Notas iniciais
Oi galera, eu sou o Bibliomante, o ser responsável por viajar pelo biblioverso recolhendo e transmitindo histórias. Sou novo no cargo então ainda tenho muito o que aprender. Essa história já está completa e será divida em 5 partes. Trazida a vocês motivada pelo desafio "Entre campos e corações" e todas as histórias legais que eu li dessa proposta. Minha história tem um pouco de tudo, me joguei de cabeça em trazer o melhor dessa dimensão sertaneja, espero que gostem.


A poeira levantada pelo ritmo furioso da égua cegava Anakin Skywalker. O animal de pelo negro corria em circulos pelo estrado tentando evitar o laço do peão. A cerca rachada e as pedras cobertas de sangue seco eram lembretes das investidas de outros peões. A égua mostrava-se imponente, mantinha a cabeça erguida e o trote desafiador, nunca se afastando demais do seu desafiante, como se soubesse da batalha e aceitasse o desafio.

Para Anakin aquilo era uma dança. Ele se movia seguindo os passos do seu parceiro, avancçando e recuando no mesmo ritmo, mantendo distância enquanto esperava a abertura para dar o bote definitivo. Sabia o que deveria ser feito, cada célula do seu corpo sabia exatamente o que fazer, devia ter paciência, cansar o animal, mostrar que era um cavalheiro a altura. Olhou de relance para Obi Wan do lado de fora do cercado. Rosto fechado, afegando a barba, analisando cada movimento seu. Anakin tinha pressa.

Esteve a muito tempo esperando por essa oportunidade. Levado jovem para o rancho Kenobi, a maior fazenda de éguas do sertão, Anakin cresceu cercado dos maiores cavaleiros da região. Desde cedo se aventurando com os animais, sempre a contragosto de Obi Wan, Anakin provou ter talento para a coisa e já com catorze anos era considerado tão bom quanto qualquer outro cavaleiro mais experiente. Hoje aos vinte anos, muitas pessoas diziam ser ele o melhor dos cavaleiros. Obi Wan não era uma dessas pessoas. Seu mestre reservava elogios para dias de enchente no deserto. Mas agora era sua chance de fazer chover. A novA égua era arisco e não tinha sido domada ainda, muitos tentaram e todos falharam. Foi preciso muita insistência para Anakin ganhar essa chance, seria a sua única. Anakin tinha pressa.

Avançou quebrando a distância entre ele e a égua. Suas laçadas forçando o animal contra a cerca. Obi Wan balancou a cabeça em desaprovação. Encurralar um animal arisco era perigoso, o deixaria mais violento. Anakin sabia disso, mas precisava correr esse risco.

A égua acertou um coice na madeira da cerca. Não havia mais espaço para recuar, trocou seu trote imponente por uma disparada em direção ao peão. Anakin jogou o laço pela direita e deu um trote para a esquerda. O laço não prendeu no pescoço do cavalo. Anakin deu um salto no lombo do animal e usou a corda da rédea para se segurar. No instante seguinte o tempo pareceu desacelerar. O ar seco e poeirento dificultava a sua respiração, as mãos queimaram segurando a corda, o som dos gritos de seus espectadores estava abafado e distante. Anakin fechou os olhos e se concentrou. Por um momento crucial era apenas ele e a égua, seus batimentos sincronizados. A égua arqueou as costas em um salto, se Anakin caísse sua cabeça acertaria diretamente as patas traseiras do animal, um erro agora seria fatal.

O instante passou e todos testemunhavam boquiabertos Anakin Skywalker trotando pela área da cerca. O rosto antes centrado agora exibia um sorriso arrogante de triunfo.

-Vê mestre? Eu disse que conseguiria. — A voz entrecortada de Anakin exalava alívio, mas seus olhos revelavam a esperança de aprovação do mestre.

-Você foi imprudente meu jovem aprendiz. Poderia ter se machucado ou pior. — Obi Wan tomou as redeas da égua e observou as marcas deixadas em seu pescoço depois do atrito com a corda.

-Eu sabia o que estava fazendo. — A expressão de Anakin que antes era de puro êxito agora nublava com remorso.

-Você ainda tem muito o que aprender. — Obi Wan olhou profundamente para o jovem Anakin. O feito tinha sido realmente impressionante, ainda assim não valia o risco. Na mente de Obi Wan permanecia o medo do que tanto talento faria na mente imatura de seu aprendiz, mesmo agora depois de ter superado todos os outros cavaleiros do rancho Anakin agia como uma criança birrenta, deixando suas emoções guiarem seu julgamento. — Venha comigo, tem algo que quero lhe mostrar.



Colocaram os chapéus para se protegerem do calor dos sóis e caminharam pela propriedade em direção à casa central. O rancho Kenobi era de fato um terreno simples com dois estábulos para acomodar os cavalos, uma casa-mata e a casa principal. Haviam algumas árvores plantadas ao redor da propriedade para fornecer um pouco de sombra fresca, mesmo que em diversos momentos do dia não houvesse projeção de sombra devido aos dois sóis. Não havia um lugar para os cavaleiros dormirem também, aquela era uma morada de animais e um ponto de encontro, no mais cada um passava mais tempo em viagens levando os cavalos até as áreas de pasto ou até a cidade e ranchos vizinhos onde são vendidos. Os únicso que moravam ali eram Obi Wan, o dono, e Anakin, seu protegido.

A relação entre os dois ia muito além de mestre e aprendiz. O antigo dono da fazenda, Qui Gon, havia encontrado Anakin ainda criança e trazido ele para viver com os cavaleiros. Nessa época Obi Wan ainda era jovem, apenas alguns anos mais velho e por isso os dois cresceram juntos e se tornaram irmãos.

Entraram na casa se deslocando até o escritório de Obi Wan. A desorganização do lugar era visível, com baús e livros espalhados por todo o lugar. A mesa estava completamente manchada. Anakin se perguntava como o mestre conseguia se achar no meio daquilo tudo. Havia tantas coisas espalhadas que tiveram dificuldade até de se locomover. Ainda assim, algo chamou a atenção de Anakin. Uma carta se destacava das demais, estava aberta no centro da escrivaninha e trazia um selo rompido diferente dos que eles estavam acostumados a receber. Obi Wan percebeu sua curiosidade e se adiantou.

Recebemos essa missiva do Coronel Amidala.

Coronel Amidala era um nome que impunha respeito na região e até um certo medo. Ainda durante o império foi criada a guarda nacional, os maiores latifundiários de cada região foram elevados ao cargo de coronéis e passavam a controlar o poder político em nome do imperador. Quando o império caiu e a nova República surgiu, os coronéis mantiveram todo o seu poder, mas agora sem reponder diretamente a ninguém. Por essas bandas, tão longe da civilização, os coronéis haviam se tornado senhores em seu próprio reino.

- Pegue, pode ler. Quero ouvir o que você tem a dizer.

Anakin pegou a carta com certo receio, ponderando se aquilo era algum teste de Obi Wan. Na carta estava escrito:


Respeitado mestre dos cavaleiros Obi Wan Kenobi,

Nuvens escuras no horizonte anunciam tempos sombrios. Ouvimos boatos e testemunhamos que nossos vizinhos estão a se armar, criando um contingente de homens, fala-se até mesmo que Holandeses foram vistos vagando por essa região. Tais ações são condenáveis, contra a lei, mas a República é fraca e não podemos aguardar que venham em nosso socorro.

Sei muito de seu passado como militar e já ouvi falar muito bem dos cavalos que cria em sua propriedade. Pretendo financiar um regimento de jagunços. Para escolher quem irá compor tão ilustre companhia estou organizando um torneio na cidade de Alderan. O vencedor será devidamente recompensado pela sua participação e será nomeado chefe do bando que estamos formando, uma grande honra.

Convoco-o a vir até Alderan com seus melhores cavalos e cavaleiros. Tenho certeza que será um homem honrado e cumprirá com suas obrigações para com seu coronel.

A carta seguia com mais algumas especificações de datas e preparativos que precisavam ser respeitados. Anakin mal podia conter sua empolgação. Tudo envolvendo a égua arisca e o desapontamento de Obi Wan havia sido esquecido, agora sua mente só pensava nessa nova oportunidade de se provar. Seria ele o vencedor do torneio, tinha certeza disso.

- Temos que preparar tudo logo, ele está pedindo muita coisa e vai levar tempo para juntar tudo. Ainda assim é uma grande honra que o coronel tenha nos escolhido.

- Eu imaginei que fcaria empolgado. — Obi Wan afagou a barba compenetrado. — Na verdade eu estava pensando em um jeito de recusar o convite.

- Recusar ? — Anakin estava incrédulo. Era loucura. Primeiro porquê simplesmente participar de tão grande evento e ter seus cavalos exibidos para tanta gente faria que o rancho Kenobi se tornasse um dos maiores em toda a região. Segundo que se ganhassem seriam eles influentes e poderosos.

- Não é tão simples Anakin. Há muito o que se considerar. De qualquer forma você está certo, devemos nos preparar. Eu irei na frente até a cidade de Coruscant para tratar com o coronel.

- E quanto a mim?

- Você domou a égua negra, é seu direito montá-la. Prepare-a para o torneio e aguarde uma missiva minha.

Levaram duas semanas até que a carta de Obi Wan viesse com as notícias. O rancho participaria do torneio afinal. Anakin havia chamado sua égua de Resoluta e treinado com ela todos os dias depois da partida de seu mestre. Muito embora ele fosse o único cavaleiro que demonstrava estar empolgado em participar. Todos os outros limitavam-se a acenar com a cabeça e afirmar a grande honra concedida ao rancho.

A missiva havia chegado pela manhã junto do raiar dos sóis. Anakin partiu na mesma hora, já tendo preparado os suprimentos para a viagem. Na verdade ele havia feito isso no dia em que Obi Wan partira.

Toda a região comandada pelo coronel Amidala fica circundada por um rio cuja nascente fica próxima à Coruscant e que corre até se juntar ao grande rio São Francisco. O rancho Kenobi ficava na orla exterior do rio, a três dias de cavalgada da cidade. As estradas próximas à cidade possuíam pastos verdejantes, o tanto que a paisagem desértica permitia, e árvores altas cultivadas para prover sombra aos viajantes. Nessas áreas a viagem era mais rápida pois os cavalos tinham acesso fácil a comida e agua além de proteção contra os sóis. Porém na estrada mais próxima à orla exterior era menos comum ter um grande número de viajantes e então elas estavam em condições mais precárias, sendo necessário viajar apenas logo cedo ou ao anoitecer para evitar o desgaste causado pelo calor excessivo.

Anakin não tinha muita experiência viajando, mas sabia o suficiente para viajar com cautela no primeiro dia. Garantiu que levaria um odre de água a mais, mesmo sabendo que isso lhe atrasaria um pouco. A verdade era que o jovem Skywalker apesar de impetuoso era muito inteligente. Suas habilidades não se resumiam a domar cavalos, ele também era um ferreiro prodigioso, sabia mexer com ferramentas para consertar as cercas do rancho, era um lutador nato especialista no uso do sabre de cavalaria e tinha um ávido interesse no treinamento de Obi Wan mesmo quando isso significava sentar na biblioteca e ouvir seu mestre recitar algum livro.

Ora, estava já a dois dias viajando quando recostou-se embaixo de uma pedra para descansar sob a sombra. A estrada estava bem cuidada, indicando que ele estava próximo do seu destino, então resolveu descansar um pouco. Resoluta notou primeiro a perturbação no ar, agitando-se e despertando Anakin do seu cochilo. Os instintos do jovem cavaleiro colocaram-no em alerta imadiatemte. Aguçou seus sentidos para perceber o que estava acontecendo e ouviu gritos à distância. Poeira voava ao vento levantada por cascos de cavalos. Ao distinguir um grito de socorro, Anakin montou Resoluta.

Não demorou muito até observar três cavalos em disparada. A frente ia um cavalo branco montado por uma mulher de túnica vermelha, seguida de perto por dois homens vestidos inteiramente de couro montados em jumentos.

Haviam saído da estrada e cavalgavam por terreno irregular, isso obrigava-os a irem mais devagar. Anakin tinha a vantagem, conseguia conduzir sua égua muito melhor, evitando qualquer obstáculo que ameaçasse feri-la. Era algo muito natural para ele, mal precisava olhar para onde estava indo. Seus reflexos tão rápidos que pareciam prever o futuro.

Em pouco tempo ele já havia alcançado os perseguidores. A confiança de Anakin vacilou quando ele viu ambos sacando pistolas e apontando em sua direção. Abaixou-se atrás de Resoluta e puxou as rédeas para a direita. Por sorte nenhum dos tiros acertou o alvo. Em seguida acelerou o galope se colocando entre os dois jumentos para impedir que atirassem. Os homens de couro guardaram as pistolas e sacaram peixeiras. Anakin rapidamente sacou seu sabre e aparou o primeiro golpe que veio no seu flanco direito. Puxou as rédeas da égua, aproveitando o terreno e o descuido do atacante à esquerda, foi empurrando ele até uma rachadura no chão. O casco do jumento ficou preso e quebrou a sua pata no movimento, derrubando o montador que caiu com um sonoro som de algo estalando. Restava apenas um.

Este desistiu de correr em direção a mulher e se voltou para enfrentar Anakin diretamente. Mudou a peixeira para a mão esquerda e sacou nvamente a pistola. Anakin saltou da cela rolando pelo chão, desviando de mais dois tiros. Pensou por um momento e lembrou que esse tipo de pistola normalmente carregava seis balas ao todo. Restavam ainda três.

Agarrou um punhado de areia e jogou no rosto do homem, seus reflexos os forçaram a erguer as mãos para se proteger e ele disparou acidentalmente para o alto. Anakin cortou os arreios da cela com seu sabre, fazendo o homem tombar do cavalo com seu peso. O homem caiu com mais habilidade que Anakin esperava, levantando-se rapidamente e dando mais um disparo. Por pouco a bala passa raspando no braço de Skywalker abrindo um rasgo e deixando o sangue escorrer.

Sem ligar para a dor do ferimento, ele avança, sabre e peixeira se encontrando no ar. O homem agora estava em desvantagem, segurava a peixeira na mão não dominante e não tinha brecha para atirar. Anakin mantinha pressão, sua arma muito mais adequada ao combate lhe concedendo golpes rápidos e precisos. Uma finta, um corte e logo a mão esquerda do homm estava decepada. Desesperado, ele apontou a arma e disparou. Errou, as balas haviam acabado, assim como o combate.

A mulher de vermelho se aproximou dele. Apesar de visivelmente ainda estar alterada pela perseguição, seu rosto expressava genuína preocupação pelo ferimento de Anakin.

Seu braço, você se feriu. — Arrancou um pedaço da túnica, estancando o sangramento. — Isso deve ajudar. Ainda assim você vai precisar de ajuda de um médico, há um em Coruscant, não estamos muito longe.

Ela falava apressadamente, movendo as mãos com destreza. Estava coberta de suor e areia, seu manto rasgado em mais de um lugar. Anakin observava embasbacado a mulher que tinha salvo e que agora lhe prestava socrros.

Você é um anjo?

Ela parou subitamente, pega de surpresa pela pergunta. Pela primeira vez olho seu salvador, ainda um jovem, porém com o rosto marcado pelo sol e o corpo de um soldado. Seus cabelos castanhos esvoaçavam soltos. O que mais lhe chamou atenção foram os olhos, havia um abiso neles, absorvendo tudo ao seu redor, escondendo profundos segredos e ainda assim faiscando. Ela saiu do esturpor quando ele voltou a falar.

Já ouvi falar de anjos, os cavaleiros contam histórias sobre eles, são as criaturas mais bonitas do sertão.Me chamo Padmé. — Foi tudo o que ela conseguiu dizer.Eu sou Anakin. Cavaleiro do rancho Kenobi. — Disse ele exibindo-se.Muito obrigada por salvar a minha vida Aakin.

Os dois ficaram ali por um momento, demorando-se no chão do deserto. Decidiram que Padmé tinha razão, ele realmente precisava de um médico. Porém a cidade ainda estava a pelo menos um dia de cavalgada e o combate esgotara as forças de Anakin. Os dois montaram, ele com certa dificuldade, e foram em direção a um morro próximo onde montariam acampamento antes de seguir viagem. Skywalker perguntou porque aqueles homens a estavam perseguindo, mas Padme não sou dizer, afirmando serem apenas bandidos comuns de estrada.

Para onde você está indo? — quis saber AnakinPara Coruscant. Imagino que pelo mesmo motivo que você se é um cavaleiro.

Os dois conversaram até os sóis sumirem no horizonte. Deixaram seus cavalos beberem água enquanto permaneciam sentados. Anakin falava mais do que o normal e contava sobre sua vida no rancho e seus objetivos no torneio, enquanto Padme permanecia atenta, sempre desviando de assunto quando ele fazia alguma pergunta pessoal a ela, mas o jovem Anakin não percebia e continuava a narrar suas aventuras. Por fim, ele julgou estar em condições de cavalhgar e os dois foram trotando pela estrada até Coruscant.

Ao chegarem na cidade, Anakin espantou-se com a multidão que ocupava as ruas. Tinha passado toda sua vida no rancho, jamais tendo visto tanta gente no mesmo lugar. Padme foi ficando para trás. Ela havia indicado a Anakin como encontrar o médico.

Diga meu nome quando chegar lá. Ele é meu amigo e não lhe cobrará nada. Tenho que ir urgentemente até a minha família, já me atrasei demais. Boa sorte no torneio Ani.

E assim ela se foi sem dar a ele tempo de responder. Deixando-o sem escolha a não ser seguir em frente. Ademais também estava ele atrasado, Obi Wan esperava por ele no dia anterior. Pensou em ir direto até seu mestre, mas a dor no seu braço esquerdo o fez reconsiderar e seguir em direção ao médico. Demorou para achar, se perdendo mais de uma vez e tendo que pdir orientações para pessoas que lhe olhavam torto. Quando finalmente encontrou a clínica do médico, mais uma vez ficou surpreso com o tamanho. O médico em si era um homem sisudo, que torceu o nariz quando Anakin mencionou o nome de padme e o obrigou a contar a história toda antes de concordar em ajudar. Apesar de meio bruto, o médico tinha mãos firmes e fez um bom curativo no seu corte, recomendando que ele poupasse o uso do braço por alguns dias para não abrir a costura.

Devidamente remendado, o cavaleiro Skywalker se dirigiu até onde Obi Wan escrevera estar hospedado. A hospedaria fora mais fácil de achar do que o consultório uma vez que todos os forasteiros pareciam estar convergindo para o mesmo lugar.

Os mais variados tipos se acumulavam em frente ao pórtico de entrada da pousada. O coronel aparentemente havia convidado toda a sorte de gente, de toda a região. A única coisa uniforme naquele momento era o cheiro. Um odor pungente de cavalo e suor seco. De repente Anakin deu-se conta do estado deplorável em que se encontrava depois de quatro dias de viagem. Um incômodo tomou conta dele ao lembrar que conhecera Padmé naquele estado. Tinha irgencia de um banho.

Atravessou a multidão. Sabia em qual quarto Obi Wan o aguardava. Perguntou a uma mulher com uma bacia de água quente onde era a área dos rancheiros e ela indicou com a cabeça um casarão azul cercado de azulejos. Era bem óbvio se você notasse essas coisas. Enquanto todos os casebres mantinham o tom monocromático de amarelo e marrom, a área destinada aos donos de rancho desmontrava seu luxo com a cor celeste, sinalizando aqueles que estavam acima.

Anakin adentrou o casarão, muito menos movimentado do que o resto da pousada, se dirigindo até o quarto onde deveria encontrar Obi Wan. Estava vazio. Droga! Realmente tinha se atrasado. Teria de esperar o mestre retornar. Até lá desejava um banho acima de tudo, mas o quarto estava trancado. Procurou pelos corredores por uma arrumadeira que pudesse lhe ajudar. Encontrou um homem alto, grisalho e de olhos agudos lhe barrando o caminho.

Servo, solicito um desjejum. — Sua voz era grossa e profunda, quase tão velha qianto ele. Eu não sou um servo! — protestou Anakin, já deixando seu orgulho falar mais alto que o seu bom senso. Seus instintos lhe diziam que aquele velho era perigoso, mesmo ele não sabendo racionalizar o porquê. Um ladrãozinho então. Maltrapilho desse jeito. — O homem lhe analisou de cima a baixo deixando transparecer sua desaprovação. Eu sou um cavaleiro. — o sangue de Anakin fervia. — Do rancho Kenobi.Pior do que um ladrão então. Me dê licensa, já perdi tempo demais.

Anakin sacou o sabre.

O velho não moveu um músculo sequer, manteve a frieza na postura e na sua voz.

Eu sou o Conde Dookan. — Ergueu um pingente com um símbolo estranho, como um sol negro em fundo dourado. — Sacar o sabre na minha presença é uma infração púnivel com a morte.

Com um movimento mais rápido do que seria esperado para alguém dessa idade, Dookan sacou uma espada da cintura, desferindo golpes ligeiros contra Anakin. A espada do conde não era um sabre de cavalaria, mas sim uma rapieira, uma espada da nobreza indicando sua ascendencia aristocrática.

O corredor apertado favorecia o estilo de combate baseado em estocadas de Dookan, enquanto Anakin não tinha espaço para fazer cortes amplos, sendo obrigado a aparar e recuar, mal conseguindo acompanhar a velocidade das estocadas do seu adversário. Dois golpes rápidos de Dookan abriram cortes no braço esquerdo de Anakin que deixou cair a espada. Antes que ele pudesse se recuperar o conde pressionou a rapieira contra o seu pescoço.

E então recuou, limpou sua lâmina na capa e embainhou a espada novamente. Passou tranquilamente por um Anakin atonito, parando a poucos passos de distância. Sem se virar, falou olhando para a saída.

Minha lâmina não merece ser manchada com o sangue de um adversário tão patético. Já lamento as poucas gotas derramadas. Faça um favor a si mesmo criança e mantenha-se fora do meu caminho.



***

Lembrando de sua derrota, os sentimentos de Anakin ainda tomavam conta da sua mente enquanto o médico lhe fazia novos remendos. Ele contava a Obi Wan um resumo de suas aventuras, deixando de fora seu duelo contra Dookan, colocando toda a culpa na batalha contra os cangaceiros. Kenobi não era tolo, percebia que alguns dos ferimentos de Anakin eram mais recentes do que outros. No entanto sua mente estava focada em assuntos mais urgentes, então deixou passar a mentira de seu aprendiz.

Não sei porquê eles perseguiram Padmé. Mestre, sei que estaremos ocupados com o torneio, mas eu gostaria de procurá-la e saber se ela está bem. Ora Anakin. — Obi Wan riu consigo mesmo. — Você deveria ter prestado mais atenção nas lições que eu lhe passei. Padmé Amidala é o nome da filha do coronel Amidala, a qual ontem chegou sã e salva à casa de seu pai para ajudar na coordenção do torneio. Eu mesmo estive com ela e ouvi sobre os feitos heróicos de um cavaleiro do rancho Kenobi. O coronel ficou muito impressionado e nos convidou para um jantar. — Parou um pouco para observar a cara de incredulidade de Anakin. — Meu amigo, você ainda a verá muito nos próximos dias…


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!