No meu mundo as sombras dos prédios formam labirintos no asfalto frio e no centro da cidade há um buraco que me envia para o mundo dos mortos. Uma harpia me aguarda para me guiar, mas a hora da morte ainda não veio.

Sobre minha cabeça, o céu se desmancha, como no relógio de Salvador Dalí, ele está derretendo e se torna grudento. As estrelas se tornam todas cadentes e o desejo vira algo mundano, deixa de ser especial.

Em meu ombro há a alça do meu rádio que toca fitas cor de rosa e as escuto usando fones. Em cada fita está gravada minha voz dizendo "eu quero parar de viver" para quando eu acordar, recitar o que foi gravado com naturalidade assim como respiro.

A morte está na penumbra dos prédios, da cidade. Me observa e se aproxima.

Eu começo a correr, o cimento frio produz barulhos percussionistas. Tambores, contra-baixos, chocalhos, pandeiros passam seguir meus passos, nunca pensei que minha trilha sonora fosse o free jazz. Mas a saída dá para a entrada e compreendo que é uma história sem fim.

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