O coração que os olhos não veem
2 Um estranho sentimento
Notas iniciais
A felicidade ao saber que seus amigos vieram ao Hueco Mundo salvá-la era, de fato, inegável. Sua tristeza havia diminuído por saber que não fora esquecida, saber que eles também se preocupavam com ela. Preocupação esta que não deixou de se fazer presente. Paralelamente a toda sua euforia interna, o medo em perder seus companheiros não deixava de invadir sua cabeça. Sabia que não seria fácil e, por muitas vezes, desejou que eles desistissem desse objetivo. Seu consentimento ao desejo de Aizen foi tomado visando a proteção deles, e em nenhum momento pensou que sua atitude poria em risco suas vidas.
O mais importante para ela já alcançaram, que foi dá-la esperança, mostrar que, por pior a situação, sempre haverá um meio de se achar conforto, felicidade, em ter forças. A garota temia insistentemente que as lutas que hão de seguir resultassem no pior. Lutas essas que tentou evitar desde o começo. Passava, agora, a rezar por eles. Clamava, em seu interior, para que nenhuma consequência drástica viesse a ocorrer a ponto de pôr em risco suas vidas. Não suportaria carregar esse peso, principalmente sendo ela a culpada.
Ao pensar nessa possibilidade, foi insegurável a onda de tristeza que a inundou. Sua decisão teria sido a certa? Será que ela sabia, desde o início, que seus amigos viriam resgatá-la? Não, claro que não. Tentava fortalecer esse convencimento dentro dela. Mas, ao sentir esse desespero interior, o rosto do quarto Espada surge em sua mente. Não sabia mas, de alguma forma, ela sentia sua dor espelhada em Ulquiorra. Não em seus atos ou palavras, mas em sua feição particular diariamente. Ela, que sempre fora livre em externar abertamente seus sentimentos, não compreendia o motivo que levava aquele indivíduo a privar-se deles. O questionamento que tanto a perturbou surgiu com força em seus pensamentos: Afinal, o que ele está sentindo? Estaria ele também sofrendo? Não saberia dizer.
– Me surpreende esse rosto triste, mesmo sabendo que seus amigos vieram resgatá-la.
Aquela voz parecia não cessar de ser capaz de pegá-la desprevenida. Não entendia como ele conseguia sempre assustá-la com sua presença. Mas o susto, de nenhuma maneira, possuia ligação com o modo pelo qual falava. Pelo contrário. Honestamente, ela gostava de escutá-lo. Sua voz calma a trazia, ainda que por poucos instantes, uma sensação de paz e conforto, coisa que sempre guardou para si. O real motivo do seu susto se dava na própria presença do quarto Espada. Pegava-a de forma tão inesperada que, de algum modo, seu coração disparava, muito além do susto em si.
– U-Ulquiorra-kun! – Aquilo foi capaz de trazê-la de volta à realidade.
– Você precisa conter esses gritos. Trouxe sua refeição. — E, após falar isso, o mesmo Arrancar que havia trazido suas vestimentas, agora levava consigo uma mesa com rodas, contendo uma bandeja coberta. Após posicionar a bandeja sobre a estreita mesa do local, o servo se retira.
– Coma.
Orihime não responde de imediato. Ela passa um tempo fitando a bandeja de comida, antes de direcionar a visão ao Hollow a sua frente. A atração que possuiam aqueles olhos dificultava fortemente o desvio deles. Seu rosto não mudara, permanecia com a mesma inexpressividade que lhe é característico. Era impossível se ter qualquer ideia do que passava na cabeça de Ulquiorra Schiffer.
– Você... também está sofrendo?
Mesmo que por poucos segundos, essas palavras foram capazes de mudar a feição que o Arrancar costumeiramente fazia, num singelo ato de surpresa à pergunta alheia.
– Não estou aqui para lhe dar satisfações. Agora, coma.
Como era de se imaginar, nenhuma resposta a sua pergunta. A garota, por fim, decide não ingerir sua refeição até que, de algum modo, ele pudesse responder seu questionamento. Sentia a necessidade de tirar essa incógnita de sua cabeça, apesar de saber que sua resistência não duraria muito. Inconformada, aproxima-se do Hollow, repetindo cada palavra.
– Você também está sofrendo?
Ulquiorra apenas a encarou por um tempo. Claramente ninguém nunca antes havia feito esse tipo de indagação a ele. Mas afinal, por que o fariam? Aquela pergunta parecia inútil ao Arrancar, uma vez que sentimentos não levam a lugar nenhum. Para ele, sentimentos eram tão importantes quanto as pequenas pedras em uma forte correnteza. Não possuíam nenhum valor.
– Pergunta tola. Sofrimento? Não há porque eu sentir isso. Nós, Hollows, não nos preocupamos com coisas irrelevantes e desnecessárias que os humanos parecem valorizar.
Orihime só faz abaixar levemente sua cabeça. Frustrou-se com a resposta recebida, apesar de, no fundo, saber que havia sentido no que falara. A garota aproximou-se da mesa com sua refeição, determinada a ingeri-la. Estava ciente de que não poderia permanecer por muito tempo negando-se a comer na frente do Arrancar.
O Espada voltava a dirigir-se para a porta, porém vem a interromper os seus passos em seguida.
– Mulher, por que me fez essa pergunta?
A surpresa sentida foi inegável. Por que ele estaria interessado em saber o motivo de uma pergunta tola? A certeza de que o Hollow esqueceria disso, ignorando qualquer razão que a levou a perguntá-lo, prevalecia em sua mente. Contudo, nesse caso, isso não aconteceu.
– Ah... bem, é porque... – Ela sabia a resposta à pergunta dele. Sabia que dava-se pelo fato de não conseguir ver, por quem quer que seja, alguém sofrendo em sua frente. Sabia responder mas, por algum motivo, nenhum som foi capaz de sair pela sua garganta.
Ulquiorra, que se encontra de costas a ela, apenas começa a fita-la por cima do ombro. Notando que a mesma não concluiria sua fala, bastou-se a desviar seu olhar do dela, dando continuidade aos seus passos.
Agora, novamente, a solidão era sua única companheira.
– ...Por que eu não consegui responde-lo? – E, instintivamente, o rosto de Kurosaki Ichigo ganha forma em sua mente.
Por que pensou em Ichigo? Estaria ela o traindo? Claro que não. Nada sentia pelo quarto Espada. Não há porque se ver ameaçada em esquecer-se de Ichigo, aquele quem o amava, apesar de saber que não é correspondida. Realmente, ele não correspondia seus sentimentos. Mas como o faria, se ela nunca antes havia declarado-se a ele? Porém, ainda assim, não seria isso o suficiente. Não enquanto o coração dele desejar outra.
...
Terminada a refeição, a garota agora encontrava-se deitada no assento acolchoado do local, com as mãos apoiadas sobre a barriga, fitando o extenso teto que dava continuidade a cor branca das paredes.
– Por que devo continuar a amar o homem que nunca corresponderá os meus sentimentos? Eu estaria sendo uma boba por sentir isso pelo Kurosaki-kun? Será que isso só não me faz sofrer mais? – Dúvidas como essas preenchiam a mente da garota. Ela agora sentia-se mais só do que nunca. Seria suportável se tudo o que estivesse passando fosse tristeza. Mas a indecisão que percorria todo o corpo da mulher a afligia muito mais.
Por muitas horas ficou a chorar naquele sofá, agarrando-se a uma almofada local. Única coisa naquele momento capaz de ela se agarrar.
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