O diário de Magê
2 Querido diário, o pior e terrívelmente trágico dia da minha vida
Notas iniciais
“Querido diário,
Porque mães insistem em ler diários?
Mãe, eu não estou saindo com garotos mais velhos, e nem bebendo e muito menos fazendo coisas que não devo, então, por favor, pare de ler meu diário!”
– Não vou, não vou e não vou. – Eu resmunguei para mim mesma na vã tentativa de fazer uma ideia genial se apossar da minha mente super sedutora. Mas, ela não estava muito afim, porque até agora, nadinha da minha lâmpada se acender.
Depois de sair batendo a porta da frente, lembrei que se eu ia me mudar, podia muito bem matar aula, então com todo o meu orgulho (que não era lá dos grandes) eu voltei para dentro e me aconcheguei em meu edredom do Bob Esponja. Porque a vida é isso.
Abraçar uma coisa amarela, ouvir Hillary Duff no último volume e comer jujubas. Porque tudo definitivamente estava indo de mal a pior. Eu merecia uma sessão de terapia.
SOS. A bruxa má do oeste tá sufocando o Joe com a língua asquerosa dela! Onde vc tá???
A mensagem de Cece quase me fez engasgar. Porque bruxa má do oeste se resumia a Gabriela Alcântara, a namorada super, super, super má do Joe. Ela era quase uma Megan Fox da vida real. Uma Jennifer Body. E ele simplesmente não via isso – o que eu não conseguia entender, mas, a questão aqui é que eu estava dando tempo para o Joe notar que eu sou o amor da vida dele (e criando coragem de declarar meu amor por ele também), mas agora... Bem, agora tudo vai para as cucuias.
Estou me afogando em tristeza! Me deixe em paz!!!
Eu voltei a me afundar no colchão, não era possível que eu fosse a adolescente mais azarada do mundo.
A porta cor e rosa do meu quarto se abriu e minha mãe enfiou a cabeça pela fresta.
– Já arrumou as suas malas? – Ela olhou ao redor e fechou a cara instantaneamente ao constatar que eu não havia nem sequer levantado da cama.
– Eu não vou, então não vejo o objetivo de arrumar as malas. – Continuei encarando o teto.
Ignorar Suzanna era uma loucura, mas já que eu ia ser despachada, podia muito bem ser despachada com estilo. (Que possivelmente, seria uma orelha vermelha).
– Arrume as malas, Maria Eugênia. Eu trouxe algumas caixas para colocar tudo o que vai precisar. – Ela se aproximou com meia dúzia de caixas de papelão empilhadas nos braços. – Vai querer levar seus livros? Ou os ursos de pelúcia?
– Eu não vou levar nada que me lembre a crueldade deste lar. – Murmurei teatralmente.
Suzanna suspirou parecendo considerar jogar as caixas em minha cabeça, então lentamente se aproximou sentando-se ao pé da minha cama. Controlei o impulso de esticar as pernas e chuta-lá para o chão, eu ainda tinha amor à vida. Mesmo que minha vida estivesse do dia para a noite virado uma enorme caca de passarinho.
– Maria Eugênia... – Ela começou em um tom doce e lento que sugeria que ela estava conversando com um bebê. Mas só de chamar pelo nome asqueroso escolhido por ela, meu humor despencou. E ele nem estava tão alto assim.
– Mãe. – Revirei os olhos.
– Você pode me escutar? – Perguntou com impaciência e eu assenti silenciosamente. – Você vai gostar, sei que quando se tem dezesseis anos, se mudar é horrível, mudar de país então? Meu Deus, eu ficaria completamente assustada! – Ela balançou a cabeça. – Mas, Magê, vai ser legal. Confie em mim. Você vai adorar essa experiência.
Eu suspirei e assenti outra vez, sem ter bem o que dizer, porque meu repertório de gracinhas não lá dos maiores quando a situação inclua minha mãe tentando ser gentil e carinhosa.
Ela se levantou e jogou as caixas sobre mim. – Agora arrume suas malas.
– E a Suzanna tirana retorna. – Resmunguei baixinho.
– É, e a Maria Eugênia teatral também, então, vamos lá. Seu voo irá sair às cinco. – Ela olhou o relógio do pulso. – Você tem exatamente três horas para arrumar todas as suas coisas.
– E se eu perder o voo? Ele pode ir sem mim. – Fiz um gesto de descaso com as mãos.
– Faço você ir montada em uma galinha, Maria Eugênia.
– Galinhas não voam, mãe. – Eu sorri vitoriosa.
– Então é bom estar pronta. – Ela saiu do quarto e eu bufei voltando a me jogar sobre a cama.
Minha mãe era advogada, mas na maior parte do tempo estava envolvida em ações governamentais, podia não parecer, mas ela já subiu em uma árvore para impedir seu derrubamento. Era bem bizarro, para falar a verdade.
Já meu pai trabalhava com transportes, ele tinha uma empresa que prestava o serviço, não era nada incrivelmente interessante, mas surpreendentemente, eles tinham bastante dinheiro. O suficiente para me mandar direto para Londres em um assustador colégio interno.
Porque, oh meu Deus?
Retirei meu celular debaixo das cobertas e li a ultima mensagem de Cece.
Ai mds! A tia Suz acabou de contar para a minha mãe que acabou de contar pra mim! Como assim??? N é possível que queiram fazer isso! SOS! :o :o :o
Disquei o número de Cece e esperei até que ela atendesse, o que demorou bastante, já que provavelmente ela estava em aula. Bom, quem liga? Tínhamos uma emergência aqui.
– Ai meu Deus! – Ela atendeu no oitavo toque. – Não pode ser! Não acredito! To enfartando, ai meu Deus! Como eles podem fazer isso com você? Como podem fazer isso comigo? Quem vai me fazer companhia agora? Ai meu Deus! Ai socorro! SOS! Magê!
– Tô aqui e eu tive a mesma reação. – Soltei um muxoxo e Cece imitou meu gesto do outro lado da linha. – E eu nem consegui beijar o Joe! Puxa vida!
– Quem liga pro Joe? – Cece bufou. – Ele tá se agarrando com a megera, nem sabe que você existe, amiga. Sinto muito.
– Mas ele saberia, se eu continuasse na escola. – Respondi ignorando a crueldade das palavras de Cece. Ela não sabia de nada. Joe e eu éramos almas gemas, metades da laranja, eu era a tampa da sua panela de pressão elétrica de 600 dólares.
– Não saberia não, Ma. – Ela suspirou. – Vai me mandar noticias, não é?
– Podemos conversar pela internet. – Eu tentei ser otimista, porque sentia a depressão pré-sem-melhor-amiga se arrastando em minha direção. Ela iria me abraçar e viver comigo durante muito tempo, até se tornar depressão pós-sem-melhor-amiga. O que era cruel. E terrível. Assustador.
– Odeio seus pais. Puxa!
– Acha que os seus me adotariam? – Eu perguntei de repente.
Cece riu um pouco. – Acho que não. Você tá ouvindo Hillary Duff?
– Dreams are made the of.
Cece suspirou chorosa. – Quem sabe isso não vira uma super aventura do tipo Lizzie McGuire? Você pode conhecer um garoto super fofinho e legal e vocês namorarem. Tipo, Disney. Bom, seja como for, não encontre outra melhor amiga ou eu mato você e enterro seu corpo no pasto, onde tem coco de vaca.
– Credo!
– É verdade, seja fiel! Eu vou desligar, mas passo ai assim que sair do colégio! Beijos, Magê. Eu te amo!
– Eu também, Cece. Beijos.
Ok, eu estava sendo dramática. Não era o fim do mundo, e daí, se eu ia me mudar de casa, de quarto, de escola, de amigos, de vida? Quem liga pra isso?
Oh Deus.
Pais cruéis, sem coração, com tanta maldade voltada para a pobre filha (que era a melhor aluna da sala, fazia todas as tarefas, nunca tentou matar o irmão, nunca bateu o carro, nem ficou bêbada pelas ruas ou chegou de madrugada). Onde estava a justiça desse mundo? Como podia boas filhas serem recompensadas com coisas tão ruins?
Peguei uma das caixas pardas e comecei a empacotar todas as minhas coisas, porque fazer birra doze horas antes da tragédia é uma coisa, agora fazer birra três horas antes da tragédia e correr o risco de esquecer meus livros e o Sr. Carinho era outra coisa completamente diferente.
Isso era tão triste.
Só perdia para quando Jessie (minha cadela) morreu, só tecnicamente, porque na verdade, descobri que ela havia fugido e meus pais se sentiram horríveis em me contar que perderam minha cachorrinha. E eles deviam mesmo, como podiam perder alguém da família?
– Está pronta, Maria Eugênia? – Suzanna espiou pela porta.
– Infelizmente, estou. Mãe, sempre há outras opções. – Eu abri um sorriso convincente. Típico de filha de advogada. Eu era boa. – Eu sinceramente acho que isso seria um passo e tanto pro futuro de Gabriel. Além de que, estaríamos livres dele!
– Não vamos nos livrar do seu irmão, Maria Eugênia. – Ela resmungou entrando no quarto e puxando uma das caixas na cama. – Meu Deus, precisa levar tudo isso?
– Estou sendo expulsa da casa. – Retruquei empinando o nariz. – Não tenho ao menos o direito de levar o que me lembra meu querido lar?
– Pensei que o lar fosse cruel. – Ela pontuou pacientemente.
Joguei meus cabelos loiros para trás e encarei minha mãe. – Esta família é cruel, o lar não.
Suzanna riu enquanto saia do quarto com a caixa. Pois é, essa era a minha mãe, já estava acostumada com minhas gracinhas e eu tinha que admitir, ela tinha mesmo uma paciência de Jó comigo, porque eu hein, no lugar dela, eu já tinha é me dado uns tapa na cara.
– Pai. – Eu cruzei os braços assim que desci as escadas, estava firme encarando os dois de uma vez só. – Mãe. Como vocês podem? Eu sou uma adolescente, tenho dezesseis anos! Vocês querem me deixar ir morar em outro país? Sozinha? Com garotos mais velhos e possivelmente garotas que são má influência? Sozinha?
– Você sempre foi uma garota de juízo, querida. – Papai sorriu dando dois tapinhas em minhas costas.
– Eu irei beber até cair. E usar drogas!
– Você precisa aproveitar a vida. – Ele continuou sorrindo.
– Vou fazer você e a mamãe virarem avós!
– E aí terá que cuidar do próprio filho. – Suzanna deu de ombros com mais uma caixa nos braços. Papai pegou a caixa de sua mão e seguiu para fora. – Eu não vou ser babá.
– Eu vou... – Tentei pensar em algo ruim o bastante. – Virar uma meretriz!
– Querida, não é esse o nome que dão agora. – Papai voltou para dentro pegando outra caixa dos braços da mamãe.
– Maria Eugênia. – Suzanna finalmente parou em minha frente. Os cabelos castanhos se agitaram quando balançou a cabeça. – Eu te amo, mas, quero que fique quieta. Por Deus, filha. Isso vai ser bom. Agora porque você não vai se despedir da Cece. Vai lá.
Ela forçou meus ombros fazendo-me girar noventa graus. Eu fechei a cara e praguejei, mesmo que ela não pudesse ver, porque já estava pegando outra das minhas caixas. Eu tinha reunido um total de onze caixas, na vã tentativa deles notarem que era mais lucrativo me manter em casa. Não adiantou muito, só que eu também não iria ajudar de jeito nenhum.
– Magê! – Cece berrou abrindo os braços em minha direção.
Eu abri um enorme sorriso ao avistar minha alma gêmea versão melhor amiga. – Cece! – Cece era ruivinha, baixinha e cheia de sardinhas. Ela era um charminho, na verdade. E eu adorava coloca-la no diminutivo, porque realmente, ela era bem baixinha. Nós éramos as melhores, as mais incríveis, as mais divertidas. Nós éramos as melhores das melhores.
– Não acredito que vai embora. – Ela fungou e eu notei que também já estava chorosa. – Como é que vamos viver separadas? Eu não posso viver sem você! Ai meu Deus!
Eu quis chorar. Realmente chorar. Tudo bem, me mudar era ruim. Mas, me mudar e ficar longe de Cece, isso sim, era bem ruim.
Cece estava lá no meu primeiro beijo, literalmente, estávamos jogando com outros dois garotos e ela foi a primeira pessoa quem ficou sabendo. Cece foi a primeira pessoa para quem contei sobre Joe, e a pessoa que estava lá quando eu tive a minha primeira menstruação (que foi desastrosa, aliás, porque pais comemoram quando uma garota começa a sangrar pelas pernas? Qual o sentido disso? Eu nunca entendi porque constranger as filhas assim), Cece era minha irmã, minha alma gêmea, a parte mais normal e sensata de mim mesma.
Como eu podia ficar longe dela?
Eu ainda estava ponderando sobre isso quando entrei em um avião sem escalas para Londres, apesar de, estar fazendo muito drama, eu não estava exatamente chateada com meus pais. Só com medo o bastante para fazer de tudo para continuar do lado deles. Papai e mamãe pareciam orgulhosos em me mandar para Londres, então eles sorriram e me desejaram boa sorte.
“Boa sorte querida, com sua nova vida assustadora, drogas, bebidas, noitadas e afins.”
Pais. Qual era o problema deles?
Eu peguei meu celular enquanto colocava Ashley Tisdale para tocar e tirei de dentro da bolsa meu diário. Ele era totalmente personalizado. A minha cara, literalmente. Tinha uma foto minha na capa.
“Querido diário,
Tudo bem, eu não odeio a minha vida. Mas, eu odeio ter que deixar São Francisco. E eu nunca, nunquinha, vou ter uma melhor amiga nova. Vou virar uma hippie, ou uma dessas rockeiras emos de mal com a vida que ninguém chega perto. É isso, eu vou virar uma bad girl. (Uma bad girl de mentirinha, porque sinceramente, eu não saberia viver sem jujubas e Hillary Duff e muito menos sem o Patrick Estrela). Seja como for, esse foi o pior (e terrivelmente trágico, triste, deprimente) dia da minha vida. Vou me suicidar com jujubas agora.
Bad beijos sabor jujuba, Magê.”
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