O coração que os olhos não veem
17 Decifrando o desconhecido
Notas iniciais
Aquele sorriso a sua frente foi capaz de prender a visão dele como um ímã. Ulquiorra não conseguia desviar a atenção do rosto da jovem que, tão ingenuamente, sorria para ele, irradiando otimismo. Ainda que ligeiramente constrangida, a feição da humana tornou-se mais serena, como se algum peso que carregava nas costas houvesse desaparecido.
Mas nenhuma palavra saía da boca do Espada.
– V-Você... não vai me responder nada? – Inoue parecia ficar mais constrangida a cada segundo que se passava. Ela havia aberto o seu coração para um Arrancar. Todo o sentimento que cresceu dentro dela nesse tempo que esteve no Las Noches foi revelado. Ela acabou de confessar-se para Ulquiorra, e ele nada a respondia?
Por um momento, Inoue cogitou a possibilidade do moreno não haver compreendido. Afinal, ele não entende os sentimentos, como pode reconhecer quando alguém os transmite?
– Ulquiorra-kun, o que eu estou querendo dizer é q- ...
A mão do Espada pousa sobre o seu peito.
– O que você falou, tem alguma ligação com isso?
Aquela repentina atitude surpreendeu Inoue por um momento, mas não tardou muito para ela apoiar sua mão sobre a do rapaz.
– Sim. – Dizia, com suas maçãs do rosto mais intensas do que a minutos atrás.
Ulquiorra, naquele momento, passou a sentir-se diferente. Não conseguia discernir se era algo bom ou ruim, se devia temer, ou agarrar essa nova sensação. A única coisa que sabia era que nunca havia sentido isso antes. Apenas quando está junto daquela mulher, ele sente-se assim. Mas, afinal, o que é isso que ela desperta nele? Como ele nunca tomou conhecimento dessa sensação que invade o seu corpo? Era como se o desconhecido o habitasse.
– Vocês, humanos, tornam-se cada vez mais peculiares.
– Por que você me trata sempre por “humana” ou “mulher”, mas nunca por “Orihime”? – Dizia a garota, após reunir as forças que lhe restaram para isso. Sabia que estava a dizer muitas coisas que seriam vistas como absurdas para alguém em sua posição, mas, ainda assim, não iria abaixar sua cabeça. “Não depois de tudo o que passei. Não depois de chegar até aqui” fortalecia o seu convencimento.
Ulquiorra segurava seu olhar com o da jovem, intrigado. Sua feição não indiciava impaciência ou raiva pelo que acabou de ouvir. Ele parecia estar, pela primeira vez desde ela o conheceu, tentando compreender tudo o que saía da boca daquela ruiva.
– Não vejo porque se preocupar com a forma a qual te chamo. Isso é irrelevante.
– .... Eu não vejo assim. A forma a qual chamamos alguém pode nos indicar muita coisa.
– Isso são meros preceitos humanos. Não há razão para um hollow sujeita-se a eles.
– Mas hollows não possuem coração. Você o possui... Agora.
– Coração. É pelo coração que você arriscou a sua vida vindo aqui. É pelo coração que você sofreu com as lutas de seus companheiros. É pelo coração que você continua aqui, sujeita a cumprir as ordens de um hollow. O coração é indício de fraqueza. Não há razão para eu o possuir.
A garota, por um instante, desvia seu olhar do alheio. Ela o direciona para a lua alva a iluminar o infinito céu negrume, trazendo as lembranças do passado à tona em sua mente. Relembrando de seus momentos a sós neste quarto. Do quanto sofreu ali dentro, de todas as lágrimas que derramou, e do tempo que passou pensando em Ulquiorra. No motivo de ele ser tão frio e inexpressivo, e da razão de nunca ter encostado um dedo nela, diferente dos demais Espadas. Momentos que, sem dúvida, nunca deixarão sua memória. Agora, finalmente, chegou a hora de mostra-lo a verdade que tanto foi encoberta pelo ceticismo. A hora de mostra-lo que ela não é mais aquela mesma garota ingênua e fraca de quando chegou ali.
– Eu não me arrependo de nada disso. Não consigo me arrepender por ter arriscado minha vida vindo até aqui, se consegui proteger os meus amigos com essa escolha. Não consigo me arrepender pelas lágrimas que derramei por meus companheiros, se elas me deixaram mais forte. E não consigo me arrepender de estar sujeita ainda as suas ordens, se foi por estar ao seu lado que passei a te amar.
A garota voltava seu olhar para as orbes esmeraldas, fazendo uma força maior para permanecer encarando-as por mais tempo. Não, ela não podia abaixar seu olhar. Precisava demonstrar firmeza e convicção no que disse. Ele precisava levar a sério tudo o que ela acabou de confessar, e o primeiro passo é mostrar isso através de sua visão.
Ulquiorra encontrava-se incrédulo pelo que ouviu. Suas orbes claramente demonstravam surpresa por aquelas palavras, apesar de ainda permanecer em silêncio. Todo o tempo que reservou para conseguir entender aquela humana só lhe mostrou que nunca chegaria a compreende-la totalmente.
Aizen surge por um milésimo de segundo em sua mente, o que o fez temer por sua vida. Qual seria a primeira atitude dele ao tomar conhecimento do que estava acontecendo ali? Será que Ulquiorra ainda seria digno de ser seu servo, após falhar em uma missão? Pensou consigo que ele nunca o perdoaria. Não após fazer a prisioneira apaixonar-se por si. Não após aquela conversa que o ex-shinigami teve com o Espada, alertando-o das consequências que o esperavam.
Porém, algo o intrigava ainda mais.
Ao mesmo tempo que se sentia distante de seu superior, encontrava-se mais próximo daquela sensação indecifrável. Por mais distante que estivesse de honrar o seu mestre, mais próximo se fazia de interpretar o desconhecido que o habitava.
Inoue, notando a confusão que se fazia na cabeça de Ulquiorra, sorri com ternura.
– Não precisa responder.
Então, calmamente, a garota vai aproximando seu rosto do rosto do Espada. Ulquiorra não tira seus olhos dos dela, examinando cada atitude da humana ao seu lado.
A distância entre eles ia diminuindo pouco a pouco, até o ponto de perceberem certas características na fisionomia alheia nunca notadas antes. Aqueles lábios carnudos da garota estavam o chamando, tentavam-no a provar daquele sabor misterioso que carregava a mulher. O aroma feminino apossava-se de seus sentidos, embriagando a vontade de tocá-la. Aqueles olhos prateados o chamavam para saborear aquela nova experiência que invadia seus sentidos. E, sem nenhuma resistência, finalmente os lábios dos dois se tocam serenamente. Eles experimentavam a sensação que aquele toque lhes trazia em pequenos movimentos.
Não pensavam em mais nada. Seus temores foram encobertos, e o tempo parecia ter suspenso. O que existia naquele momento era apenas os dois, e nada mais.
A medida que o beijo seguia um rumo diferente, foram, aos poucos, jogados contra as amarras do desejo. Suas ações tornar-se-iam mais ousadas, se não fosse a repentina presença de um novo integrante no recinto.
– Ah, qual é, não parem por minha causa.
Ambos direcionaram a visão para ele. O rosto da jovem foi tornando-se cada vez mais rubro ao perceber que Grimmjow estava ali, e provavelmente assistiu a tudo. Sua voz travou e tudo o que ela fez foi esconder sua feição corada com as mãos, claramente constrangida com a presença repentina do azulado no local. Por mais que tentasse, não conseguiria exprimir qualquer som. A vergonha invadiu todo o seu corpo.
– Grimmjow, alguma ordem para agir? – Indagava o quarto Espada, sem o mínimo resquício de constrangimento ou embaraço por seu companheiro tê-lo flagrado nesse momento.
Inoue encarava o moreno entre seus dedos, ainda por cima de seu rosto, para certificar-se se era realmente aquilo que percebeu. Como Ulquiorra não estava embaraçado naquele momento?!
“I-Incrível...” pensou consigo.
– Não, nenhuma ordem. Estava no tédio então resolvi vim até aqui. Vi que fiz a escolha correta decidindo por este lugar. – Explanava o sexto Espada, gabando-se em um sorriso. Ao perceber a condição de Inoue por vê-lo ali, soltou uma risada extravagante, como se o constrangimento da garota lhe trouxesse uma diversão desmedida.
– Entendo. – Respondeu o Quarto.
Imediatamente, Grimmjow era jogado para trás e chocava-se fortemente contra a parede do corredor do lado de fora. Em questão de milésimos Ulquiorra já estava em sua frente, pressionando seu antebraço contra o pescoço do Arrancar.
– Você então decidiu vim até aqui para matar o seu tédio. Por que ao aposento dessa mulher?
– Queria me divertir um pouco com ela. – Explanava Grimmjow. Apesar de estar a um palmo para ter a cabeça arrancada, ele ainda assim sorri vitorioso. Provavelmente nunca se sujeitaria a temer o potencial de Ulquiorra. Nesse quesito, ele compartilha o pensamento de Nnoitra.
– Sei que não era esse o seu objetivo. – Ulquiorra aos poucos depositava mais força em seu braço, pressionando-o a dizer a verdade – Aizen sama foi claro quando ordenou que não a tocasse. Por mais ingrato que você seja a ele, sei que ainda o teme e não ousaria desobedecer novamente uma de suas ordens.
– Tsk. – Grimmjow aparentemente detestava quando não acreditavam nele, mas, nesse caso, a suspeita de Ulquiorra estava certa – Eu vim constatar se Szayel havia feito alguma alteração na humana, apenas isso. – Sua voz saía mais fraca, seguida por tosses intensas do azulado.
Não demorou muito para Ulquiorra afastar-se de Grimmjow, fazendo-o cair de joelhos ao chão, arfando impaciente.
– Seu miserável, não precisava depositar tanta força – Seguia por mais tosses.
– Nenhuma alteração perceptível na humana. Szayel aparentemente não saiu do campo teórico com ela. Ou ele temeu avançar demais na garota e falhar para Aizen sama.
– Entendo. – Levantava-se ainda com certa dificuldade do chão – Já vi que não sou bem-vindo nesse lugar. Estou me retirando.
– Ulquiorra-kun, não precisava ser tão violento com ele. – Dizia a garota, que se encontrava em pé devido o susto ao notar o subido ataque do quarto Espada. Seu coração ainda encontrava-se acelerado pelo acontecido, e sua feição permanecia rubra.
– Mulher, já a alertei para não utilizar termos humanos em meu nome.
– E eu já o alertei para não me chamar mais de “mulher”. – Dizia Inoue, com uma voz suave e discreta. Ela aparentava estar sem jeito após sua última ação, não sabendo, ao certo, como encarar novamente Ulquiorra.
O moreno percebe o desconcerto da humana e, mesmo que sem compreender o motivo de ela estar assim, aproxima-se dela, parando a sua frente. Orihime levanta sua cabeça e o encara por alguns segundos, desviando novamente a visão para baixo. Seus olhos não sabiam aonde pousar, seu coração só acelerava a cada segundo, e seus dedos não cessavam de chocarem-se uns com os outros. Mas ela precisava fazer algo. Ele está na sua frente, indiferente. Como conseguia se manter assim? Pela primeira vez, Inoue invejou essa capacidade do Espada, a qual ela não possuía. Então, decidiu que precisava dizer algo, o clima estava tornando-se mais tenso do que o de costume entre os dois.
– Ah, é sério, não tem problema em me chamar de “Orihime”, sei que pode parecer algo inútil, mas eu iria me sentir feliz em ouvir você cham- ...
Inoue sente as mãos gélidas do Espada tocando calmamente o seu rosto e, em seguida, os lábios dele chocando-se com os seus. Imediatamente ela para de falar e corresponde aquele ato, o qual parecia estar ganhando mais experiência cada vez que repetiam a ação. O beijo ganha uma intensidade diferente. Era como se eles compensassem o tempo que Grimmjow os tirou.
Suas mãos passaram a percorrer o corpo alheio. O moreno apertava a cintura da garota, a trazendo para mais próximo de si, enquanto esta envolvia seus braços no pescoço do Espada, a medida que tornava seu beijo mais profundo. Logo, foi mera questão de tempo para o desejo por mais invadir seus sentidos.
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