O diário de Magê

3 Querido diário, meu príncipe encantado chegou!


“Querido diário, gostaria de deixar claro aqui todos os meu desejos a cerca da minha morte. Estou chegando a Londres e possivelmente seja morta por algum fora da lei, considerando que tenho pais desnaturados que não se preocupam em me deixar só em um local completamente estranho. Onde está o bom senso? Infelizmente, não disponho de recursos suficientes para ir contra a tirania familiar, sendo assim, aqui estou eu e minhas exigências a respeito de meu falecimento.

1 — Hillary Duff precisa tocar durante o meu enterro, porque na boa, ninguém merece estar morta e ainda ouvir aquela música que deprime até defunto.

2 — Quero estar vestida de Patrick Estrela, e não discutam com a futura morta.

3 — Deixo todos os meus bens (livros, camisetas e posters de bandas e ursos de pelúcia) para minha best ever melhor amiga de todos os tempos Cecília.

4 — Não deixem Gabriel usar meu quarto, ele deve ficar fechado, pois é um local histórico.

E você não deve rir das exigências de uma morta. Ela pode voltar para chutar sua bunda mole. Atenciosamente Magê.

Eu estiquei o braço chamando a comissária de bordo e ela me encarou quase raivosa. Pobrezinha, eu a entendia. Devia ser meio complicado ficar lidando com uma adolescente viciada em jujubas como eu.

– Precisa de algo, senhorita? – Perguntou com o inglês carregado de sotaque londrino.

– Jujubas. – Eu sorri esperançosa e ela suspirou desanimada.

– Infelizmente elas acabaram. Sinto muito.

Eu fiz uma careta de indignação. — Como assim acabaram as jujubas? Qual é o problema dessa companhia? Vocês sabiam que foi cientificamente provado que jujubas acalmam pessoas que possuem medo de altura?

A comissária me olhou parecendo quase assustada enquanto negava com a cabeça. Eu segurei a vontade de rir e dei dois tapinhas camaradas em suas costas.

– É, eu também não sabia. Na verdade, nem foi provado coisa nenhuma. — Fiz um gesto de mãos. — Mas seria uma ótima ideia, hein?

Acho que ela teria me batido, se eu não fosse a cliente da história. Sorri amarelo enquanto ela me dava as costas parecendo ainda mais inconformada.

Pois é.

Culpe Charles e Suzanna, minha querida. Se não fosse por eles, eu não estaria aqui. Lamento muito.

Quando pousei em Londres, mais especificamente em Cambridge, a comissária pareceu aliviada, enquanto eu parecia quase desesperada. O aeroporto era grande, o que já se era de imaginar considerando a popularidade da cidade.

Esquadrinhei com os olhos as pessoas dos lugares e quase engasguei ao encontrar uma plaquinha com meu nome. "MARIA EUGENIA ALBUQUERQUE". Letras vermelhas e garrafais. Ok, ela não podia me chamar de Magê. Não me conhecia.

A mulher parecia ter quase 1,80 de altura e eu arregalei os olhos perante sua postura de general. Ela segurava a plaquinha quase como se ela fosse criar pernas e fugir. Segurei o impulso de voltar correndo para dentro do avião e implorar de joelhos para meus pais aceitarem-me de volta. Beleza. Eu conseguia me virar. Força Magê! Os cabelos dela eram castanhos acinzentados e estavam firmemente presos em uma trança embutida. Eu engoli em seco aproximando-me com meus allstars, meias coloridas e blusa do bob esponja. Me sentia quase a filha rebelde do general.

– Você é Maria Eugênia? – Ela perguntou com o mesmo inglês carregado que a aeromoça. A única diferença era o tom frio e formal.

Eu abri um sorriso e dei de ombros. – Bom, costuma ser eu, mas na verdade, eu gostaria que você me chamasse...

– Vamos embora. – Ela girou ignorando-me e eu fiz uma fusquinha enquanto corria atrás dela com meu carrinho de malas. – Seguiremos por uma hora de carro até Chestweere....

– Não vamos ficar aqui? – Interrompi chocada.

Eu estava até que animada com a ideia de londrinos universitários bonitões.

– Não. – Sua resposta foi curta e rápida. Ela me olhou como se eu estivesse vestida como o Hantaro. Eu fechei a cara enquanto a seguia de perto, morrendo de medo de ir parar em algum lugar clandestino de tráfico de órgãos. Por Deus, eu adorava meus rins e meu fígado. Eu tinha um fígado só, não é? Eu não me lembrava bem, mas que tudo continuasse aqui como mamãe fez. — ....você irá dormir com uma colega de quarto, não irá se misturar com garotos. – Finalmente voltei a prestar atenção no monólogo da senhorita-cabelo-cinza. Ela provavelmente dissera o próprio nome, mas eu não ouvira, dei de ombros voltando a prestar atenção e notei que havia perdido mais uma parte das suas instruções. -...não irá sair do instituto a não ser que esteja acompanhada de um monitor responsável ou um superior. Entende-me? – Perguntou finalmente me encarando.

Eu assenti com a cabeça e ela empinou o nariz prosseguindo.

– Senhorita Albuquerque, gostaria de deixar claro também, que passará os próximos três anos na nossa escola, sendo assim, a senhorita não irá usar mais esse tipo de roupa. – Ela apontou para as minhas meias.

– Epa! – Eu dei um gritinho agudo. – Não vem com essa não, minha senhora.

– Connel.

– Hã?

– Eloise Connel. É meu nome. – Resmungou de cara fechada.

– Tá, que seja. – Fiz um gesto de mãos. – O que importa aqui é que as minhas meias ficam. Eu não posso me desfazer delas. Fazem parte de quem sou, como você quer que eu me desfaça de mim mesma? Isso é uma tirania!

A mulher revirou os olhos ignorando meus argumentos e eu bufei. Ela indicou-me algo a minha frente e eu estiquei meu pescoço para ver o carro escuro.

– Entre.

– To indo. – Murmurei quase com medo da senhorita-cabelo-cinza. Ela era mesmo assustadora, parecia quase o barqueiro da morte dos filmes de terror. (Tudo bem, quase isso). Ela até que era bonita, tinha um rosto jovem, talvez trinta e poucos anos, mas o cabelo cinza, o vestido preto formal e os sapatos de sapateado não favoreciam muito sua aparência. Talvez eu pudesse dar umas dicas a ela. Cece sempre disse que eu tinha um super, mega, total bom gosto para moda. Bom, não é a toa que todo o pessoal do Colégio Alice Moura adorava as minhas pulseiras e camisetas personalizadas.

Eu era a gênia da moda.

Pena Suzanna não reconhecer isso, ela costumava dizer (quase todos os dias) que eu parecia uma palhaça, mas eu era uma artista! Só artistas entendem outros artistas!

– Então... – Eu comecei afastando meus olhos da estrada cheia de arvores cobertas de neve e lama. A senhorita-cabelo-cinza me olhou mais uma vez como se eu fosse um ser de outro mundo vestido de rosa Pink e estivesse cantando Barney pra ela. Pois é. – Essa escola aí, ela é legal?

– Legal? – Ela arqueou a sobrancelha ainda séria. – É uma escola dedicada, senhorita Albuquerque, nós fazemos de tudo para que nossos alunos se tornem jovens e adultos extraordinários. Somos uma escola disciplinada e acima de tudo....

– Ihhhhhh. – Eu interrompi seu discurso pronto e ela piscou confusa. – Isso aí parece chatinho hein? Dá pra rebobinar? Posso voltar pra casa? Vocês, tipo, devolvem o dinheiro? Porque, puxa! Acho que foi engano dos meus pais.

– Não foi engano algum, Maria Eugênia.

– Magê. – Corrigi automaticamente de olho na estrada.

– Como eu ia dizendo, senhorita Maria Eugênia....

– Magê.

Ela pareceu respirar fundo e então continuou. – Maria Eugênia, eu...

– Magê. – Eu tentei mais uma vez e virei meus olhos em sua direção pronta para explicar os motivos da abreviação. Mas a senhorita-cabelo-cinza parecia mais vermelha do que era possível. Eu quase podia ver a fumacinha saindo de suas orelhas.

– Maria Eugênia. – Praticamente rosnou meu nome.

Eu sorri amarelo e ela suspirou parecendo se acalmar.

– Este – Ela começou me entregando um cartão – é o cartão do seu dormitório, sem ele você fica para fora e se ficar para fora e ganha uma suspensão.

– Já to acostumada com isso. – Dei de ombros.

– Se ganhar uma suspensão, não saí da escola em dias de passeio. – Fechou a cara.

– Ok. – Murmurei pegando o cartão.

Finalmente o motorista estacionou em frente a uma grande construção, o colégio era mesmo enorme, com pedras antigas e portas de madeira. Parecia quase um castelo, eu já até me sentia como a bela adormecida presa em sua enorme e linda torre, só sem o príncipe, claro. E sem a linda torre. E sem os lindos cabelos loiros (porque os meus pareciam uma esponja) e os olhos azuis, tudo bem, vamos esquecer a bela adormecida.

Suspirei sentindo a depressão me dar tchauzinho da esquina e se arrastar em minha direção, com um sorriso lindo e acolhedor e os braços enormes prontos para me abraçar. Metaforicamente falando.

Porque a depressão era bem bonita. Bonita mesmo.

Cabelos castanhos caindo nos olhos cor de mel. Alto e forte. Eita que depressão depressiva. Senti meu ar quase faltar quando ele parou em minha frente, com um sorriso brilhante e maravilhosamente encantador. Olha só, eu tinha um príncipe. Sorri quase emocionada com meu cavalheiro de uniforme brega cinza. Ele riu estralando os dedos em frente ao meu rosto e eu pisquei recuperando a consciência.

– Senhorita Maria Eugênia. – A senhorita-cabelo-cinza praticamente rosnou e eu ergui os olhos encarando-a. Ela revirou os olhos como se isso acontecesse sempre. E provavelmente acontecia, essa depressão era a mais charmosa que eu já vira. Charme londrinho? – Esse. – Ela novamente pontuou como se eu fosse lerda. – É o monitor da nossa escola, Jesse Hastings, ele irá lhe mostrar o nosso instituto e lhe contar tudo o que precisa saber. – Ela bufou e caminhou para longe de nós.

– Oi. – Eu sorri suspirando.

– Olá... Maria Eugênia, não é? – Ele mais uma vez sorriu brilhante.

– Magê. – Suspirei bocó.

– Magê. – Repetiu e então me esticou um folheto. – Seja bem vinda a Chestweere College.

Querido diário.

Ah! Ah! Puxa vida!

Monitor Jesse Hastings (ele é lindo, fofo, divertido e tão lindinho!) Tô apaixonada.

Meu príncipe encantado tem nome!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.