O diário de Isabela
2 A madastra e o boliche
Faz dois dias que não escrevo porque a professora passou um trabalho enorme e tenho que fazer se não quiser reprovar mais um ano. Amanha eu não trabalho, então vou aproveitar a tarde para concluir ele. Hoje a Melissa me “pediu” para limpar o muro que foi pichado. Tem cabimento? Eu tive que tirar do meu salário para comprar tinta e contratar alguém para pintar. Quem pintou foi o André, o amigo do Gustavo que falei. Terça, e quarta eu apenas fiquei em casa, fui pra escola e trabalhei. Nada mais! Ah, e as gêmeas decidiram que a nova fofoca é que eu estou pagando o Gustavo para ele ficar comigo no intervalo. E claro que estão acreditando, porque um garoto popular, do terceiro ano andando comigo, é realmente bem estranho. Mas foi ele quem quis andar comigo, talvez por pena da última fofoca, sei lá. Mas eu não estou nem aí se ele anda ou não.”
“Hoje foi um dia de estresse total! Primeiro que a Melissa me acordou á cinco da manhã:
— Isabela, quero que ás sete em ponto você leve o café da manhã no quarto das minhas filhas, elas estão um pouco doentinha tadinhas.
—Porque VOCÊ não faz isso? Não sou empregada de ninguém, e você quem é a mãe delas.
—Elas são as SUAS IRMÃS, e eu sou a SUA MÃE e estou mandando!
—Elas não são as minhas irmãs e você não é a minha mãe.
Eu entrei no banheiro e fui tomar banho enquanto ignorava os gritos dela vindos e fora. Assim que terminei, tomei café, me troquei e fui pra escola, mas ainda eram cinco e quarenta e a escola só abre ás seis e quarenta. Em casa eu não ia ficar, então fui para uma praça que tem no caminho entre a escola e a minha casa. Sentei nem um balanço e entrei em uma crise de choro que não tinha desde a morte de minha mãe. Chorei tanto que sentia que a minha cabeça poderia explodir a qualquer momento. Senti então uma mão me empurrar do balanço. Cai na areia e olhei muito irritada para trás. Era o André. Ele percebeu minha cara de choro e percebi que tinha se arrependido de me empurrar no minuto seguinte.
—Você não tem nada melhor para fazer não, seu imbecil?
—Desculpe, eu queria te empurrar no balanço, e não DO balanço.
—Percebi, vai embora daqui!
—Qualé, eu pedi desculpas!
—VAI EMBORA ANDRÉ! EU NÃO QUERO VOCE AQUI!
—É por isso que ninguém gosta de você!
—Como é?
—Larissa e Camila estão certas, seus pais te deixaram porque você é uma chata, abusada, sem senso de humor. E por isso também que não tem nenhum amigo.
—Você é um imbecil. Meus pais não me deixaram, eles morreram!
—De desgosto.
Ele saiu e me deixou sentada na areia toda descabelada e voltando a chorar. Eu sabia que o que ele estava falando não era verdade, mas estava tão sensível... Saí para a escola fui direto para o banheiro lavar o meu rosto, o que não adiantou muito e tive que entrar com a cara inchada na sala de aula, e graças aos céus que Larissa e Camila estavam doentes para não terem que me ver assim. No intervalo eu evitei o Gustavo porque sabia que o André estaria com ele não queria trazer aquele assunto de volta. Mas o Gustavo me encontrou.
—O que está fazendo aqui garota? Fiquei te procurando... Estava chorando?
—Não.
—É claro que estava, o que houve?
—Nada Gu, não quero falar. Ok?
—Tudo bem, não precisa falar então.
Ele em abraçou e eu comecei a chorar novamente. O que eu tinha hoje?
Depois de vir para casa, levei uma bronca por ter saído sem avisar logo cedo, como se alguma vez ela tivesse se importado com isso. Só ficou brava por e não ter levado café para as filhas dela. E ainda disse que eu vou ter que começar a ajudar nas despesas de casa, porque não esta fácil. Se ela não gastasse tanto com roupas e caçados, ela não teria problemas. Afinal, ela é a dona do salão de beleza mais badalado da cidade. Decidi que vou pagar conta de luz e agua, e já avisei isso a ela. Só espero que ela não comece a gastar muito, só pra eu ter que pagar. Minhas roupas sempre fui eu quem comprou então ela não tem do que reclamar mais.”
“Hoje já é sábado, essa semana passou bem rápido. O Gu me chamou para ir com ele e os meninos jogar boliche. Eu nunca fiz isso então acho que será divertido. A não ser por ter que encarar o idiota do André.”
“Oi, eu cheguei agora a pouco do boliche. Foi demais. Fui eu, o Gu, o André, o Léo e a namorada. O Léo e a namorada sumiram logo. O Léo parece não gostar muito de mim, não sei o porque. Teve um momento que o Gu saiu para comprar bebidas e eu aproveitei para pedir desculpa ao André pela ignorância do outro dia, e ele pediu desculpas também, disse que não fez por mal. Eu fui péssima no boliche, e ninguém mais ninguém menos do que Lara Manuela estava lá nos observando e rindo. Acho que eu não contei quem é a Lara Manuela. Ela é a ex-namorada do Gu, e ela terminou com ele por ele ter começado a ser meu amigo, ela diz que é um absurdo andar com a emo da escola. Acho que ela pensa que só porque tenho parentes mortos e não me misturo com patricinhas, isso me torna emo. Coitada. Vou correr agora que hoje a noite eu trabalho. ”
“ Domingo: Ontem à noite o Augusto pediu demissão, disse que foi traído por mim com o Gu. Segundo ele, ele sabe que eu estou ficando com o Gu. Preferi o deixar acreditar nisso, pelo menos agora ele some. Hoje o Gu me chamou para ir pra casa dele com os meninos, jogar videogame. Eu na verdade fui só porque ia passar o dia em casa sem fazer nada, mas nem joguei nem nada, só fiquei lá assistindo e comendo. Eu tive o azar de atender ao telefone na casa dele, e ter de ouvir a enjoada voz da Lara Manuela.
—Gu, é pra você.
—Logo agora? Quem é?
—Sua namorada – comecei a rir
Todos pausaram o jogo e ficaram de olhos fixados em mim, no telefone e no Gustavo.
—Que namorada? – perguntaram quase em uníssono
— Chata Manuela — falei ainda rindo
Os meninos começaram a rir e debochar do Gu fazendo piadinhas
—Fala que eu não estou!
—Gu, ela esta te ouvindo ela disse.
—Droga!
O Gu pegou o telefone e foi para o canto da sala
—Que é? – Enquanto ríamos, ele nos olhava de cara feia – E daí? – O André beijou a palma da mão loucamente imitando a Lara, e o Gu fez um gesto obsceno com a mão – Lara, fala logo pra que você ligou... Como é que é?
Ficamos atentos a conversa deles.
—Claro que vou, deixa só eu avisar aos meus amigos, que a gente marca. Ué! Você pode levar amigos também. Ah, com certeza ela vai, ela adora boliche. — Ele fez uma cara de raiva – Naquele dia nós não estávamos jogando pra valer, estávamos só brincando. – Ele revirou os olhos – Preciso ir agora, tchau.
Ele nem esperou ela responder e desligou.
—Garota idiota.
—Qual que foi Gusta? – O Léo quis saber
—Ela descaradamente me chamou para sair, e eu aceitei, mas só se vocês forem.
—Espera! Você vai a um encontro com sua ex e quer nos levar junto? – Riu o André
—Claro! Assim ela vai detestar o encontro e não pede outra vez.
—Qual é Gu! Você já gostou dela, será que não pode gostar novamente?
—Não! – Responderam os três ao mesmo tempo
—Nossa! Ela é tao má assim? — Eu ri
—Ah! Dona Bela, você vai também e eu disse que você sabe jogar.
—O que? Eu sou péssima! E já basta ela rindo de mim de longe, agora de perto?
—Relaxa, essa semana nós vamos em todos os momentos livres ao boliche para voce treinar. – O Gu me tranquilizou”
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