Eu acordei e o sol batia diretamente em meus olhos, já era de manhã, eu os abri e olhei para o quarto onde eu estava: um ar condicionado no teto perto da janela, um aparelho que media os batimentos de alguém, eu, e por fim também estava outro leito do outro lado da sala, com os mesmos aparelhos que os meus. Ao lado do leito uma garotinha de cabelos castanhos claros usando uma camisa rosa que estava toda preta, ela olhava para a pessoa envolta em bandagens usando um respirador.

Eu percebi que era Sofia quem estava ao lado do embalado, foi quando eu me dei conta de quem ele deveria ser, Gabriel. Recordei-me das últimas cenas antes de eu apagar, aquele ferimento enorme nas costas do garoto em meio a um ambiente em chamas.

Esbocei algumas palavras, mas tudo o que saíram foram ruídos quase inaudíveis, entretanto foram altos o bastante para desviar a atenção da garota para mim. Ela moveu o banquinho para o lado da minha cama e meu deu um caloroso abraço, percebi que ela cheirava a fuligem.

–Nina, Nina, me desculpa, é tudo minha culpa que você estão assim.

Eu afastei-a e balancei a cabeça horizontalmente, e tentei formar mais algumas palavras mas só deram os mesmos resultados.

–O médico disse que você vai ficar alguns dias sem poder falar, ele disseque você respirou muita fumaça.

Falando isso ela me entregou um caderninho de anotações infantil e uma caneta, peguei ambos e vi que meus dedos me obedeciam, escrevi minha primeira preocupação no momento, no caderno lia-se “Ele vai sobreviver?”.

–Os doutores disseram que uma pessoa normal já teria morrido, mas por algum motivo o dano não foi muito grande, eu acho que é porque ele é um divinity, mas mesmo assim ele deve ficar se recuperando durante uns 10 dias no mínimo, outra coisa que eles não souberam falar foi como eu sai sem um arranhão...

Respirei em alívio, Gabriel sobreviveria, Sofia podia não saber, mas eu tinha uma idéia do que acontecera, o divinity dele era como um escudo e ele poderia direcionar ele, reforçando alguma coisa que ele toque, ele provavelmente tinha protegido Sofia e tinha perdido parte do escudo, não era surpresa que ela estava ferida daquele jeito.

Escrevi então numa outra página do caderno a segunda coisa que me preocupava “E o escritório?”.

Sofia fez uma cara triste e olhou para baixo antes de responder a pergunta.

–Depois daquilo, depois da bomba, eu consegui levar vocês dois para as escadas e chamei os bombeiros, porque os papéis empilhados pegaram fogo... bem eu não sei como está ele mas eu acho que não sobrou muita coisa... Desculpa.

Me irritei com aquela culpa que aquela menina de 13 anos parecia carregar, levantei minha mão e ela se encolheu, chorando, esperando minha mão cair num golpe.

Eu abaixei a mão, mas ao invés de bater nela baguncei os cabelos dela, ela me olhou com uma cara confusa e eu me dediquei a escrever tudo o que eu queria dizer a ela, ela leu “realmente nós fizemos isso por você, com certeza sem você tudo estaria indo de acordo com nossa vidinha, mas nós, Gabriel e eu, decidimos fazer isso, por isso à culpa é nossa e não sua”.

A menina que já me agarrara antes deu agora um abraço de urso, minhas costelas doeram quando ela fez isso, e percebi que eu também não estava debilitada.

Eu e ela gastamos o resto da manhã na sala, talvez com esperança do garoto acordar, mas isso não aconteceu, depois do almoço uma enfermeira veio ver meu estado e disse que no dia seguinte eu já estaria bem, era só eu não fazer nenhum exercício que em 5 dias eu já estaria recuperado.

De noite Sofia veio para minha cama e usou meu corpo como encosto para dormir, ela provavelmente estivera acordada a noite anterior inteira, devia estar exausta, eu não demorei para dormir também.

...

Quando eu abri os olhos no dia seguinte, eu vi que Sofia ainda dormia ao meu lado, mas uma coisa me preocupou, o leito a minha frente antes ocupada por uma múmia com respirador agora estava desarrumado e sem a múmia.

Desesperei-me e um milhão de teorias saltaram a minha mente para explicar aquilo, uma pior que a outra, mas foi quando eu vi a porta se abrindo “O médico! Ele deve saber alguma coisa.” Mas não era o médico que entrou, era um garoto com muletas que entrou e dirigiu um sorriso para mim.

Ele provavelmente viu minha cara de espanto e depois de preocupação, mas ele se sentou na cama para finalmente me explicar alguma coisa.

–Eu acordei na madrugada, mas vocês estavam dormindo por isso eu resolvi deixa-las a sós e tentei sair do quarto, mas a enfermeira do corredor fez a mesma cara que você e correu para me dar uma muleta.

–Isso só explica a muleta, não explica você ter acordado tão cedo.

Percebi que eu já conseguia falar normalmente.

–Ah, isso eu já não sei, só sei que eu já me sinto bem.

Ele se encostou na cama que estava inclinada um arrepio junto com um “Arr” veio do corpo dele.

–Muito bem, to vendo.

Ele esboçou um sorriso, mas a cara de dor não saiu da sua cara.

–Vamos mudar de assunto, você está bem Nina?

–Melhor que você com certeza, devo ter um costela quebrada e um pulmão cheio de fuligem, mas deve ser só isso, em comparação com você eu estou quase saudável.

–Você sabe de alguma coisa, sobre o que aconteceu, ou alguma coisa assim?

–Só sei o que Sofia me contou, o escritório, é melhor esquecer-se dele, e do atentado eu estou as cegas, talvez se eu tivesse um computador, eu saberia de mais alguma coisa, mas a enfermeira insistiu que eu não me esforçasse.

Ele inclinou-se para frente e tomou um tom reflexivo, e pretendia falar alguma coisa mas ele percebeu que a menina ao meu lado estava acordando.

–Hun? Você já está acordado? Falou a menina enquanto fazia um sorriso na cara, ela rapidamente saltou da cama e provavelmente ia dar aquele mesmo abraço de urso que ela me deu, mas a mão dele posou sobre a cabeça dela impedindo-a de avançar, resultando numa cena cômica.

No final ela se cansou e veio para meu lado e fez uma cara de cachorro carente e disse:

–O Gabriel está sendo chato, Nina você pode bater nele?

–Tsk, tsk, vou ter certeza de dar uns cascudos nele quando ele sair no hospital.

Todos riram, parecia que fazia muito tempo que nós ficávamos tão alegres, aqueles últimos três dias foram penosos para todos, Sofia não encontrara o irmão, Gabriel estava com um brusco ferimento nas costas e eu, bem, tinha perdido minha casa e trabalho.

...

A tarde a enfermeira veio trocar as bandagens de Gabriel e eu pedi para Sofia ir buscar algo para nós comermos que não fosse soro, era mais uma desculpa para que ela não visse o machucado nas costas dele.

Conforme a enfermeira despindo-o das bandagens eu pude ver claramente o machucado, ele começava perto nas costas, perto da cabeça como um avermelhado, e conforme ia descendo pelas costas ele ia variando até chegar numa parte quase preta, por sorte ele não precisaria de pele, mas uma marca enorme ficaria.

Eu quase vomitei quando vi aquilo, mas forcei-me a continuar olhando até o final da mumificação.

Quando a enfermeira terminou com as bandagens, Sofia ainda não havia voltado, por isso resolvemos continuar a conversa de que estávamos tendo de manhã.

–Então fazendo um resumo, nós não sabemos de quase nada, isso é frustrante, será que se nós víssemos as câmeras não dava pra ver quem que era? Se nós pelo menos achássemos Dino, nós acharíamos o Thomas.

–Se fosse fácil assim, eles já teriam sido presos, provavelmente estavam encapuzados e correram em seguida a explosão.

–Mesmo assim, eles não gritaram alguma coisa quando atacaram a bomba? Era alguma coisa sobre a Sofia.

–Eles gritaram que “era isso que dava mexer com o Dino, Sofia”, eles estavam tentando mata-la.

–Você não acha meio esquisito que eles soubessem onde ela estava?

–Eles devem ter nos seguido quando nós passamos pela clínica, ou no dormitório dela mais provavelmente.

–Ainda sim eu não lembro de ninguém seguindo a gente e mesmo que eles estivessem seguindo, nós teríamos ouvido aquela moto, você não acha.

Pensei naquilo, todos os argumentos eram válidos não daria tempo de eles terem seguido a pé e depois chamado alguém? Não, não deu nem10 minutos depois que nós entramos quando eles chegaram, a possibilidade da perseguição por moto também era implausível, então...

–O que você está sugerindo?

–Pode ser coisa da minha cabeça mas e se o pessoal do alto escalão quiserem que isso aconteça? Você concordou comigo que era estranho eles terem capturado a ralé e não terem pegado Dino, e agora essa, e se eles tivessem passado de onde viera a denúncia e depois perceberam que Sofia estava conosco?

Era realmente uma loucura pensar naquilo, parecia muito mais uma teoria da conspiração agora, se ele tivesse que os superiores estivessem compactuando com bandidos antes de conhecer Sofia, eu provavelmente o chamaria de louco e riria da cara dele, mas agora...

–Vamos dizer que isso seja verdade, por que os “manda chuvas” fariam isso?

–Não sei.

–Então, não temos nenhuma prova ou evidência ou testemunhas, e você ainda quer insistir nisso?

–Sim, respondeu ele em seco.

–Eu estou com você, mas você tem alguma idéia do que fazer?

Ele começou a estalar os dedos de ambas as mãos “violência” era o que ele queria dizer.

–Eu não posso por você nem Sofia em risco, eu consigo dar um jeito por mim mesmo, eu só precisava descobrir onde ele está ai eu arranco uma confissão ou pelo menos um motivo dele, o que quer que eles estejam fazendo eles não estão se envolvendo diretamente, então eles não ousariam defender ele se nós o prendêssemos.

Parecia razoável aquilo na minha cabeça, muito arriscado, mas plausível, mesmo que nós estivéssemos errados, e os superiores não tivessem nada com isso, nós ainda teríamos preso um dos chefes do narcotráfico local.

Quando Sofia voltou, ela estranhou o olhar flamejante que Gabriel dava para o horizonte mas não disse nada, pior ela também via o mesmo olhar em mim, óbvio que alguma coisa havia mudado, mas ela preferiu ficar quieta quanto a isso.

...

Naquele mesmo dia, me liberaram do hospital, assim que eu pisei fora dele, eu me considerei num ambiente hostil, agora qualquer coisa podia estar sendo monitorada, eu devia tomar cuidado com tudo.

Eu levei Sofia para a casa de uma amiga da EXECUTIO, Júlia, eu nem falava mais com ela, mas devido ao trabalho dela eu julgava que ela fosse menos corruptível que o resto. Ela ficava fora o dia inteiro o que era muito bom para mim já que todo a meu trabalho dali em diante seria no computador.

Eu estipulei que demoraria uns 8 dias para o teimoso do Gabriel querer entrar em ação, felizmente o divinity dele era de proteção passivo, deixe-me explicar, os divinity favorecem várias coisas e se manifestam através de um poder, mais recentes estudos indicavam que ele também afetava a patologia do indivíduo. Então tomemos Gabriel como exemplo, o poder de reforçar o próprio corpo ou outras coisas ao redor, e por detrás disso estava uma habilidade regenerativa, se o poder fosse algo como uma ilusão, uma área afetada seria a criativa e por ai vai.

Por isso estipular 8 dias para descobrir o paradeiro de Dino não deveria ser um exagero, eu não podia deixar ele fazer todo o trabalho.

Eu só sabia que Dino era um homem gordo de cabelo loiro, e um chefe do crime.

Pesquisei por todas as câmeras por perto, mas o 17°Círculo não tinha muitas câmeras e as que tinham não produziam vídeos em qualidade suficiente, então a pesquisa deu pelo menos 40 resultados, considerando que ele não fugira para os outros Círculos ou que mudara de zona.

“Se eu fosse ele, aonde eu me esconderia?”, mas essa não era uma pergunta válida visto que eu não conseguiria pensar como criminosa e muito pouco pensar nos requerimentos de um esconderijo.

Apelei para Sofia.

–Onde eu me esconderia se fosse Dino? Sofia repetiu a pergunta para si mesma, ela podia ser inocente naquilo tudo, mas era a pessoa mais próxima de saber daquilo que eu pudesse consultar.

–Com certeza eu não me esconderia num lugar muito alto, afinal eles chamam muita atenção, eu também não me esconderia perto de dormitórios estudantis visto que quando são capturados os drogados geralmente vendem aquele que fornecia a droga, ahh, outra coisa eu não me esconderia no interior do círculo, a mudança de círculos é a rota mais comum de fuga.

Fiquei espantada, aquilo era mais do que eu poderia esperar de uma garota que nem Sofia, mas isso não importava agora, importava que em 4 dias eu já conseguira reduzir o número de lugares suspeitos para 5.

Nos dois dias seguintes eu fiz uma vigília de 48 horas e muito café para tirar dois dos lugares da lista.

Sobrando na lista de suspeitos, estava uma fábrica abandonada, um hotel de fachada que só recebia pessoas suspeitas e uma garagem de ônibus abandonada.

Faltava apenas mais 1 dia e eu já me desesperava, todos os locais eram pontos de drogas, mas se eu indicasse o lugar errado, Dino iria saber que alguém estava atrás dele, e ele se esconderia no submundo da cidade, nem eu nem ninguém conseguiria acha-lo a menos que ele quisesse ser achado.

Uma garagem de ônibus abandonada, um hotel de fachada e uma fábrica abandonada.

Um hotel de fachada, uma garagem de ônibus abandonada e uma fábrica abandonada.

Uma fábrica abandonada, uma garagem de ônibus abandonada e um hotel de fachada.

Por que eu usaria uma garagem de ônibus, aquela parecia ser a menos provável localização, era aberta e sem lugares para escapar ao redor, nesse sentido a fábrica e o hotel eram plausíveis, risquei a garagem.

Já estava no dia da liberação de Gabriel quando finalmente eu tive a certeza de onde estava Dino, só descobri porque as câmeras pegaram um garoto de cabelos vermelhos que batia com a descrição do Thomas Frey.

Notas finais
Parabéns você que chegou ao final do capítulo, comente se você gostou e se não gostou comente também!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.