Notas iniciais
Última semana de setembro. Quarta-feira.
Naquele dia eu estava agitada. Feliz por qualquer coisa. E, quando eu fico feliz demais, fico também bastante desinibida. Mas não a ponto de falar com o Tarcísio. Ele ainda me deixava nervosa.
Mas como estava bastante agitada naquela tarde, não fiquei sentada na minha cadeira quando o professor entrou. Ainda estava em pé, na minha rodinha de amigos, quando o Fofis passou por mim e colocou um livro sobre sua mesa. Os demais alunos foram se sentando aos poucos e meus amigos também. Me virei para voltar a me sentar quando o professor olhou para mim. Foi um olhar passageiro, mas, mesmo assim, ele sorriu. Foi bem rápido, mas ele sorriu pra mim.
Ele sorriu pra mim!
Eu não me sentei. Eu caí na cadeira, literalmente! Aquilo não tinha acontecido. Ele não tinha tido contato visual comigo e depois me dado um sorriso afetuoso. Não, meu cérebro estava me pregando uma peça.
Se eu já estava animada antes, depois daquele sorriso fiquei mais ainda.
Mais uma vez minha atenção se voltou apenas para seu modo de andar, falar e fazer piadas e não no que ele estava falando. Por mais que eu amasse matemática, o Tarcísio era bem mais interessante de se admirar.
Poderia acontecer o que fosse, eu já tinha ganhado o meu dia. E o restante da semana também.
Próxima quarta.
Se na semana anterior eu estava agitada, nessa semana quem parecia bem ativo era o Fofis.
Ele entrou na sala bem falante. E o melhor de tudo era que ele estava sentado em cima da mesa dos professores e eu bem perto dele; principalmente naquela tarde que eu tinha sentado um pouco mais a esquerda, na parede. Agora ele estava a 40cm longe de mim e a maioria das coisas que ele falava era olhando pra mim.
Parecia que o sangue não circulava mais no meu corpo.
— Eu almocei muito hoje — o professor começou dizendo. — Eu não gosto de comer aqui no refeitório da escola porque a comida é vwgetariana e eu gosto de carne. — Ele olhou para mim, rapidamente. — Hoje eu comi um pedaço bem grande de churrasco. E o melhor foi depois, eu tomei meio litro de açaí. — Não pude evitar sorrir. O modo empolgante que ele falava era fofo demais. — E não twm coisa melhor do que açaí. Não dá pra saber se ele é doce ou salgado, mas é muito bom. O ruim é que, quando a gente bebe demais, dá sono e um pouco de preguiça.
Ele fez uma pausa. Olhou para o outro loutrda sala e, em seguida, para mim. Meu coração deu um salto.
— Mas esse negócio é bom, né? — Demorei três segundos pra perceber que ele estava falando comigo. Assenti discretamente, atônita, enquanto ele se levantava e copiava a matéria do dia no quadro.
Ele falou conigo. Pela primeira vez. Ele falou comigo! O nosso primeiro diálogo foi sobre um prato típico da nossa região. Se bem que não foi ao certo um diálogo, eu apenas fiz um gesto com a cabeça quase imperceptível.
Mas mesmo assim agradeci mentalmente pelo açaí existir.
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