O conto das Terras sem Fim
1 O Prólogo sem Fim
Notas iniciais
Eram outras horas silenciosas no reino dos posteriores.
Um reino sem limites no céu e na terra, ocupado por desocupados.
Sua mera existência era uma ironia e talvez um pleonasmo.
Existiam para se dizer que existiam, existiam por existir, assim como todas as coisas e seres.
Seus habitantes se auto-titulavam espectros, pois não eram nem humanos, animais, sobrenaturais, eram nada.
Cada um na verdade se auto-determinava.
Na verdade nem havia sequer a necessidade de títulos, porém fizeram mesmo assim.
Pode-se dizer que essa foi a primeira coisa que os espectros fizeram juntos, se deram um nome como os parentes dão nome a sua prole.
Se intitularam assim quando julgaram que nada eram mais do que espectros de si mesmos, espectros de alguma coisa que talvez já existiu um dia?
Eles eram o tudo e nada.
Porém eles definitivamente existiam, raciocinavam, quem pensa logo existe...
Então não podiam se chamar "tudo e nada", algum tempo depois alguém achou que podiam.
Mas mesmo assim resolveram se chamar de espectros, pois parecia mais místico e legal, coisas irrelevantes no mundo dos posteriores.
Entendeu? Bom, nem eu.
Eles decidiram-se rápidos, pois então podiam voltar para as suas próprias obrigações, obrigações que levam eternidades, mas enfim inevitavelmente uma hora ou outra eles acabavam terminando, mas como demorava "um pouco" eles as vezes acabavam se perdendo no que estavam fazendo, ou se esqueciam.
E para os olhos nus de um terceiro, para os olhos de um mortal, de um ser de validade que vai se expirar na verdade eles pareciam deveras desocupados, mortais não eram frequentes no reinos dos posteriores, porém sempre aqueles que surgiam eram seres excêntricos, mais excêntricos do que os espectros eram acostumados a ver, surgiam de tramas e histórias diversas difíceis de achar! Sempre viam com algum pedido! 99,9% das vezes foram pedidos desesperados, 99,9% das vezes os espectros atenderam.
"Pedido" é uma palavra fortíssima e mágica para os espectros, pois são coisas que só os mortais podiam fazer, como diversas outras coisas.
É claro, um espectro pode "pedir" alguma coisa para o outro, mas ou é algo que ele mesmo pode criar ou é algo que é impossível até mesmo para um espectro, pedidos como "Crie outro espectro! " ou "Apague outro espectro da existência!", enfim.
Então quando um mortal de alguma maneira adentrava lá, sempre cativavam e aguçavam a curiosidade, eles são pequenos seres intrigantes, carregados de emoções e motivações fulas e as vezes surgia em grupos ou casais, pediam coisas desesperadas, coisas ruins ou coisas ingênuas e os espectros alegremente atendiam, ora porque não?
"Porque fala de nosso reino na terceira pessoa novamente, Agravain filho de Agravain?" — Falou o velho sábio de Milleto no meu ouvido, eu passei a não gostar do sábio de Milleto.
"Porque sempre vem cortar meu barato, sábio? Eu estou contando uma história."— Ele era velho de olhos abertos e castanhos, a pele da face era caída e os ombros caídos como se tivessem carregados de longos anos, porém tinhamos a mesma idade, para quem ele queria parecer veterano, quando somos todos iguais?
"Isso não é maneira de uma dama falar Agravain, e vai contar um conto para quem? Para um mortal? Milhares nascem e morrem em uma fração de um piscar!"— Eu sou chamado de Agravain, filho de Agravain.
Embora meu nome seja masculino e eu um dia tenha de fato sido um homem, gêneros não importam para os espectros, nós não temos sexo muito menos forma definida, embora normalmente sempre adquirimos a aparência de algum humano, mudamos constantemente nossa forma através dos tempos, dessa vez eu me visto como uma linda mulher em sua plena idade, de figura fina, seios levantados e a face exaltada, minhas sobrancelhas eram finas e longas e meus olhos afiados, meus lábios eram carnudos e polidos.
Em alguns mundos eu deixei alguns mortais apenas verem a minha figura e isso já o inspiraram de forma que moldou a história, não precisei me comunicar de forma alguma, apenas deixei que realizassem a minha presença e percebessem plenamente a minha forma, logo todos montaram sua própria versão do que viram e meu tornei todo tipo de deidade, monstro, mortal, as histórias foram várias!
Essa experiência me cativou e até me arrancou um sorriso, então resolvi manter a aparência de "deusa Dina" por mais um instante.
"Porém seu nome de verdade é Agravain e você é tão macho quanto um bruto espartano." — O velho deu uma rara gargalhada – "O que será que eles fariam se descobrissem isso, já pensou no caso?"— Uma breve melancolia me atingiu.
"Se matariam ou morreriam de alguma forma, como fazem todas as vezes. Sabendo o fim que eles podem ter e podendo vislumbrá-lo tantas vezes, porque eu faria isso de fato, sábio? Porque alguns de nós fazem isso?" — Sábio de Mileto se afastou um pouco, ele era um deles que fazia isso, entrou em pensamentos profundos como quando um velho que de repente apaga, sua mente milenar de repente trabalhando.
"Devo te recordar de novo o sentido da vida, Agravain?" — Paramos em um momento de reflexão, o sentido da vida não é coisa que pode ser comunicada.
Até que o sábio de Corinto surgiu também em meus aposentos, tão velho e "sábio" quanto o de Mileto, existiam tantas formas jovens e belas para se ter, porém os dois amavam aquelas.
"Agora que eu notei Mileto, acho que um espartano não é realmente o melhor exemplo para masculinidade, huh? Considerando o que eles faziam quando não estavam na guerra." — Nada contra os gregos.
Corinto interviu com seu costumeiro bom humor.
" Mulher, tem que ser muito macho para beijar um homem! Dada suas caras horríveis! "— E entramos em uma conversa sobre modelos e demandas de gêneros por alguns instantes, achando engraçado como eles sempre surgiam em tantas civilizações de tantos planetas, em especial ao planeta "Terra".
" Por exemplo Agravain, você já tem sido uma mulher há um bom tempo, tendo que conviver com tamanha esbelta figura não te mudou nada? Hehehe! " — Mudou, eu me sentia mais vaidoso, me movia com mais delicadeza e também me importava mais com a organização, com a forma, sendo tratado como Deus também passei a tratar até as coisas mais idiotas como responsabilidade, ao ponto de me importar com a vida breve de alguns milhões de mortais.
" Você devia extermina-los logo, eles já fazem isso por eles mesmo tantas vezes! " — Praguejou com ignorância Mileto, que já devia ter a cota dele de mundos que ele deu fim, Corinto logo atrás tomava seu vinho com um ar de quem concordava.
Mudou para esses dois também, que claramente haviam perdido suas tolerâncias, pigarreavam, dormiam e contavam história com mais frequencia, além de possuir uma aura de fato de mais veterano.
Mas nós éramos todos iguais, nós somos e não somos.
Se um mortal obtesse nossos poderes, ele faria diferente? Ah é! Isso me traz finalmente ao ponto dessa história, nas horas em que até mesmo o reino sem fronteiras pareceu pequeno para nós.
De onde vem ou para onde vai um espectro? Qual o nosso objetivo no infinito espaço e tempo? O que diferencia nós de qualquer outra coisa é que nós descobrimos o sentido da vida.E quando se descobre o sentido da vida você se torna um espectro.
"Ah não, lá vem ele." — Reclamaram pela última vez os dois sábios.
O que nos remete ao começo desse prólogo, ao humano do 0,1%, o humano que descobriu o sentido da vida e que não se tornou um espectro.
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