O desabrochar da Rosa
1 O desabrochar da Rosa
O DESABROCHAR DA ROSA
Abri meus olhos. Era um novo dia sem ele. Meu amado príncipe foi-se embora com a promessa de que um dia voltaria para mim e partilharia as suas novas aventuras. Mas já faz um certo tempo que ele se foi. Os Baobás ameaçavam tomar conta do planeta, os pequenos vulcões estavam a soltar lava e eu, estava velha, cansada e apodrecendo.
Meus anos de beleza já haviam partido, eu já era ressecada, me assemelhava a uma flor que fora largada em uma lápide. É pungente não ter mais as minhas queridas pétalas avermelhadas e vívidas que abanavam-se delicadamente aos ventos, mesmo nos dias mais sozinhos sem ele. Ah, claro, não posso esquecer de mencionar os meus espinhos. Meus queridos espinhos já não eram mais eficazes para a minha proteção, agora eu sou ignóbil e melancólica, algo que me faz pensar em como o Pequeno Príncipe reagiria com meu novo eu.
As noites ao menos me traziam conforto às vezes; às vezes em que eu sonhava com meu amado. Ele voltará? Julgo que não. Talvez eu esteja sendo impaciente, no entanto, é inevitável me sentir assim. O irônico é que no início era uma saudade mélica, a sensação de aperto no caule provava o apreço que eu tinha pelo Pequeno Príncipe, e então um dia se passou e assim por diante. O mais frustrante no momento nem é a partida do meu amado em si, mas sim o fato de que da mesma maneira que ele pode estar em perigo, ele pode estar se divertindo, se divertindo enquanto eu estou largada neste planeta aos pedaços, onde não há nada de novo, nada de extraordinário, há somente à mim, há somente o meu egoísmo, há somente o nada.
Durante minha curta vida, nunca havia ressoado em minha mente que as coisas se iniciariam deste modo e terminariam assim. Só restam memórias de dias distantes onde eu fora algo. Eu fui amada.
No fim apenas apreciei o último pôr do sol enquanto as raízes grossas dos baobás feriam as minhas. Essa foi a forma que o mundo deu adeus à mim.
O retorno do pequeno príncipe
Minhas aventuras me trouxeram experiências singulares, sensações tão noviças e abrangentes. Eu fiz bem ao tomar o risco. Todos aqueles que conheci nos tantos planetas que visitei. Mas agora eu precisava voltar para minha casa e minha querida rosa.
No caminho de volta podia sentir uma onda de euforia, enquanto um sorriso se espalhou em meu rosto a lembrança de minha amada flor. Estava ansioso, os pássaros que me levavam, porém, não iam tão rápido quanto antes. Já estavam cansados e um tanto mais velhos desde que eu saí do meu pequeno planeta.
Ao finalmente avistar meu lar senti um aperto no coração e meu estômago se revirando. Havia me esquecido dos baobás. Eles já estavam grandes agora, tomado quase todo o espaço que tinha disponível.
Cheguei mais perto e finalmente pousei. Notei que a minha cadeira que utilizava para ver o pôr do sol havia sumido, não podia ser encontrada em nenhum lugar. Talvez tenha voado para o espaço quando levantei voo e a deixei.
E como um tsunami, minha mente foi inundada pelos meus pensamentos doces sobre a Rosa. Minha cabeça virou depressa a sua procura, escaneando todo centímetro de chão completamente abatido, e agora, quase totalmente coberto pelas raízes das “árvores monstros”. Mas não havia nenhum sinal de minha Rosa. Procurei por todo o planeta e a única coisa que achei foi um caule caído com um amontoado de pétalas amarronzadas pelo tempo. Era explícito o que havia ocorrido com minha rosa.
Fiquei pasmo mesmo já sabendo que isso iria acontecer em algum momento, minha amada Rosa se foi e eu nem estava aqui para pelo menos tentar prolongar sua vida, imagino como foi seus anos comigo longe, com as mudas Baobás crescendo, e ninguém aqui para cuidar de uma flor tão delicada. Fiquei tanto tempo fora e nem percebi, tinha me esquecido quase totalmente de minha querida Rosa.
Me arrependo de muitas escolhas feitas ao longo de minha vida mas de longe, abandonar meu planeta e minha amada foi a pior delas, se eu pudesse refazer tudo diferente eu faria, voltaria mais vezes para visitá-la e cuidar do planetinha, evitando de que as árvores malignas crescessem, mas agora já foi e todo esse estrago é culpa minha.
Minha Rosa, se você ainda me pudesse ouvir, queria te contar sobre minhas aventuras e te dizer o quanto sinto sua falta, você foi especial para mim, foi a única que adorei, única que eu desejei, a única que eu amei, não sei se irei encontrar outro alguém como você, não acho que eu mereça isso, mas eu tenho certeza de que nunca te esquecerei.
Me sentei em uma raiz de Baobá e assisti meu último pôr do sol ao lado de Rosa, que agora não era mais viva, chorei e gritei comigo mesmo, eu só conseguia e podia me culpar por todo esse sofrimento que causei à minha querida, as dores que ela sentia com as raízes de Baobá sobressaindo a sua própria, aquilo era demais pra mim, não conseguia ficar mais neste planeta e não poderia mais chamá lo de casa, ficar aqui só iria me fazer ficar remoendo todo esse sentimento de culpa, embora sempre irei me culpar por isso.
Fui logo após enterrar o que restava do corpo de Rosa, irei viver muitas novas aventuras, mas irei me lembrar de você para sempre, Rosa.
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