O doce mais simples

1 O doce mais simples


Era um lugar onde a vida era boa, parecia não fazer parte do resto do mundo. Era simples e acolhedor, um lugar onde as pessoas se preocupavam umas com as outras, mas nem sempre foi assim. Antes tudo era como no resto do mundo, mesmo assim aquele lugar possuía um potencial genuíno, ficava distante, isso era o suficiente para que uma vez mudado se conservasse assim, e as mudanças começaram com um homem. Pouco se sabia sobre ele, só que era muito rico, rico o suficiente para mudar tudo a sua volta.

Uma grande casa foi construída no topo da colina mais alta, de lá podia-se ver longe e é claro, a casa também podia ser vista por todos. Não demorou muito para que todos começassem a especular sobre o tal homem. Suas contribuições foram tantas, que depois de pouco tempo a cidadezinha havia mudado completamente. O lugar perfeito, uma parte do mundo longe do mundo.

Diferente do que todos imaginavam, o homem misterioso não era um figurão excêntrico que fazia o que fazia por capricho. Assim que deu as caras, todos notaram que era só um homem e que, nem de longe parecia querer ser mais que isso. Sempre que precisava explicar algum dos seus atos de extrema gentileza, ele tentava deixar claro que não estava sendo altruísta:

— Minha filha acabou de nascer — dizia ele. —, só estou tentando construir um bom lugar para que ela possa crescer feliz. — Mesmo assim, ele nunca pedia nada em troca, mesmo assim, ele sempre acabava recebendo algo, nem que fosse um sorriso ao cumprimentá-lo. Ninguém por ali podia retribuir a altura, mas todos tinham alguma pequena gentileza ao dispor, quando precisava cobrar um favor o homem sempre pedia ajuda com favores para outras pessoas. Assim o carpinteiro concertava o telhado da costureira, que grata arrumava as roupas do pescador, este não pensou duas vezes ao oferecer seu braço para ajudar na reforma da escola. Foi uma reação em cadeia bem orquestrada.

As ruas estavam limpas e seguras, as praças e parques foram reformadas, empregos surgiram com o crescimento e os estabelecimentos prosperavam, mas o melhor é que as pessoas estavam se ajudando. Foi como se aquele homem tivesse expulsado a pobreza dali, e junto com ela, uma porção de outras coisas ruins.

A princesinha, como era chamada, surgiu quase junto com o pai, primeiro no seu colo, mais tarde sobre os ombros, depois, sempre de mãos dadas. Ela era linda, não parecia exagero que fosse chamada de princesa. Seu pai se recusava a usar uma coroa e jamais ousou emitir um decreto e repudiava qualquer tentativa de veneração, de fato ele tinha um reino e com certeza sua casa no alto da colina se assemelhava com um castelo, mas ele só se permitia sentir-se como um rei por ter com sigo sua princesa, então desde cedo todos aprenderam a chama-la de princesa, assim como o pai fazia. Sempre que ela aparecia, ninguém poupava sorrisos e gracejos, afinal, conforme o homem dizia; era ela o motivo de toda aquela mudança na cidadezinha.

O tempo passou e a princesinha fez 7 anos, nessa época já ia e vinha sozinha, nunca muito longe de casa. Todos a tratavam como seu título pedia. Comerciantes lhe ofereciam doces, todos estavam sempre dispostos a ajudar com o que for que ela precisasse, a pequena era sempre a mais educada, estava sempre bem vestida e com o cabelo bem arrumado, era com certeza a filha do rei.

Em um dia declarado especial, passeando com seu pai, a menina viu uma porção de crianças passarem correndo. Do jeito que corriam animadas, pareciam estar indo ver alguma coisa extraordinária, mas não estavam indo a lugar algum, só ficavam correndo de um lado para o outro, umas atrás das outras, uma brincadeira simples que a menina não entendia muito bem. Eram tantas crianças e todas elas pareciam se divertir. A menina usava um vestido novo, afinal, era seu aniversário de 08 anos e seu pai sabia bem como fazer ela se sentir o centro do mundo, mas seu mundo ainda era muito pequeno e o homem queria muito contornar isso naquela data. Aquele homem podia ser genial, mas quando se tratava da pequena ele nunca tinha certeza de nada, ou melhor, ele sempre queria ter certeza e por isso estava sempre incerto.

—Por que não vai brincar também? —A pergunta do pai interrompeu os pensamentos da menina.

Ela considerou por um instante, já conhecia a maioria daquelas crianças. Nenhuma delas nunca havia lhe tratado mal, pelo contrário, eram sempre muito educadas e receptivas, mas por outro lado, nenhuma delas era tão próxima. Eles agarravam uns nos outros, pulavam uns em cima dos outros, se abraçavam, se puxavam e se empurravam. Entre eles e ela existia uma distância que ela não sabia como avançar, mas se precisava de um motivo, o que pensou na hora foi:

— Não quero acabar sujando meu vestido. — E deu um largo sorriso para não preocupar seu pai.

— Sabe de uma coisa? — disse o homem. — Sempre podemos comprar vestidos novos, mas um dia como esse, eu não sou capaz de te presentear com algo assim.

O homem estava preocupado, algo em sua conduta com a filha não estava certo, o melhor, sempre o melhor, era nisso que ele pensava e naquele dia, ele ainda não conseguia enxergar o próprio erro.

Foi naquela mesma época que um garoto surgiu, se mudou com a mãe para a cidadezinha e não demorou muito para surgir uma confeitaria. Naquele lugar as crianças eram as donas das ruas, os adolescentes além da escola tinham sempre que ajudar os pais em casa ou nos estabelecimentos, mas as crianças viviam correndo de um lado para o outro como se fossem imunes ao tedio. Ao ouvir que havia um novo garoto na cidade as crianças ficaram animadas para recrutar mais um aventureiro, outro explorador, quem sabe fosse também mais um super-herói, no mínimo mais um bom jogador de futebol, os meninos adoraram a ideia de não ter que completar os times com meninas, as meninas não ligavam contanto que ele não fosse tão bobalhão como os outros. Cidade pequena, não era todo dia que recebiam pessoas novas. No início o menino não tinha muito tempo para brincar, embora fosse ainda bem pequeno e fraco, era a única ajuda que sua mãe tinha, mesmo que muitos outros oferecessem ajuda, nenhum dos dois estava acostumado com aquele tipo de gentileza e no inicio preferiam fazer as coisas como de costume, por conta própria. Não era por mal, dava para ver de longe como a vida havia sido dura para aquela mulher e seu pequeno filho e confiar nas pessoas não era tão fácil. O menino tinha quase que a mesma idade da princesinha, ainda que fosse ainda muito pequeno já sabia o que era trabalhar duro, nunca reclamava, era sempre “sim senhora” isso, “sim senhora” aquilo. Sua mãe era sim bem rígida, mas não implacável, ele sabia como era importante que as coisas estivessem ajeitadas o mais rápido possível, por isso ele dava duro. Quando tudo finalmente completaram a mudança e puderam abrir a confeitaria ele teve sua recompensa, finalmente ele pode conhecer e brincar com as crianças das redondezas e foi esse o dia do desastre.

Quando o homem soube que sua cidadezinha havia crescido um pouquinho, ele ficou muito animado. Eles haviam se mudado para uma casa velha, caindo aos pedaços e aquele bom homem não podia deixar isso passar, já se preparava para tomar as medidas necessárias quando sua filha chegou chorando.

—Papai, papai! — Ela gritava entre soluços.

—Calma, calma, me conta o que foi que aconteceu. — Ele disse segurando-a pelos braços. Em nenhum momento o homem se assustou, antes que tivesse a resposta ele olhou bem e não achou nenhum machucado, mas o vestido da menina estava meio molhado.

—O menino novo papai, o menino novo jogou água em mim.

O homem pensou por uns segundos e disse:

— Só isso, é por isso que está chorando?

— Não foi só isso papai, ele queria me humilhar na frente dos meus amigos. Papai aquele menino é mau, por favor expulse ele da cidade papai. Eu quero que ele vá embora.

O homem soltou a garotinha e se levantou, respirou fundo com um olhar serio no rosto. A menina sabia bem que aquele homem faria tudo por ela, ele já tinha prometido isso uma porção de vezes. Ao ver a expressão tão seria do seu pai, ela sabia que ele faria justiça.

— Tome um banho e se troque, eu vou sair por um momento.

Feliz ao ver seu herói agir, a menina obedeceu.

O rei deixou seu castelo pensativo, naquela altura ele já imaginava que aquele não era um problema tão simples de resolver. Calmamente ele desceu a estradinha de pedra até a praça no centro da cidade. Já podia ver o aglomerado de crianças, mas elas não estavam tão agitadas como de costume. Assim que o viram ficaram apreensivas, algumas correram para casa, mas uma garotinha veio ao seu encontro.

— Senhor, senhor, por favor não expulse ele. — Ela disse implorando com os olhos.

—Tenha calma criança, este lugar não é meu para expulsar alguém. Além do mais, acha mesmo que eu sou tão mau?

A pergunta acalmou o coração da pequena, aquele homem não era mau, definitivamente ele não era nem um pouco mau.

— Agora, pode me contar exatamente o que aconteceu?

A menina ficou feliz em ajudar, também, assim poderia aproveitar a oportunidade de expor a verdade de seu ponto de vista e favorecer ao garoto. Claro que como uma criança ela não pensava tão a frente, tudo que fez foi justiça inocente.

O relato foi detalhado o suficiente. O homem voltou para seu castelo satisfeito, mas envergonhado. Em casa a menina lhe perguntou inúmeras vezes se o garoto havia sido expulso da cidade, mas o pai não respondeu. A noite chamou-a para sair, mas desta vez não pegou em sua mão, tinha no rosto uma expressão séria e determinada, o que fez a garotinha ficar apreensiva.

A noite naquela hora, a pracinha estava sempre cheia, mesmo naqueles dias comuns, por ali sempre tinha uma porção de barraquinhas de guloseimas, mais parecia um pequeno festival. Era comum sair para caminhar e comer alguma coisa gostosa naquele horário, mas naquele dia não era esse o caso.

Eles foram em uma outra direção, caminharam pelas ruas de pedra para longe do movimento até um lugar um pouco mais afastado, e então puderam avistar a casa velha para qual o garoto e sua mãe haviam se mudado. O homem ficou surpreso em ver que a frente da casa já havia sido reformada mesmo antes dele ter feito o pedido, claro, era a confeitaria nova, mesmo que a casa fosse velha a mulher não deixaria seu estabelecimento com uma aparência ruim.

— Papai, esse é...

— Silencio, de agora em diante só fale se eu pedir. — Ele interrompeu a menina de forma brusca como nunca havia feito antes. Só de ouvir seu pai falando daquela forma a menina sentiu vontade de chorar, se conteve por medo.

O homem bateu na porta e não demorou muito para ser atendido. A mulher ficou espantada ao reconhecer o visitante, diferente dos demais moradores dali ela não o recebeu com um sorriso, sua expressão não era das melhores.

— Boa noite —disse o homem. — Espero não estar incomodando.

— Não, tudo bem, entre.

O homem entrou sem receios e a menina ao seu lado mesmo acuada pensava com sigo mesma que não haveria nada a temer, seu pai era seu herói afinal. Então ela caminhou para dentro com orgulho.

A casa era mesmo velha, a madeira estava visivelmente podre e cheirava a mofo, além disso as coisas estavam bagunçadas, caixas por toda parte e poucos moveis. A mulher tratou logo de se explicar.

— Desculpe pela bagunça. Desde que nos mudamos estamos trabalhando feito loucos para deixar a confeitaria pronta então ainda não tivemos tempo de arrumar aqui.

Alguma coisa no que ela disse fez o homem sorrir e seu sorriso deixou a mulher curiosa e meio irritada.

— Desculpe — disse o homem notando o desagrado da mulher. — Achei legal como disse, “nos mudamos”, “estamos trabalhando”, “não tivemos tempo”.

— Ah sim, eu e meu filho. Foi por ele que veio, não é? Pelo que aconteceu hoje?

— De fato, foi por isso que eu vim.

Desde que entrou o homem deu uma boa olhada em volta, mas não viu nem sombra do garoto em lugar algum.

— Onde ele está?

— No quarto de castigo, onde devia, é claro. Lhe asseguro que eu já lhe puni e que não voltara a acontecer nada assim.

A mulher mesmo se fazendo de durona parecia preocupada. O homem não era dono da cidade, mesmo assim com toda influencia que possuía, expulsar alguém não seria tão difícil, só iria na contramão do caráter que havia mostrado ate então.

A mulher embora ainda fosse jovem carregava nos olhos toda a dureza com a qual a vida havia lhe tratado, era uma batalhadora e estava pronta para se defender e ainda mais pronta para defender seu garoto. Com cuidado a mulher ajeitou um lugar na sala para que pudessem se sentar e conversar, serviu café, que era tudo que tinha no momento, só depois que ela também se sentou o homem continuou.

— Senhora, pode me dizer por que puniu seu filho com esse castigo?

Era uma ótima oportunidade de ela mostrar como era séria e rigorosa.

— Nesse momento ele está proibido de sair do quarto, mas eu também lhe dei uma surra pelo que fez.

O homem arregalou os olhos.

— Você bateu nele?

A mulher ficou surpresa com o espanto no rosto do homem.

— Claro que sim, eu não o machuquei nem nada, foi só o merecido pelo erro que cometeu. —Ela disse com orgulho.

“As mães são assustadoras” O homem e sua filha pensaram em sintonia.

— E que erro seria esse?

— O senhor não sabe o que aconteceu?

— Bem sim, mas do meu ponto de vista, o seu menino não cometeu erro algum.

Desta vez foi a menina que ficou chocada, não esperava que seu pai ficasse do lado oposto. Seu maior medo naquele momento, era que seu pai simpatizasse com a forma brusca de educar daquela mulher e resolvesse fazer igual.

— Me perdoe, mas o senhor deve estar errado. Ele mesmo admitiu o erro e em nenhum momento questionou sua punição.

— Então é esse o problema. — O homem ficou confuso por um momento, mas pensou em uma forma simples de resolver o mal-entendido. — Teria a bondade de pedir que seu garoto se junte a conversa? Tem algumas coisas que eu gostaria de esclarecer.

— Senhor, desde que chegamos tenho ouvido sobre tudo que fez por essa comunidade, ninguém ousaria se opor aos seus desejos, mas não vejo por que levar isso adiante. Devo lhe advertir que não deixarei que ninguém faça mal ao meu filho. Se vai nos expulsar daqui não precisa ter todo esse trabalho.

— Será possível? —O homem mostrava sua indignação no tom de voz. —Senhora, temo que o que possa ter ouvido, de alguma forma lhe passou uma impressão errada sobre mim. Acontece que agora mesmo eu estou extremamente envergonhado pelo que aconteceu e gostaria muito que seu filho me ajudasse a esclarecer a situação. Eu não ousaria fazer mal ao seu menino, nem pretendo lhe expulsar daqui, por favor não pense mais nisso.

Depois de ouvir aquelas palavras sinceras a mulher se sentiu mais aliviada e sentiu que não era mais necessário proteger o garoto, então ela tratou de traze-lo sem demora.

O garoto tinha uma aparência simples como a mãe, nada nele se destacava, mesmo assim o homem sentiu uma profunda admiração assim que pôs os olhos nele. Mesmo se esforçando para não chorar, não podia esconder a vermelhidão em volta dos olhos e estava morrendo de medo.

Antes de mais nada o homem perguntou o nome do garoto, o menino até tentou responder, mas gaguejou tanto que a mãe o interrompeu explicando seu problema para falar e respondendo à pergunta do homem.

— Entendo. —Ele disse, o homem começou a entender melhor por que isso tinha chegado onde chegou. —Pode me contar com as suas palavras o que foi que aconteceu hoje de tarde na praça.

O garoto acenou positivamente com a cabeça e depois começou o relato. Começou pedindo desculpas, pois segundo ele, logo quando teve um tempo para brincar acabou cometendo um erro terrível. Estavam brincando na fonte, jogando água uns nos outros quando a menina se aproximou, o erro terrível foi ter jogado água na menina também. Gaguejando e com estrema dificuldade ele jurou que não sabia que ela estava usando um vestido tão valioso e implorou as lagrimas, que não fossem expulsos daquela cidadezinha tão bonita e boa de se morar.

O homem ouviu tudo com atenção e ao final disse:

— Eu ouvi uma coisa diferente, parece que a sua história não reflete exatamente a verdade completa.

A menina que até então estava apreensiva ficou muito feliz de ouvir seu pai dizendo isso, esperava que ao seguir que ele repreendesse o moleque, mas não foi bem o que aconteceu.

— Senhor — disse a mãe. —, meu filho não é mentiroso, além do mais ele acabou de admitir seu erro e se desculpou, tenho certeza que não há nada além disso.

— Não ele não é mentiroso, mesmo assim me contou só uma parte. Eu ouvi a história completa e tenho certeza que ele teria mais de uma forma de se defender, para fazer isso ele teria que acusar, mas ele preferiu aceitar a culpa. Tem um ótimo rapaz senhora.

A mulher se sentiu toda orgulhosa e não viu mais motivos para se intrometer na conversa. Serviu mais café com um sorriso no rosto.

— Sabe garoto, o que minha filha fez me envergonha muito. Eu nem tenho coragem de repetir o que ela disse para você, também não vou pedir que você me conte, isso parece ir contra seus princípios e isso é algo que eu não quero alterar. Eu também não tenho intenção de esconder minha vergonha, por isso trouxe minha filha comigo, a única capaz de repetir aquelas palavras.

— Mas pai...

— Calada. — Ela ia protestar, mas foi interrompida bruscamente. — Ainda não pedi que falasse.

O homem se voltou para o menino e continuou:

— Pode ser que seja difícil, mas quero que ouça com atenção mais uma vez as asneiras da minha filha, isso será a prova da minha vergonha e seu orgulho daqui em diante. Sua mãe também merece saber o que aconteceu de verdade.

O menino mais uma vez acenou positivamente. O homem então, se virou para sua filha e ordenou que repetisse cada palavra que ela tinha dito naquela tarde. A menina, mesmo relutante não podia ir contra a vontade do seu pai, nunca sentira tanta vergonha quanto naquele momento, mesmo assim ela fez como ele mandou.

— Ele me molhou, aí eu fiquei brava, disse que ia pedir para o senhor mandar ele embora daqui...

— O que mais? — Ela pensou em parar por ali, mas o homem não deixou.

— Disse que meu vestido valia mais que a casa que ele morava... — O olhar do pai dizia claramente que esperava ouvir o resto. — Eu ri dele quando tentou falar e não conseguiu, disse que as roupas dele eram velhas...

Continuou assim até não sobrar mais nada. A alma da menina estava exposta e era feia demais. A mãe do menino entendeu por que não deveria tê-lo punido e sentiu um misto de culpa e orgulho. O garoto ainda não entendia o proposito daquilo tudo.

— Diga pequeno — disse o homem calmamente. —, por que jogou água nela?

— N-na hora eu nã-nao sabia quem ela era.

— Foi por isso mesmo? —O homem esperava algo mais, o menino não sabia exatamente o que ele queria ouvir, mas de fato tinha mais.

— E-eu achei que ela q-queria brin-brincar também.

— Como poderia saber disso? — Dessa vez foi a mãe que perguntou.

— O ro-rosto d-dela, parecia...

—Ai está, a verdade mais bonita de todas. Você é muito corajoso.

A essa altura o garoto já estava bem mais relaxado.

— Nnão é verdade senhor, a alguns m-m-minutos e-eu estava morrendo de m-medo.

— Não achou que eu fosse te bater ou algo assim, não é?

— N-não é por isso, achei que fosse nos expulsar. Deu m-muito trabalho para a ma-mãe con-conseguir esse lugar. Seria m-minha cu-culpa.

— É claro, mesmo os mais corajosos ficam com medo quando a família está envolvida, mas não daria medo se só você fosse punido. Alguém como você, se eu chegasse aqui e dissesse que ficaria tudo bem te dando uma surra, você provavelmente ficaria grato em apanhar, tenho certeza.

O garoto ficou encantado ouvindo as palavras daquele homem, nunca na vida havia tido uma figura masculina para se espelhar e agora, depois de alguns minutos já sabia como queria se parecer quando adulto. Não envolvia seu trabalho nem nada do tipo, só queria ser alguém que possuísse aquelas palavras, alguém capaz de falar coisas tão legais.

— Bem, eu não vim aqui só para expor a vergonha da minha filha — disse o homem. —, quer dizer, nossa vergonha. O que aconteceu não pode ser perdoado somente com um pedido de desculpas, mas eu tenho uma ideia em mente.

— Não senhor, um pedido de desculpa é o suficiente — disse a mãe. — Você se deu o trabalho de no visitar, não guardamos magoas nessa casa. Creio que o assunto está encerrado.

— Poderia, mas a pessoa errada foi punida e nesse caso não há como voltar atrás senhora.

— Mas esse foi meu erro, eu arcarei com ele.

— Não posso permitir, além do mais, depois de ver como educa esse rapaz minhas falhas como pai ficaram expostas. Quero uma chance de educar minha filha da mesma forma.

A menina tinha lagrimas nos olhos, estava envergonhada e furiosa. Seu erro não tinha ferido somente a ela mesma como também seu pai perfeito.

— S-senhor por favor, n-não bata ne-nela. — O menino disse. — Eu sou um homem e aguento, mas ela é uma m-menina, além do m-mais mi-minha m-m-mãe não bate muito forte.

Ao ouvir a declaração tão corajosa a mulher abriu a palma da mão sobre a cabeça do garoto e disse:

— Eu não bato forte o suficiente então?

Mães são assustadoras. — Pensou o homem.

A menina estava com medo de que fosse mesmo apanhar, nunca na sua vida pensou que seu pai fosse capaz de tamanha crueldade com ela, mas o que estava por vir era ainda pior.

— Rapaz, você não para de me surpreender. Não se preocupe, não é que eu não ache que ela mereça uma boa surra, mas eu sou um pai fraco. Se a mãe dela ainda estivesse por aqui, eu poderia deixar isso nas mãos dela. Eu tenho outros planos. Sabem onde eu moro?

Os dois confirmaram com a cabeça.

— Queria que morassem lá ao invés daqui.

— Quer que moremos com o senhor? — Perguntou a mãe.

— Não exatamente, eu e minha querida filha moraremos aqui.

De alguma forma soou como uma piada. O rei não poderia abrir mão do seu castelo, isso não fazia nenhum sentido.

Após alguns segundos de choque, a mãe finalmente disse:

— O senhor não iria tão longe só para dar uma lição na sua filha?

— C-com certeza e-e-ela preferiria uma su-surra. — Completou o garoto e ele estava certo. A menina que sempre teve tudo já havia estado em casas velhas antes, mas não uma como aquela, só de pensar em viver ali já dava vontade de chorar, pior ainda imaginar o que as outras crianças diriam sobre ela.

— Senhor, as crianças cometem erros, tenho certeza que uma mocinha tão comportada como essa só precisa de uma boa conversa.

— Não me entenda mal senhora, essa mudança que mencionei não será como uma punição para ela, é só um reajuste necessário. Não há nada com o que eu me preocupe mais do que a educação da minha filha. Fiquei decepcionado comigo mesmo quando percebi minha falha que deveria ser tão óbvia. Acho que é muito mais fácil errar quando se está tentando acertar, não é mesmo?

Nem a mãe nem o filho conseguiam entender onde o homem queria chegar com tudo aquilo, com certeza agora ele se parecia com um rico excêntrico, arrastando a própria filha para suas ideias de justiça.

— De qualquer forma senhor —disse a mãe. —, nos já trabalhamos um bocado nesse lugar, já até conseguimos alguns clientes, logo, logo, conseguiremos reformar essa casa e tudo vai ficar bem.

— Disso eu nunca tive dúvida, por aqui seu negócio vai prosperar com certeza, mas eu insisto que troquem de casa conosco, com certeza será um ponto melhor para sua confeitaria. É uma casa grande, não precisara adaptar muito para o negócio funcionar.

— Não, não é essa minha preocupação. Não sei quantas vezes ouvir falar do senhor desde que cheguei aqui, tirar o senhor da sua própria casa seria como arrumar briga com todo mundo.

— Eu me encarrego para que isso não aconteça.

— D-desculpe senhor. —O menino teve de interromper a conversa adulta para chamar a atenção dos dois para um ponto que lhe incomodava. — M-m-mesmo que e-essa casa pareça p-p-p...

— Tente respirar — disse o homem.

— Pequena e velha. — Ficou mais fácil depois de respirar fundo. — Ainda é um dos m-melhores lugares que já m-mo-moramos.

O homem não entendeu onde estava o problema nisso.

— O que acho que meu filho quer dizer, é que depois de tudo é fácil para gente como nós viver em uma casa assim. — O menino balançou a cabeça confirmando o que a mãe estava dizendo. — Alguém como o senhor e a sua filha não precisam se obrigar a viver aqui, talvez seja demais para vocês.

O homem deu um sorriso largo quando pensou em tudo que aquilo significava. Por um momento desejou poder se olhar em um espelho para ver com o que se parecia.

— Acho que devo agradecer a preocupação, mas me preocupa muito que pensem que não sou capaz. Pois saibam, que por muito tempo morei em uma casa bem menor e mais velha que está, agora que penso nisso, talvez aquilo nem pudesse ser chamado de casa.

Todos ficaram surpresos, nem a menina nunca tinha ouvido falar sobre isso, para a mulher e seu filho diante daquele homem refinado e bem vestido, era difícil de acreditar que pudesse um dia ter sido pobre. Nenhum dois disse nada, então o homem continuou:

— Não me olhem com essa cara. A verdade é que eu venho de uma família pobre, diferente da minha filha eu sei o valor das coisas e esse é o maior motivo pelo qual fiz essa proposta, quero que essa menina também tenha esse conhecimento.

A conversa durou mais algum tempo. Era difícil negar qualquer pedido daquele homem, mesmo sendo uma proposta muito boa, ainda havia receio da parte da mulher, não estava acostumada com tamanha gentileza. Fazia muito tempo que vivia do seu próprio suor e nem podia imaginar de repente ser tão abençoada.

O homem continuou, disse que ajudaria na reforma da casa para abrir a confeitaria, também que não seria um acordo de vizinhos, queria tudo de papel passado. Mesmo relutante depois de tanta insistência a mulher acabou concordando.

A mudança aconteceu alguns poucos dias depois, o homem deixou para trás quase tudo. Levou consigo algumas roupas e pertences pessoais, nada de muito valor. A história repercutiu na cidadezinha, mas não foi como a mulher pensou, foi de uma forma bem positiva, os moradores agora tinham mais uma prova do caráter do seu bem-feitor e agora sentiam que ele estava mais próximo. Todos souberam também da briga entre as crianças, o homem não fez esforço para esconder nada, mesmo assim ninguém parecia se importar muito com isso. A casa velha também foi reformada, mas só até o ponto de ser habitável. A maior preocupação do homem era limitar ao máximo a comodidade daquela casa.

O próximo passo foi doar os vestidos e brinquedos da menina, claro que ela ficou muito triste vendo suas coisas sendo levadas. O homem agora com um tom frio, explicou que a casa nova não tinha espaço para aquilo tudo, e que iria comprar roupas novas.

— Esse você deve guardar — disse ele dando a ela um urso de pelúcia. O mais velho e surrado que ela tinha. — Foi presente da mamãe. — A frase simples explicou perfeitamente por que aquele brinquedo era tão especial, mesmo a menina sabia que um ursinho como aquele não podia ser substituído de nenhuma forma.

Foram então para a loja comprar roupas, não era o costume, nada que podiam encontrar por ali era nem de longe parecido com o que ela estava acostumada a usar. Seus vestidos vinham da cidade grande, coisa de primeira. Por ali no máximo conseguiria roupas igual das outras crianças.

— Não vou te obrigar. — O pai disse. — Com o que estou disposto a gastar você pode comprar 30 peças de roupas aqui mesmo, ou pedir 2 ou 3 daqueles vestidos caros que você gosta.

A menina sentiu pena de si mesma, se sentia injustiçada. Desde pequena se esforçava para ser uma boa menina, obedecer seu pai, ficar bonita para que ele pudesse se orgulhar, mas agora ele a obrigava a passar por aquilo tudo. Mesmo ela sabia que 3 vestidos era muito pouco, passaria ainda mais vergonha se tivesse que usar o mesmo vestido mais de uma vez na semana, então ela comprou o que seu pai permitiu ali na cidadezinha mesmo.

A partir daquele dia, a menina era obrigada a fazer muitas tarefas em casa e seu pai lhe mandava ajudar até nas casas dos outros, favores, como levar um remédio na casa de um senhor, ou ajudar a carregar sacolas de alguém vindo do mercado.

Depois de todas aquelas mudanças, se tornou ainda mais difícil se aproximar das crianças, elas ainda lhe tratavam com respeito, mas agora dava para notar que também sentiam medo, nenhuma delas queria ser alvo de mais um de seus ataques de fúria. Já o menino rapidamente se tornou bem próximo dos outros, seus amigos eram tantos que a menina não conseguia contar. Ele sempre estava acompanhado, fosse na escola ou em qualquer outro lugar, mesmo quando estava trabalhando fazendo entregas para sua mãe, sempre tinha alguém com ele. Ver de longe fazia parecer fácil, mas para a menina era meio que inalcançável. Os dias dela seguiram somente com um objetivo, recuperar o orgulho de seu pai, uma vez que aceitou sua situação ela não reclamava, só seus olhos ainda mostravam sua frustração e com um pouco mais de tempo nem isso mais. Não que ela tivesse esquecido, mas seus maus sentimentos estavam bem direcionados, é claro que depois de um tempo pensando ela chegaria na conclusão óbvia, só havia um culpado daquilo tudo e ele não parecia mostrar nem um pingo de arrependimento, andando por aí conversando com todo mundo, sempre com um sorriso no rosto, mas o pior ainda estava por vir.

Ela chegou um pouco mais tarde da escola naquele dia, teve que realizar uma tarefa na casa de uma pessoa a pedido do seu pai, se não fosse isso, talvez não tivesse sido pega tão desprevenida. Assim que abriu a porta de casa encontrou os dois sentados na sala, seu pai e o garoto ao redor da mesinha, jogando xadrez.

— Oh, já voltou — disse o homem. — Outro dia Nicolas mostrou algum interesse pelo jogo, estou tendo dificuldades para encontrar oponentes, então pensei em criar um para o futuro.

O menino ficou acuado, a menina não disse nada, só seguiu pelo corredor.

— Tem bolo na cozinha.

O bolo estava em cima do balcão, um bolo quase inteiro. Era fácil imaginar de onde tinha vindo, a menina direcionou um olhar mortal para o doce. Claro que ela jamais comeria algo tão asqueroso como o presente do seu maior inimigo.

Desde aquele dia ele aparecia pelo menos 3 vezes por semana para aprender xadrez e sempre levava doces. Ele não tentava falar com ela, mal a olhava nos olhos. Se sentia um tanto quanto constrangido por estar ali, jogar era divertido, mas não era isso que lhe atraia, aquele homem estava sempre dizendo alguma coisa interessante e ficar perto dele já era bom o bastante, para o garoto. O jogo de verdade era fingir ter um pai sem deixar ninguém desconfiar, isso sim era divertido. A menina ficava no quarto até que ele fosse embora, sem fazer barulho era como se nem estivesse lá, mas ela ficava com os ouvidos atentos, queria ouvir o que conversavam. Geralmente era só conversa de jogo, mas de vez em quando ouvia algo interessante:

— Sabe de uma coisa —disse o homem. —, houve um tempo que eu acreditei que poderia fazer qualquer coisa. Minha força de vontade estava no limite, eu iria a qualquer lugar, falaria com qualquer um, faria o que fosse preciso para alcançar meus objetivos.

O garoto olhou com admiração, aquelas palavras vieram do nada e eram bem reveladoras, só poderiam vir daquele homem.

— Acho que se for o s-senhor, pode mesmo fazer qualquer coisa —comentou o garoto sem rodeios. Ele quase não gaguejava quando falava com tanta sinceridade.

— Infelizmente isso não é verdade. Eu percebi que algumas coisas só podem ser feitas por algumas pessoas e mesmo neste momento tem uma coisa que eu não consigo fazer.

Os olhos do menino tinham grandes interrogações.

— Não se preocupe com isso filho. Não é algo que eu possa fazer, mas já encontrei alguém que pode.

— Quem pode? Quem é que pode f-fazer algo que o s-s-senhor não consegue?

— Bom, é você — disse o homem com um sorriso no rosto.

O garoto olhou intrigado, pensou por alguns segundos. Não, não poderia estar certo, não havia nada que o homem não pudesse alcançar com as próprias mãos caso desejasse.

— Não pense muito nisso. Eu acredito que quando chegar a hora você vai fazer de qualquer forma, eu não quero apressar as coisas, só que as vezes me preocupo com o caminho.

Não falaram mais sobre aquilo. A menina não parava de pensar que aquele moleque estava se tornando alguém importante demais para o seu pai, seu pai, o homem que costumava lhe dar toda a atenção do mundo, e agora parecia lhe ignorar, ignorava seus desejos, ignorava sua vergonha ignorava sua dor. O que aquele moleque poderia fazer que seu pai não poderia? E se ele podia, ela não poderia também? Ela faria qualquer coisa se isso trouxesse a atenção do seu pai de volta.

Naquela cidadezinha as tardes eram longas e a luz alaranjada do início da noite durava bastante, geralmente fazia calor, mas não como nas cidades grandes, por ali sempre havia uma brisa refrescante e também haviam opções como cachoeiras e lagoas só a alguns minutos a pé. O clima era diferente naquele dia, chovia muito. A menina correu para casa depois da escola, teve tempo de tomar um banho e colocar panelas em baixo das goteiras, mas aí ouviu alguém batendo na porta. Não foi uma surpresa muito grande ver o garoto, devia ser dia de xadrez, mesmo com uma capa de chuva e galochas ele já estava bem molhado, trazia em uma das mãos uma sacolinha fechada e com a outra equilibrava uma bicicleta.

— Meu pai não está em casa. — Ela disse antes que ele dissesse alguma coisa.

Já se preparava para fechar a porta, mas notou a cara de insatisfação do garoto.

— O que foi? — Ela perguntou só para desencargo de consciência.

Ele continuou calado, mas estendeu a mão oferecendo a sacolinha.

— Mais doces? — Ela apanhou a sacolinha sem se importar, mas começou a pensar no que seu pai diria se descobrisse que deixou o garoto ir embora na chuva. — Se quiser pode entrar para esperar ele.

O garoto não fez cerimonia, aceitou com um sorriso. Encostou a bicicleta no murinho tirou a capa e deixou sobre ela. Antes de entrar tirou as botas sujas de lama e pediu licença, tudo certinho como sua mãe havia ensinado, a menina observou a cena toda que durou o suficiente para deixa-la bem irritada.

Assim que entrou e notou as goteiras, conseguiu entender bem o motivo daquela cara feia da menina. Ele sabia que era o responsável por todo aquele transtorno. Para a menina já era demais, difícil suportá-lo andando por aí, quase insuportável ter vê-lo na escola, mas totalmente inaceitável ter que recebê-lo sozinha em casa. Ficaram um tempo em silencio até que a menina decidiu que estava tudo bem ser um pouquinho malvada.

— Vi sua bicicleta nova, já ficou rico? — perguntou ela com um sorriso malicioso na cara.

O garoto não levou na maldade, deu um sorriso sem graça e respondeu:

— N-não, mas os ne-ne-negócios estão indo b-bem. A b-bicicleta v-vai me ajudar no trabalho. M-mesmo a-assim eu fiquei um-muito feliz de ter ga-ganhado uma.

O jeito como ele fala é irritante. — Ela pensou.

— N-não vai abrir? — Ele disse indicando a sacola sobre a mesa.

— São só doces, não precisa trazer sempre.

— M-minha ma-mãe não deixaria. Ela f-fica feliz quando eu ve-venho e sempre ma-manda algo go-go-gostoso.

— É sério mesmo? — A menina deu um olhar de desinteresse, mas com a pergunta sem proposito acabou revelando algo importante para o garoto.

— É sim! Você nunca provou um doce da minha mãe? —Foi estranho que ele não gaguejou nenhuma vez naquela frase, seus olhos pareciam surpresos e mostravam um interesse imediato na resposta.

— Claro que não. — Ela não pensou muito ao responder e sua resposta fez o menino pensar.

Ele procurava uma posição para as mãos, também não sabia para onde olhar. Ele sabia que ela não gostava dele, mas saber que ela não tinha comido os doces nenhuma vez, para ele isso estava mais para ódio, principalmente por que os doces eram muito gostosos.

A menina não tinha certeza em como deveria lidar com aquilo, ele parecia querer ir embora, com certeza isso era bom, mas de alguma forma não parecia nada bom. Ela apanhou a sacola.

São só doces no final das contas. — Ela pensou, mas assim que abriu sentiu o cheiro de chocolate adentrar nas narinas e ir direto ao seu coração de menina. Eram trufas, um monte delas. Não importa o quanto ela odiasse o garoto, não dava para ir contra sua própria natureza, não dava para negar que era uma criança, tão pouco que amava doces.

É só doce, é só doce, é só doce. —Ela repetiu para si se preparando mentalmente, mesmo que estivesse tão gostoso quanto parecesse, ao colocar na boca não podia deixar transparecer o quanto havia gostado, de jeito nenhum. Com a precisão de um grande mestre enxadrista ela fez seu movimento, deslocou a trufa para sua boca e no primeiro momento lhe pareceu só o chocolate, tão bom quanto todo o resto, mas só de apertar um pouquinho o recheio escapou e mudou tudo, um creme molenga e doce correndo sem controle pela superfície molhada da boca, entrando em contraste com o chocolate meio amargo anterior, sua alma foi arrebatada. Por alguns segundos ela se esqueceu totalmente de tudo, sua mente foi sequestrada pelo sabor e o garoto pode ver com clareza a expressão de total submissão a uma força maior que durou poucos segundos.

Rapidamente ela notou o que tinha feito. Se recompôs enquanto o gosto aos poucos ia se esvaindo. A expressão de felicidade do garoto deixava claro que ele sabia o que havia acontecido.

— É uma pequena a-alegria —disse ele. —, não é?

Ela nem tentou responder, na verdade estava preocupada com outra coisa.

— Minha mãe d-disse que as pessoas acham que a fe-felicidade é algo grande, e mu-muita gente acha isso, mas ela acha que a f-f-felicidade é um mon-monte de p-pequenas alegrias.

A menina conseguia entender o que o menino explicava tão precariamente, eles pensavam em tamanho mesmo, como se felicidade fosse um bolo enorme que nem todo mundo pode ter, mas um monte de docinhos fossem seu equivalente e fáceis de conseguir aos poucos.

A menina prestava atenção no que o garoto dizia, mas seus olhos discretamente fitavam a sacola com o resto dos doces. Ela queria outro, mas não queria dar muito na cara o quanto tinha gostado. Pensou em algo para tirar o foco do garoto e rapidamente notou uma cicatriz na testa dele. Não era muito aparente nem chegava a ser feia, mas se a história fosse boa talvez ela pudesse usar para rir dele no futuro.

— Como conseguiu essa marca na testa? — Nem bem terminou a pergunta, já enfiou novamente a mão na sacola para apanhar outro doce.

O plano foi um sucesso, enquanto o garoto todo preocupado explicava a história, ela pode apreciar mais um pouco aquele sabor. A história não era nada que ele devesse se envergonhar, segundo ele foi só um acidente de trabalho, mas naquela idade ele nem devia saber tão bem o que isso significava.

Naquele dia não houve xadrez, a conversa meio estranha durou mais algum tempo, até a chuva parar e o garoto decidir voltar para casa. O pai chegou pouco tempo depois e encontrou a menina se atirando em cima dos chocolates, então imaginou na hora o que havia acontecido.

Ele não disse nada além de explicar que havia se abrigado da chuva na casa de um vizinho, se aproximou e colheu da sacola um doce.

— As mãos daquela mulher são mesmo magicas. — O homem disse após provar o doce. — É a primeira vez que você...

— Foi a mãe dele que fez, não é? Eu não tenho nada contra ela.

— E contra ele?

A pergunta do pai fez ela pensar, mas a resposta era óbvia, ela só não sabia se deveria ser tão sincera com aquele homem.

— Eu o odeio. — Ela respondeu finalmente.

— O odeia como? — Seu pai parecia já esperar por aquela resposta, mas a pergunta que fez era um tanto quanto confusa.

— Eu não gosto dele, você sabe.

— Mas você disse que o odeia, o ódio não é quando queremos ver o mal da outra pessoa? Se pudesse fazer mal a ele, o que faria?

A menina não esperava que o ódio fosse tão complexo, ela até então, não tinha imaginado que tipo de mal poderia fazer aquele garoto. Da primeira vez tentou expulsa-lo, mas não deu muito certo. Tentou se imaginar machucando ele, mas ele era um garoto e mais forte que ela, então talvez devesse usar um pedaço de madeira, não, isso já era demais. Não podia se imaginar ferindo alguém daquela forma. Talvez, se aproveitar quando estivesse distraído e empurrá-lo na água da fonte, ele ficaria molhado, seria engraçado, mas e se ele começasse a chorar como da outra vez? Ele também não parece ter muitas roupas, talvez fosse um problema, sua mãe poderia ficar com raiva e bater nele. Nas poucas opções em que conseguiu pensar o garoto quase sempre apanhava da mãe, isso era crueldade demais, a menina não estava pronta para ser tão malvada.

— Se algum dia conseguir pensar em algo me diga — disse o pai pegando mais um doce.

A menina apanhou a sacola rapidamente e foi em direção ao seu quarto.

—Você comeu todos os outros, esses são meus — disse ela antes de fechar a porta.

A menina ainda não tinha decidido perdoar o garoto, mas com certeza foi um passo imenso. Todos os doces na sacola encontraram seu destino naquela mesma noite.

Depois daquele dia, as coisas continuaram como de costume, as diferenças eram silenciosas e invisíveis, algo interno que foi crescendo bem lentamente, isso até aquele outro dia declarado especial.

Fazia um bom tempo que a menina não caminhava com o pai, talvez fosse o calor suprimido pela brisa agradável ou só o tempo que passou, mas por algum motivo parecia que tudo havia voltado ao normal, como se nada tivesse acontecido. As pessoas agiam da mesma forma, seu pai sorria como sempre e lá estavam as outras crianças, brincando na água.

— Por que não vai lá brincar também? — A pergunta foi como um genuíno eco do passado e desenterrou algumas coisas.

A menina começou a chorar, foi como destrancar uma porta e deixar tudo sair.

— Me desculpa pai, me desculpa, eu envergonhei você. — Ela dizia entre lagrimas e soluços.

O homem respondeu com um abraço, a menina chorou ainda com mais força, mas depois de poucos minutos já havia sido o suficiente. O homem limpou o rosto dela e repetiu a pergunta. Ela ainda não sabia como deveria responder, seu vestido agora não era caro como antes, ela havia sido destituída do seu posto de princesa, agora talvez estivesse tudo bem brincar na água.

A menina reuniu toda coragem e se aproximou das crianças enquanto deixava o pai para trás. Ela só se aproximou, não teve coragem de olhar nenhum deles no rosto, mas logo sentiu a agua bater na cara. O menino não perdeu tempo e não teve medo, as outras crianças observavam esperando para ver o que ia acontecer, ela não sabia como reagir, queria se desculpa antes de tudo, mas as palavras não saiam então tudo que ela conseguiu fazer foi dar um sorriso meio sem graça. Uma outra menina pegou sua mão e a puxou para dentro da fonte atrás dos meninos para se vingar.

Eles ainda eram crianças, aquelas memoriam com o tempo talvez fossem substituídas por outras, talvez anos depois nenhum dos dois pudesse lembrar exatamente como se conheceram, mas aquele momento não seria esquecido pelo homem observando.

Olhando de longe, vendo a filha finalmente sorrir daquela forma, ele sussurrou:

— Feliz aniversário.

Fim.

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