O doce sabor do apetite!
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O doce sabor do apetite!
Clarice Lispector
Ela era magra, alta, morena e de cabelos excessivamente cacheados, bem longos. Tinha um pequeno busto , enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia um dos bolsos da blusa, com balas. Mas possuía o que qualquer adolescente devoradora de doces gostaria de ter: uma mãe dona de confeitaria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um bolinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-convite da loja da mãe. Ainda por cima era de paisagem de Minas Gerais mesmo, onde morávamos, com suas montanhas mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “brigadeiro” e “doce de leite”.
Mas que talento tinha para as doçuras. Ela era puro mistério, mascando balas com barulho. Como essa adolescente devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente gordinhas, baixinhas e de cabelos livres. Comigo exerceu com calma e mansidão. Na minha ânsia de doces, eu nem notava as humilhações a que ela me propunha: continuava a implorar-lhe os doces que ela não comia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura italiana. Como casualmente, informou-me que possuía um delicioso macaron italiano.
Era um doce lindo e colorido, meu Deus, tinha um maravilhoso sabor, comendo-o no almoço ou no jantar. E, completamente acima de minhas posses. Ela me falou para eu passar na confeitaria no dia seguinte, eu me transformei na própria ansiedade: eu só pensava nos doces, me tornei uma verdadeira devoradora de doces, nada mais me vinha a mente.
No dia seguinte fui à sua confeitaria, literalmente correndo. A confeitaria era deslumbrante. Eu me imaginei morando ali pertinho. Me convidou a entrar e olhando bem para meus olhos, disse-me que havia doado os doces a outra adolescente, e que eu voltasse no dia seguinte. Tristonha, saí lentamente, não sabia eu que a ansiedade de novo me tomava e eu andava pela rua pulando, que era o meu modo distinto de andar pelas ruas de Minas Gerais. Dessa vez nem caí, com pensamentos na promessa de ganhar os macarons, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor por doces me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha da dona da confeitaria era tranqüilo e amigável. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua confeitaria, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: os doces ainda não estão prontos, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indeterminado. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para ser mais paciente, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer mais calma, paciente e tranqüila.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua confeitaria, sem faltar um dia sequer. E ela repetia sem parar que tinha doado todas as vezes o meu macaron. Fique tão triste com essa situação que comecei a mudar de cor.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua confeitaria, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela adolescente a porta de sua confeitaria. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entre cortada de palavras pouco criativa. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas estes doces nunca saíram daqui de casa e você nem quis comer!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta incrível da filha na qual me testava. Ela nos espiava em silêncio: a potência persistência de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Minas. Foi então que,finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai dar os doces agora mesmo. E para mim: “E você pega os doces e coma quantos quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar os doces: “por quanto quisesse” é tudo o que uma adolescente na sua faixa etária pode querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi os doces nas mãos. Acho que eu não falei nada. Peguei os doces. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava um delicioso doce com as duas mãos, colocando –os no meu bolso. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a comer. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, comi alguns maravilhosos, fechei-o de novo, fui passear pela casa,adiei ainda mais indo ler um livro, fingi que não sabia onde guardara os macarons, achava-o,abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquele doce sabor do apetite . Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com a caixa de macaron no colo, sem come-los, em êxtase puríssimos.
Não era mais uma adolescente com alguns doces: era uma turista na Itália com seus macarons. (LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998).
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