O diário de Isabela
7 Acordar
Notas iniciais
Vi a pessoa ,que me parecia um enfermeiro, abrir a porta do quarto a minha frente , entrar e sair um minuto depois. Tranco a porta e depois veio até a minha, ouvi a porta sendo destrancada pro fora e suspirei aliviada.
—Bom dia!
—Bom dia! Finalmente alguém apareceu. Olha, eu acordei aqui e não me lembro como vim até aqui, será que pode ligar para a minha madrasta?
Ele que estava colocando algo em uma seringa, parou e me olhou surpreso. Veio até mim devagar e eu recuei assustada com aquela agulha gigante.
—Qual a ultima coisa da qual se lembra?
—Eu.. acho que estava em casa...
—Em casa? Com quem?
—Com.. eu não me lembro.
—Faça um esforço.
— Com algum garoto, um amigo eu acho.
Rapidamente me veio a cabeça a lembrança de alguém me beijando contra a minha vontade.
— Eu acho que ele me beijou
— Lembra do seu nome?
—O que?
Meu Deus...como era o meu nome?
— O seu nome. Apenas primeiro para iniciar.
—Eu...
COMO É O MEU NOME??
O enfermeiro levantou uma lanterninha e me mandou seguir a luz com os olhos, depois pediu que eu apenas mantivesse os olhos parados. Colocou a lanterna no bolso e enfiou aquela agulha no meu braço.
— A quanto tempo esta acordada?
—Uma hora mais um menos.
— Tome seus remédios, eu volto já já para te liberar.
Me entregou três comprimidos e apontou para o meu copo de água no chão.
Qual o meu nome? Porque eu não estava sabendo o meu nome?
Esperei alguns poucos minutos e a porta se abriu novamente. Finalmente iria para casa. O mesmo moço veio até mim e colocou uma pulseira em meu braço.
—Pra que serve isso?
—Seu numero de identificação.
—Mas vou sair daqui não vou?
—Claro! Está na hora do café da manhã.
Estranhei mas o segui por um corredor imenso onde via de vez em quando algum outro moço levando outra garota.
“Será que fui sequestrada?”
Comecei a sentir uma tremenda dor de cabeça e precisei parar e fechar bem meus olhos. Começaram a me vir imagens na cabeça. Um casal que cuidava de mim e em seguida um caixão e meus olhos cheios de lágrimas.
—Mãe!!
Não havia percebido, mas havia gritado bem alto. Vi o tal enfermeiro parar e olhar para trás vendo que fiquei bem para trás e veio até mim. Abaixou-se ao meu lado e perguntou o que havia acontecido.
—Lembro dos meus pais! Minha mãe morreu não foi?
—Quando você era bem nova
Ele me levantou e me fez segui-lo novamente. Já podia ver um salão e ouvir barulho de panelas e pratos vindo dele.
—Onde estou afinal?
—Você está em casa querida.
E ele me deixou ali enquanto seguia o corredor de volta.
Havia pessoas todas com roupas iguais as minhas. Parecia com um refeitório gigante, porém havia bem mais mesas do que pessoas. Alguns estavam comendo, outros deitados ( na mesa e também no chão) , outros conversavam ( com outras pessoas e também sozinhos), outros jogavam alguma coisa...
Comecei a caminhar por entre as mesas e observar. Não! Não podia ser! Estavam todos alí, agora eu me lembrava! Agora eu me lembrava de tudo desde o inicio. Olhando para aqueles rostos pude reconhecer e recuperar a minha memória!
La estavam as gêmeas! Minhas meias irmãs. O que estavam fazendo ali? Caminhei até elas e vi que estavam conversando com Gu. Assustei-me quando vi ele, e me lembrei de ter praticamente me jogado da escada. Eles me olharam com uma cara estranha e voltaram a conversar entre eles. Nem sequer para me perguntarem como eu estava? Afinal eu havia sido jogada de uma escada e estava internada ali. Se não foram la para me buscar, o que estavam fazendo? Notei que estavam usando as mesmas roupas que eu e aquilo me foi estranho.
Eu não conseguia perguntar nada a eles, nao tinha forças. Estava tudo estranho.
Comecei a ver o pessoal da minha turma e inclusive a Chata Manuela, o Léo e até mesmo o Augusto. Falando em Augusto, quando ele me viu veio correndo e agarrou minhas perna enquanto ficava de joelhos.
—Você veio, você veio, você veio!
—Me larga! –Empurrei ele que caiu sentado e começou a chorar feito uma criança. – Está maluco?
Sai de perto de todos e encostei-me a uma parede bem distante. Mas o que raios esta acontecendo? Minha vontade era de gritar e pedir socorro. Porque estavam todos vestidos como eu? E porque ninguém falava comigo? Porque a Chata Manuela estava atirando cadeiras na parede? E porque. Minha madrasta estava vestida como uma enfermeira? Vi ela correr e agarrar Manuela que se debatia e gritava arrancando os cabelos e então ela foi levada. Muitos começaram a chorar escandalosamente ou entao silenciosamente como crianças apavoradas. Aquilo ME apavorava.
Sentei no canto da parede e aguardei até minha madrasta aparecer novamente. Precisava perguntar a ela o que era aquilo. Ela estava demorando demais e minha barriga estava roncando. Fui até onde serviam a comida e peguei a sopa aguada que estavam oferecendo.
De longe avistei minha madrasta entrando naquele ambiente e corri em direção a ela.
— O que esta acontecendo aqui?
—Oi?
— Onde estou, por quê? E porque está todo mundo aqui? Eu não estou entendendo nada! Cadé o André?
—Quem é André?
—Como assim “quem é André”? Você sabe, ele sempre ia lá em casa, era meu amigo, do Gu e do Léo
Ela me olhou assustada depois de um sorriso forçado e chamou outro enfermeiro.
—Leve ela até o Doutor Mendonça.
—Doutor Mendonça? Tem certeza senhora?
—Acho que ela esta acordada.
Ahn? Era óbvio que eu estava acordada. Tenho cara e sonâmbula por acaso? Ela se agachou e falou como se falasse com uma criancinha:
—O Doutor Mendonça poderá te explicar tudo. Apenas ele pode explicar.
Mesmo sem entender eu segui o enfermeiro.
Parecia a diretoria de uma escola e o velho sentado a minha frente parecia um bruxo rabugento. Mas as aparências enganam.
—Querida, antes de tudo eu sinto muito! Eu não sei o que você acha estar acontecendo mas tenho quase certeza de que você lembra de algo que nunca aconteceu.
— Desculpe... eu não estou entendendo doutor.
Ele se levantou e foi até a janela da sala. Fez sinal para que eu fosse até lá e me apontou uma placa gigante na grama onde pude ler : “Sanatório Dahmer — Instituto de tratamento mental Para adolescentes e crianças”
Fiquei paralisada alguns segundos e olhei para ele incrédula.
— Sou Samuel Dahmer, dono e diretor do Instituto.
— Vai me dizer que quando caí da escada fiquei maluca?
—Mas você nunca caiu de nenhuma escada!
Ficamos em silencio alguns segundos.
— Você veio para cá quando tinha dez anos de idade Isabela, e isso já fazem dez anos.
— Impossível! Eu não tenho vinte anos! – Eu estava prestes a gritar e sair correndo feito uma maluca
—Nesses dez anos você ficou num estagio que chamamos de “dormindo” . Você vivia “normalmente” só que apenas com a sua imaginação.
— Eu não estou entendendo – Eu estava em prantos.
— Aos dez ano você começou a viver num mundo só seu. Não via nem ouvia mais ninguém além dos seus personagens imaginários. Você acreditou que sua mãe estava morta e vivia chorando pela morte dela enquanto ela estava do seu lado implorando para você olhar para ela.
Só podia ser brincadeira.
— Foi quando te trouxeram para cá , e você conheceu todos aqui, no primeiro dia parecia estar bem, porém no dia seguinte continuou no mundo imaginário. A médica chefe era sua madrasta, as gêmeas eram suas irmãs, e por ai em diante. Você criou novas identidade para todos, e muitos personagens também só existiam em sua cabeça. Isabela, hoje você acordou! Hoje você finalmente falou com todos e viu todos realmente. Só que você criou mil lembranças falsas em sua cabeça.
—Eu sou maluca?
—Preferimos dizer criativa!
Eu já não tinha lágrimas para derramar.
—O que vai acontecer agora?
—Você pode ir para casa se seus pais quiserem
— Meus pais? Eles... Estão vivos?
—Sim Isabela, eles só morreram no seu mundo.
Ao menos isso seria bom nessa nova realidade.
— Mas o enfermeiro disse que minha mãe havia morrido.
—Eles falam qualquer coisa para concordar com os pacientes. É melhor do que confundi-los mais ainda. Você precisa ir para o seu quarto agora. Entraremos em contato com sua família e se eles aceitarem te retirar daqui, amanha começaremos a organizar tudo.
— ‘Tudo’ o que?
—Além a papelada você não pode sair sem terminar o tratamento e passa por alguns exames.
Fechei meus olhos e deixei a ultima lágrima escorrer e fui então levada e volta para o meu quarto.
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