O convite
3 O jantar
O jantar
:- Júliaaaa!!!! – ele ficou muito feliz com a presença dela e logo deu um salto para abraçá-la.
:- Oi, Joaquim!!! – Ela abriu um sorriso grande mesmo que ele não pudesse ver, só por ter tido essa recepção já tinha valido a pena ter chegado mais cedo.
Ela entrou na casa com ele no colo ainda num abraço apertado, deu um empurro fraco na porta para que ela apenas fechasse. E foi caminhando como pode em direção a cozinha.
:- Mamãe, olha quem está aqui! – Joaquim pediu empolgado.
:- Júlia, querida, chegou cedo! – Lígia veio cumprimenta-la. – Não sabia que já tinha voltado de viagem, achei até que não viria hoje.
Joaquim fez menção de descer do colo de Júlia e assim que tocou seus pés no chão correndo foi para a sala continuar a ver os seus desenhos animados japoneses.
:- Pois é, meu trabalho acabou e eu cheguei ontem a noite!
:- Foi naquela cidade do interior de São Paulo? – Lígia verificou o molho que estava fervendo.
:- Sim, na mesma região que eu fui ano passado. Quando cheguei apareceram propostas de outros trabalhos. E fiquei analisando, achei melhor chegar um pouco antes. Ah olha eu trouxe vinho! – ela levantou a sacola com o vinho dentro.
:- Que delícia. Eu adoro esse. – Lígia pegou a sacola e viu a garrafa da safra do vinho — Todos já sabem que voltou de viagem?
:- Não, eu só comentei com Elisa na realidade, acho que pode ser uma surpresa talvez minha presença aqui hoje. – Ela deu um sorriso ao imaginar — Lígia precisa de alguma ajuda?
:- Na verdade eu só vou te pedir uma tarefa e nada mais, colocar a mesa não vai demorar para a chegada de todo mundo e já fica tudo bem encaminhado.
:- Claro, eu só preciso ir primeiro no banheiro.
:- Fica a vontade, sabe que a casa é sua. Aproveita e guarda sua bolsa em um dos quartos, acho que o meu é melhor, o do Joaquim sempre tento organizar, mas sempre tem um ou outro brinquedo espalhado, você decide. – Lígia voltou a olhar o seu livro de receita concentrada e deixando Júlia que escolhesse.
Ela foi andando até o corredor onde ficavam os quartos e também o banheiro. Pensou onde poderia colocar sua bolsa, a melhor opção seria no quarto do casal Lígia e Miguel mesmo, e caminhando para lá ela se deteve em frente a porta. Não estava fechada, na realidade estava entreaberta o que bloqueava Júlia eram as vozes masculinas que saindo baixas do quarto.
:- No puedo más. – Ela escutou claramente a voz e o sotaque de Felipe, triste e em seu segundo idioma. Se aproximou mais com cuidado para que não fizesse qualquer ruído que mostrasse da sua presença ali.
Pela fresta deu para ver que em pé estava Felipe e justamente naquele momento ele passou os dedos no rosto, e devido ao seu tom de voz dava para ver que ele chorava e tinha uma expressão aflita.
Miguel que até então ela não tinha conseguido ver, apareceu e deu um abraço em Felipe ainda dava para ver seu rosto e isso mexeu com Júlia de uma maneira que não poderia explicar, sua curiosidade estava quase explodindo dentro de si.
:- Filho não queria que as coisas chegassem a esse ponto! Não queria te ver assim especialmente nesse estado.
:- Esta decidido, pai. E obrigada por me ajudar durante esse último ano que passou. Por ser discreto e não dizer aos outros o que me passou. – eles ainda estavam abraçados, só que agora se olhavam de frente.
:- Apesar de não concordar com suas decisões, eu infelizmente te entendo. E tudo que posso lhe dizer é que sempre vou estar aqui por você e também por todos. Eu só peço por agora que escute e pense sobre os meus conselhos, sou um velho marinheiro que sabe de algumas coisas.
O comentário de Miguel fez com que Felipe esboçasse um sorriso, se abraçaram novamente e Júlia percebeu que era sua hora de sair dali antes que fosse descoberta. Com passos calmos foi se afastando e caminhando para o banheiro. Assim que fechou a porta escutou os passos pelo corredor primeiro nítidos até ficarem longe e desaparecessem. Eles tinham descido.
Só então Júlia se permitiu olhar no espelho, então soltou um suspiro longo, parece que não estava respirando direito com medo que fosse flagrada.
Pelo pouco que escutou da conversa percebeu que algo estava de ruim acontecendo com Felipe e isso a deixou preocupada, não só isso, queria ajudar. Abriu a torneira para lavar as mãos e fez isso num estado automático tudo o que pensava era em Felipe, porque ele chorava? O que estava lhe afetando? Ele estava diferente da última vez que tinha visto há duas semanas. Tinha olheiras, estava mais magro e tinha barba por fazer. Involuntariamente se lembrou de como conheceu ele, num leito de hospital e sentiu um arrepio de medo percorrer pelo corpo.
Não, isso Miguel e menos ainda Felipe esconderia da família, não seria possível. Secou suas mãos e olhou seu reflexo novamente, arrumou o lenço que tinha na cabeça, saiu do banheiro e deixou sua bolsa num dos quartos. Desceu decidida a se aproximar de Felipe para saber o que ele estava escondendo.
:- Não, por favor, Felipe não faça essa desfeita. Há quanto tempo não jantamos juntos? Não vai.- Lígia disse e todos estavam na sala bem próximos num semi círculo. Até mesmo Joaquim que agora estava no colo de Miguel estava integrado na conversa.
:- Lígia, eu fico muito agradecido pelo convite, mas...
:- Não vai, Felipe. Vai ter macarrão hoje. – Joaquim o interrompeu sem se preocupar em se conter. – E não terminamos de jogar vídeo game. – Disse mostrando que estava chateado com a partida do irmão.
O seu comentário inocente os fizeram soltarem risos.
:- Isso Joaquim, convence o seu irmão ficar. – Lígia incentivou o filho.
Felipe ficou balançado ele não queria ficar e ter que encarar todos e sem graça por ter que ir, não sabia como dizer e mesmo fazer isso. Foi nesse momento no qual viu que ela estava ainda na escada atenta a conversa, os dois trocaram breve olhares, isso porque Júlia terminou de descer os degraus e foi até onde todos estavam.
:- Fica Felipe! – Ela pediu olhando em seus olhos, vendo que ele não fugia de seu olhar como no encontro no hospital dias atrás.
A campainha tocou naquele momento.
:- Eles devem ter chegado, agora não tem escapatória, vai ficar pelo menos um pouco e depois de comer você pode ir embora. – Lígia decidiu por ele e foi até a mesa.
Miguel foi com Joaquim até a porta para recepcionar os outros irmãos que tinham chegado. Júlia ainda olhava Felipe, fazia tanto tempo que não ficavam assim, por fim ela lhe lançou um curto sorriso fechado e foi até a mesa ajudar Lígia.
:- Por fim chegamos. – Laila falou contente com Joaquim. – Olá, Olá boa noite. – O sorriso que tinha nos lábios foi saindo aos poucos por encarar com surpresa a presença de Felipe ali.
:- Boa Noite! Júlia e eu estamos terminando de arrumar a mesa, mas podem chegar para o jantar devem estar morrendo de fome. – Lígia comentou despreocupada.
Tinham chegado juntos, Laila, Bernardo, Elisa e Pedro. A maioria dos cumprimentos foram feitos verbalmente. Com algumas exceções de Pedro e Júlia, ele fez questão de abraça-la na frente de todos e mesmo com ela desconfortável retribuiu.
:- Nem te vi hoje. – ele comentou. Pedro ainda não tinha saído do apartamento de Júlia, afinal tinha que encontrar outro lugar para morar já que Vicente estava morando com Luisa em Londres.
:- Eu tive que resolver algumas questões, futuros trabalhos. – ela deu os ombros sorrindo ainda desconfortável, não admitiria que fez de propósito para evitar a presença dele porque precisava pensar um pouco mais, sair.
:- Eu não acredito que você voltou e não me avisou. – Laila interrompeu o momento entre o ex casal sem sequer notar o clima e veio abraçar Júlia. – Pois é, foi um pouco corrido e você estava trabalhando também, quis fazer essa surpresa. – Júlia respondeu sorrindo.
:- Cadê o Luís? Os meus netos? Esther? – Miguel perguntou e enquanto se sentava em seu lugar na mesa.
:- Ah bom mamãe vive agora grudada com o namorado, eles foram ao cinema juntos parece que é a estreia de uma comédia romântica brasileira que eles queriam muito ver. E Luís foi jantar com os meninos na casa de Ana. — Explicou Laila a ausência de todos os que ela sabia as razões por não estarem presentes.
Já estavam todos acomodados na mesa, menos Lígia e Felipe que colocaram os pratos com as massas e molhos que ela havia feito para o jantar.
:- Felipe, traz o vinho que eu acabei me esquecendo. Foi a Júlia que trouxe para gente saborear! – Lígia tinha um tom alegre, sempre gostou quando havia aqueles jantares familiares.
E ele foi buscar a garrafa e ao ver a marca da safra ficou imediatamente surpreso, Júlia olhava a cena de longe com um sorriso escondido nos lábios enquanto já começavam a se servir, foi uma coincidência era o que pensava, aquele era o vinho favorito dos dois quando namoravam. Ela sentiu que sobre tudo ele evitou ao máximo olhar para ela. Só que agora ficava quase impossível uma troca rápida de olhares, por parte de ambos havia reconhecimento no olhar.
Felipe voltou a mesa e o jantar começou com todos conversando o grande tema que foi o sucesso de vendas do livro de Lígia e que a editora queria uma continuação.
:- Não vou negar que estou pensando seriamente nessa possibilidade, gosto tanto desse livro. – disse Lígia, olhando para Miguel que concordava com a cabeça.
:- Eu super apoio essa ideia de continuação, sabe? É um tema tão profundo que tem tantas vertentes, né? – Elisa comentou incentivando a jornalista.
:- Eu também acho. Ou pode ser um outro tema também, algo na mesma temática social. – Bernardo deu um dos ombros por que ainda tinha um dos braços engessados.
:- Claro que você concorda, estamos falando de uma opinião da Elisa, né. – implicou Pedro fazendo com que soltassem risos e deixando os os sem graça.
:- E aproveitando o gancho do Pedro, vocês são um casal? – Desconfiada Laila se voltou para o irmão e a amiga.
Bernardo ficou tão surpreso com a pergunta que até engasgou e acabou recebendo tapas nas costas de Laila que ria da situação enquanto esperava uma resposta concreta.
:- Não entendi essa pergunta! – O garoto conseguiu dizer ainda vermelho tanto pela vergonha quanto por ter engasgado.
:- Mamãe o Bernardo está namorando! – Joaquim zombou da onde estava com seu copo colorido de alguma personagem infantil na mão.
:- Se ele está eu não sei, só que esta mudando de cor, esta! – Miguel comentou e tinha bom humor no olhar.
:- E aí vocês não vão responder a pergunta, eu estou curiosa? – Júlia deixou de comer para encarar tanto Bernardo como Elisa, que se mantinha calada, já o garoto a fuzilou com o olhar.
:- Ah verdade é que esta muito cedo para definir qualquer coisa! – Elisa disse e depois encarou Bernardo, que a olhava assustado. – Eu acabei de sair de um relacionamento, preciso de tempo para lidar com o momento e tudo mais.
:- Ah que isso Elisa! – Laila a encarou. – Poxa admiti que sente uma queda pelo garotão aqui.
:- Já que ele não precisa nem falar, já que está com os quatro pneus arriados por ela. – Pedro implicou mais uma vez comparando Bernardo com um carro.
:- Pedro! Qual é cara! – Bernardo repreendeu.
:- Eu sinto uma queda por ele sim. – Elisa chamou toda a atenção da mesa para si, até mesmo Felipe que se mantinha calado e apenas observava. E os outros começaram zombar porque Bernardo encarou Elisa mais assustado que da outra vez, ela nunca tinha admitido algo assim para ele. Elisa tinha um sorriso sapeca e voltou a falar dessa vez olhando para ele. – E também nunca mais me chamaram para sair para algum encontro desde que eu terminei. – ela deu os ombros.
:- Passou da hora de convidar filho. – Miguel sorriu para Bernardo.
:- Eu teria convidado antes, só achei que não era o momento ideal agora. – Se justificou, mas era inevitável disfarçar a felicidade que brotava dentro de si.
:- Pronto. Conseguimos juntar mais um casal. Yes! – Laila sorriu para os dois e depois se voltou para o outro lado da mesa e com aquela imagem em sua frente, foi mais forte que ela. Era como se sua língua não estivesse ligada na mesma tomada que seu cérebro. – Assim como já temos o outro casal da família! – Disse olhando de Pedro para Júlia e por fim Felipe.
O efeito na mesa do jantar foi imediato todos que estavam sorrindo, mudaram de expressão alegre para preocupação, mas como no caso de Pedro, Júlia e especialmente Felipe foi de constrangimento total.
Miguel apenas olhou para Laila com expressão séria, algo lhe dizia que ela não pararia até ir ao final. E o alvo da vez era Felipe.
:- O que foi? – Ela deu os ombros. – Falei alguma mentira?
:- Não, Laila. Mas é a forma como se fala ou melhor a falta de cuidado. Não usar nenhum tipo de filtro, talvez. – Miguel disse olhando para a filha querendo evitar que o jantar fosse estragado.
:- Miguel, qual foi? Não vai me vir com sermão essa hora, não falei nada demais. Acredite, na verdade olha só essa ironia? – ela mostrou com as mãos para o seu lado oposto da mesa. – Os três estão sentados lado a lado. Isso que eu chamo de maturidade, estou elogiando.
O lado que Laila se referia era o qual estavam sentados na ponta e de frente para ela Pedro ao seu lado e no meio Júlia e do seu outro lado estava Felipe na outra ponta e do lado do pai. Muitos ali perceberam o incomodo de Felipe, ele estava tenso, não conversava como os outros.
E agora encarava Laila e percebia que ela tinha clara intenção de provocá-lo. E sobre isso não conseguiria ficar calado.
:- Eu acho engraçado que um elogio teu, Laila parece uma flecha sendo atirada por um arqueiro. – Foi a primeira frase dita por ele naquele jantar.
:- Nossa, Felipe, esta vivo! Achei que tivesse perdido a fala pelo jantar inteiro. Mas, pelo o que vejo não, é um privilégio você se dar conta que eu existo e me dirigir a palavra. – Ela deu um sorriso irônico no final.
:- Por favor! Por favor! Não vamos começar qualquer desentendimento. – Miguel passou a mão pelo rosto e olhou para o lado e viu Lígia que tinha no olhar que ela estava perdida. Como o clima entre família pode mudar tão repentinamente.
:- Ainda que não pareça, você não deixa sua presença passar desapercebida Laila. – Felipe ignorou o pedido do pai.
:- Eu devo encarar isso como um elogio também? Ou melhor, como uma sutil flecha da verdade! Sabe Felipe, você achou meu comentário anterior engraçado, mas está errado engraçado é ver como você está agindo não sei, feito um nômade que não tem família. Família esta que demorou para se reunir e que agora você ignora.
:- Você não sabe do que esta falando.
:- Não?! Meu querido eu trabalho com fatos! O fato é que você sumiu há quase um ano sem dar notícias, nada! Ao menos para mim. Aparece do nada para ser fazer o ato heroico e continua agindo estranhamente, porque não aproveita e fala o que aconteceu já que eu não sei do que estou falando? – Laila colocou Felipe contra parede.
E houve um momento de silêncio, até mesmo Joaquim que estava alheio a discussão que se iniciava na mesa estava quieto, Bernardo e Elisa ficaram calados e se encararam por um momento sem saber o que fazer, assim como Lígia. Miguel queria interferir mais uma vez, não queria que as coisas chegassem naquele ponto. Mas, sabia que talvez de um jeito torto aquilo fosse necessário.
Do outro lado da mesa Júlia, sentia um inicio de raiva por Laila começar com aquilo, não sabia como agir afinal ela tinha sido exposta e não queria que a família soubesse daquela forma que nem um relacionamento com Pedro ela tinha mais, olhou para o lado para ver Felipe. Pedro estava quieto porque também estava curioso para saber o que havia acontecido com Felipe já tinha deixado o seu prato de lado.
Felipe soltou um suspiro pesado antes de levantar a cabeça que mantinha abaixada e encarar Laila com raiva por ela lhe tirar da sua zona de proteção, teu silêncio.
:- Mira... a grande verdade é que eu fui último dos irmão a ser descoberto. Quando cheguei a família foi quase como chegar de paraquedas, vocês já tinham vivido tanto, eu havia perdido tantas coisas. Já existia uma ligação entre vocês entende? Eu tive que correr atrás. E quando surgiu a oportunidade de viajar para fazer o meu trabalho, eu não hesitei. Porque é o que eu amo e porque eu precisava me afastar. – ele engoliu saliva e apesar de olhar Laila e sentia o olhar de Júlia sobre ele. – Porque por mais forte que eu fosse, não conseguiria conviver entre família sendo que não havia deixado de amar a Júlia.
Neste momento até Pedro encarou Felipe, tinha um olhar de acusação, sabia que no fundo o irmão não havia deixado de amar a Júlia.
:- Eu fiz naquele momento o que me parecia o certo, me afastei. Para que vocês tivessem uma convivência saudável, e como eu poderia manter um relacionamento a distância? Não é o mesmo. E apesar sua acusação Laila, em qual momento você veio entrar em contato comigo?
:- Nós nunca fomos tão próximos assim, de sair de mãos dadas e abraços e carinhos. – Laila disse.
:- De fato, você tem razão então não me acuse dessa maneira, por favor. Porque eu tentei me aproximar, tentei dar um primeiro passo para mudar minha relação com Pedro.
Agora os outros encararam Pedro.
:- Não deu certo, já que nessa primeira tentativa, brigamos. – Pedro disse se lembrando desse momento. Ambos não conseguiram conversar já que os dois ainda tinham mágoa no peito um do outro. – Não tinha como nos reconciliar sendo que um ainda tinha receio e mágoa do outro.
:- E porque eu não fiquei sabendo dessa história? – Júlia perguntou para os dois chateada. – Afinal de contas eu precisava saber disso e nenhum dos dois me contaram nada.
:- Júlia você saber disso ou não, não mudaria os fatos. Naquele momento não era possível uma aproximação. E foi aí que decidi me afastar, mesmo assim não fiquei totalmente fechado a vocês, sempre mantive contato com Miguel. E com o tempo com Bernardo. – Felipe disse.
:- Ele tem razão, Felipe me ajudou esses últimos tempos quando ninguém parecia me querer ouvir, ele foi o primeiro a conversar comigo, sempre nos falamos desde então. Eu sabia de tudo, mas sempre pensei que quem deveriam se resolver são vocês, não poderia me meter em algo particular assim. – Bernardo defendeu o irmão assim como ele mesmo, se lembrando como no passado os irmãos de propósito ou não se meteram na vida um do outro.
:- Talvez se esse assunto tivesse sendo exposto como agora, talvez tivesse se resolvido. – Laila comentou pensativa.
:- O que quer dizer com isso Laila? – Lígia quis saber.
:- Vocês veem como um assunto particular, só que a verdade é que acaba envolvendo a todos, esse na verdade é assunto da família.
:- Não! Eu não concordo. – Felipe recusou surpreendendo Laila. – Esse é um assunto particular, eu tomei minhas decisões pensado no melhor.
:- Será que foi o certo? Agora eu vejo você um cara fechado e que me parece solitário feito um Miguel mais novo. – Até alfinetou o pai, Laila fez. – Sabemos que fugir dos problemas não faz com que eles desapareçam, temos a prova viva. – e apontou para Miguel.
:- Então tornar o que eu sentia algo público de todos era o certo? – Felipe não deu nem tempo para o pai abrir a boca. – Cada um daria sua opinião, os seus conselhos e todos nós sabemos de quem todos seriam a favor, verdade? — Ele apontou com a cabeça para Pedro.
:- Espera aí, as coisas não são assim. – Pedro encarou Felipe.
:- Ah não?
:- Não. Mesmo eu achando que esse é algo que nós devêssemos resolver.
:- Pedro, você é um dos favoritos de todos, apesar de tudo que fez. Quantos erros você cometeu e isso foi ignorado? Não quero parecer o rancoroso, porque tudo isso é passado só que não se pode negar.
:- Eu sinceramente não estou acreditando que isto está acontecendo? – Júlia passou as duas mãos no rosto. Como havia muito o que ela não sabia e nem enxergava, o peso de ser a causadora de tudo aquilo estava lhe afligindo.
:- Muitas vezes é mais fácil dar palpite na vida do outro do que olhar para si mesmo ou até mesmo se dar conta do que esta acontecendo ao nosso redor. Vocês se deram conta de como ficou Bernardo esses últimos tempos? – Felipe seguia falando irritado, tudo que pesava em seu peito e mente de forma impulsiva seguia dizendo.
:- O que aconteceu? – Foi dessa vez Júlia que perguntou.
Felipe olhou para Bernardo com pedido no olhar para que ele contasse o que ele havia sentido.
:- Eu fiquei mal por ver que ninguém conseguia enxergar o meu estado a cada vez que via Elisa com o namorado. Que é muito difícil superar o sentimento dessa forma, tendo que conviver. E cada vez que eu implicava com ele recebia repreensão. Vocês não conseguiu compreender o quanto eu estava sofrendo por ver ela com outro, e pior quando brigamos e deixamos de ser amigos. Cada um estava ocupado com sua própria vida.
:- Bernardo! – Elisa comentou de uma forma culpada. – Eu não sei o que dizer...
:- Não. Elisa, não precisa me dizer nada. Teve vezes que tentei falar e não conseguia, até que comecei a conversar com Felipe e ele me ajudou nisso. E além do mais, hoje posso dizer que tudo passou.
:- Bernardo, eu não havia me dado conta. – Miguel começou a se explicar pela falta de sensibilidade para com um dos filhos mais novos.
:- Não tem problema pai. – Ele até deu um sorriso fechado.
:- Talvez tenha sido um erro eu ficar para esse jantar, deveria imaginar que acabaria assim. – Felipe disse e foi se levantando.
:- Felipe não vai. – Júlia pediu segurando o seu braço vendo que ele estava decido, ela sabia que tinha algo ainda nisso tudo que ele não contou.
Pedro engoliu a seco a cena que presenciava apesar do incomodo, não tinha mais o direito de impedir nada.
:- Pronto. Agora vai sair assim? Realmente você parece uma cópia mais jovem de Miguel, um que eu não gosto porque ele sempre tinha a fuga e solidão como válvula de escape. – Laila cortou o olhar e o toque dos dois.
:- Você esta certa Laila, era isso que queria escutar de mim? Pois então, se se quer mesmo saber a outra parte da verdade do meu sumiço, tive meus motivos para me afastar por que enquanto eu estive na África aconteceu um acidente e eu fui atingido, lá não tinha medicamentos para o meu caso, eu tive que me recuperar com o que tinha. Quando estava num estado que fosse possível viajar, tive que voltar para o Brasil já que tive complicações. E fiquei muito tempo internado novamente por outros motivos. Eu não falei nada porque não queria ser um incomodo para vida de vocês.
Dito isso Felipe deu um último olhar para todos e saiu caminhando rapidamente e em direção a porta, tudo o que queria era sair dali.
:- Felipe!? Não vai. – Júlia se levantou e estava prestes a segui-lo, quando sentiu Pedro segurar seu braço lhe chamando a atenção.
:- Ele parece querer ficar sozinho agora.
:- Felipe já ficou muito tempo sozinho, Pedro. – eles se olharam por algum tempo e ele entendeu tudo, ela queria ir atrás do seu irmão. Precisava disso. E só então ele soltou o seu braço com pesar.
:- Por que você não vai com ela? – Quem perguntou foi Laila, por incrível que parece de uma forma serena. Não parecia ser a pessoa que tinha provocado tudo aquilo.
:- Porque ela deve ir sozinha.
:- Pensei que vocês namorassem.
:- Eu e Júlia não estamos mais juntos, e faz um bom tempo. – Pedro disse com o olhar baixo para todos ali presentes pudessem escutar.
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