O despertar do anjo - à procura da felicidade

2 O Baile mais esperado do Ano Parte II


Notas iniciais
Nesta segunda parte falei um pouco do passado da vida de Lyra (a sua pequena infância junto da sua mãe) e de Dante (quando ia para o seu baile e de Lyra).

Lyra tinha apenas 6 anos quando a sua mãe, L’Arachel, faleceu. Nunca se conseguiu descobrir o que aconteceu, nem mesmo depois das intensas averiguações feitas pelos melhores investigadores da cidade. Eilina tinha apenas 1 ano quando tal aconteceu, por isso, ao contrário de Lyra, não tem recordações dela.

O seu pai nunca mais quis falar muito dela, e então Lyra apenas tinha uma maneira de se lembrar da sua querida mãe: quando chegava a noite, sentava-se á janela do seu quarto e sonhava com os momentos que passou com ela e por vezes cantava, principalmente quando precisava de se acalmar (tal acontecia principalmente depois de discutir com o seu pai).

Tudo o que era da sua mãe tinha sido deitado fora, tendo apenas ficado com o colar dela, uma joia azul que lembrava o céu no centro de uma joia vermelha com a forma de um coração dividido em duas partes: num dos lados este aparecia com uma pequena asa, como se fosse a de um anjo, e do outro era apenas um simples coração, completamente normal.

Lyra sonhava muito com os momentos em que a sua mãe lhe lia histórias para adormecer e, à sombra de uma árvore no jardim da mansão, mostrava-lhe o seu colar.

– Minha querida Lyra, um dia este colar vai ser teu para que tu possas também guardar os bons e maus momentos que vão ocorrendo na tua vida, para sempre contigo. Mas os teus desejos e sonhos serão inalcançáveis por outros que não tu, porque tu és muito especial minha filhota.

Apesar das palavras de L’Arachel, Lyra nunca percebeu muito bem o que ela queria dizer com “inalcançáveis”, mas estava desejosa de poder ficar com o colar.

Lyra tinha uma forte ligação com a sua mãe, eram sem dúvida as melhores amigas. E, como tal, sempre que ficava estava triste, L’Arachel cantava-lhe um cântico antigo, e, apesar de ser apenas uma pequena frase, quando cantada, tinha um grande significado para Lyra, mesmo sem esta saber bem porquê.

– Arahabt fadimur fetilir namur vovinir d’la timerinu palatin luniar. – Segundo o que a sua mãe lhe explicara um dia, o cântico podia traduzir-se para a língua normal: “Nunca deixes de sonhar e sê livre como a Lua da paixão”.

Esta frase ajudava Lyra a relaxar. Este não era o único cântico que a sua mãe lhe cantava, mas de todos havia um que Lyra gostava mais, pois sempre que L’Arachel o cantava, o seu colar brilhava.

– Iru nami gohuta ditba morin baroh tinfador. Este cântico é especial minha querida filha. – disse-lhe uma vez a sua mãe quando estavam a passear no jardim de mãos dadas.

– O que significa mamã? – perguntava a pequenina Lyra que estava prestes a fazer 7 anos.

– O significado depende de quem o canta. Depende do coração de cada um. Apenas um coração corajoso, leal e puro pode algum dia realmente compreender o seu significado e usar o seu verdadeiro poder.

– E o meu coração é puro mamã? – perguntava a inocente Lyra, que adorava as histórias que a sua mãe lhe contava.

L’Arachel sorri e pega na sua filha ao colo acariciando-lhe a face enquanto fala.

– Minha querida, o teu coração é o mais puro e belo que conheço. É até mais puro que o meu.

– Então isso quer dizer que um dia vou poder perceber o que quer dizer?

– Claro que sim! Apenas tens que esperar que o momento chegue. Aí saberás o que fazer.

– E se não souber? – Lyra demonstrava uma grande preocupação, a última coisa que queria, era decepcionar a sua querida mãe. – Eu não quero desapontá-la mamã.

– Oh minha querida! – exclamou L’Arachel enquanto colocava a filha no chão e, contendo uma lágrima, a abraçava. – Tu nunca me vais desiludir! Nunca!

Este é um dos momentos mais marcantes para Lyra, pois foi a última vez que ouvira as palavras da mãe. No dia seguinte, esta apareceu morta no quarto. Quando lhe contaram, nem quis acreditar. E, mesmo depois de a ter visto deitada na cama sem reagir aos pequenos abanões para tentar fazer com que ela acorda-se, tal como fazia muitas vezes de manhã, não queria acreditar, pois parecia estar apenas a dormir um sono pesado e profundo. Parecia um anjo a descansar na sua cama feita de penas no céu.

Nessa mesma noite, depois de estar deitada junto à sua mãe com esperanças que esta acorda-se de repente, Lyra saiu de casa – nem mesmo Thomps e Lhuis a impediram – e correu, correu, correu, sem saber para onde. Apenas queria correr, pois a sensação do vento no seu rosto e corpo era maravilhoso, deixava-a mais relaxada e dava-lhe uma sensação de liberdade incrível. Apenas parou quando já não conseguia correr mais. Quando olhou à sua volta reparou que estava ao pé de uma casa da árvore. Foi aí que conheceu Dante, um rapaz que estava sentado numa pedra a olhar o céu estrelado.

A partir desse dia, tornou-se o seu lugar preferido, pois adorava ouvir o som da água da cascata e sentir o cheiro do grande campo de flores enquanto, sentada na casa da árvore, observa a cidade que parecia muito pequena vista do cimo dos montes e, principalmente, o céu estrelado que junto com a Lua criavam uma paisagem sem dúvida fascinante. Transmitiam uma beleza incomparável, verdadeira e relaxante. Sempre que Lyra ficava muito zangada ou triste, bastava observar a Lua para se sentir melhor, pois era algo que sempre a acalmava.

E nesse triste dia, permaneceu sentada sem pensar nem sentir, junto de Dante, desejando apenas poder partilhar os céus com a Lua e as estrelas enquanto cantava. Lyra e Dante tornaram-se os melhores amigos nesse dia, sem terem dito uma única palavra.

L’Arcahel sempre fora considerada um anjo devido ao seu longo cabelo dourado, aos brilhantes olhos azuis e a sua bondade para com quem a rodeava. Importava-se mais com os outros que com a sua própria segurança. Sempre tratava as pessoas como igual e procurava ajudá-los sempre que possível. Apesar de ser a Senhora Valentine, nunca se soube muito sobre de onde veio e como é que conheceu o pai de Lyra.

De inicio, quando L’Arachel apareceu na cidade, as beatas começaram logo a falar dela e tentavam, sempre que possível, descobrir alguma coisa sobre a vida dela, apesar de nunca terem conseguido muita informação. Apenas sabiam que L’Arachel tinha perdido os pais á pouco tempo, e que por isso, tinha decidido viajar pelo Mundo procurando conhecer novas pessoas e culturas. E foi então que um dia quando estava a viajar, perdeu-se na floresta do Sul, e foi lá que o Senhor Valentine, o atual pai de Lyra, a encontrou. Ajudou-a e troce-a para casa dele dando-lhe abrigo, e com o tempo, foram-se apaixonando.

Existem vários rumores de como é que os dois se apaixonaram: há quem diga que foi quando mal se olharam na floresta; outros dizem que foi quando passeavam no jardim da mansão numa noite estrelada e á luz da Lua trocaram olhares sentindo uma sensação incrível de grande desejo e paixão, tendo se apaixonado nesse mesmo instante. Mas, independentemente da forma de como se apaixonaram, o que lhes importava é que se amavam muito, tendo casado pouco tempo depois de se terem conhecido.

Sempre que eram vistos juntos, demonstravam tamanho carinho e amor, que todas as mulheres tinham ciúmes de tal ligação. Nunca antes se tinha sido vista uma sequer parecida, em nenhum casal da cidade ou até mesmo em turistas.

– Meus Deus! – exclamava uma das muitas beatas da cidade que naquele momento, enquanto passeavam pela praça principal da cidade, viam o casal Valentine, que também passeavam juntos passado pouco tempo depois do grande casamento. – Eles ficam tão bem juntos! Nunca vi tamanha paixão em toda a minha vida! E olhem que já vi muitas coisas. – E como muitas risadas, as beatas continuavam o seu caminho, mas sempre com os olhos postos no casal apaixonado.

Era sempre assim quando os “pombinhos”, como eram muitas vezes chamados, saiam á rua. Mas não se importavam com os olhares indiscretos das beatas e de muitas das pessoas que os rodeavam, pois estavam tão distraídos um com o outro que nem reparavam.

E quando Lyra nasceu, a cidade inteira encheu-se de uma nova alegria. Todos gostavam dela, pois ela era tal como L’Arachel: uma pessoa leal, simpática, simples, e com um coração gigante, para além da incomparável beleza! Esta alegria manteve-se até mesmo nos piores momentos. Mas, depois do dia da morte de L’Arachel, nada voltou a ser o que era antes.

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– Dante! Dante! Vem jantar! – chamava uma voz feminina ao anoitecer.

– Vou já mana! – gritava Dante enquanto corria até ao local onde o esperavam.

– Meus Deus! Andas-te outra vez a correr pela floresta? – repreendia um pouco zangada Saly. – Se o pai te vê assim…

– Desculpa. – respondeu Dante enquanto sorria de forma matreira. – Não consegui resistir! Será que o podias entreter enquanto tomo banho? Prometo que me despacho!

– Hum… –Saly fingia que estava mesmo a ponderar se havia de ajudar o seu irmão mais novo ou não.

– Vá-la! Por favor! Prometo que te vou compensar!

– Claro que te ajudo seu tonto! – apertando carinhosamente o rosto do seu irmão, Saly sorria. Para ela era impensável não ajudar o seu mano, pois por ele fazia tudo. – Vai lá! Mas despacha-te!

– Sim! Obrigada mana! – Dante abraça a sua irmã com força, e começa a correr para dentro de casa. Tinha de se despachar pois o seu pai podia chegar a qualquer momento!

Dante pertence a umas das muitas famílias proprietárias de quintas que possuem grandes hectares de campo de cultivo e de animais. Ele e Saly pertencem á Família Gonthan – das famílias mais poderosas – que são os donos da quinta Firytina, que significa liberdade na língua antiga.

Como todos os jovens da sua idade, Dante é alegre, extrovertido, e adora a Natureza. Um dos seus muitos hobbies é correr na zona reservada da quinta (apenas permitida aos proprietários), onde existe uma floresta com um jardim cheio das mais variadas e belas flores de toda a cidade.

No meio deste encontra-se uma grande fonte azul – um dos sítios preferidos de Saly, pois é ela que cuida do jardim e dos peixes que estão dentro da fonte – que transmite uma sensação de relaxamento incrível.

Numa zona mais reserva do parque, encontra-se o lugar preferido de Dante que é mesmo no cimo de uma serra, que permite observar a cidade Fryhibt, onde se encontra uma pequena cascata rodeada por um belo campo de flores silvestres que libertam um aroma incrível, sendo impossível resistir. Mas é claro que não podia faltar uma casa na árvore, construída por ele e pelo seu pai há alguns anos atrás, que para ele é um lugar muito importante, permitindo-lhe observar a Lua e o incrível céu estrelado.

O pai de Dante trabalha na quinta, participando em tudo o que a envolve: nos cuidados dos animais, na limpeza dos quintais e jardins e até mesmo nos campos de cultivo. Enquanto se dirigia para o quarto, Dante lembrou-se de um momento, quando tinha 7 anos, o dia do seu Baile.

Passado:

No final de tarde, Dante encontra-se com o seu pai na zona de treino. Este sempre lhes dizia:

– Não se devem considerar superior aos outros apenas porque têm uma vida melhor! Têm sempre de ser honestos e trabalhadores para poderem viver da melhor forma possível. Nunca tomem nada como garantido! A vida é cheia de altos e baixos, por isso nunca sabemos o que pode acontecer amanhã.

– Eu sei pai. É por isso que eu me vou esforçar, tal como os outros, para ser o melhor guerreiro de sempre!

– Tal como os outros? – perguntou com um sorriso matreiro no rosto – É isso que tu queres?

– Tens razão! Vou-me esforçar muito melhor que todos os outros todos juntos! Vou ser sem sombra de dúvidas o melhor! – gritou animado Dante enquanto abraçava o seu pai numa tarde de Outono á cerca de 5 anos atrás.

– Lembra-te sempre disso. Não há nada que não consigas fazer. Além disso já só faltam dois dias para o teu primeiro dia de aulas. Os teus amigos também entraram na mesma escola?

– Sim. Vamos ficar todos juntos. Quer dizer, pelo menos na mesma escola ficámos. Só falta saber as turmas. Queria mesmo ficar com todos eles na mesma turma, seria muito mais divertido. – Dante perde-se nos seus pensamentos por alguns segundos. – E o melhor é que graças ao Sr. Valentine, quando tivermos 13 anos, vamos poder entrar para a grande escola secundária: The Rai. Senão fosse ele a dar entrada com o projeto da reconstrução da escola, nós ainda teríamos de ir para a cidade vizinha ter aulas.

– E ainda por cima a tua escola não tem lá grandes condições. Temos mesmo muita sorte em ter o Sr. Valentine como presidente da cidade. É um grande homem, apesar de tudo o que passou com a morte da esposa. E tem umas filhas lindas! A Eilina ainda é uma criança, mas é encantadora, e Lyra é uma lutadora. Passou pouco tempo depois da morte da mãe dela, mas ela está a usar o mau que se passou com ela para se tornar ainda mais forte! Nunca conheci ninguém assim. Ainda no outro dia encontrei-me com o professor Limp e ele disse-me que, juntamente contigo, vai ser sem sombra de dúvidas a melhor aluna. Pelos vistos é a rapariga mais forte que alguma vez viu. Diz que parece um homem a lutar! E pelo que ele me disse, ela já te vence nas lutas corpo-a-corpo. – sorriu o pai de Dante enquanto observava a expressão de zangado que o seu filho ganhava.

– O quê? Isso não é verdade! Ela só me ganhou algumas vezes e foi porque eu deixei!

– Claro que sim. – sorriu alegremente. Era a primeira vez que via o seu filho apaixonado.

– Dante! Dante! – gritava Saly da janela da sala. – Já viste as horas? Vais chegar atrasado ao Baile! Despacha-te!

– Bolas! Já vou mana! – respondia Dante, voltando-se para o pai sorrindo. – Tenho de ir pai, prometi encontrar-me com os meus amigos antes de começar o baile, e não me quero atrasar.

– Claro, vai lá então. A tua irmã está a começar a ficar muito vermelha, por isso é melhor que te despaches. A Saly não é uma pessoa que se zangue muitas vezes, mas quando acontece… – fingiu que lhe percorria um calafrio pelo corpo, mas sempre sem parar de sorrir para o seu filho, que sorria também partilhando a sua alegria.

– Lá isso é verdade. Mas ela teve imenso trabalho a preparar-me a roupa.

– Antes de ires diz-me só uma coisa. A Lyra desta vez vai? É que o pai dela, depois da morte da mulher, tornou-se mesmo muito protetor.

– Mas desta vez ele deixa-a ir. Ele deve ter percebido que é apenas um baile, não há lá perigo nenhum. Além disso, é muito importante que ela vá, já que vai receber o diploma.

– E tu deves estar muito feliz por ela ir…

– Dante! Ou vens já para casa vestir-te ou juro que vou ai buscar-te! – gritava Saly, cada vez mais irritada.

– Desculpa Saly! Vou já! Tenho mesmo de ir pai.

– Vai vai, mas depois conta-me tudo!

– Claro que sim. – e, depois de abraçar o pai, Dante corre para casa.

“E tu deves estar muito feliz por ela ir…”. «O que é que ele queria dizer com aquilo?», pensava Dante enquanto se vestia no quarto. «Eu e ela somos apenas amigos, bem, melhores amigos. Mas é só isso…»

Mesmo sendo apenas crianças, tanto Lyra como Dante têm uma relação de grande amizade e respeito. Treinam quase todos os dias juntos ao pé da casa da árvore.

«Espero bem que vás Lyra. Tu prometes-te que era esta noite que me ias dar a desforra!» E sorrindo, Dante sai de casa dirigindo-se para a praça da cidade, onde o baile começaria dentro de cerca uma hora. Foi mais cedo, para assim ter tempo de procurar Lyra. «Só para não fugires do nosso combate.», pensava ingenuamente Dante enquanto corria cada vez mais rápido.

Cerca de 45 minutos depois…

– Como assim ela ainda não chegou?! – perguntava Dante irritado ao seu amigo Franz. – Ela disse que vinha! O pai dela tinha-a autorizado não foi?

– Pois não sei… Mas tem calma Dante, ela com certeza apenas se atrasou. Tu sabes como são as raparigas, demoram séculos a vestir-se.

– Tu sabes tão bem como eu que a Lyra nunca se atrasaria por um motivo desses! Ela não se importa com essas coisas! Olha, eu vou dar uma volta pela praça, pode ser que a encontre. Talvez até encontre a Kanna. Ela deve saber onde Lyra está.

– Tu é que sabes. Eu vou jogar futebol com os outros. Depois aparece se quiseres.

– Sim, sim. – mas Dante já não ouvira o que o seu amigo lhe dizia, nem deu conta que ele encolhia os ombros e se afastava em direção ao campo de futebol, pois para ele apenas uma coisa lhe importava agora: encontrar Lyra.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.