O coração que os olhos não veem
7 Perda de crença
Notas iniciais
“Eu quero sair daqui”.
Foi a única coisa que passou na cabeça da garota. Ela agora encontrava-se caída no chão, enquanto gotas de sangue pingavam no piso que preenchia o campo de sua visão. Ficou a fita-las sem nada dizer, enquanto sua visão lentamente tornava-se mais nítida do que a segundos atrás. De quem era aquele sangue? E, quando menos se deu conta, aquele insistente líquido vermelho que desaguava sob os seus olhos provinha dela mesma. Mais especificamente de seu rosto, que encontrava-se marcado por uma profunda ferida pouco acima de seu olho esquerdo. Talvez, se não tivesse passado aqueles poucos segundos de observação, nunca notaria o estado em que seu corpo encontrava-se.
“Eu quero sair daqui”
Essa frase carregava consigo uma conturbada carga de pânico e terror, sendo a única manifestação consciente da garota em seus pensamentos. Nada mais passava pela sua cabeça, se não o desejo de sair daquele lugar. O medo passou a ser o único a reger suas ações. Encontrava-se tão atordoada com o choque de impulsos que lutavam para dominar o seu corpo, que a dor causada pelos ferimentos físicos não era mais notada. Aquele homem, com seu rosto tão diabólico quanto suas ações, insistia em aparecer frente aos seus olhos. Olhos esses que refletiam amplamente todo o desespero que a garota vivenciava. Nunca um olhar chegou a externar tamanho medo.
– É um prazer conhece-la pequena humana. Peço perdão pelos meus atos, mas você é uma peça chave em meu plano. Não preocupe-se que não irei matá-la.
Uma única certeza invadiu a cabeça de Orihime. A certeza de que era preciso se manter longe daquele homem. Seu instinto de sobrevivência falou mais alto do que qualquer pensamento lógico. Ela começou a arrastar-se no chão, numa inútil tentativa de afastar-se daquele sujeito, pois sabia que não seria páreo para ele, mas precisava tomar alguma atitude. Ela precisava agir de alguma maneira. Enquanto isso o outro, cruelmente, caminhava para próximo dela, impedindo que a distância entre eles aumentasse. Este último não permitia que o sorriso em seu rosto se esvaísse. Não o seu típico sorriso de satisfação com lutas que ele considerava divertidas, mas um sorriso de prazer ao estar presenciando aquela mísera criatura arrastando-se no chão. Sabia que seriam grandes as proporções que sua ação pode vim a chegar.
A ruiva suplicava por ajuda e, nesse momento, a visão de Ulquiorra Schiffer tornava-se mais evidente, deixando de lado a de Kurosaki Ichigo que até então estava em sua cabeça. Ela não entendia o porquê, mas dentro dela gritava uma vontade de possuir ao seu lado o Arrancar de intimidadores olhos verdes. Clamava em seu interior que Ulquiorra aparecesse e a tirasse daquele lugar, pois sempre que ele abria a porta de sua cela, era possível enxergar a luz que sua aura emanava, preenchendo toda a visão da garota e a levando toda a segurança do mundo. Podia comparar-se com a que o ceifeiro de almas a proporcionava, porém com uma intensidade diferente. Isso nunca antes fora notado por ela. Talvez somente uma situação de risco iminente a sua vida para poder fazer enxergar o que sempre estivera presente, mas nunca antes foi visto.
– Infelizmente nenhum de seus amados podem vim ajuda-la agora. Pois nesse momento eles encontram-se lutando entre si. – Foi inevitável conter o riso que seguiu sua fala.
Os olhos de Orihime foram capazes de abrirem-se como nunca antes, expondo suas pupilas severamente contraídas. De alguma forma, as palavras ditas pelo quinto Espada atingiram a garota, que até poucos minutos atrás dificilmente reagiria com qualquer vocábulo que saísse da boca alheia. A ruiva levanta sua cabeça lentamente, focando no moreno a sua frente, ainda sem crer no que ouvira. Notando que a atingiu, o arco do sorriso esboçado em seu rosto aumentava, confirmando o que dissera.
Será que havia ouvido corretamente? Não, não logo esses dois lutando entre si. E, pela primeira vez, a garota não torcia exclusivamente para seu companheiro de cabelos laranja. A verdade é que não deixou de torcer por ele, mas não podia ignorar a vontade dentro dela em não aceitar Ulquiorra derrotado. Talvez nunca estivera tão indecisa e, ao mesmo tempo, inerte como nesse momento, sem nada poder fazer para mudar essa cruel realidade. Ela sentia-se como se estivesse sendo levada numa forte corrente de um rio e não existisse nada onde fosse capaz de se agarrar.
– Pelo que me disseram desse invasor, ele parece estar dando mais trabalho que o esperado. Mas Ulquiorra não é de se deixar atingir tão fácil. Pergunto-me se essa luta terá algum vitorioso.
O silêncio reinou naquele espaço. O mesmo continuaria a prevalecer, se não fosse pelo prolongado assovio que foi emanado, oriundo da entrada. Noitora, imediatamente, virou-se para o local, deparando-se com aquele o qual menos desejaria cruzar-se no momento. Grimmjow encontrava-se encostado à porta com os braços cruzados a frente do corpo, observando todo o cenário criado pelo seu extravagante companheiro Espada.
– Acho que você exagerou um pouco, Noitora. Não esperava que fosse causar tantos danos a essa mulher.
– Grimmjow, não interfira em meus planos.
– Eu não quero interferir, mas também não posso permitir que mate essa mulher. Ela ainda é necessária para Aizen.
– Eu não pretendo matá-la. Na verdade o trabalho aqui já está feito. – Dizia, enquanto apoiava o cabo de sua zampakutou sobre o ombro, caminhando para a saída.
– Achei que fosse mais esperto, Noitora. Esqueceu que ela pode facilmente curar-se dessas feridas?
– Dessa vez ela não fará uso de seus poderes. – E voltava a fazer-se presente o sorriso no rosto do Arrancar. Grimmjow apenas o observava, evidenciando uma feição nada agradável ao que ouvira. Como o mesmo prometera não interferir nos planos de seu companheiro, meramente deu as costas para a humana, retirando-se de seu aposento em seguida.
O medo instaurado em Orihime era indescritível. Suas mãos não paravam de tremer e suar, independente de sua vontade. Apesar de suas vestes, sempre brancas, contrastarem agora com um intenso vermelho, evidenciando as feridas instauradas em seu corpo, sua dor interior a atingia mais severamente que qualquer dano físico. Apesar de viva, sentia que estava morrendo. Apesar de sozinha, sentia-se em perigo.
Com as poucas forças que lhe restavam, ela levantou-se e caminhou o mais longe da porta que lhe era possível. Apoiou suas costas na parede enquanto agachava-se em direção ao chão, terminando por deitar sua cabeça entre os joelhos e, com os braços, apertar suas pernas para próximo de si. Depois do que passou era impossível se ter qualquer pensamento positivo sobre o término da luta entre o quarto Espada e o ceifeiro de almas. Ela sabia que precisaria, uma hora ou outra, encarar a derrota de um dos polos dessa batalha, mas não estava pronta para isso. Talvez nunca estivesse, mas a realidade sempre se faz mais dura que a ilusão da realidade.
...
Os incontáveis pilares que sustentavam o vasto piso dos Las Noches agora não passavam de meros fragmentos de rochas que cercavam o chão sob os seus pés. Ao seu lado, um amplo buraco fora aberto, proveniente provavelmente de um cero, fazendo enxergar a imensidão do deserto que envolvia toda aquela estrutura do Las Noches, juntamente com o infinito céu que encobria todo o campo de visão. Acobertado sob aqueles entulhos encontrava-se o principal invasor e novo defensor da Soul Society. Seus ferimentos eram tão profundos que tornavam-se irreconhecíveis sua procedência, devido a quantidade de sangue espalhado pelo seu corpo. Em pé a sua frente, porém menos ferido, encontrava-se o Espada designado para enfrenta-lo.
– Kurosaki Ichigo. Você não tem chance alguma de me derrotar.
– Isso pode ser verdade. Mas eu preciso derrota-lo, e é isso que me motiva a continuar tentando.
Em um apelo a força que lhe restava, o ceifeiro de almas impulsiona-se para atacar o Cuarto Espada a sua frente, que facilmente desvia-se, lhe proferindo logo em seguida um golpe com as pernas, capaz de desabar o seu adversário no chão. Este vem a perder a consciência, causado não pelo tombo em si, mas pela exaustão física que encontrava-se. O moreno apenas o observava, tendo em vista que sabia que a luta havia chegado ao fim.
– Não irei mata-lo agora, Kurosaki Ichigo. Da forma que se encontra não irá muito longe. Mas talvez isso já seja o suficiente para eu redimir um favor que devo aquela pessoa. – Afastava-se do local da luta, com sua característica particularidade em pôr as mãos nos bolsos de sua calça, dando por cumprida a ordem que recebera de seu superior.
Ulquiorra caminhava em direção ao seu cômodo, pretendendo trocar suas vestes que agora encontravam-se rasgadas numa concreta lembrança da luta que tivera. Porém, no caminho, cruza-se com Noitora, que vinha da direção oposta, sem nada dizer. O Arrancar de número 4 apenas o observa pelo canto dos olhos no momento em que se cruzaram, sem diminuir o seu ritmo. Noitora continuou os seus passos, sumindo pelo corredor por trás de Ulquiorra.
Após esse curto momento de proximidade, uma certeza percorreu o corpo do Espada. Talvez assemelhasse-se mais com uma intuição que sentira, incomodando-o insistentemente ao longo do caminho. Ele pretendia primeiro trocar-se para, depois, encontrar-se com a humana a qual estava sob sua responsabilidade. Sabia que não a acompanhou em sua última refeição, como sempre fizera, por esse motivo precisava se fazer presente na próxima. Mas uma força maior regeu o seu percurso, o fazendo direcioná-lo à cela da prisioneira. Dessa vez, ele a encontrará antes do pretendido.
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