O coração que os olhos não veem
8 Insanidade
Notas iniciais
Naquela noite a lua exalava um brilho diferente. Talvez aquela iluminação intensa provinda do astro fosse impossível de ser passada despercebida, principalmente pela garota a qual já criara um laço particular com o mesmo. Porém, dessa vez, a ruiva não mais a fitava em sua costumeira posição, em pé a frente da janela. Satisfazia-se, àquele momento, em unicamente admirar a intensa luz refletida no chão a sua frente, que parecia trazer consigo uma carga infinita de pretensões, vontades ou desejos, igualmente compartilhados pela garota. Aquele brilho peculiar, intenso porém não vívido, surgiu em um momento o qual sincronizava-se com os sentimentos de Orihime. Sentimentos fortes que a atordoavam, impossíveis de serem ignorados.
Ela temia severamente que qualquer mal ocorresse a Kurosaki Ichigo. Apesar de tudo, ele era seu amigo, assim como os outros que, junto com ele, vieram ao Hueco Mundo resgatá-la. Contudo, a ruiva também não podia negar essa inconformidade crescente dentro dela em aceitar que qualquer coisa acontecesse ao quarto Espada. Não compreendia isso, deveria torcer para seu amigo, aquele que constantemente esteve presente em sua vida, o qual conhecia-o tão bem e que sempre a deixava feliz ao seu lado. Porém, ironicamente, ela também torcia para o responsável por trazê-la ao Hueco Mundo, responsável por aprisiona-la e por trata-la sempre tão friamente. Esse pensamento constante no Espada não era mais surpresa para a garota, que já havia cedido a essa incompreensão em sua mente chamada de Ulquiorra Schiffer.
Ela continuaria a viajar em seus pensamentos, naquele silêncio que dominava seu aposento, se o barulho da porta não o tivesse quebrado. Ela se abre.
A surpresa sentida pela ruiva foi imediata. A mesma rapidamente direcionou sua visão para a lápide que se abrira, carregando em seu rosto uma feição assustada e tensa, compreensível pelo que a pouco acabara de passar. E, inexplicavelmente, aquele ser que apareceu em sua frente exalava uma luz ainda mais intensa que há instantes atrás ela observava da lua. Luz essa que não podia ser vista pelos olhos, talvez apenas pela alma. Ao vislumbrar aquele rosto tão familiar para a garota, foi inevitável um choque de felicidade queimar em seu corpo, misturado com certo alívio e segurança transmitidos. Um sorriso singelo brotou no rosto de Inoue; talvez o primeiro que ela externava com tamanha felicidade desde que chegou àquele lugar.
Era ele. Ele está vivo.
O quarto Espada parou os seus passos ao se chocar com a humana a sua frente. Observando-a, ainda sem crer no que via, foi indominável a corrente de rancor que surgiu, percorrendo todo o corpo do Arrancar, em uma intensidade nunca antes sentida. Como um raio que surge violentamente, abrangendo uma inexorável carga elétrica expelida em seus poucos segundos de aparição, Ulquiorra sentiu-se dominar por essa sensação de ira e incredulidade pela condição física da mulher a sua frente. O aposento possuía marcas de sangue em diversos pontos, numa concreta demonstração da atrocidade ocorrida. Apoiada na parede, encontrava-se ela, banhada naquele vigoroso rastro vermelho que marcava suas vestes. Admiravelmente, apesar de sua condição física, ela estava sorrindo para o Espada ao vê-lo entrar. Um sorriso que o intrigou fortemente, não apenas pelo fato da garota estar sorrindo naquelas condições físicas, mas pelo sorriso transmitido demonstrar ser tão puro e verdadeiro quanto o vento que choca-se contra as folhas das árvores. Por que ela sorria? Por que seu sorriso surgiu no momento que ela o viu entrar? Isso só aumentou sua incompreensão com os humanos.
– O que significa isso, mulher? – Sua fala foi seca, porém carregava consigo uma tonalidade diferente da normal. Apesar de, no fundo, querer entender o motivo do sorriso da garota, sua pergunta foi direcionada ao estado físico da mesma.
– Você está vivo. – Sua voz foi carregada de felicidade. Talvez a água que alagava os seus olhos só reforçasse essa alegria.
O prazer emitido pela garota divergia-se da condição em que se encontrava. A vontade em seu interior era de abraça-lo; de senti-lo junto a si, provando a si mesma que ele realmente estava ali, vivo, na sua frente. Porém, aquela forte pressão espiritual emanada pelo Arrancar foi capaz de frustrar qualquer desejo seu. Pressão esta que, apesar de intensa, começou a perder as forças após ele ouvir as palavras da mulher. Afinal, por que ela estava chorando? Será que encontrava-se tão perturbada a esse ponto com a possibilidade do Arrancar perder para o Shinigami? Por que ela se permitiria passar por isso? Uma mera humana preocupada com a vida de um Hollow, enquanto o mesmo lutara contra um dos seus? Aquilo era totalmente incompreensível para o Espada. Ele permaneceu calado por um instante devido o inesperado que ouviu. Por fim, aproximou-se dela, ficando em pé a sua frente.
– Levante-se.
A ruiva pondera por um tempo ainda. Nunca antes o tinha visto exalar uma reiatsu tão carregada o que, honestamente, a espantou. Mas ela vem, por fim, sujeitar-se a ordem recebida. Erguendo-se com certa dificuldade, fica em pé frente a frente com o portador daqueles persuasivos olhos verdes. Era impressionante como aquele olhar se fazia tão intimidador. Não em um sentido ruim, pelo contrário, ele conseguia desconcertar todos os pensamentos da ruiva, fazendo-a esquecer tudo o que passava em sua cabeça, focando-se unicamente naquelas duas pérolas esverdeadas que agora insistiam em fitá-la de forma tão próxima. Realmente aqueles olhos a observavam com uma proximidade nunca antes vista, o que a fez admirar a inegável beleza do indivíduo a sua frente de forma ainda mais translúcida. A leve curvatura em seus lábios, seu maxilar sempre tão rígido, os fios negros caindo sobre o alvo rosto, contrastando com aquele verde gritante em seu olhar. A garota não fazia ideia que estava a observar Ulquiorra tão concentradamente até, finalmente, tomar conhecimento ao sentir a respiração do moreno em sua pele, o que a fez corar-se instantaneamente e desviar rapidamente o olhar do dele, enquanto pressionava seu corpo contra a parede atrás de si. Nunca esteve tão próxima dele, e aquela pouca distância estava deixando uma mistura de constrangimento e nervosismo percorrer em seu corpo.
– Responda-me, quem fez isso com você? — Sua incompreensão com a felicidade da mulher ainda o incomodava, porém o ódio ao vê-la naquele estado parecia ser maior. Ulquiorra continuava a observando, como se cobiçasse a resposta que ela desse.
Inoue desceu sua visão, olhando o chão ao seu lado sem nada dizer. Seu olhar levava consigo uma única certeza: a de que não revelaria quem foi o causador de todo o seu sofrimento. Ela sabia que Ulquiorra não o perdoaria, e temia duramente que o quarto Espada viesse a exigir alguma explicação do culpado, já sabendo que não permaneceriam no campo da conversa. A dor em pensar, por um curto momento, que Ulquiorra pudesse vim a morrer já havia a atingido duramente, e ela não queria viver esse mesmo medo novamente com o Espada que a causou isso. Não mais. Porém seu silencio não agradou ao Arrancar, que ainda esperava sua resposta. Ela sabia que a ausência de pronunciamento não seria vista com bons olhos pelo outro, estava pressentindo uma atitude violenta do mesmo, para obriga-la a responder o que queria. Ele não aceitaria aquela quietude, e ela sabia disso. O tempo se passava, e ela permanecia calada. Apertava forte seus punhos lateralmente contra a coxa, já prevendo a atitude do Arrancar em seu objetivo. Porém, o que ela sentiu em sua pele a surpreendeu mais do que qualquer outra coisa.
Ulquiorra havia levantado sua mão em direção ao rosto da garota, porém não o feriu. Ele passava seu dedo sobre a pálpebra esquerda dela, estagnando o sangue que escorria sobre seu olho da ferida aberta em sua testa. Instantaneamente, Orihime passa a olhá-lo surpresa pelo ato recebido. Talvez aquele ato tenha sido o mais próximo de um carinho que recebeu. Seria isso mesmo? Não, com certeza ele faria algo depois. Talvez apenas quisesse desviar a atenção da garota para seu verdadeiro golpe. Ele ainda a machucaria por seu atrevimento. Mas o tempo se passou, e nenhuma ação fora tomada contra ela.
Conformando-se com a negativa da resposta pela humana, o indivíduo de olhos verdes dá as costas para ela, voltando a dirigir-se para a porta. Era possível notar em sua feição que ele não suportava mais vê-la naquele estado deprimente.
– Mulher, cure-se dessas feridas. – Fala, por fim, antes da porta fechar-se perante ela.
...
Caminhando no corredor que dava acesso à cela da prisioneira, Halibel cruza-se com o Espada que acabara de retirar-se do local. A mesma estava prestes a perguntar-lhe sobre sua luta contra Kurosaki Ichigo, quando sente aquela reiatsu exalando em altíssimo nível. Estava claro que o Espada não queria conversar naquele momento. A loira, então, optou por deixa-lo ir, sem nada dizer. Mas sabia que nunca o vira daquela forma antes, o que a intrigava bastante pelo motivo que o levou a tal estado. Era evidente que a nova prisioneira possuía ligação direta com isso.
...
– Estou vendo que já viu seu presente. – Dizia despreocupadamente o Hollow que carregava consigo lateralmente ao rosto um protótipo dentário. Ele mantinha-se a certa distância do outro Espada, uma vez que a reiatsu alheia podia ser sentida de longe. Sabia ele que não seria muito sensato aproximar-se mais que o devido naquelas atuais condições.
– Grimmjow, do que você sabe? – Indagava o Arrancar, com um tom que não revelava muita paciência.
– Não gosto de me intrometer em assuntos que são alheios a mim.
– Como se isso lhe impedisse.
O azulado não conseguiu segurar o riso exuberante que seguiu aquela fala. Surpreendentemente, Ulquiorra o conhecia melhor do que qualquer outro. Nem tudo o que sai da boca de um Espada pode ser interpretado como verdadeiro e, principalmente, se tratando de conflito com outro Espada. Grimmjow instigava sua curiosidade em saber como isso acabaria, o que o deixava ainda mais ansioso. Naquele momento, ele passou a notar que o objetivo de Noitora estava se concretizando, uma vez que seu primeiro passo surtiu o efeito já esperado. Seria questão de tempo até conseguir realizar o aguardado confronto contra o quarto Espada.
– Realmente, realmente. Toda essa ira causada em você por causa daquela humana, não esperava que Ulquiorra Schiffer fosse ser atingindo tão profundamente com aquilo. – Sua fala talvez levasse consigo alguma informação implícita ao Hollow, mas ciente de que não seria notada pelo outro uma vez que, naquele estado, encontrava-se bloqueado a interpretá-la.
– Aquela mulher é de minha responsabilidade. Qualquer ocorrido com ela será de mim que Aizen-sama exigirá explicações.
– Tsc. – O Espada de olhos azuis só faz virar-se ao moreno, apoiando suas mãos nos bolsos da calça de forma mais despojada que o outro. Dá início os seus passos em direção a sala de reunião, pois Aizen o havia convocado em particular para fazer-se presente – O cuidado com aquela humana precisa ser melhor revisto por você, Ulquiorra. Não deixe que Noitora ponha suas mãos novamente nela.
Finalmente. E tudo o que o moreno queria saber finalmente foi alcançado. A pressão espiritual por ele exalada parecia ganhar mais força. O ódio que percorreu seu corpo o dominou por completo. Como Noitora atreveu-se a desobedecer as ordens de Aizen? Imperdoável. O quarto Espada fecha seus olhos e continua seu percurso. Não precisava falar nada para que Grimmjow soubesse o seu próximo destino.
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