Notas iniciais
A lua tem sempre esse brilho intrínseco o qual é capaz de caracterizá-la e, ao mesmo tempo, individualizá-la de tudo. Mesmo sozinha no vasto e incansável céu do Hueco Mundo, ela permanece a reluzir sua luminosidade própria. Aquela luz atraiu automaticamente os olhos da jovem, a qual recentemente foi aprisionada na fortaleza que preenchia o infinito deserto local. Inoue Orihime ainda era um ser estranho e novo naquele mundo. A garota, que por vontade própria concordou em ser levada para lá, sabia que para isso teria que despedir-se de tudo e de todos com os quais diariamente convivia. Apesar dessa decisão não ser fácil para ninguém, desde o início ela tinha certeza do caminho que escolheu trilhar, não arrependendo-se da escolha feita. Sabia que sua opção traria paz aos amigos que tanto zelava. E, com essa certeza que ela insistia em carregar consigo, sua determinação e força em permanecer ali e ser submetida a todo tipo de tratamento, só aumentava dentro dela.
Orihime costumava ser uma garota altamente carinhosa, divertida e preocupada com seus amigos. Desejava sempre vê-los felizes e, de algum modo, os contagiava com o seu sorriso toda manhã. Sentia-se feliz ao lado deles e talvez, graças a isso, tenha se tornado mais fácil superar a perda de seu irmão mais velho. Contudo, as coisas mudaram. Sua antiga vida, agora, não passava de meras lembranças boas as quais se agarrava para obter forças em permanecer naquele lugar. O sorriso da garota deixava de se fazer presente como antes o era. A fonte de sua felicidade parecia ter chegado ao fim.
Ordenaram-na a permanecer em sua cela enquanto o ex Shinigami e traidor da Soul Society, Aizen Sousuke, não fizesse uso de seu poder. O aposento englobava um sofá, o qual parecia ser maior dos que ela estava acostumada a ver, e um extenso tapete vermelho com dourado estendido na maior parte do chão. Porém, o que mais chamou a atenção da garota foi naquela alta e peculiar janela localizada no centro do local. Ela posicionava-se perfeitamente de frente a lua, permitindo visualizá-la com clareza, o que atraiu de imediato os olhos da prisioneira, apegando-se aquela visão. A única que possuiria do mundo externo.
O tempo parecia não passar naquele lugar. O silêncio, sempre dominante, repentinamente se quebra com barulho da porta abrindo-se por trás dela. Automaticamente a jovem gira-se para olhar quem seria. É então que ela vislumbra um ser com vestimentas brancas e listras pretas por todo o corpo, escondendo seu rosto sob uma espécie de crânio com chifres: um Arrancar. Ele apenas fez entrar, transportando consigo um apoio metálico o qual encontrava-se pendurado uma vestimenta feminina. O servo posiciona-o próximo da garota e, por fim, retira-se do cômodo.
Realmente, não se fazia necessária nenhuma palavra para ela saber que, agora, precisava caracterizar-se como era devido. Vislumbrando aquela vestimenta, só a fazia ter mais certeza de que estava tornando-se um deles. Orihime sentiu uma pontada de desespero em seu corpo, mas insistiu em repetir consigo que sua escolha havia sido a certa. A certa por livrar seus amigos de lutas que os pusessem em risco. A certa por permitir que os momentos felizes vividos por eles não extinguissem-se . A certa por não fazê-los privarem-se de suas fontes de alegria. Sabia que precisava cumprir ordens naquele lugar, não restando saídas se não revestir-se com o traje característico de um Espada.
Após estar usando as vestes brancas que lhe fora dada, a jovem lembrava-se dos amigos os quais sabia que nunca mais os veria: Yasutora Sado, Uryuu Ishida, Tatsuki Arisawa, Rukia Kuchuki, Kurosaki Ichigo. Kurosaki Ichigo; aquele que por muito tempo esteve presente em seu coração. Por mais que soubesse que precisava esquecê-lo, isso ainda se fazia muito difícil para a garota.
– Pelo menos o Kurosaki-kun tem a Kuchiki-san ao seu lado para lhe dar apoio. – Pensava consigo. Kuchiki Rukia, a menina que Orihime nutria um carinho imenso mas, ao mesmo tempo, certa inveja da mesma. Rukia sempre foi o que Orihime sonha em ser: bonita, forte, gentil, e a pessoa a qual Ichigo direcionava aquele olhar. Olhar este que passava despercebido para qualquer um, mas que era notado apenas pela garota, e com bastante clareza. Lembrar disso a fez sentir uma dor forte em seu peito. Saber que nunca mais o veria, saber que seu amado já desejava outra, saber que permaneceria sozinha naquele lugar de agora em diante. Ela apertou forte a roupa que revestia seu colo, suprimindo toda a angústia que pulsava dentro dela. Adentrada em seus pensamentos, a porta se abrindo por trás dela passou facilmente despercebida.
– Surpreendentemente, ficou bom em você.
E, instantaneamente, a ruiva salta com o susto recebido, voltando-se a realidade. Ao se virar, ela encontrava o responsável por trazê-la àquele lugar e forçá-la a despedir-se de sua antiga vida: Ulquiorra Schiffer.
– Q-Quando você chegou aqui?! – Respondeu a garota como reflexo. O Arrancar, sem hesitação, notifica-a que seus amigos vieram ao Hueco Mundo para salvá-la. Ao ouvir isso, prontamente, uma singela luz de esperança acende em seu coração. Todos aqueles que ela tanto preza não conformaram-se com a decisão por ela escolhida. Eles queriam resgatá-la mesmo que, para isso, arrisquem suas vidas. Porém, ao mesmo tempo, foi impossível a garota não temer por eles. Os Espadas são seres realmente fortes, seus companheiros enfrentam um risco gigantesco vindo até esse lugar. A felicidade chocava-se com o medo. Um turbilhão de suposições invadia sua mente, quando a garota vem a notar, pela primeira vez, algo por ela sempre antes ignorado.
Por que aquele Espada possuía um rosto tão triste? Nunca o vira expressar qualquer feição diferente daquela. Estaria ele sofrendo? Ela não compreendia. Na primeira vez que o viu, o seu parceiro, Yammy, era totalmente o oposto dele. Seria então Ulquiorra o único a possuir uma expressão tão aflitiva e solitária? Afinal, o que ele está sentindo? Por um instante, esses pensamentos invadiram a mente da humana. Talvez por ser a primeira vez que estava na presença dele sem gerar qualquer situação de risco iminente a sua vida, passou a observá-lo com mais calma. Uma vez que ele agora era o responsável por ela, reparar pequenos sinais antes não notados tornava-se mais fácil.
– O fato de seus amigos estarem aqui para te salvar não deve significar nada para você. Nós já possuímos seu corpo e alma. Essa roupa que você está vestindo confirma esse fato, Inoue Orihime.
Sabia ela que seria inútil qualquer discordância. Precisava aceitar tudo que lhe fosse imposto, estava em uma posição de subordinação naquele lugar. E foi isso que a mesma fez, consentindo com tudo o que lhe fora dito pelo Hollow de olhos verdes.
Aquele olhar sempre a despertava a curiosidade. Como era capaz de alguém possuir olhos tão tristes? E este questionamento esteve presente em sua cabeça a noite toda. Mal sabia que aquele olhar possuiria tamanha força sobre ela.
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