Notas iniciais
Oi, eu resolvi passar esse meu "diário" para o Nyan. Bom, tudo aconteceu na verdade no ano 2018, okay?! Mas não deixa de ser verídico.

15.07.18

Eu sei que já tá quase no final do ano mas eu decidi de qualquer forma escrever esse "diário". Bom, eu tentarei dizer aqui toda a verdade em nome da minha honestidade. Hoje é dia quinze de Setembro de dois mil e dezoito às 01h25 minutos e eu estou tendo uma crise de ansiedade desde as 18h00 da noite. Bom, é melhor eu contar o porquê da ansiedade e como começou.

Em dois mil e dezessete eu me apaixonei, na verdade, me encantei por uma mulher. Eu muito fã de Grey's Anatomy me encantei por ela porque ela parecia com a Arizona Robbins pra mim, a mesma essência, aquele jeitinho de menina-mulher e até o sorriso delas se pareciam.

Um sorriso que tem uma certa delicadeza, eu não sei explicar muito bem. Pois bem, eu me encantei e não era mais nada além disso. Ela é professora de português-letras, vinte anos mais velha do que eu, tem uma filha e um namorado — que convenhamos, não acho que mereça ela, mas tudo bem — eu até ano passado apenas admirava ela por parecer e ter essa semelhança com a Arizona Robbins e bom eu precisei esconder isso de algumas amigas minhas porque até então elas não sabiam da minha sexualidade.

Então eu mantive essa ideia comigo por muito tempo. Eu a conheci consequentemente num lugar muito amigável onde moro, não é bem um bar, ou uma choperia. Bom, a gente se via bastante mas nada era mais do que isso para mim, ela apenas parecia a Arizona. Até que no final de dois mil e dezessete eu me assumi para essas minhas amigas e eu viajei para Angra. (Porque era fim de ano e essas coisas). Bem, cá agora estou eu então quase no fim de dois mil e dezoito porque todo esse sentimento que eu tinha por ela mudou, completamente.

Eu comecei a ver a mulher por trás da figura que eu criei dela. Ela não era Arizona mais. Mas eu irei chamá-la de Arizona porque não quero expor ela demasiadamente. No começo do ano a gente manteve a amizade e toda a conversa sem qualquer interesse vindo de mim mas eu não sei como num piscar de olhos, num passe de mágica, num estalar de dedos, num suspiro, num tropeço eu me vi mais do que encantada por ela.

Eu comecei de brincadeira mandando bilhetes anônimos para ela no fim de Agosto. O primeiro bilhete foi realmente na brincadeira e eu nem esperei que eu fosse fazer isso novamente. Eu escrevi: "Eu te amo, cê é minha crush." Era totalmente numa brincadeira (eu não digo eu te amo com tanta facilidade assim) até porque foi minhas amigas as quais eu me assumi depois que me incentiram a fazer isso. Confesso que eu fiquei com frio na barriga naquele momento, quando joguei o bilhete dentro do carro dela.

Uma semana depois eu estava novamente colocando outro bilhete no carro dela. Bom, a Arizona, ela é pisciana e ama literatura, romantismo e poemas, como eu disse, professora de português-letras. Então eu tive a brilhante ideia de pegar esses poeminha bobos de internet e dedicar a ela numa folha imprida porque eu não queria mostrar minha caligrafia. O poema era de Cora Coralina que dizia:

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...

O poema em si era bonitinho e agradável e eu tinha certeza que ela iria gostar, bom, talvez ela realmente gostou. Mas eu não. Antes de eu colocar novamente este poema em forma de bilhete no carro dela, estava levemente bêbada falando alto sobre minha sexualidade para minha amiga, Jéssica, e que aconteceu algo semelhante comigo, sobre bilhetes de amor. Porque a Jéssica me perguntou porquê eu não dizia a Arizona o que eu sentia por ela.

Eu expliquei superficialmente para ela, o que aconteceu uma vez comigo quando se tratava de bilhetes anônimos. Mas eu era a vítima dos bilhetes e disse que quando descobri quem me mandava eu fiquei estranha com a pessoa e me afastei e tinha medo de que acontecesse o mesmo com a Arizona. Mas eu não contei a raiz na verdade para ela, eu não tive tanta coragem assim.

Eu tenho medo de apaixonar, um medo tão surreal que eu chego a surtar numa crise infinda de ansiedade. Eu tenho medo do amor e de sentir ele muito perto de mim, me sinto pequena, idiota enquanto penso que era mais fácil eu gostar de alguém que não tivesse uma vida antes de mim. Mas por mais que eu tenha esse medo, essa fobia, que tem nome científico: filofobia, eu ainda sim me apaixono mas não consigo sair do anonimato porque minha cabeça pira e tudo fica horrível dentro de mim.

Eu já amei alguém mesmo com essa fobia, e era horrível sentir que eu amava alguém com medo de tudo que aconteceria. Eu sempre tentei lutar contra esse sentimento mas não obtive sucesso, as únicas coisas que obtive desse amor (abusivo) foi: mais ansiedade, depressão, mais medo ainda de amar alguém e ser tudo da mesma forma como foi antes.

Eu tenho medo de chegar longe demais essa história também, por mais que eu goste dela eu não nos vejo como um casal ou um caso. Na verdade eu nem sei porquê eu me apaixonei de repente por ela. Eu tenho medo do futuro e do presente de certa forma. Mas voltando ao que houve na terça-feira, eu estava falando a Jéssica um motivo superficial pelo qual eu não me assumia nos bilhetes para Arizona. E de repente começou alguma conversa — que não consigo me recordar agora — entre eu minha outra amiga, Tayná, disse:

"Eu só fui saber que você era lésbica quando você disse que nunca beijou homem antes." Disse a Tayná.

Desse meu grupo de amigas, ela foi a última a saber.
E eu não lembro do diálogo que ocorreu depois até eu soltar muito alto, acho que metade das pessoas presentes ali ouvirem:

"Você lembra, Tayná, que eu te falava que eu achava a Arizona bonitinha?" Esse foi meu comentário relembrando ano passado, porque agora eu quando estou com este meu grupo de amigas, tudo que é dito é 99% Arizona e 1% qualquer conversa aleatória.

Pois então, eu tinha me esquecido que a amiga da Arizona, estava sentada a mesa ao nosso lado quando essa conversa toda aconteceu, eu não sei se ela ouviu, se ela prestou atenção na conversa mas de qualquer forma ela estava ali pra foder com a minha mente.

Quando já estavamos indo embora sentamos num banco, frente ao carro da Arizona, eu, Jéssica e a Duda. Ficamos esperando ela vir embora também, eu queria ver a reação dela quando visse o bilhete.

Então pro meu azar quando ela estava vindo, descendo uma pequena rampa para o estacionamento a vi junto com aquela amiga que eu disse a pouco, que provavelmente ouviu tudo o que eu disse. Ou não, eu não sei.

Elas desceram conversando e até que elas nos viram. Ficaram encarando por um bom tempo paradas. Eu não sei o que a amiga da Arizona disse pra ela responder:
"Eu não consigo ver nada. De noite meu óculos fica escuro." Bom, eu não ouvi isso, na verdade eu entrei num surto quando vi as duas vindo e elas sorrindo enquanto olhavam pra gente descendo aquela rampa, quem contou tudo para mim foi a Duda porque meu corpo entrou num estado de surto que nunca aconteceu antes.

Assim que a Arizona disse isso elas ficaram algum tempo lá, mas parada e rindo e eu quase indo embora, meu coração tava a mil e um. Não por causa dela, da Arizona, mas por causa da amiga dela. Eu tinha certeza que elas estavam falando de mim e bem, por mais eu faça essas coisas, eu não quero que ela descubra que sou eu, é estranho pensar assim mas quero manter-me no anônimo. A Arizona então riu e caminhou para o seu carro e depois disso eu não consegui mais olhar para ela, pra situação, a Duda foi a única que viu porque a Jéssica me viu surtar e surtou junto comigo e segundo as informações da Duda, ela disse que a Arizona viu o bilhete, e que ela disse pra essa amiga dela:
"Olha o que deixaram aqui!" E deu uma risadinha e entrou no carro. Sim, eu não coloquei dentro do carro, enfiei num buraco que ela pudesse ver. Eu nessas horas tava surtando sentada naquele banco, eu só queria ir embora, mas se eu fosse chamaria atenção, seria ainda pior. Ela entrou no carro e demorou um pouco para sair, achamos que ela leu o poema dentro do carro e foi embora. Assim eu espero.

E quando eu levantei daquele banco eu fui de lá até minha casa gritando na rua o quão burra eu fui por ter ficado lá pra ver a reação da Arizona. Que agora ficou óbvio que era eu quem mandava os bilhetes para ela e ela sabia de tudo. Foi um surto horrível na hora. Eu só queria me chamar de burra e me arrepender completamente de ter feito aquilo. Eu acabei me acalmando e rindo da situação quando fui deitar naquele dia. Mas no dia seguinte... Minha ansiedade apareceu, não muito forte, na quinta-feira, aumentou mais um pouco e eu chorei porque não entendia o medo que eu estava sentindo tão grande daquele dia e por ser quinta-feira, eu sabia que na sexta-feira eu teria que vê-la novamente. O que me deixou ainda mais ansiosa e eu não sabia o que aconteceria na sexta-feira, a única coisa que era certa de acontecer e aconteceu, foi uma crise de ansiedade que diria nível dez. Eu só a vi de longe na sexta-feira não falei se quer um "Oi" com ela e foi o suficiente para que eu chorasse de medo de novo, sentasse sozinha, meu coração tava a mil, eu senti medo do que aconteceria se eu esbarrasse com ela. Então a Tayná me ajudou, ela me fez rir e esquecer um pouco disso, desse medo tolo e voltamos para casa. Mas antes, claro, eu escrevi novamente um bilhete para ela.

"Sorry to bother you again but what I feel for you is so fucking stupid and I can't explain that to my heart."

"desculpe incomodá-lo novamente, mas o que eu sinto por você é tão estúpido e eu não posso explicar isso para o meu coração."

Dessa vez, eu não fiquei lá pra ela iria ver, eu apenas deixei lá e fui embora. Eu não sei se ela viu, se ela leu e talvez isso não me importe nesse momento. O que acontece é que agora, eu quero parar com os bilhetes e dar a ela um buquê de flores — é clichê, mas ela gosta. — e mandar alguém entregar, anônimo novamente. Mas eu estou em dúvida se eu estou exagerando nisso, se eu realmente devo fazer isso, eu quero mas sinto medo. Eu espero conseguir e se eu for presentea-la que eu não surte novamente. O que você acha, querido diário da minha ansiedade, eu devo?