrás com Annabelle.
Vejo os lindos cabelos ruivos de Violet em meio às pessoas e vou em sua direção.
– Ví. — digo chamando sua atenção que sorri pra mim.
Eu a abraço com força, como sempre faço sempre que a vejo.
– Está cada dia mais linda.
– Olha quem fala. — diz sorrindo — Tenho pena das pobres jovens de Roma com você andando por ai.
Não posso evitar sorrir de seu comentário, afinal não deixa de ser um pouco verdade.
Amberly me vê e corre para me abraçar. Eu praticamente a levanto do chão.
– Que saudade de você Ambs. — digo apertando-a contra mim.
Eu gostava muito das duas, mas me identificava mais com Amberly, digamos que éramos dois espíritos livres, sem falar que ela sabia como se divertir nas festas.
– Acho bom ter preparado uma boa lista com festa para irmos nessas duas semanas.
– Por favor, alguma vez te deixei na mão?
Ela franze as sobrancelhas, fingindo tentar lembrar de algo, eu lhe dou um empurrãozinho. Então eu a vejo, vindo em nossa direção com seus cabelos loiros, caindo em cascatas de cachos em seus ombros, com grandes olhos azuis me encarando. Era com certeza a garota mais linda que eu já tinha visto, sem falar no seu corpo incrivelmente sexy.
– Voce se lembra da Liv, ne? — pergunta Violet.
Enquanto eu a encaro feito um idiota, sem conseguir acreditar que aquela deusa bem na minha frente era Olívia Illéa, a garota maluca com o nariz grande demais para o seu rosto.
Ela sorri da minha expressão espantado, então me recomponho e lhe dou o sorriso mais sedutor que eu tenho e beijo a sua mao.
– É claro que eu lembro.
Ela puxa a mão da minha com um olhar desconfiado, enquanto Ambs me encara com um sorrisinho.
– Nossa... — diz Violet encarando maravilhada a confusão lá fora. — vocês fizeram uma parada?
– Foi ideia de Antônio.
– Sempre quis participar de uma parada.
– Bom então hoje é seu dia de sorte, porque aquela ali é pra vocês. — digo abrindo os braços e mostrando todo o festival lá fora. — Vocês vão sentados ali naquela carruagem para apreciar melhor todo o show.
Olívia ri da expressão encantada de Violet.
– Eu agradeceria se não precisasse ir lá. — diz Olívia — Não gosto das atenções voltadas pra mim.
– Voce pode vir no carro comigo e Berta, ainda lembra de Berta não é?
– Lembro sim. — diz acenando para Roberta que está parada na frente do carro — Tudo bem, só vou buscar uma pessoa.
Ela se dirige a comitiva, enquanto eu penso, que ótimo ela tem namorado, contudo ela volta trazendo uma outra garota loira.
– Essa é Charlotte, uma amiga nossa, tudo bem se ela vier junto?
– Claro. — digo sorrindo aliviado por ser uma amiga e não um namorado. — Prazer em conhecê-la Charlotte.
Ela sorri timidamente e aperta a minha mão.
Vejo as pessoas começarem a se encaminhar para os carros e as nossas famílias para a carruagem.
– Bom meninas. — digo para as princesas — a gente se vê no palácio.
– Então até lá. — diz Amberly puxando a irmã para a carruagem.
Eu indico o primeiro carro para a Olívia e Charlotte, elas seguem em direção a ele e se sentam lá dentro, próximas a Berta. Como Olívia entrou depois de Charlotte eu acabo sentando ao seu lado. Seguimos caminho.
– Muito legal da parte do seu irmão fazer tudo isso por eles. — indica a família real de Illéa que conversa com minha família na carruagem.
– É... — dou de ombros — A ideia não foi bem dele..
– Como assim? — pergunta Berta.
– Clarissa disse que algum nobre sugeriu isso pra ele no aniversário de Annabelle.
– Eu o vi conversando com um rapaz que nunca tinha visto, disse que era de Illéa.
– Não temos nobres em Illéa. — diz Liv me encarando. — Os únicos nobres em Illéa são os da família real.
Vejo que estamos agora em uma das avenidas principais, que está lotada de pessoas, quando chegamos na metade do caminho, ouvimos um barulho ensurdecer quando um carro estacionado não muito longe da carruagem explode...
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