O elfo remanescente
3 Ghanisah
Por um segundo eles pararam de se beijar para respirar, e se olharam nos olhos, como para sentir se realmente aquilo tudo era real. Com um braço só ele a virou de costas para ele, apoiando a sua cabeça contra a tábua da mesa, com a outra mão em seu quadril. Inesperadamente ele puxou os dois braços dela para trás, e habilmente os prendeu com uma corda que estava ao seu alcance. Ele sentiu o corpo dela afrouxar.
—Você achou que eu cairia nessa mesmo? — Falou com um sorriso sarcástico virando-a para si e ajeitando os seios com cuidado para dentro do vestido. Ela estava escabelada e corada, em um misto de vergonha e raiva. Ela ficou alguns segundos digerindo tudo aquilo, pois intimamente ela havia sinceramente o desejado.
—Sim achei, ainda mais por que você está duro feito um osso. — Falou ela apertando os dentes, sem querer disfarçar a raiva.
Ele sorriu abaixando a cabeça como quem se divertia com aquilo:_ Eu tinha de ser convincente. — Disse abrindo os braços e se afastando calmamente.
—E eu devo ter facilitado pra você não é? Você se aproveitou de mim... — Falou de forma agressiva, porém com um olhar cheio de tristeza.
—É realmente eu confesso que exagerei um pouco... Peço desculpas! — Ele parecia sincero mesmo que tivesse um ar de superioridade e tranquilidade. _Mas foi você quem começou. — Completou pegando a blusa no chão e vestindo-a. Ela fez uma careta de raiva. E esbravejou:
—Seu covarde, quero ver a sua cara explicando para Herartes como abusou da futura esposa dele! — Ameaçou ela. _O que será que te aguarda? Sabe que ele é extremamente impiedoso com quem o desafia.
Ele franziu a testa, e com um olhar de pena falou: _Pelo que entendo você desafiou ele quando fugiu de um casamento, que alias vai ser realizado amanhã, não é?
Ela piscou os olhos demoradamente como se procurasse a calma dentro de si, com um suspiro, aparentando cansaço falou torcendo a cabeça para trás indicando os braços amarrados: _Você não precisa me manter assim.
—Não eu não preciso mesmo. A não ser que você queira me atacar novamente. — Ela fez uma careta de impaciência. Uns minutos de silêncio e agora foi ele que suspirou profundamente. Ele tinha uma decisão a tomar. Apoiou-se próximo a lareira e pegando um copo com vinho que antes havia oferecido para ela, tomou o seu líquido em um gole só: _Essa noite você pode ficar aqui. Quando você acordar eu já não estarei mais aqui, então você pode decidir o que fazer. Seguir o seu caminho, ou ficar aqui nesta cabana, ela pode ser sua se quiser... — Disse em tom paternal enquanto caminhava para perto dela. Ele foi atrás dela e gentilmente lhe tirou a corda dos pulsos. Ela vendo-se livre a primeira coisa que fez foi dar-lhe uma bofetada na cara, pegando-o de surpresa.
—Isso foi por ter me tocado! — Disse ela com rispidez, deixando-o visivelmente surpreendido. Aquele ato o divertiu intimamente, esboçado em um sorriso apertado com o canto da boca que ele não soube disfarçar muito bem. Sem fazer rodeios ela caminhou pela cabana, e pegou o copo em que ele havia tomado o vinho e serviu sorvendo o líquido com sede. Colocou novamente a sua capa, e se encolheu nela sentando em frente a lareira sem fogo. Ele entendeu o recado, ela queria se aquecer.
—Eu vou fazer fogo, está ficando frio. — Disse Feagor gentilmente. Algumas horas haviam passado e a noite já havia chegado. Porém a mulher se mantinha em total silêncio, o qual ele não ousara quebrar. Ela estava encolhida olhando para o fogo crispar na lareira presa em seus próprios pensamentos, Feagor tinha a impressão que ela se tratava de uma estátua. Então deixo-a ali e foi providenciar o jantar que em poucos minutos estava pronto. Ele fez o melhor que pode e acreditava que tinha arrasado.
—Coelho com batatas. — Disse ele orgulhoso estendendo um prato para ela que ainda estava sentada no chão. Ela agradeceu pegando o prato sem esboçar emoção. Levou um pedaço da carne na boca enquanto Feagor lhe observava. _Eu estou com fome, está delicioso! — Disse enchendo a boca com batatas. Ela parecia se quer ter ouvido o moço. Comeu mais um pouco revirou as batatas e afastou o prato aparentando estar sem apetite.
—Aqui é tão frio... — Disse ela finalmente, parecendo perdida nas chamas da fogueira. Ele se animou por ouvir a voz dela novamente. Se aproximou e curioso questionou:
—De onde você veio? — Como ela não respondeu ele continuou: _Sua aparência e sotaque não são comuns aqui...
—Macedônia... — Após um silencio breve continuou:_Meu pai era um rei na Pérsia, minha mãe egípcia, meu nome é Ghanisah. Quando a Grécia atacou a Pérsia, minha mãe e eu fugimos para a Macedônia, no berço do inimigo, pois tínhamos parentes que nos ajudariam lá. Por alguns anos vivemos escondidas, mas um dia minha mãe fora descoberta, e como eu era apenas uma menina de 16 anos, fui vendida como escrava... Quando tinha 19 anos fui parar na casa de de ninguém mais que Alexandre, o Grande, eu era a sua.... — Ela titubeou fazendo uma breve pausa e nesse momento uma lágrima silenciosa escorreu pelo rosto. _ Ali conheci um soldado, Arquirius. Nos apaixonamos, e ele prometeu me libertar da escravidão e casar-se comigo. Como era muito próximo de Alexandre, ele pediu para ele a minha soltura, porém era tarde de mais. Alexandre, que já havia notado a nossa aproximação, havia me vendido para Herartes, que me conheceu em uma das festas que Alexandre fez em seu palácio. Arquirius suplicou para Alexandre, mas Alexandre nutria secretamente por ele uma paixão não correspondida, então negou ferozmente. — Ela sorriu tristemente olhando para Feagor, que acompanhava com atenção e emoção o relato. _ E agora aqui estou após dois anos que Hertartes me trouxe como escrava.
—Mas por que te parece tão ruim ser senhora de todas essas terras?
—Herartes é perverso. Ele me machucou e machuca de todas as formas possíveis. Além do mais Arquirius veio secretamente me salvar. Foi ele quem mandou os homens para me libertar de Herartes. Eles me entregaram um papel que diz que Arquirius me espera na fronteira sul, preciso chegar lá dentro de 26 dias.
—Isso é impossível, a cavalo a fronteira sul fica a quase 30 dias daqui ainda mais para uma mulher sozinha... é muito perigoso.
—Ele não contava que os 7 homens que ele mandou acabassem mortos pelas mãos dos cavalheiros de Hertartes.
Feagor suspirou preocupado. Se sentiu envergonhado por ter tratado ela de forma maldosa. _ Eu vou partir amanhã... eu poderia te acompanhar até a fronteira... — Falou em um tom incerto. O rosto de Ghanisah se iluminou em um sorriso, fazendo com que Feagor se alegrasse também.
—Você tem alguma outra roupa ai que não seja essa? — Perguntou ela apontando para si mesma. Ele fez uma careta pensativa.
—Posso ver se tenho alguma coisa ali dentro... — Entrou no quarto e depois de alguns minutos voltou com uma saia antiga nas mãos, exibindo-a para Ghanisah. _ Alguém deve ter esquecido aqui...
Ghanisah sorriu maliciosamente: _Como que alguém pode esquecer uma saia em algum lugar? — Ele fez alguns gestos e abriu a boca tentando se explicar, então ela o salvou do impasse: _Ah deixa pra lá! — Ela se levantou e pegou a saia, falando: _Preciso também de uma blusa, você tem uma blusa também? — E mostrando os pés descalços completou: _Sapatos, não iam nada mal também.
Feagor tirou do corpo a camisa que tinha de forma exibicionista, e por que ela fez uma careta de desaprovação justificou: _O que foi? é a melhor que eu tenho! Assim que ele completou ouviu o barulho de tecido rasgando. Ghanisah rasgou as mangas da blusa branca. _O que você... — Não deu tempo de ele completar, pois ela deu alguns passos em direção a escuridão do quarto. Feagor então procurou alguma outra coisa para vestir. Sobre uma cadeira tinha uma blusa velha muito parecida com a que Ghanisah tinha rasgado, vestiu-a. Voltava-se para sentar na lareira novamente, quando sem querer de relance viu a moça no quarto se trocando. Parou. Ela estava nua e de costas, os cabelos jogados para frente, a pouca luz que vinha da lareira, desenhava a sua silhueta em tons quentes. Ficou em silêncio a observando, seus pés pareciam de chumbo e ele não conseguia movimentar-se, podia sentir batimentos de seu coração acelerado. Neste momento um sentimento de ternura se apossou dele, e uma tristeza invadiu o seu ser, ele já havia vivido isso muitas e muitas outras vezes, para ele negar ou não saber do que se tratava. Ela vestiu a saia ainda de costas e virou leve e vagarosamente a cabeça para trás, como quem sabia que estava sendo observada. Feagor então deu um pulo, virou-se parecendo acordar, deu alguns passos firmes, em uma direção qualquer. Viu no chão próximo a mesa, a joia que Ghanisah usava por baixo do vestido verde. Caminhou até lá e segurou o fio dourado e delicado entre os seus dedos observando com carinho. Rapidamente o jogou no bolso quando viu que ela entrava na sala com o novo traje.
—E então? Como estou? — Disse ela satisfeita com a sua nova roupa abrindo os braços para se exibir.
Ele a contemplou com emoção e aquele homem bruto sorriu timidamente.
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