O destino de uma princesa
22 Sonhos sombrios
Depois da situação tensa que acabei de presenciar, permaneço em silêncio esperando pelo que será feito comigo a partir de agora.Carlos e os demais conselheiros se retiram da sala ainda muito irritados e indignados com a atitude do rei Nícolas. Lorde Patrick é dos últimos a se retirar da sala.Antes de partir, ele pede permissão ao rei para sair da sala e ele gentilmente concede.Patrick se dirige até a porta e antes de se retirar,seus olhos negros me lançam um olhar de desprezo e de total repugnância.
Mesmo com tudo que aconteceu nessa sala,anteriormente, olho para ele de maneira serena e tranquila. Tento usar toda a diplomacia e compaixão que minha mãe me ensinou desde pequena para tentar compreender que ele tem em seu coração inúmeros sentimentos ruins sobre mim e meu povo,por isso a última coisa que ele deseja é me ver bem e feliz.Entretanto,minha mãe esqueceu de mencionar que compreender e lidar com lado raivoso das pessoas não é uma tarefa simples.Com tudo eu sei que permitir que minhas mágoas transformem meu coração igual ao dele não é uma boa ideia.
Penso assim por que eu sei como é ter ódio e revolta no coração,pois desde que tudo virou do avesso na minha vida vários pensamentos negativos e nada diplomáticos rondaram na minha cabeça.Um pensamento mais obscuro do que o outro.O desejo de vingar todas as pessoas que eu amava e que foram mortas por causa da crueldade daquele rei e seus cavalheiros queimava a minha alma aos poucos.Eu estava optando por trilhar em um caminho obscuro e sombrio.Eram tantos sentimentos confusos.Dor, ódio,medo de morrer, o luto pela Lorena, tudo estava aos poucos me transformando em uma pessoa ruim.Quando estive presa naquela masmorra e cochilei por alguns instantes enquanto esperava com todas as minhas esperanças pela salvação que viria pelas mãos de Heitor, eu tive um sonho que me fez perceber por qual caminho perigoso eu estava trilhando por pensar aquelas coisas. Foi um sonho tão forte que até consigo recordar as sensações que tive nele.
Sonhei que estava no palácio do Reino ao Sul.Estava me dirigindo para a sala do trono devidamente trajada com um belo vestido de seda negro.Tinha comigo um belo punhal que se me lembro muito bem era parecido com um que meu pai tinha.O punhal tinha uma lâmina de dois gumes (ou seja, afiada dos dois lados) e o cabo era de madeira encerada.Na extremidade do cabo também tinha um acabamento em alumínio maciço polido.Meu objetivo era muito simples: esvair a alma daquele repugnante homem que se achava soberano e manda-lo direto para o outro mundo.Na minha utopia,continuei a vagar rumo a sala.Não havia nenhum obstáculo pelo caminho. Era apenas eu e minha vingança contra ele.
No ápice do meu insano sonho,escondi o punhal na minha bota e consegui entrar na sala principal.E lá estava ele.Eu podia sentir o ódio queimar por dentro de mim. Fui ao seu encontro,mas ele permaneceu quieto e sentado em sua grandiosa cadeira real mesmo diante da minha presença. Ele não demostrou nenhuma surpresa, pelo contrário, parecia que já estava esperando pela minha visita. Continuei caminhando tranquilamente até que fiquei a uma curta distância dele.Ele se levantou e veio ao meu encontro. Estávamos frente a frente.Meu coração não balbuciou e minha consciência não me fez hesitar em cumprir o meu desejo. Permanecemos em silêncio absoluto. E em um movimento rápido e preciso, saquei meu belíssimo punhal da minha bota e com destreza golpeie seu peito.Enfiando profundamente aquela arma não só para atingir a sua carne ,mas também a sua alma.Ele nem reagiu.Seu corpo desabou no chão.Fiquei parada ali mesmo apreciando a cena daquele homem arquejando sobre meus pés.O sangue dele escorrendo até formar uma poça no chão.Me agachei para ver mais de perto minha doce vingança. Queria ficar lá por mais tempo vendo ele morrer a cada segundo que passava,queria ver o sangue dele limpar aquele chão imundo,mas temia que os guardas aparecessem.Então antes de me retirar dali, sussurrei uma ironia para aquele resquício humano:
—Vida longa ao rei!
Bruscamente arrancei o punhal do peito dele e me levantei.Foi quando Heitor me retirou daquele sonho sombrio.
Eu não sei como pude chegar a ponto de ter sonhos são cruéis e sanguinários como esse.Uma pessoa tomado pelo rancor e pelo ódio só sacia seu lado negro quando seu coração assina sua própria sentença.Jamais devemos nos deixar ser guiados por pensamentos dessa espécie.Eu não quero me tornar uma “dama da morte”.Eu posso ser muito melhor do que uma assassina.
Volto para a realidade.Lorde Patrick segue seu caminho.O rei Nicolas se dirige até a mim e diz:
—Princesa Anne é com toda alegria e com minha plena consciência que lhe declaro livre para seguir a sua vida como seu coração desejar. Lhe retiro qualquer sentença anteriormente declarada.
—Vossa majestade lhe agradeço eternamente por tudo que fez por mim!Que o senhor seja abençoado eternamente!
—Eu só fiz o que era certo. Anne,agora você vai poder ir e vir quando desejar.Farei pela manhã um anúncio para o povo das Terras ao Sul declarando que sua dívida com o nosso reino não existe mais.
—Obrigada vossa majestade.
—A princesa se desejar pode ficar por esta noite aqui no palácio,está muito tarde da noite e além disso ainda está chovendo muito.Vossa alteza pode ficar instalada aqui por quanto tempo desejar.Nesse palácio a senhorita estará sob minha proteção e meus cuidados.Nada de mal lhe acontecerá se ficar aqui.
—Rei Nícolas,o senhor é infinitamente bom comigo e agradeço muito a Deus por ter colocado uma alma tão nobre e bondosa na minha vida.Eu agradeço o convite pela estada em seu palácio.Eu aceitarei ficar aqui por esta noite,mas amanhã partirei logo cedo.
—Faça como achar melhor para a senhorita.
—Obrigada.
—Pedirei aos guardas que chame uma velha conhecida sua para lhe conduzir aos seus aposentos.
Nícolas acena para um dos guardas.Faço uma reverência em agradecimento para o rei.Em instantes,o guarda volta com a Teresa.
Fico radiante em revê-la.Ela quase não acredita que está me vendo novamente.
Teresa se apresenta ao rei e corre para me dar um abraço apertado.Ela sussurra no meu ouvido:
—Anne!Deus seja louvado por você estar bem!
—Teresa estou muito feliz em poder te ver novamente!
Nos soltamos e Teresa está pronta para ouvir as instruções do rei.
—Teresa gostaria de que a senhora fosse a responsável para cuidar da princesa Anne enquanto ela estiver conosco.
—Será um imenso prazer majestade.
—A senhorita Anne não é mais uma prisioneira do Reino do Sul.
—Compreendo vossa majestade.
Teresa tenta não demostrar sua grande satisfação em ouvir aquela notícia.
—Teresa,a senhora terá por precaução a ajuda de dois guardas da minha confiança para evitar qualquer contratempo contra a princesa Anne.
—Sim vossa majestade.
—Obrigado Teresa.Desejo as damas uma excelente noite.
Nícolas sorri timidamente e Teresa e eu nos abraçamos novamente. É muito bom reencontrar minha grande amiga e cúmplice depois de tanto tempo.
—Vamos Anne! Você precisa descansar.
Antes de me retirar da sala com a Teresa.Agradeço mais uma vez ao rei por sua generosidade:
—Rei Nícolas obrigada por tudo.Eu sei que já fez muito por mim,mas gostaria de lhe fazer mais um pedido.
—Diga qual é?
—Que vossa majestade me ajudasse a encontrar ou pelo menos ter noticias de algumas pessoas que também me ajudaram muito.E certamente,o senhor possui mais meios de encontrá-los do que eu sozinha.
—Refere-se ao Heitor e sua família?
—Sim.Depois do que ocorrido na sua coroação perdi todo contato com eles.Não sei se estão bem ou se aconteceu alguma coisa grave com alguém naquela correria.
—Farei o que puder para descobrir informações sobre essas pessoas.
—Muito obrigada.
—Por nada Anne.
—Se não se importar,gostaria de lhe dar um abraço.
Ele sorri e se aproxima de mim.Dou-lhe um forte abraço.E me despeço.
Sigo com a Teresa e os dois guardas.Ao sair da sala,respiro novamente aos ares da liberdade.Eu estou livre.É o meu recomeço.A partir de agora a minha vida não se resumirá em sonhos sombrios ou fugas.Eu vou encontrar a felicidade seja lá onde ela esteja.
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