O cão do trovão

4 Capítulo três


Errado. — A moça respondeu, rindo baixinho. — Eu sou apenas metade humana.
E a sua outra metade é o que?- Arien sentou-se sobre as patas e pousou as mãos no chão, baixando as orelhas.
Como resposta, ela despiu um dos ombros e estendeu o braço desnudo, mostrando escamas azuladas que mais pareciam placas ósseas.
Metade dragão? — O garoto perguntou, batendo as três caudas no chão.
Exatamente. — Ela respondeu aparentemente satisfeita. — Prazer, Sindel.
Sindel. — O cão repetiu, saboreando o nome. Sou Arien.
A moça sacudiu os cabelos amendoados e sorriu. Neste momento, Arien percebeu que seus olhos verdes eram dotados de pupilas verticais.
Você terá que passar uns tempos aqui. — Ela falou, vestindo novamente o ombro escamoso. — Quebrou algumas costelas e existem vários ferimentos que devem ser urgentemente tratados.
Eu não posso ficar aqui! — O cão do trovão latiu irritadiço. — Se me encontrarem...
Não se esqueça que eu estou aqui. -Sindel suspirou e revirou os olhos. — E provavelmente eu posso fazer mais do que um cãozinho ferido.
A irritação do rapaz transparecia em seus olhos, porém por hora talvez fosse melhor cooperar. O humor dos dragões era algo extremamente volátil, e ele definitivamente não queria ser presa de um deles.

Tudo bem. Eu vou ficar aqui por uns tempos então. Ele coçou a orelha esquerda com a pata direita, fazendo uma careta quando essa ação mexeu com suas costelas.

Bom cachorro. A meio-dragão encarou-o, bem-humorada.

Arien rosnou baixinho e virou-se de costas, desfiando um rosário de queixas para si mesmo, o que fez Sindel cair na gargalhada.

Eu sou uma ótima companhia. E não precisa ficar aqui por muito tempo se não quiser. Só precisa se recuperar. Ela pousou a mão no ombro do cão. Aliás, esperei você acordar antes de fazer qualquer coisa com seu corpo. Eu posso...?

Faça. O rosnado não exatamente amigável de Arien ressoou pela caverna inteira.

Bom. A meio-dragão aprovou, aproximando-se de uma bacia que parecia uma imensa escama e lavando as mãos. Deite-se.

Ainda reclamando, a besta do trovão deitou-se e cerrou os dentes, esperando pelo pior. Mas o pior não veio. As mãos da moça eram suaves como plumas, e limparam os ferimentos com extremo cuidado.

Vai doer agora. Ela avisou. Procure não gritar. Não queremos atrair atenção.

Sem dar tempo para oposições, ela tapou a boca de Arien com uma das mãos e pingou um líquido no ombro do garoto. A dor foi insuportável e o uivo inevitável.

Calma cãozinho. Ainda tem mais. Ela falou, divertida. E pingou mais um pouco do líquido no ombro do garoto, ao mesmo tempo em que imobilizava sua perna e pingava novamente o líquido que mais parecia ácido do que remédio. A mente do rapaz logo começou a rodar e a visão a escurecer. Aproveitando a brecha Sindel aplicou o líquido nos ferimentos restantes e sacou uma agulha de osso e uma linha da calça masculina que usava. Com habilidade, ela costurou as feridas abertas da besta do trovão, passando uma pomada verde nos pontos.

Pobre cachorro. Ela suspirou, encarando Arien. E ainda tem mais duas costelas quebradas.

Duas? A voz do garoto era franca, e seus olhos dourados se encontravam nublados pela dor.

Sim, duas. Sindel respondeu com gentileza. Mas irei enfaixá-las o melhor que puder.

Por quê? Ele perguntou, fixando os olhos na moça.

Por que você se parece com alguém que perdi. — A meio-dragão parou por alguns segundos, encarando o cão. E chega de perguntas.

Percebendo que o momento era, no mínimo, perigoso Arien fechou a boca. Era mais seguro perguntar depois.

Você deve estar com fome. A garota observou, com um suspiro. Toma. É carne seca.

O cão devorou a carne com voracidade, saboreando cada bocada da refeição que lhe era oferecida. Após terminar, Arien bocejou e encostou-se em uma das paredes da caverna. Talvez não fosse tão mal assim dormir um pouco.