O despertar
4 IV – Manda quem pode
Notas iniciais

Ci.ca.triz: Sf. Marca deixada no corpo por um ferimento (ou no meu caso, por uma pessoa).
Antes
— São três os processos fisiológicos básicos que resumem a vida dos senhores. Vocês só existem para fazer isso. Você nasce, cresce, se mantem e reproduz. Acabou. Aí vocês...
— Entramos em delta igual a zero – Murmuro fazendo corações no canto do caderno.
— Exatamente! – Professor Rafael grita apontando para mim e eu me assunto – Ia dizer que morremos, mas essa definição é maravilhosa! – Ele ri e se vira para o quadro para anotar a equação – Fico feliz que esteja adiantada na leitura, Hale. E a propósito, sério, adorei mesmo a comparação. Aqui comigo, Classe! – Ele bate no quadro para chamar a nossa atenção e eu sorrio voltando a anotar a aula.
Quando saí da sala, encontrei Clove correndo até mim.
— Olha só isso! – Ela me entrega uma foto e começo a rir histericamente enquanto andamos em direção ao jardim quando percebo do que se trata – Nossas primeiras férias de verão juntas, não é demais?
— A gente era estranha – Sorrio e a devolvo – Como arrumamos namorados?
— Eu não faço ideia. Vai almoçar com a gente? Kyla chega hoje e quero ver os presentinhos que trouxeram.
— Ah, eu... – Coço a cabeça e penso em um jeito de fugir da situação – Jason vem me buscar para almoçarmos, é nosso aniversário.
— Aniversário?
— É, de... cinco meses.
— Tem certeza? Eu acho que...
— De qualquer forma – Emendo não querendo deixar ela falar – Tenho que correr, então a gente se vê por aí. Tchau, te amo – Dou logo um beijo no rosto dela e ajeito a mochila nas costas sem nem esperar sua resposta.
— Mas os garotos do futebol vão ficar pelados para um trote!
— Eu não ligo, Clove! – Grito rindo ainda de costas para ela e andando.
— Gatos pelados, amiga!
— Você é tarada – Um menino no corredor grita e eu rio mais ainda colocando a mão sobre a barriga para encontrar o Jason.
Eu sabia que não deveria mentir mais uma vez, sabia que tinha que contar a verdade para todo mundo de uma vez por todas e acabar com essa angústia. Mas e se me olhassem diferente? E se pensarem que eu sou o inimigo agora? Mas encontrar Kyla e Miriel não é uma opção que eu possa considerar agora.
David já me ajudou com as ervas para esconder a escuridão de Ava, não sei se vai dar certo quando encontrar Miriel, que é um original e fareja Caídos como se fosse sua vida. E meu Deus, que história é essa de cinco meses? Não tinha uma desculpa melhor? Clove sabia que eu não faria cinco meses. Burra, burra!
— Ei Flor, aqui – Jason levanta o braço encostado no carro. Estava tão distraída que já ia passar direto – Acertei no café?
— Você sempre acerta – Sorrio e lhe dou um beijo no rosto – Vamos?
— Primeiro as damas.
P.O.V. Clove
Não era segredo que Allyson andava agindo estranho. Mudava de assunto sempre que falávamos de nephilins, ficava no mundo da lua, conversava durante o sono, via coisas onde não tinha e mudava de humor rapidamente. Para não falar na obsessão por Hazel e Adam.
— Clove! – Nick agita a mão e eu corro para o nosso lugar debaixo da árvore – Cadê a Allyson?
— Encontro com o Jason – Respondo me sentando e tiro os óculos escuros.
— Cara, eles se resolvem rápido, né? – David resmunga e cruza os braços. Rio e encosto meu ombro no seu.
— Como vai a garota da cafeteria? – Ava pergunta o cutucando.
— Acho que vai bem, parei de ir lá, de qualquer forma – Ele dá de ombros.
— Ah não, aí já é sacanagem! – Protesto e Nick ri – Como vão ficar os cafés de graça?
— Não vão continuar se ela for despedida.
— Sei, você não quer é superar a Allyson.
— O que? Eu já superei.
— Olha só os olhinhos dele – Nick zomba e todos rimos.
Pouco tempo depois Jake chega conversando com Kaleesa sobre algo relacionado à lua cheia e como vão lidar com isso. Combinamos de ir ao bar do Holland à noite e mandei uma mensagem para a Ally. Ava ficou tão animada que comecei a desconfiar.
— Ok, cheguei – Ouço a voz da loira e viro a cabeça. O sol estava atrapalhando um pouco minha visão, mas reconheci os olhos azuis – O que eu perdi?
— Uau, você troca de roupa rápido – Sorri – O que aconteceu com o Jason?
— Jason? Ah, tivemos que cancelar, ligaram lá da delegacia, enfim, estou livre – Ally se senta ao lado de David e pousa a cabeça em seu ombro – Ouvi que estão pensando em ir no Holland.
— Como você...? – David começa a perguntar.
— Audição aguçada, lembram?
— Ela nunca se gaba dos dons – Ava sussurra para mim e eu apenas concordo com a cabeça – É, estamos pensando em ir lá.
— Você vai? – Allyson pergunta a David apertando seus braços de uma forma... provocadora?
— Vou.
— Então eu vou com certeza – Diz sorrindo e pisca para mim.
— O que você está fazendo? – Pergunto quando todos se dividem e andamos em direção ao nosso dormitório. Ally me olha confusa e eu reviro os olhos – Com David, isso é maldade. E além do mais, você tem namorado!
— Isso não te impediu de beijar o Jake enquanto ele ainda estava comigo.
— O que? Jake? Essa história já tem quanto tempo? – Jogo os braços para cima.
— Tempo suficiente para perdoar, mas não o suficiente para esquecer, você foi uma piranha.
— Allyson!
— O que? É verdade – Ela ri, mas não acho graça, pelo contrário, franzo as sobrancelhas e cruzo os braços, seguindo o caminho todo em silêncio – Na verdade, acho que não vou hoje, vou aproveitar a noite e chamar Jason para cá.
— Ally...
— Preciso de algo quente.
— Tá, tudo bem então.
Quando cheguei naquela noite, ela já estava dormindo, então liguei a lanterna do celular e fiz o possível para não acordá-la. Coloquei um pijama, arrumei um cobertor e caí na cama ainda com a mente anuviada por conta da tequila que Kyla me fez virar diversas vezes.
O sono verdadeiro só chega muito mais tarde, depois que a luz lá de fora é mais uma vez apagada. O sono verdadeiro é como afundar lentamente, como me afogar em uma
névoa. Em pouco tempo estou acordada de novo. Eu me sento com o coração
disparado. Droga de tequila.
Allyson está gritando durante o sono, na cama ao lado, murmurando palavras embaralhadas. A única que identifico é não. Espero um pouco, para ver se ela vai acordar sozinha. Ela chuta e se debate. A base de metal da cama range.
— Ei – Digo. Os murmúrios desesperados continuam, e eu me sento mais ereta e
digo mais alto: – Ei, Ally.
Ainda nada de resposta. Estico a mão à procura do braço dela no escuro. Sua testa
está molhada de suor. Encontro o ombro e o balanço delicadamente.
— Acorde, Ally.
Por fim ela acorda, ofegante, afasta-se bruscamente de minha mão e em seguida se
senta acendendo a luz da luminária. Ficamos sentadas em silêncio por um
momento. Sua respiração está pesada. Um som arranhado sai da garganta. Eu me deito
de novo e escuto a respiração dela no escuro, esperando que diminua.
— Mais pesadelos? – Pergunto.
— Sim – Responde ela depois de um segundo.
Eu hesito. Parte de mim está inclinada a virar para o lado e dormir. Mas estou
desperta agora, e a escuridão é um pouco opressiva.
— Quer falar sobre isso? – pergunto.
Há um longo minuto de silêncio. E então Allyson começa a falar, toda apressada:
— Fico revivendo os momento na praia, Adam está lá e Hazel não morre, volto para os braços de Jason e tudo está certo novamente. Só que depois o cenário muda, estou sozinha em um campo aberto onde o tamanho do capim incomoda. Do lado de fora havia uma cerca alta. Mas tinha um monte… Não consigo explicar, mas não era uma cerca de verdade. Era feita de corpos. Cadáveres. O ar estava negro de tantas moscas.
— Continue – Sussurro quando ela faz outra pausa.
Ela engole em seco.
— Você estava no meio, David, Ava, Ka... o pessoal do acampamento na Grécia, todo mundo. E então eu tinha um espelho na minha frente e percebo que estou coberta de sangue, também escorre um pouco da minha boca. Eu gritava, tentando impedir, e eu não conseguia respirar…
Ally para de falar. Sinto um aperto no peito. Por um louco segundo tenho
vontade de abraçá-la; mas me lembro das coisas horríveis que ela disse. Acho que ela percebeu que isso não iria acontecer, porque se deita de novo, então provavelmente se sente melhor depois de me contar o sonho. Apaga o abajur e suspira.
— Sinto muito – Sussurro, mas ela não responde, imagino que já tenha pego no sono de novo – Ah Ally, por que não me conta o que tá rolando? – Dessa vez pergunto mais para mim mesma.
Agora
Acordo de um pesadelo no meio da noite. Nele, Hazel estava presa debaixo do piso de meu antigo quarto na casa da minha mãe. Gritos vinham do andar de baixo, havia um incêndio. O quarto estava cheio de fumaça. Eu tentava chegar a Hazel, salvá-la, mas a mão dela ficava escorregando da minha. Meus olhos ardiam e a fumaça a estava me sufocando, e eu sabia que morreria se não corresse. Mas ela estava chorando e gritando para que eu a salvasse, a salvasse…
Eu me sento de repente. Repito o mantra de Holland em pensamento (O passado está morto, não existe o antes), mas isso não ajuda. Não consigo afastar a sensação da mão de Hazel molhada de suor escorregando da minha.
Um barulho vinha da cozinha e passei as mãos pelo rosto antes de calçar as havaianas e sair do quarto. Clove ainda estava ali, rindo com Cameron enquanto faziam panquecas... azuis?
— Você não tem aula hoje de manhã?
— Senhor Carrancudo mandou um e-mail, está doente.
— Bom, se ele está doente, significa que não tem projeto hoje.
— Projeto? — Clove pergunta secando as mãos em um pano.
— Ah, oi, você ainda está aqui, droga – Coço a cabeça e sigo para o banheiro, mas ainda escuto os dois conversando.
— Já me acostumei com a tpm dela – Cameron sussurra.
— Não é tpm, é minha culpa, muita coisa aconteceu e acho que ela fica se escondendo de si mesma. Mas que projeto é esse?
— É uma pesquisa viral que a universidade desenvolve, geralmente já é para médicos formados, mas a Allyson conseguiu uma vaga.
— Uau.
— É, uau, acho que ela merece, sabe? – Ouço barulho de panelas e depois a massa fritando – Estudou tanto para isso e não quero que desista.
— Acha que devo ir embora?
— Eu não sei, ela é uma caixinha de surpresas, se acha que esse ex merece ser salvo, vai fundo.
— Meu Deus, que cheiro bom – Reapareço e cruzo os braços – E não queimou a cozinha, muito bem, Cam – Lhe dou um soquinho no braço e Clove nos olha com certa complacência, um sorriso lhe escapa, mas ela logo disfarça.
— Peguei pesado com você ontem, eu sei – começa com um ar culpado, e deveria, ela, mais do que ninguém, devia saber que odeio falar dos meus sentimentos conturbados da época da escola, da época que me transformei em uma vadia e matei minha melhor amiga.
Mas na verdade, tudo o que eu digo é:
— Tudo bem, Clove, eu não ligo – E mordo um pedaço da panqueca que Cam fez como teste.
— Por que? Por que não liga? Você era a única que sempre ligou. Era o que eu gostava em você. No meio das nossas vidas perfeitamente confusas, você ligava. Mais do que todo mundo. Como pode não ligar?
— Foi preciso – Coloquei as mãos na cintura – Eu visitei cada bruxa em dez países diferentes, segui as pistas do Holland, da Kaleesa. Não adianta, não tem nada que a gente possa fazer. Acabou. Não era isso que vocês viviam pedindo para eu fazer? Superar? Então, eu aceitei, e tive que recomeçar. Não podia voltar para a minha antiga vida, com os meus amigos antigos. Não podia chegar perto de Jake, Ka, Kyla, nem...
— Nem de mim? – Desvio o olhar e suspiro – Achei que éramos amigas. Não conseguiu saber por todos os recados que eu deixei? Você não percebeu que eu estava desmoronando sem você? – Continuo em silêncio – Você sequer ouviu, né?
— Segui em frente, não tive opção. Apaguei todos. Agora será que você pode ir embora?
— Ally – Cameron toca meu ombro e eu relaxo um pouco mais – Vou lá embaixo pegar a correspondência, tudo bem? Conversa com ela, é sério.
Assim que meu amigo sai pela porta, Clove suspira como se perdesse completamente a pose, e se senta em um banquinho, colocando as mãos no rosto e abaixando a cabeça.
— Eu me lembro de um dia que eu estava bêbada em uma festa na casa de Jake, você sabe que eu nunca fui de me abrir, eu era uma predadora, só isso me importava na época. Mas eu te contei que o meu medo era ficar sozinha, lembro que você me disse que nunca me deixaria só, que jamais soltaria a minha mão. Eu estava bêbada mas me lembro, e até pensei “nossa, então Allyson Hale tem um coração digno”. Mas cadê você agora, Ally? Entende agora o que quero dizer? Ninguém fica. Um mínimo sinal de perigo e todos foram embora de novo.
— O que acontece se eu for? – Cruzo os braços.
— Eu não sei, nenhum de nós sabe, só preciso daquela predadora de volta, aquela predadora que faz de tudo pelos amigos, que nunca deixaria outra garota tomar o seu lugar.
— A faculdade...
— Você não precisa de faculdade, Hale – Ela sorri e pega minha mão – Você precisa do Jason, sempre foi assim.
— Posso fazer as malas? – Cam grita atrás da porta e eu rio.
— Não acredito que estava ouvindo.
Ele entra e pisca para mim.
— É, acho que pode fazer as malas – Me viro para Clove – Acha que toda ajuda vai ser bem-vinda?
— Tá brincando? – Cameron sorri com os olhos brilhando – Preciso conhecer Peter Blake!
— Com certeza – Ela sorri – Primeira parada, Ballard.
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