O destino de uma princesa
20 A hora de ouro
Notas iniciais
Definitivamente hoje não é um dos meus melhores dias.Minha fuga não obteve êxito e esse dia parece se encaminhar para um desfecho pior.
Ao meu ver, o melhor adjetivo para se dar ao termo vida é imprevisível. Uma hora tudo pode se inverter radicalmente e você precisa se adaptar a fim de conseguir acompanhar as mudanças. Certamente, nos planos do rei e da rainha para hoje, não havia a hipótese de que a passagem do trono seria arruinada por forasteiros. Na verdade,creio que nem o mais liberal camponês esperava por isso. O início do reinado de Nícolas começou conturbado. Será um mau presságio?
Espero que não.
A tensão provocada pelo incidente na coroação deixou no ambiente um ar de medo e desconfiança. Ninguém sabe ao certo os autores das explosões. O povo suspeita que possam ser conspiradores do reino querendo saquear e tomar posse as Terras ao Sul.Tudo ainda é incerto.
O céu está nublado e parece ameaçar uma chuva posteriormente.
Caminho refletindo meus pensamentos duvidosos e aproveito para me distrair apostando em uma possível previsão do tempo para mais tarde. Os dois guardas que me acompanham vão rindo e tirando piadas do novo rei e sua sorte. Esses senhores são de natureza deplorável e ultrajante.Sou conduzida para a entrada mais próxima do palácio.Os rastros da correria provocada pelo incidente anterior são visíveis: vasos de flores aos cacos,algumas mesas reviradas, pães no chão, há também alguns pertences espalhados por todos os lugares. É um verdadeiro caos.
Estou preocupada com meus amigos e amigas que deixei para trás.Temo também pela minha vida,agora posta de novo nas mãos de Deus e de Nícolas. Essa incerteza e angústia que habitam no meu coração desde aquela noite..ora adormece,ora volta..mas,mesmo sendo novamente levada para esse lugar pelo qual não sinto saudades, não posso perder o controle e a sanidade.Acredito que uma das virtudes mais belas da humanidade é a paciência e é ela pela qual mais prezo em tê-la na minha vida,por isso se desesperar e entrar em pânico não diminuem o tamanho do problema.
Os dois guardas sinalizam para os outros que estão de prontidão em uma das portas que dão acesso a alguns corredores que levam ao salão principal.Tenho conhecimento desse trajeto,por que já passei por aqui nos tempos da Milady Leopoldina.Nunca mais ouvir falar dela.Todas as entradas e saídas do palácio estão fortemente protegidas. Arqueiros no altos das torres nos observam,prontos para qualquer eventual problema.Um dos homens se aproxima de nós.Ele tem um físico forte e é moreno.Deve ser o chefe daquela milícia.
—Quem é essa?
—A tal princesa procurada.
—Ora..ora...Veja o que temos aqui!!
Os outros guardas começam a rir.Evito olhar diretamente nos olhos desses inescrupulosos. Que situação constrangedora.Quero passar logo daqui!
—Vamos levá-la pra o rei!Permita a nossa passagem.
—Mas já?Não irão permitir que eu e meus companheiros apreciem a beleza dessa dama?
Ele se aproxima de mim e passa a mão de leve no meu rosto. Instintivamente,recuo.
—Calminha...alteza.
O guarda diz:
—Temos pressa. Podemos passar?
—Sim,mas tenham cuidado com a princesinha.O rei vai adorar tê-la como distração depois de um dia desfavorável desse!
Ele sinaliza para os demais e nossa passagem é permitida. Finalmente seguimos em frente e prefiro que meu olhar nem recaia sobre esses homens.
O tempo parece que está fechando.Brisas frias e fortes anunciam a chega de uma tempestade.Acho que meu palpite meteorológico estava certo.O barulho de trovões,ainda tímidos,completa a certeza de que até a natureza está de mau humor.
Atravessamos a porta e ao adentrarmos o palácio mais tropas nos recebem e todo o interrogatório recomeça.É possível ver os belíssimos candelabros que exaltam a beleza dos corredores daquele palácio.Passamos por um bonito quadro da família real com moldura banhada em ouro. Pelo menos aqui dentro está mais agradável do que lá fora.
A chuva começa a cair.Enquanto os guardas conversam a espera da permissão para entrarmos na sala do trono,me dirijo até a janela que fica no final do corredor.Como suspeitava,a janela proporciona uma agradável vista para o jardim.Encosto delicadamente as palmas das minhas mãos nas janelas de vidro. Uma sensação de paz toma conta de mim ao sentir que mesmo de longe, frescor que a chuva traz para a terra faz com que meu coração se acalme durante esses breves segundos de sossego.
Meus pulsos estão avermelhados e ardendo devido o atrito da corda.Estou muito cansada e o que gostaria muito de fazer agora era me deitar e dormir.O dia está se encerando,mas meus problemas não. Se Nícolas me concedesse a liberdade tudo na minha vida se resolveria e enfim não teria que continuar fugindo.O que vai acontecer comigo?
Pensamentos inoportunos fazem me lembrar que em poucos instantes estarei de frente para o rei Nícolas e certamente,o seu pai também estará lá. Minhas mãos estão suadas e meus pulsos com marcas da corda.Queria tanto me livrar disso.No momento,ainda estamos aguardando o pronunciamento formal para nossa entrada.
Devido a confusão de hoje mais cedo,muitas autoridades das nações vizinhas que vieram prestigiar a coroação,encontram-se conversando com rei.Imagino que muitas pessoas aguardam o pronunciamento da majestade sobre o ocorrido e o que será feito para reparar tal incidente.
Um guarda reclama comigo por que me afastei de mais.Ele só pode estar brincando.Para onde eu iria nessas condições?
Eu tenho o discernimento e a compreensão de que a minha situação não é favorável.Entretanto,sou uma princesa acima de tudo. Podem me tirar uma coroa,um castelo, vestidos,entre outros,mas nunca poderão mudar o sangue nobre que corre nas minhas veias.Hoje ao entrar naquela sala, pode ser o estopim para o fim da minha história.Mas,se morrer,estarei ciente de que nunca desonrei o nome da minha família e nem muito menos a sua memória.
Que o Altíssimo me perdoe, mas talvez esse atentado seja o começo do castigo que essa terra merece.
Por fim,somos convocados a entrar na sala do trono.Não tenho mais para onde nem como fugir.A hora da verdade chegou.Continuar viva e livre ou ser definitivamente condenada a execução: eis a minha hora de ouro.
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