O diabo atenta

1 O diabo atenta é dispois do casório


Depois do casamento, uma festança, muita alegria... mas já era hora dos recém casados terem uma horinha só pra eles.

A casa era linda, era espaçosa... e se tornaria acolhedora uma vez que se tornasse um lar.

Já era quase meia-noite.

“Aah, como eu dancei!” – Juliana gargalhou, entrando no quarto, já de camisola, jogando-se na cama, ao lado de Zelão, que escrevia num caderninho.

Ele sorriu.

“É pena que ocê teje cansada”

O que ele quis dizer? Juliana se percebeu curiosa.

“E quem disse que estou cansada?!”

“Ocê merma disse...” – Zelão respondeu, ainda com um sorriso.

“Eu disse que DANCEI, não que estava cansada...” – Juliana retrucou, abrindo um sorriso – “Além disso, tem muitas coisas que um homem e uma mulher fazem depois que se casam”

A expressão de Zelão mudou na hora.

“Eo tava conversando mais o coroné sobre essas coisa que acontece logo dispois do casório...”

“E o que é que acontece...?” – Juliana perguntou, assim, como quem já sabe a resposta... num tom que era quase provocante, sabe? Pensando bem, a professora Juliana vira e mexe usava aquele tom... Ela sussurrava, e usava aquele tom. Um sussurro provocante, tentador... E sabe quem tenta? O diabo.

Zelão levantou-se duma vez, e lhe deu as costas. Juliana não viu, mas o rosto do agora marido estava vermelho como o que! Ele tinha uma expressão que não chegava a ser assustada, mas no mínimo pensativa.

“Eo... eo também num sei...” – ele falou firme, sem se virar.

Juliana sorriu.

Nos lábios, um sorriso. Nos olhos, um tantinho de malicia.

Ela se levantou, e andou até Zelão, colocando as mãos nos ombros dele, pra que se virasse.

Ele respirou fundo, engoliu seco, e virou. Tinha uma cara...

“Você realmente não sabe, Zelão...” – ela sussurrou, como ele tinha certeza que faria – “...o que acontece em uma lua de mel?”

Zelão não conseguia tirar os olhos dos dela. Os olhos azuis da professora eram enfeitiçados, só podiam ser. Ele tentou não olhar, mas não conseguiu.

E quando viu um brilho, um brilho diferente, passar pelos olhos da professora, ele mal conseguia pensar direito.

Engoliu seco, e não respirou mais.

“Eo... eo pensei...” – ele parecia confuso – “...que lua de mé era coisa de comida de casamento...”

Juliana gargalhou.

Não uma gargalha de deboche, mas uma de encanto. Como Zelão podia achar aquilo, ora?!

“Vamos, Zelão, eu lhe explico o que é uma lua de mel” – e puxou-o pela mão.

Zelão acompanhou sem hesitar.

Deitaram-se um do lado do outro, escorados na cabeceira da bela cama.

Juliana parecia um pouco mais tímida agora, e Zelão, com as sobrancelhas arqueadas, não tirava os olhos das próprias mãos, que brincavam uma com a outra como se tivessem vida própria.

Passaram-se quase dois minutos sem que ninguém falasse.

Foi Zelão quem falou primeiro.

“Ocê ia dizer o que era as lua de mé...” – disse meio sem jeito.

Juliana sorriu, tímida, virando pro lado de Zelão, pra melhor vê-lo.

“Primeiro... você sabe o que acontece entre um homem e uma mulher, não sabe? Depois que eles se apaixonam... se casam...?

Zelão parecia confuso. Claro que sabia!

“Sei, ué! Adispois que casa, vira marido e muié!” – ele disse o óbvio.

Juliana não esboçou nenhuma reação.

“Eu to falando...” – ele pensou bem nas palavras que usaria – “... do que... do que acontece, ora!”

Zelão olhou pra ela, e pras próprias mãos, e pra ela de novo.

“Eo num to entendeno”

E foi ai que ele viu de novo.

Aquele brilho no olhar da professorinha... e logo tratou de desviar o olhar.

“Não se preocupe, Zelão...” – ela sussurrou, naquele tom sedutor – “...não se preocupe, que eu lhe explico tudinho...” – falou tão perto, tão pertinho dele, que Zelão pôde sentir os lábios dela roçarem sua orelha. Juliana era sinônimo de “tentação”, e tentação é coisa do diabo!

Ele arregalou os olhos, e levantou-se duma vez, deixando a professora a beijar o vento.

“Eo tô achano que ta meio tarde, Juliana...” – falou desconcertado – “... ocê me fala dessas lua de mé amanha entonsse boa noite eo vô drumir.” – Falou sem pausar. Pegou um travesseiro, e saiu do quarto.

Juliana ficou pra trás, sem saber o que tinha acontecido.

“Ué, o que foi que eu fiz?!”