O cão do Central Park

3 Capítulo 3 - Pontas Soltas


Capítulo 3 – Pontas soltas

— Quer que eu me infiltre na mansão? Não acha que vai parecer suspeito?

— Não se for sozinha. Se há um criminoso é provável que reconheça a minha cara, e ainda que reconheça a sua, vai se sentir menos ameaçado. Vou me mostrar descrente e bem desinteressado no caso e vigiar tudo daqui de fora enquanto procuro por outros rastros. Enquanto isso você analisa a situação de dentro da casa e vemos o que acontece. Mesmo assim, vamos apresentar você na casa como uma simples informante que vai analisar o caso pra mim enquanto não posso.

— Por que não pode? O que vai dizer a eles.

— Não vamos contar tudo. Quanto menos souberem por enquanto, mais seguros podem estar e menos nos atrapalharão.

— Você acha que o cão pode existir de fato?

— Talvez. A pegada era bem real pelo que Mortiner descreveu. Ele não parece um mentiroso e tem uma mente muito precisa. E não é tão simples falsificar a pegada de um cão sem ser descoberto. Alguma coisa teria deixado pistas em uma pegada falsa.

— Você já falou sobre isso com Mortiner ou Henry?

— Não. Eu vou sugerir isso quando os encontrarmos de novo mais tarde. E dada a apreensão que estão sentindo, duvido muito que não achem uma boa ideia. Aparentemente é um caso simples, mas com poucas informações e muitas pontas soltas. Se provarmos que o cão é físico, será uma questão de tempo até montarmos o caso e a linha de acontecimentos, e assim chegarmos a um humano. Se o cão é físico, não pode ser um animal raivoso, já teria sido encontrado e sacrificado, e um cão não teria uma formação tão boa sozinho pra matar pessoas de uma mesma família em série, Watson. Mesmo que essas pessoas tivessem lhe feito mal. E pode haver mais de um cão. Há anos de distância entre uma morte e outra.

— É tempo suficiente pra um cão viver. Alguns vivem bastante.

— Mas não sabemos a idade da criatura, pode haver mais de um. Mas isso não é importante agora. Se o animal existe, há alguém que o comanda. Que o controla. E provavelmente alguém que vive aqui nesta cidade! Alguém próximo à família. Ou que tem alguma fixação por ela. E dada o poder financeiro não são poucas pessoas. Mas precisamos saber porque, então saberemos quem. Sugiro que arrume uma mala pra alguns dias e leve seu bastão.

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— Eu vou para a mansão amanhã. Pedi que uma verificação fosse feita. Os criados não encontraram anda de estranho. Eu não os conheço, mas o doutor Mortiner diz que estão com a família há anos e nunca decepcionaram. Ainda assim, estou assustado. Se há um criminoso perigoso à espreita, talvez saiba como se infiltrar e me fazer alguma coisa dentro da casa.

— Subornar os criados eu duvido, todos sempre foram leais ao extremo – o médico falou – Mas se houver mesmo um cão maligno, o que pode acontecer?

— Você não irá sozinho. Levará alguém de confiança com você, ao menos por uns dias ou enquanto solucionamos o caso.

— O único em quem posso pensar é o doutor Mortiner, mas ele não pode deixar suas funções só por mim.

— Sabemos disso, portanto você levará Watson. Ela vai acompanha-lo dentro da mansão por algum tempo. Lá ela não será minha parceira. Irá apresenta-la apenas como minha informante, não sabemos o quanto de informações podem obter a sua volta, senhor Henry. Para a segurança dos dois, ela será apenas uma informante.

— Por que não vão os dois?

— Eu irei voando se algo mais grave acontecer, mas você sabe que não é meu único cliente. No momento estamos atolados de casos, inclusive um caso gravíssimo de chantagem envolvendo cargos de pessoas importantes. Watson vai conseguir toda a informação possível enquanto eu não estiver totalmente disponível. Você vai gostar da companhia dela, é muito mais agradável do que eu.

— Tudo bem então. Algum problema para a senhorita?

— De forma alguma. Se isso pode nos ajudar a encontrar a resposta e mantê-lo um pouco mais seguro, eu irei. A propósito... Encontrou suas luvas?

— Achei as luvas novas dentro de uma mala, posso ter me confundido com o lugar de guardar, mas agora sumiram as duas velhas.

— Estranho, não acha? – Joan perguntou, trocando um olhar de entendimento com Sherlock.

— Bastante. Já revirei minhas coisas, sei que não estão lá. Mas ao menos recuperei as novas.

Sherlock fechou a porta após os dois homens irem embora e encarou Joan.

— Ouviu o que ele disse?

— Se há um cão, é preciso um meio pra fazê-lo atacar a pessoa certa.

— E o melhor de todos ainda é pelo faro do animal. O ladrão pode ter subornado um dos funcionários do hotel pra roubar mais de uma peça pra não parecer um roubo esquisito, mas duas das três eram inúteis. Então ele fez um novo suborno e conseguiu o que precisava novamente sem que pareça algo muito fora do comum.

— Então o cão é real...

— “Pode” ser real. Ainda não sabemos se há um cão ou se alguém quer que acreditemos nisso. O homem que perseguiu nossos clientes sabe que estou na caça. Foi ousado o suficiente pra brincar com a gente dando meu nome no pedido de café. Deve conhecer meus métodos.

— Mas por que se revelaria assim?

— Se você quer enganar alguém com um nome falso... Que maneira melhor de confundir a pessoa do que com o próprio nome dela. Mas isso não foi uma decisão perfeita. Ele pediu café amaretto. Mandei Teddy verificar isso também. O garçom confirmou o pedido vindo de um homem com a descrição do que nós vimos. Amaretto é um licor italiano usado no café pra conferir um sabor mais forte e diferenciado, e um aroma irresistível, somado a canela e creme de leite. Temos que descobrir se há algum italiano, descendente ou mestiço na vizinhança. E saber se é um informante ou se é o nosso criminoso.

— E quanto ao jornal que Teddy devia procurar?

— Ele não conseguiu fazer nenhum funcionário abrir a boca ou soltar alguma coisa sobre o roubo das luvas e também não encontrou o jornal, mas isso não importa muito por enquanto.

— Preciso saber como isso vai funcionar. Como e quando devo me comunicar com você?

— À noite. Quando tiver se recolhido pra dormir. Estará sozinha e longe de possíveis suspeitos.

— Então até Henry é suspeito?

— Todos são até que provemos que não. Todas as mortes foram dentro da casa. O cão, no entanto, foi visto e ouvido fora dela. Quero que você descubra o que os empregados têm a dizer sobre isso. Nossos clientes acreditam que os criados são impecavelmente leais até hoje. E se nunca tiverem sido?

Passaram o resto do dia tentando juntar algumas pontas soltas do caso, sem muito sucesso. Joan arrumou algumas coisas para sua estadia na mansão no dia seguinte. Estava sentada em sua cama, na escuridão do quarto por volta das onze da noite, pensando na estranheza daquele caso. Percebeu a porta entreabrir e soube que era Sherlock.

— Precisa de ajuda?

— Não pensei que ainda estivesse acordada – ele falou quando seu rosto se destacou entre a escuridão do quarto e a luz do corredor.

— Preocupado com alguma coisa? – Ela questionou ao ver o olhar inseguro dele.

— Estava pensando...

— Em que?

— Ainda que esse caso se explique pelas leis do mundo dos vivos, e eu acredito que sim, há muitas pontas soltas e caminhos que ainda não dão em lugar nenhum. Parece um dos casos mais perigosos que já enfrentamos. A história da família diz que não só herdeiros morreram. Pessoas que não tinham nada a ver se foram simplesmente por estarem no caminho. Quanto mais eu penso, menos eu fico feliz com isso. Temos que resolver esse caso o mais rápido possível. Não falta muito pra lua nova. Você sempre iluminou bastante minhas ideias. Sei que pode e vai me levar a algum lugar – ele fez uma pausa na qual nenhum dos dois falou nada – Eu ficarei feliz quando você estiver segura de novo, aqui. E antes que pense que a estou jogando sozinha na boca do lobo, eu vou vigiar cada um dos seus passos, daqui de fora, mas estarei no seu encalço. Eu nunca me perdoaria se algo acontecesse a você.

Ela refletiu por alguns instantes e sorriu.

— Obrigada, Sherlock.

Sherlock voltou ao quarto quando ela já estava dormindo. Observou a bela figura asiática adormecida e repensou seus planos para solucionar o caso. Tinha tudo estrategicamente calculado, não deixaria nada acontecer a ela. Puxou a cadeira para mais perto da cama e sentou-se para observá-la dormir, como havia feito tantas vezes antes.