O cronista e a menina que tudo via
1 Capítulo 1 - Ela, a portadora da esperança
Esplendidos cavaleiros derrotando dragões, bruxos sequestrando donzelas indefesas ou até mesmo histórias incríveis — lê-se no pior de seus sentidos — de homens embriagados em tabernas decrépitas. Nada disso satisfazia mais meu amo. Nada mais! Irritado, amassei mais um pedaço de papel com mais uma história frustrada e a joguei no canto daquela cômodo parcialmente sombrio, onde outras muitas histórias pereciam diante da minha inclemência literária. No inicio, eu me sentia um monstro por destruir tantos mundos com minhas próprias mãos, mas, no fim das contas, acabava por perceber que, assim como Deus, eu não podia ser misericordioso com todas as minhas criações, pois, caso contrario, não haveria distinção entre o certo e o errado, o bem e o mal. Todo escritor tem um que de Deus em suas mãos.
Um galho de uma árvore seca batia sem parar na janela do meu escritório, o que acabava por cumprir o papel de Diabo por me levar pelas veredas do pecado — sendo mais específico, falo sobre o pecado da ira, o único já cometido pelo Criador. Sendo perfeitamente sincero, eu queria incendiar todo aquele recinto e nunca mais escrever uma única letra uma vez que meu bloqueio imaginativo me levava a crer que meu antigo talento com as palavras havia se perdido na vastidão do tempo. Outrora, em meus anos áureos, eu era vangloriado pelas crianças, admirado pelos homens, desejado pelas mulheres e enaltecido pelo grandioso rei. Eu era Durvan, o cronista da pena dourada. É uma pena que o tempo passe tão rapidamente. Quando me dei conta, fiquei velho, corcunda, míope e terrivelmente solteiro. Para o meu infortúnio, as minhas histórias ficaram iguais a mim: chatas, repetitivas e previsíveis.
Eu já estava impaciente quando, de repente, alguém bateu na porta da minha casa no andar debaixo.
– Alto lá! Durvan! — um homem gritou meu nome. — Abra! – Ele batia minha porta incessantemente. — Não tenho o dia todo!
Resmungando e praguejando, desci lentamente as escadas que levavam ao salão principal.
– Já vou! Já vou!
Ao abrir a porta, notei que se tratava de alguém a serviço do rei, posto que em sua capa havia estampado o respeitado brasão real — uma coroa vermelha sobre um escudo dourado.
– Cada dia que passa você fica mais velho, mais surdo e mais lento. Não vê que está para cair uma tempestade? A última coisa que quero é molhar a minha bunda por causa da sua ferrugem — caçoou.
Já era noite, e ventava muito. As nuvens negras no céu confirmavam a previsão detestável daquele homenzinho que ousava me insultar. A minha vontade era de lhe acertar um belo golpe no rosto.
– Vossa majestade aguarda sua presença nos salões reais em uma hora. Não se atrase, escrevedor.
Como se não bastasse, ele ainda insultou meu ofício. Me pergunto que força sobrenatural me segurou naquele momento. Talvez fosse apenas a osteoporose.
– Vá embora — respondi austero. — Vá, ou juro que lhe fatio feito um açougueiro e uso seu sangue para escrever uma crônica assustadora sobre essa verruga imensa que vive no seu rosto patético.
Ele escarrou na minha frente.
– Eu te ensinaria uma bela lição se eu não estivesse de luto agora. Ouvi boatos de que vossa majestade está para te exonerar do cargo de contador de histórias e cronista real. Talvez você ainda seja enforcado por negligência de serviços reais.
Diante daquele rumor fatídico, me arrepiei da cabeças aos pés e engoli a seco. Ser condenado a morte era uma realidade bem possível naquele reino, considerando-se que Lucarael VI, meu amo, era bem impaciente e não hesitava em mostrar a todos essa sua característica.
– V-vá! — gaguejei.
E assim foi. O mensageiro patife montou em seu cavalo e galopou para longe, onde provavelmente prosseguiria em entregar muitas outras mensagens reais.
Vocês, meus caros leitores, devem estar se perguntando o que eu, Durvan, fiz depois de receber aquela trágica noticia. Devem estar cogitando que corri para o castelo real para implorar clemência. Errados! Todos vocês! Na realidade, eu fui a uma taberna próxima conhecida como "porão dos ratos". Era lá onde eu, em minha juventude dourada, bebia e ouvia as melhores histórias — em determinadas ocasiões, todos paravam para ouvir as minhas histórias.
O lugar continuava o mesmo de antes. Mal iluminado e fedendo a mofo. Porém, devido a tempestade que se aproximava, quase ninguém estava naquele recinto quando cheguei. Havia, além do taberneiro, dois homens velhos, barrigudos e embriagados e um cachorro vira-lata e manco. Não havia crianças correndo de um lado para o outro, bardos em seus alaúdes e nem sequer as velhas e boas brigas de bêbados.
– Ora, ora! — disse o taberneiro. — Se não é o Durvan! Faz muito tempo que não te recebo por aqui. O que vai querer?
– Um conhaque, por favor. Qualquer um. Só quero encher a cara.
– Sim, senhor. — Pegou uma garrafa e encheu uma taça com o seu liquido pecaminoso. — Aqui está. — Serviu-me.
Virei tudo de uma vez goela abaixo, emburrando a face no final.
– Nossa! Você está péssimo- ele comentou comigo. — Se quiser me contar o que houve, lembre-se de uma coisa. Todo bom taberneiro também é um bom ouvinte.
– Não exagere. Esta tudo bem — menti. — Nunca estive melhor. A propósito, quero mais uma taça, por favor.
O taberneiro não contestou. Apenas deu de ombros e tornou a me servir. Foi quando bebi minha segunda dose que ouvi a porta da taberna se abrir. O vento gelado do lado de fora inundou o recinto, o que pouco me incomodou uma vez que o álcool me manteve suficientemente aquecido. Curioso, olhei para trás, mas o que vi, todavia, não me despertou interesse algum em um primeiro momento — apesar deste ter sido um instante crucial no meu destino. Era uma menina em farrapos que havia entrado.
– Alazão! — gritou.
No principio, desconfiei que ela fosse louca ou insana, mas logo compreendi o que se passava quando o vira-lata correu mancando para os braços da garota. Ela o fez carinho enquanto ele lambia seu rosto. Alazão era o nome do cão. Mas que nome...
– Pensei que eu tivesse te perdido pra sempre — ela falou com o cachorro. — Nunca mais faça isso, ouviu?
O taberneiro chegou a rir e caçoar do cachorro, chamando-o de pulguento biruta, mas nada tinha importância significativa para mim. Eu estava condenado.
Infelizmente, eu não podia ficar naquela taberna o dia todo envenenando meu corpo com infinitas doses de conhaque. Eu tinha um destino a encontrar e um prazo para cumprir — um pouco mais de vinte minutos, de acordo com meu relógio de bolso. Dessa forma, paguei devidamente o taberneiro e sai taciturno daquele lugar.
A cena era de fato dramática. Um senhor de idade parcialmente embriagado caminhando calado por uma estrada vazia com sua capa negra e cabelos alvos esvoaçando ao vendaval que prenunciava uma eminente tempestade. Se eu estivesse observando essa figura que era "eu", provavelmente tentaria escrever uma história sobre ele. Trovejou.
O destino, porém, é um elemento formidável e insistente.
– Mais rápido, alazão! — a menina de antes gritou enquanto corria desajeitadamente para fora da taberna seguida pelo seu cachorro manco que tentava alcança-la. — A besta celestial está vindo! Ela está atrás da fonte outra vez! Mais rápido!
Para um individuo comum, aquelas palavras haveriam soado como uma loucura sem igual. Para os loucos, soariam como a mais pura verdade. Para um escritor como eu, soaram como uma orquestra sinfônica. Aquilo com certeza me renderia uma belíssima história. Era o meu fio de esperança.
– Menina! — a chamei. — Onde a senhorita está indo com tanta pressa a essa hora da noite? Não vê que em breve ocorrerá o toque de recolher?
Ela não olhou exatamente para mim. Apenas posso afirmar que ela olhou na minha direção. Era como se observasse toda uma multidão ao meu redor.
– Me perdoe, senhor. — Ela foi educada comigo de uma forma que eu não estava acostumado. Admito que gostei. — Eu e o alazão precisamos proteger a fonte.
– Mas que fonte seria essa? — Atirei o capuz para trás e agachei. — Por que ela é tão importante pra você?
– Desculpe-me, mas estou sem tempo. É uma longa história.
– Mas... — eu quase me rendi ao desespero e à brutalidade. Pronto para exigir todas as respostas como um carrasco, todavia, resolvi ser gentil. — Está certo. Apareça amanhã na toca dos ratos. Eu lhe pago um jantar em troca de uma longa história. O que me diz? — Estendi a mão.
– Está certo — aceitou e, na companhia de seu cão, saiu em disparada, sem ao menos me cumprimentar de volta.
– Uma hora após o pôr do sol! — gritei, mas ela não me respondeu.
Suspirei. Havia a infeliz possibilidade de eu não aparecer para o jantar no dia seguinte, pois, até onde se sabe, pessoas sem cabeça não costumam honrar com compromissos. Que seja, ao menos eu possuía uma carta na manga — uma carta da qual eu nada sabia. Seria um às ou um coringa?
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