O céu, a terra e o meio do caminho
6 A casa
Sora abriu os olhos bem devagar, tentando se acostumar com a claridade que há muito não via. Mesmo com as cortinas fechadas, a luz passava pelas frestas e era suficiente para causar certo incômodo. Ele ainda não sabia durante quanto tempo tinha dormido e se sentia tentado a explorar o lugar onde estava.
Um pouco atordoado com a situação, foi se lembrando aos poucos do que o porteiro havia dito. Seu nome era Pedro e aquele era o seu quarto. Um quarto seu, unicamente seu. Não era de nenhuma garota que tentasse alguma coisa com ele, não era o quarto de Maria, não era o quartinho que o prendiam depois de açoites, era um quarto para descanso. Sora respirou fundo e tentou trazer a segurança que ali emanava para dentro de si.
Apoiando devagar e se colocando sentado, tentou analisar como era e finalmente colocou sua devida atenção naquilo. As paredes eram de um azul bem claro e pacífico e tinham cheiro de recém-pintadas. O chão era de tábuas de madeira e a cortina era branca como nova. Não havia muitos móveis, apenas a cama de casal com uma cabeceira genérica (de formato quadrado em madeira) um armário também de madeira e um grande espaço vazio. “Você poderá decorá-lo como se sentir mais à vontade”, mas o que colocar enquanto seu peito também estava vazio?
Levantou-se e percebeu que estava um pouco tonto. Não sabia durante quanto tempo havia dormido, mas seu estômago roncava de fome. Ignorou esta constatação e continuou a explorar o quarto. Abriu as cortinas e viu a varanda que, em sua opinião era um exemplo de perfeição. Seu quarto dava para os fundos da casa e ele podia ver um imenso jardim e um pomar e, mais ao longe, via quando uma colina tocava o céu. O céu estava límpido e azul. Ele adorava aquilo.
O banheiro também não era como um banheiro qualquer, era enorme. Tinha uma banheira e também um chuveiro, como os que ele tinha que limpar na fazenda. Era todo decorado com azul claro e branco, inclusive na cor dos sabonetes e das toalhas. Se ele quisesse, poderia fazer do banheiro um quarto já que, com aquele tamanho, caberia facilmente uma cama de solteiro ali. O garoto estava maravilhado.
Resolveu que estava na hora de sair dali. Ele era livre! Poderia sair quando bem entendesse! Tocou a porta com a satisfação de notar que ela estava destrancada e seguiu pelo corredor. Infelizmente, por não ter prestado atenção no que Pedro tinha dito, estava perdido naquela mansão,
Andando para cima e para baixo, por imensos corredores de portas fechadas, não tinha a menor idéia de qual direção seguir. Resolveu tentar abrir as portas. Trancadas. Seguiu por uma escada até que estivesse no último andar. Achou o jardim que via de sua varanda e respirou o ar puro, maravilhado.
Tinha tudo o que podia se imaginar: rosas, orquídeas, bromélias, tulipas... Parecia desorganizado à primeira vista, mas era um colorido tão belo que fazia sentido aos olhos de quem admirava. Sora se sentou ali se vendo um pouco cansado... Chegou à conclusão de que talvez realmente precisasse de comida.
Uma mulher uniformizada passava por ali apressada, secando as mãos em seu avental e nem percebeu que ele estava ali até que seus pés pisaram na mão dele. Sora olhou para ela assustado e ela deu um grito e saiu correndo. Agora mesmo que ele não entendia mais nada.
Um garoto saiu de trás dela com um sorriso no rosto. “Não tenha medo dela”, ele disse “É sempre como uma gatinha assustada, não tem jeito. Aliás, eu sou Tiago, seu novo irmão. Bem-vindo à família!”
Sora ficou muito feliz com aquilo. Era muito bom ser recebido assim e finalmente conhecer um de seus irmãos. Tiago tinha o cabelo liso e sedoso que batia na altura dos ombros e de uma cor tão escura quanto seus olhos, o que contrastava com sua pele branca. Era muito magro, mas parecia saudável se comparado ao outro garoto que mantinha olhos fundos e deprimidos.
Tiago o levou para dentro, para que seu novo irmão pudesse comer alguma coisa na cozinha. A mulher estava lá com o rosto muito corado. Seu nome era Mellie e trabalhava lá desde criança. Tinha agora seus vinte e um anos e correu de vergonha de ser apresentada para um novo patrão como se fosse da família. Tiago tinha quatorze anos e parecia muito mais maduro do que a sua idade dizia.
Havia muita comida em cima da mesa, de frutas a ovos mexidos. Quando Sora percebeu que podia comer tudo aquilo sem culpa, colocou tudo na boca de uma vez só e quase engasgou com tanta comida. Tiago ria daquela situação. Era um bom começo para uma família feliz, mas ainda faltavam os outros irmãos e aquele que seria seu pai. Ainda faltava muito para que sentisse real segurança.
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