Não era dia ainda quando Feagor jogou uma trouxa por cima do lombo do cavalo e ajudou Ghanisah subir, ele pegou as rédeas do cavalo e o conduziu caminhando ao lado da moça. Partiram. Antes de a cabana sumir do campo de visão, Feagor virou-se e olhou demoradamente para a velha construção iluminada por raios de fogo que vinham do horizonte. Ghanisah se enterneceu, ao mesmo tempo que se recriminou por tê-lo julgado um homem rude e sem sentimentos.

O caminho foi sendo seguido em silêncio. Só depois de um tempo Ghanisah falou:

—Você mora aqui desde que nasceu?

Ele olhou para ela, e ela não pode entender o pq ele sorriu ao responder:

—Digamos que sim. — Limitou-se ele.

—Você não tem família? — Ela pode ver que o olhar de Feagor se tornou sombrio, como se uma nuvem negra se fizesse em seus pensamentos, e por que ele não respondeu ela insistiu: _Digo, esposa, filhos...

—Não... não mais. — Respondeu pensativo.

—Você não está cansando? Pode vir aqui comigo... não vou me importar. — Disse com simpatia indicando o lombo do cavalo atrás dela.

Ele espremeu os lábios, e falou:_Obrigada por se preocupar com o meu conforto, mas estou bem aqui!

Ela sentiu que ele estava evitando-a de certa forma.

—Por que você me ajudou?

—Bem, eu não tinha nada muito importante a fazer, então resolvi dar uma encrencada na minha vida. — Ele a fez sorrir pelo jeito debochado de falar.

—Eu não costumo agir daquela forma... — Tornou ela com certa encabulação.

—Como? — Perguntou ele espremendo os olhos pra ela, fazendo-se que não sabia do que ela estava falando. Isso a embaraçou e ela gaguejou um pouco ao falar e gesticulou infantilmente:

—Quando eu... quando eu o beijei... eu estava desesperada... eu achei seria a unica forma de você deixar eu ficar...

—Bem de certa forma deu certo não deu? — Disse ele gesticulando de forma engraçada, o que a fez sorrir baixando a cabeça sentindo as bochechas quentes de vergonha. Ele também sorriu. Depois de mais alguns minutos longos de silêncio Ghanisah perguntou impaciente:

—Você não acha que estamos indo muito devagar? Desse jeito vamos demorar uma eternidade... — Disse ela fitando o horizonte verde e as montanhas ao fundo.

—Estamos evitando a estrada por que os guardas estão vigiando-a. Desta forma vamos cruzar o vale e vamos por dentro da floresta, antes que os guardas se deem conta e comecem penetrá-la. Vamos desde já avançar, sem deixar rastros, assim conseguimos chegar antes para que você possa encontrar o seu amor... — Feagor disse a palavra amor em tom de deboche.

—E você?

—O que tem eu?

—Pra onde você vai? O que você vai fazer?

—....ainda não sei ao certo. — Pensando mais um pouco ele reiterou: _Vou procurar outro lugar para morar.

—De quem ou o que você está fugindo?

Essa pergunta o surpreendeu e o deixou pensativo. Era difícil admitir mas ele realmente estava fugindo... novamente. Então falou: _Estou fugindo de mim mesmo.

Ela não ousou a falar mais nada por um bom tempo.

A viagem seguiu tranquilamente. Cada um imerso em seus pensamentos. Pararam em um vale por onde corria um rio de água gelada vindo das montanhas, ali se alimentaram e deixaram o cavalo descansar. Após seguiram o caminho por uma estrada ingrime que cada vez subia mais. Em determinado ponto Ghanisah chamou a atenção para a paisagem, e Feagor parou para admirar também. Já estava entardecendo e a planície aos seus pés estava ricamente iluminada por raios solares das mais diversas cores. _É lindo não é?

Feagor procurou com cuidado um lugar para passarem a noite. Em uma fenda na montanha acendeu uma fogueira tímida e providenciou uma cama para ele e do outro lado da fogueira acesa apenas com brasas para não chamar atenção na escuridão da noite. Não fazia muito tempo que eles haviam deitado e Ghani começou a tremer de frio. Ela se sentou inquieta esfregando os braços. Feagor que estava de costas pra ela se virou e aparentando impaciência ergueu o cobertor convidando-a silenciosamente para deitar-se com ele. Ela pareceu pensar por alguns momentos, por que a cara dele não estava das melhores, mas rapidamente aceitou e se encolheu ajeitando-se no abraço quente de Feagor, sentido o seu calor, sem dar-se conta posicionou a sua mão no peito dele, e ergueu a cabeça, então sem querer se cruzaram o olhar. Ele pode sentir a respiração dela acelerar ao mesmo tempo que a mão dela subia e tocava em sua barba. Repentinamente ela se apoiou nos cotovelos e gesticulou, falando:

—Eu vou... — Ela queria dizer que ia se virar para o outro lado, mas quando se deu por conta que não precisaria avisar não terminou a frase. _Boa noite! — Disse enquanto ajeitava-se de costas para Feagor. Se ele pudesse ver, ele veria que ela não pregou os olhos por muito tempo. Ele então, virou-se com a barriga pra cima e ficou olhando o pedaço de céu que aparecia da caverna, assim deixou os pensamentos vagarem pelas poucas estrelas, sentindo saudade de alguma coisa que nem ele mesmo sabia o que.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.