O conto da menina e o robô
1 Capítulo Único
Uma casa simples, estava mais para um laboratório de pesquisa que uma casa, mas era onde ela morava. O pequeno centro era todo branco por fora, a porta de madeira branca tinha problemas ao abrir e sempre que se entrava tinha que empurra-la com mais força que o normal, o som da fechadura velha rangendo era o que denunciava a chegada de sua dona a casa, ao entrar o chão era varrido por papeis de pesquisas sobre a mente humana e robótica, o pequeno corredor se abria numa sala infestava de peças mecânicas, um computador de 3 telas para uma melhor ampliação dos cálculos e imagens, um sofá no lado esquerdo com roupas jogadas no mesmo, mais papeis e um cobertor para quando estivesse cansada, uma janela se localizava na extremidade direita do quarto, que ia desde 70 centímetros do chão até uns 40 do teto dando uma vasta visão da mata a fora.
O laboratório era em si pequeno, depois que se entrava havia duas portas, uma a esquerda que denunciava ser o banheiro que era a única parte limpa de todo o local e uma a direita que se encontrava a experiência do século, ainda sendo desenvolvida, tudo isso em meio a uma floresta a 2 horas a pé da cidade mais próxima. Ao chegar em casa a cientista se jogava na cadeira do computador e comia o que havia comprado de uma loja de conveniência, um bolinho de nozes e uma água gaseificada, e a digitação começava e não parava até que o dia começasse, ou até o corpo não mais aguentar o cansaço e caia desmaiada em cima dos teclados mesmo, mas sempre acordava e voltava ao trabalho.
Já estava nessa rotina a 5 anos, mesmo ainda tendo só 25, seus olhos estavam opacos, as bolsas a baixo dos olhos assustavam a muitas atendentes quando se lembrava de que tinha que se alimentar, o que acabava em comentários sobre cuidar da beleza de uma mulher e que ela mesmo tendo um corpo avantajado, mesmo comendo da forma erronia como vinha fazendo, era algo o qual devia se prestar mais atenção.
Mas pra ela isso não importava, beleza, vida social, família, amigos, alimentação, nada importava, nada a não ser a sua pesquisa. Passavam-se dias e noites só no Tlec Tlec o teclado, as vezes levantava pra ir ao banheiro, escrevia anotações em mais e mais papeis os jogando em algum canto e pegando outros para revisar os cálculos, quando os olhos estavam cansados de mais para ler, se sentava no sofá fechando-os por instantes acabando por pegar num cochilo.
‘Só mais um pouco, eu preciso de só mais um tempo’ pensava sentada mais uma vez na cadeira do computador, se levantou em um solavanco e correu até perto da janela, ou melhor, para perto dela, onde havia uma mesa com peças mecânicas, alguns braços parecendo humanos, mas com fios de titânio em seu interior, em cima da mesa estava uma mascara de rosto, objetos de nanotecnologia e um chip semi-completo.
‘Agora se eu juntar a parte y com a x e reverter a fiação de 4r para 18b posso filtrar a memoria e adicionar o componente chave’ os cabelos caiam levemente do rabo de cavalo mal feito, mas não fazia questão de tira-los em um momento tão importante da pesquisa, o rosto pálido e cansado brilhava a certa forma, tossiu na mão após terminar os comandos do chip e sentiu a dor no peito, mas não se deixou abalar, correu o máximo que pode até a porta do banheiro e vomitou mais uma vez naquele dia, mas pelo menos agora o chip de numero 135 estava pronto, esperava que desta vez funcionasse diferente dos demais feitos ao longo dos anos.
Levantou do chão do banheiro, dando descarga e limpou a boca escovando os dentes, voltou pra sala e pegou o chip de cima da mesa, andou lenta e ritualmente, como sempre fazia ao terminar um chip agora com expectativa renovada do ultimo fracasso, já que este poderia ser o padrão certo para o fim da pesquisa, abriu a porta da direita fazendo o ranger da porta dar entrada ao ambiente totalmente diferente da sala.
Esta era mais espaçosa, na verdade as únicas coisas encontradas no recinto era um corpo humano sentado no chão nu e uma mesa parecida com a de cirurgia, a cientista se aproximou do corpo no chão e o levantou como um bêbado com a mão no ombro e usando toda a força possível para levantar os 68 quilos, tirou os papeis de cima da mesa, assim como os autômatos no chão onde passava, como os da sala, só que eram pernas, alguns fios espalhados, cabeças de metal com os olhos mecânicos fechados, alguns protótipos e objetos de mecânica. Colocou o corpo na mesa examinando as partes desde a ultima vez que revisou e como não havia sido usado, não se danificou também, sorriu encarando o rosto do experimento da sua vida, conectou um cabo até o pescoço para medir as reações do corpo num monitor a cima e também era aquele cabo que dava energia ao protótipo quando acordasse....bem, se acordasse desta vez.
‘Está tudo bem, mesmo que não seja hoje, logo você vai poder ver esse mundo com seus próprios olhos, vai ter o que nenhum robô jamais teve, vou lhe mostrar o que é ter um coração, vai aprender a ter uma vida, vai ser uma pessoa’ passou a mão delicadamente no rosto de coloração branca saudável, as bochechas artificialmente coradas, os cabelos curtos em tom loiro, mais escuro na raiz, que caiam em mexas nos olhos, um belo jovem de cerca de 20 anos. Deixando o sorriso morrer procurou o lugar onde ficava o coração e apertou girando a fissura, uma abertura surgiu fazendo sair da área uma entrada para chips, retirou o anterior e o quebrou jogando no lixo, e colocou o novo que havia terminado, fechou a abertura e juntou as mãos rezando para que desse certo daquela vez.
‘Por favor, mesmo que você não exista, mesmo que me odeie, mesmo que já tenha abandonado essa vil cientista que brinca de criar vida, eu lhe peço, somente desta vez me ouça, me conceda esse milagre, entrego tudo a ti se assim quiser, não tenho muito que possa ser de seu interesse, mas farei tudo o que pedires, só.....me conceda esse milagre, conceda a esse corpo uma vida e um coração’ rezou com as mãos juntas, a bata amassada tremendo ao seu corpo com o medo de mais uma vez dar errado, o coração batia rápido abriu os olhos e foi quando percebeu......
Nenhuma mudança do estado anterior, nem um movimento ou sinapse nas reações do corpo de acordo com o monitor. Suspirou tirando o cabo fino do pescoço do menino, sentiu a dor anterior no coração aumentar de forma tão sufocante que as lagrimas logo chegaram aos olhos, caiu de joelhos sendo amparada pela mesa a qual se segurou pra não cair com tudo, arfava sentindo o corpo amolecer e as juntas do corpo doerem, a dor como sempre vinha, se ia após minutos angustiantes sem poder se mover por causa da dor e a falta de ar.
Levantou ainda apoiada na mesa pela fraqueza olhou uma ultima vez para o robô a mesa para poder voltar as pesquisas e achar logo o maldito padrão que poderia trazer esse jovem a vida, não superficial, mas sim real, com sentimentos, um coração, uma família, era por isso que pesquisava, foi por isso que passou em primeiro lugar na área de robótica mecânica da universidade mais concorrida do mundo, havia sido por isso que......e olhou pro rosto uma ultima vez, e a cena se seguiu de um grito.
‘I-Impossivel, eu....eu retirei o monitor, não era pra estar com os olhos abertos’ falou se assustando com o robô ainda deitado a mesa, só que com os olhos fixos no teto, a coloração era leitosa por não ter ainda a pigmentação ‘Deve ter sido um impulso, acho que estou chegando perto então, mas....será que terei muito mais tempo para isso ?’ sussurrou desanimando e olhou pro corpo ‘Nunca lhe dei um nome né ? Acho que pensei em lhe dar quando acordasse de verdade, mas será que não foi porque senti medo de te dar um nome agora e não conseguir viver até o dia em que acordaras ?’ viu o rosto sereno e não percebeu quando os olhos leitosos e opacos começaram a ganhar cor, uma pigmentação dourada como o âmbar bem claro, mas a cientista olhava para a mão do protótipo, uma mão adulta suave e quente (?), não era quente antes, era uma pele fria como uma pedra.
‘Acho que estou cansada de mais’ murmurou pensando novamente sobre o nome ‘Você é como uma luz pra mim, antão acho que tenho que achar um nome que combine com isso em você, um nome que mostre que você é minha esperança, minha luz, um nome que mostre que você também é uma pessoa como qualquer outra, um nome como......’ pensou segurando a mão com mais firmeza, mesmo não sendo retribuída.
‘Atla’ murmurou como se sentindo o nome do fundo do coração ‘Atla a luz das estrelas, sim....um bom nome’ apertou distraidamente a mão novamente e se virou pra sair, mas a mão não se soltou, olhou para trás vendo o protótipo com os olhos ambares abertos, a mão apertando fracamente a mão da cientista e a luz que não entrava nos olhos agora se fazia presente claramente com a iluminação tremula se ajustando a luz artificial da sala.
‘A...tla...’ moveu a boca deixando um sussurro quase inaudível sair, mas não daria para escutar se o silencio não fosse reinado, a voz que saiu era rouca pelo não uso das linhas vocais, e fraca pelo mesmo motivo. A cientista parada em total surpresa não se moveu até que ao perceber o que acontecia voltou quase batendo o cotovelo no canto da mesa olhando diretamente para os olhos de Atla, não era possível ter cor ali, a voz não estava concluída no programa, por isso não devia existir também, então como.....
‘U-Um milagre, um milagre....’ falava sorrindo após tantos anos de verdade, sorria vendo os olhos se focarem na sua figura, e a primeira imagem formada na memoria foi a de uma mulher de cabelos longos castanhos e bagunçados, mesmo num rabo de cavalo, olhos verdes cansados e com bolsas a baixo dos mesmo, mas o que marcou mesmo foi o sorriso enorme que a mulher dava e da luz da lâmpada atrás de sua cabeça dando-lhe um ar divino, como se fosse um anjo, mesmo o mesmo não sabendo o que era a divindade.
‘A-At-Atl.....’ tentava falar novamente, mas a voz não saia, e vendo aquilo a cientista se moveu rápido para ajuda-lo, ainda estava sem roupa, mas isso não a constrangia, até porque fora ela quem criou o corpo, porque teria vergonha ? Pegou as costas com delicadeza, tenho agora certeza do corpo quente do mesmo, não um quente febril, mas um natural como o dela, era um milagre realmente, muitos diziam que cientistas não acreditavam em divindades nem milagres, mas ela sim, afinal agora estava presenciando um.
‘Não se preocupe, só me diga se sentir alguma coisa, não precisa se esforçar para falar’ dizia doce com lagrimas contidas de felicidade no rosto ‘Espera que vou pegar um estetoscópio, fique bem paradinho tá, fique ai, não saia....’ falava um pouco nervosa e correu ainda olhando para o menino sem expressão, acabando por tropeçar nos autômatos no chão, mas não desacelerava a velocidade da corrida, foi até a sala, pegou o objeto e correu de volta ao quarto onde Atla estava na mesma posição, com o olhar perdido olhando em direção a porta e quando a viu encarou somente a ela e mais nada.
‘Fique bem quietinho’ falou colocando o objeto frio ao toque na pele do jovem, o mesmo não demonstrou reação, mas havia sentido o toque ‘S-Seu peito...ele...ele está batendo, o coração que coloquei está fazendo tique o que significa que está tudo funcionando, finamente...finalmente Atla’ falava sorrindo novamente, mas agora deixando as lagrimas de felicidade caírem ‘Sente alguma coisa ? Alguma dor ? Consegue mover todas as partes do corpo ?’ perguntava e Atla via aquilo de maneira confusa, não sabia o que estava acontecendo, mas se sentia seguro perto da pessoa a sua frente.
‘Bem vamos fazer alguns testes, mas não se preocupe, não vai acontecer nada só quero ver se todos os seus membros podem se mover ok ?’ o menino assentiu a cabeça ainda com o rosto sem expressão.
Os testes foram simples, como ‘mova os dedos’, ‘agora mexa só o que eu toquei’, ‘faça o mesmo que eu’, ‘sente algo quando toco nessa área ?’, somente com o balançar da cabeça tudo foi respondido rapidamente ao fim das 3 da manha, já que não se tinha uma noção de tempo naquele laboratório.
‘Está tudo certo, todos os membros funcionando melhores que eu pensei, nenhum defeito ou deficiência, pode enxergar como os dois olhos, escutar com ambas a orelhas e o oxigênio que entram pela boca e pelo nariz estão entrando em saindo sem qualquer diferença de qualquer pessoa normal’ disse surpresa com uma prancheta a mão vendo tudo de novo pela 3 vez para ter certeza ‘Além de que seu coração está agindo como o meu, batendo e enviando impulsos para o resto do corpo, não consegue se mover totalmente pela falta de uso, mas logo poderá andar e até correr se quiser’.
‘S-Si-m’ murmurou ainda fraco com a falta de uso, reparando nisso a cientista percebeu as mudanças, ele realmente parecia...humano, o milagre havia sido concedido a si, aquele ser divino ao qual rezou ouviu suas preces, não foi esquecida, agora tinha ganhado uma luz a qual cuidaria com a própria vida.
‘Bem acho que devo explicar um pouco certo ? Você entende o que digo e sua memoria tem os requisitos básicos de aprendizagem, acho que seria bom me apresentar certo ? Certo faz algum tempo que não falo com outras pessoas, mas acho que ainda sei fazer isso’ disse levantando o rosto e sorrindo estendendo a mão ‘Prazer, meu nome é Erika, mas pode me chamar Eri ou Rika, bem o que você preferir.’
‘E-Eri’ Atla falou olhando diretamente para os olhos de Erika fazendo a mesma retribuir o olhar se encantando novamente por aqueles dourados ambares, até perceber que tinha que arrumar uma roupa para o menino.
‘Ahhhh eu não tenho nenhuma roupa pra você e não posso te deixar sozinho pra comprar alguma’ olhava pros lados procurando alguma coisa que pudesse esconder o corpo do menino, quando a visão parou em cima de uma peça jogada no sofá, era algo simples, mas grande o bastante para Atla ‘Acho que encontrei nossa fuga’ sorriu indo até o sofá e pegou o sobretudo preto que lhe caia nos pés, mas no menino devia bater no joelho ‘Ei Atla, quer vir comigo num passeio ?’.
‘P-Pas-sseio ?’ inclinou a cabeça pro lado, mas foi logo puxado pela animada cientista que lhe colocou o sobretudo e uma bota de chuva nos pés, mesmo o tempo estando ainda quente, já estava chegando o outono ‘E-Eri, o qu-e é um pass-eio ?’
‘É como um fuga, saímos pra respirar um ar puro e também para comprar coisas de que precisamos. Vem você vai gostar, vou te mostrar alguns lugares’ segurando a mão quente de Atla e o mesmo retribuindo o gesto imitando a criadora, andaram e andaram, sempre conversando sobre um assunto ou outro, melhor, Erika falando e Atla escutando, de vez em quando fazendo alguma pergunta.
Isso não era anormal, a cientista tinha programado essa curiosidade a coisas que o outro não sabia, falar, andar, se mover, eram alguns dos programas básicos que tinha instalado, mas não lembrava de ter colocado a programação de diferenciação de cores ou uma pigmentação dourada aos olhos, nem sobre a forma quase infantil que ele perguntava o que era uma borboleta ou porque as cores dela eram tão diferentes umas das outras.
‘Essa é uma raça de borboletas azuis, bonitas né ?’ falou com a mesma parada em seu indicador direito mostrando a Atla que ao se aproximar para toca-la, a borboleta voou se afastando, deixando o maior com as sobrancelhas franzidas o que chamou a atenção de Erika, que ao sentir-se meio mal teve uma ideia ‘Atla me dê sua mão’ sem contrariar o maior fez o que foi pedido, a criadora deixou o dedo indicador do mesmo parada, em forma de gancho, um minuto depois uma nova borboleta pousou no dedo, fazendo Atla demonstrar surpresa, uma expressão doce e inocente de surpresa, depois esboçou um sorriso mínimo deixando Erika mais uma vez embasbacada com a beleza do robô e com as expressões que o mesmo fazia.
Ao chegarem a cidade Eri percebeu que tinha algum dinheiro e decidiu comprar só roupas para Atla, já que o mesmo não se alimentava, mas mesmo assim não sabia como ele mantinha energia no corpo, era realmente um milagre, ela havia ganhado o que mas desejava, uma companhia. Comprou vários sacos com roupas para todas as estações, ele não crescia o que seria mais fácil comprar o vestuário pra Atla, as moças da loja ficaram encantadas com a beleza do menino, mas sempre que se aproximavam, o mesmo ainda acuado, voltava para o lado de Erika, que se desculpava e sorria segurando a mão da ‘criança’.
Uma forte dor a arrebatou novamente na volta pra casa, parou deixando as compras que compartilhava com o menino caírem ao chão, se ajoelhou tossindo seca e dolorosamente na mão, o robô vendo aquela reação repentina se abaixou pensando o que havia acontecido, uma linha vermelha saiu por entre os dedos finos e brancos, curioso tentou tocar a linha que pingava o chão, mas Erika o parou com a outra mão cessando a crise e tosse.
‘Não A-Atla, isso não, ta bem ?’ olhou com carinho, mas estava claro o cansaço e a dor na expressão no rosto, não entendendo aquilo Atla só assentiu voltando a pegar a mercadoria no chão e levando-a toda para si enquanto Eri andava atrás do menino segurando a barra do sobretudo como um suporte e uma forma de sentir a luz que emanava do menino ‘Só mais um pouco, quero mostrar mais desse mundo pra ele’ pensava respirando calmamente para que assim ela voltasse ao normal logo.
Chegados em casa Erika sentiu que agora tinha que finalmente dar uma arrumada em tudo, já que havia mais um a viver consigo, pediu para o menino ficar no quarto em que ele acordou para assim ela arrumar tudo, obedecendo Atla voltou ao quarto do inicio do corredor e vendo as peças no chão se sentou mexendo nelas, encontrou um papel com figuras lendo o que podia para entender, mas acabou descobrindo que os papeis eram de um diário.
‘Dia 13 de fevereiro, hoje faz 1 ano que comecei minhas pesquisas, o coração humano é um objeto de estudo muito complexo, mas tenho certeza que posso criar alguém que tenha sentimentos, que possa entender o que é o amor, a raiva, o desejo e a curiosidade, vou provar que maquinas não são seres sem sentimentos, vou provar para aquele bobo que ele estava certo....’ depois disso havia a imagem de um rosto vermelho com as bochechas inchadas, não entendendo o porque daquela expressão, tentou reproduzi-la, franziu a testa e fez um bico inflando as bochechas, parou ao ver outra nota, e mais outra e outra, pegou-as vendo que todas tinham datas, arrumou-as em ordem, Erika havia-lhe ensinado a ordem dos meses e que aquele em que estavam era o fim de setembro, o nono mês do ano, que tinha 12, então arrumou de acordo com o numero e o mês.
‘Dia 30 de dezembro, odeio o natal e ano novo, sempre passo sozinha, mas pelo menos esse ano tenho uma companhia, mesmo que seja só um protótipo e que não tenha olhos nem pele, ainda sim ele já é importante pra mim, espero poder terminar o corpo e assim começar as tentativas de faze-lo mostrar um pouco dos sentimentos....’ acabava por ai depois em baixo uma imagem de uma menininha ao lado de um menininho com ambos de mãos dadas e um sorriso no rosto de cada um.
‘Atla acho que dei uma arrumava basi.....o que está fazendo ?’ entrou no quarto reparando na organização dos papeis antes jogados e reparou no sorriso que Atla mostrava no rosto, quando virou voltou a ficar sem expressão, mas então viu o papel a mão dele, tinha feito aquele desenho a 3 anos, quando ainda estava focada só no corpo e nas articulações do menino a sua frente, deu um sorriso se abaixando para ficar ao seu lado e pegou a mão dele novamente.
Não disse mais nada, só se deixou sorrir com a cabeça no ombro do maior que não entendendo o gesto ficou parado, olhou novamente o desenho e percebeu a similaridade, reproduziu o sorriso novamente lentamente colocando a cabeça em cima da outra no se ombro.
‘E-ri, o qu-e são sen-timentos ?’ perguntou segurando a mão menor entrelaçando os dedos, mesmo sem saber o que ele próprio fazia.
‘São mistérios Atla, coisas que vem do coração, humanos tem sentimentos, podem ser bons ou ruins, mas todo o ser humano e animal tem, você também tem, tenho certeza que vai perceber isso um dia, vou lhe mostrar tudo que quiser, claro que o que tiver no meu alcance’ apertou o dedos na mão quente suspirando com a sensação gostosa de tocar a pele do outro, nem parecia artificial ‘Atla me promete que não vai me deixar ?’ sussurrou, era besteira pedir aquilo, estava sendo egoísta, um dia ele poderia querer sair daquele lugar, ir conhecer o mundo, mas sentia o peito apertar com o pensamento, e nem mesmo ele devia saber o que era uma promessa.
‘Pro-meto Eri’ respondeu fazendo a mais velha se afastar o olhando surpresa e como percebendo a pergunta em seu olhar Atla continuou a falar ‘Prome-ssa é quando fa-zemos tudo par-a que aqui-lo se cumpra, cer-to ?’ perguntou recebendo em vez de um sim ou um balançar de cabeça, ganhou um abraço bem apertado, Erika o abraçou sentindo como se um peso saísse de seu peito, aquilo mostrava que realmente não era apenas uma inteligência artificial, Atla apresentava sentimentos de verdade, ele se preocupava.
‘Você é muito fofo sabia ?’ comentou após arrumarem o restante da sala, o computador e o sofá continuavam no mesmo lugar, mas agora um montinho de roupas dobradas se encontrava num canto do sofá, outro montinho de papel estava arrumado em cima da mesa de outro lado da sala, os objetos de trabalho estavam guardados, não tinha mais porque usa-los.
Ambos agora viviam uma vida mais calma, ou melhor, agora Erika dormia mais, respeitava os horários de banho, o que antes só tomava quando lembrava que existia um chuveiro e só passava 5 a 7 minutos só pra despertar, agora comprava comida que não iria lhe dar uma diabete no futuro, sempre acompanhada de Atla, que passava a falar mais facilmente e com a companhia da cientista tudo parecia novo e claro, ele entendia que era um robô, mas que tinha um coração, tinha uma vida que estava aprendendo cada vez mais a aprecia-la.
Até mesmo começou a entender os sentimentos que lhe eram mostrados, de vez em quando sentia-se triste quando um animal perto da casa fugia quando ele tentava pega-lo, ou ficava feliz quando assistia Erika comentar sobre algum país que ela visitou e que poderiam ir um dia quando tivessem dinheiro, foi quando perguntou o porque dela tê-lo criado, isso foi numa tarde de janeiro, uns 2 anos após ter despertado.
Estavam conversando sobre os pomares em volta da casa estarem dando fruto, foi quando Erika comentou que havia um país muito longínquo que tinha dezenas de centenas de pomares somente de uma fruta, que era muito gostosa chamada amora, falou que quando encontrasse um trabalho de meio período iria economizar e comprar as passagens para os dois. Foi quando a pergunta brotou em sua cabeça, o loiro de porte alto, agora mais maduro e ‘humano’ olhou pra Erika que colhia uma maça ou outra da arvore e perguntou porque ela havia o criado.
Claro que a surpresa da pergunta deu um choque claro na esmeraldina, agora com seus 27 anos e o rosto mais saudável do que quando conheceu Atla e os cabelos longos castanhos soltos caindo até a cintura por não corta-lo, deixou as frutas caírem ao chão com a surpresa estampada no rosto, logo mudando para uma calma e a até certo ponto meio triste.
‘Pode me ajuda Atla ? Queria fazer uma torta de maça hoje’ desconversou e o loiro percebeu aquilo, sempre que tocava no assunto Erika dava um jeito de lhe driblar, mas desta vez não seria desse jeito. Aproximou-se da morena pegando o braço fino e delicado levantando-o e olhou nos olhos surpresos olhando serio para a cientista.
‘Conte Eri, porque você sempre esconde isso de mim ? Eu li os relatórios, você nunca falou sobre a companhia que te contratou, nunca disse porque queria um robô com coração, nunca me explicou’ falou serio, mas com a tristeza saindo na fala, após esses dois anos tinha aprendido tanto com a criadora, cada expressão que ela mostrava, eram o que mais ficava gravado em sua memoria, agora não sabia porque se sentia tão mal, será que estava com algum defeito ? Não, Erika havia lhe revisado ainda naquela manha, então porque essa dor no peito agora ?
‘Vamos pra casa Atla ?’ murmurou com o olhar dócil, mas determinada a explicar ao menino, pelo menos sabia um dia teria que parar de enrolar e contar logo a verdade para seu amado loirinho.
Todos esses 2 anos morando juntos já era como se sempre tivesse sido assim, haviam montado um fogão a lenha na sala perto da janela, o quarto de experimentos virou um quarto com uma cama de casal para ambos dormirem, já que comprar duas camas era muito caro, tinham conseguido de alguma forma fazer o laboratório virar um lar para os dois. Erika pelo menos 2 vezes no mês fazia uma revisão geral no corpo do loirinho percebendo nenhuma diferença, na verdade ele parecia sempre o mesmo em termo de aparência e estado físico, a única coisa que mudava era a personalidade.
Antes, nas primeiras semanas, ele era muito curioso, sempre tentava tocar em tudo, a cientista teve vários problemas por causa disso, principalmente quando tentava colocar a mão no interruptor da tomada, ou quando tentava subir na arvore, sendo que não sabia descer, era sempre frio e poucas vezes demonstrava alguma reação.
Quando completou 1 ano a fala já estava perfeita, era doce, calma e um masculino daqueles que podiam dar de cantor em qualquer lugar, passou a perguntar em vez de somente tentar fazer a sua moda e acreditava em tudo que lhe era dito, quando iam na cidade para comprar comida para Eri ou roupas para a mesma, Atla nunca se dava bem com as vendedoras, mesmo estas querendo saber mais do ‘menino bonito que andava com a doida da floresta’, quando ouviu isso pela primeira vez percebeu o olhar entristecido de Erika, mas a mesma logo sorriu pra ele, havia se sentido mal com aquilo e naquele dia abraçou Eri a tarde toda, mesmo a mesma não entendendo o significado ainda sim não reclamou e aproveitou o carinho que o mais novo apresentava.
Chegados em casa, as frutas foram para uma bacia com água e cloro para serem limpas e ambos foram até o sofá já na rotineira rotina acabaram com as mãos dadas, sentindo o calor um do outro, Erika deitou a cabeça no ombro do maior sentindo o cheiro de sândalo que o mesmo passou a emanar depois de um tempo, não sabia porque, mas apreciava o aroma, lhe dava um sentimento de proteção.
‘Você queria saber o porque deu ter te criado certo ?’ perguntou calma e recebeu um aceno que mesmo não olhando, a movimentação do corpo do outro lhe denunciou ‘Então exatamente por onde quer que eu comece ?’
‘Quero que me conte o que te fez ter a ideia de me criar e porque nunca me diz pra quem trabalha, sei que quando uma pesquisa é terminada ela deve ser entregue ao governo ou algo assim, mas ainda estou aqui, você nunca manda cartas nem nada falando do meu progresso, porque?’ realmente estava incomodado com aquilo, tinha lido sobre as experiências que Eri havia feito antes e mandado para uma companhia, assim ganhando algum dinheiro para si.
‘Você quer ir embora Atla ?’ perguntou ainda calma.
‘Não !’ respondeu de imediato, e era verdade, não consegui se ver longe daquela casa e muito menos longe daquela que o criou.
‘Haha, você é mesmo fofo’ continuou falando levemente, mas seu rosto ficou serio assim como o corpo se enrijecia ‘Quando eu tinha 19 comecei a estudar sobre as múltiplas possibilidades de mudança de humor dos seres humanos, sabia que quando uma pessoa está com raiva, basta dar-lhe algo que ela gosta que a conversa será mais fácil de se decorrer ?’ perguntou sem esperar a resposta continuando ‘Foi quando uma agencia cientifica me contratou para fabricar nanobôs e aceitei, o salario era bom e podia me ajudar na minha própria pesquisa pessoal assim para poder ajudar a humanidade com minhas ideias, mas....’ a voz até a pouco animada se desvanecia lentamente ficando triste e fria ‘Eu tinha um irmãozinho, ele tinha uma doença incurável de acordo com os médicos, era um câncer no coração, ele morreu quando completei 20 anos, foi um choque pra mim, senti raiva daqueles médicos quando não puderam cura-lo, senti ódio de mim por te deixado aquilo acontecer, quis morrer, mas foi quando uma antiga ideia que havia escrito a anos caiu sobre meus pés.’
‘Desculpa, se....se não quiser mais eu.....’ Atla viu as lagrimas caírem e se sentiu ainda mais mal, ia falar que já estava bom, mas Erika continuou segurando a mão do loiro com mais força procurando ter força continuar.
‘Era uma ideia que eu desenvolvi com meu irmão, era só um pensamento infantil nosso, ele me disse que quando melhorasse iria me ajudar a criar um robô, mas não um robô qualquer, um que tivesse sentimentos, assim seria uma revolução, eu achei que era só um pensamento inocente dele e deixei que continuasse sua fantasia, até ajudei a criar o desenho, mas nunca chegamos a nada.....’
‘E-Eu....qual era o nome dele ?’ perguntou curioso, sentia que tinha mais coisas ali que pudesse descobrir mais sobre si, mais sobre os sentimentos que estava sentindo ultimamente, mais do porque sempre que sentia Erika o tocar um choque passava por si e não um choque no sentido literal da palavra, mas uma sensação gostosa e adormecida.
‘Leo, o nome mesmo dele era Leonio, mas eu sempre o chamei de Leo, e como ele gostava muito desse apelido acabou pegando, Leo tinha 9 anos quando faleceu, era só um menino com um futuro pela frente ainda. Quando vi o desenho que nós tínhamos criado pensei que era a chance de mostrar pra ele que iria fazer nosso desejo real, iria mostrar que maquinas não são seres sem sentimentos e que o amor que eu tinha pelo meu maninho ia fazer com que esse experimento desse certo. Por isso deixei o trabalho na agencia, e só mandava algumas experiências segundarias só para ganhar o dinheiro para a principal.’
Parou fungando sentindo as memorias do tempo com o irmão passarem na cabeça, os cabelos castanhos escuros, os olhos azuis que pegou da mãe, o corpo sempre sentado na cama por não ter mais força para se manter em pé, as agulhas colocadas no braço, a pele pálida e mesmo assim os olhos mostravam esperança de que um dia aquilo não passaria de um lembrança ruim. Depois a memoria do caixão sendo levando ate aquele buraco fundo de onde não sairia, aquelas lagrimas contidas que caíram ao ver a terra enterrar seu irmãozinho, aquele que sempre lhe apoiava e que cuidou após a morte dos pais quando ele tinha só 1 ano e ela 12.
‘Eri !’ Atla puxou o corpo menor e tremulo para perto de si lhe envolvendo com o calor e o carinho que podia, nunca tinha visto a mais velha naquele estado, ela sempre estava sorrindo ou quando fazia algo errado lhe dava uma bronca, mas sempre acabava com um riso contido da cara de assustado que o mesmo fazia, não aguentava ver aquelas novas reações da outra, não gostava de vê-la sofrer daquele jeito, o que poderia fazer ?
‘Q-Quando te vi abrir o-os olhos foi como ver o Leo ali do meu lado dizendo: Viu eu disse que era possível sua boba !, você foi minha luz Atla, fiquei sozinha por tanto tempo que agora não sei como viver sem te ter por perto, eu não quero te ver ir embora’ admitiu se enroscando mais no peito do maior, o peito de Atla apertou novamente, foi o mesmo sentimento que sentiu quando ouviu a moças do mercado falarem de Erika, só que agora não sabia mais o que fazer, o peito doía de uma forma estonteante, queria ajuda-la, queria ver o sorriso novamente no rosto daquela que o criou.
Não ! Não era só porque ela o havia criado, claro que isso também era somado, mas era diferente disso, queria protege-la, ajuda-la, Atla não queria mais ver o rosto triste e não queria mais escutar aqueles soluços sofridos, abraçou a menor com mais força, mas nem tanta para não a machucar, Erika levantou o rosto percebendo a diferença do toque em volta do seu corpo, antes era só um abraço, mas passou ao balançar calmo e o carinho no cabelo, se sentiu segura, protegida.
Levantou o rosto encarando um pouco tonta pelo embalo que lhe era oferecido e percebeu estar a centímetros do rosto do maior, a expressão que lhe consumia o rosto era um que Eri nunca viu antes no rosto do menino, uma expressão tão calma e serena, um olhar tão brilhante e a linha reta dos lábios mostrando preocupação, sentiu o vento da respiração tocar-lhe o rosto molhado de lagrimas e se aproximou sem perceber dos lábios do maior, o olhar fixo nos olhos do mesmo, naquele lindo âmbar que tanto amava, sim amava aqueles olhos, amava cada expressão que o menino mostrava, amava o calor do corpo do outro, e principalmente amava totalmente Atla.
Os lábios se tocaram de forma simples e delicada, como uma garoa que tocava o chão, mas assim que Atla sentiu o contato seu corpo se tencionou, nunca tinha sentido algo como aquilo, o coração batia-lhe o peito, mesmo que não mudasse o ritmo, parecia a sua visão que tinha acelerado, viu o rosto a sua frente de olhos fechados e por algum motivo fez o mesmo e retribuiu o contato, era como se aquilo fosse a coisa mais certa e pura de todas, de todos os anos e coisas que prendeu não sabia o que sentia naquele momento, era uma sensação estranha, nova, mas boa e magica os mesmo tempo, sentia como se tivesse feito aquilo desde sempre.
A boca menor abriu-se quando Atla a invadiu, o abraço ficou mais forte e a dança das bocas parecia um show de fogos para a barriga de ambos, Atla nunca havia se sentido tão bem, quando o ar de Erika acabou a mesma separou os lábios do maior deixando breves selinhos no mesmo e o abraçou novamente enterrando a cabeça no ombro.
‘Atla eu te amo, te amo tanto que dói’ falou finalmente, não sabia o que havia sido aquilo, mas Ata sabia beijar, e muito bem por sinal, já tinha sentido aquele sentimento antes pelo menino, mas só naquele momento percebeu ser amor, engraçado como uma cientista que estuda sobre o sentimentos humano não tenha reconhecido de cara o sentimento mais importante de todos, o amor.
‘Eri, Eri....eu.....’ balbuciava, sentia como se seu corpo fosse explodir de felicidade ‘ Eri acho que estou doente, meu corpo está estranho, me sinto tão bem e ao mesmo tempo como se fosse explodir, será que estou com defeito ?’ perguntou preocupado e ouve-se um silencio até Erika rir audivelmente abraçando mais o corpo ao seu e o soltando para lhe olhar nos olhos, ao fazer isso Atla pode constatar o rosto vermelho e sorridente da menina.
‘Isso quer dizer que você se sentiu bem com esse beijo ou que se sentiu bem porque fui eu que te beijei ?’ perguntou ainda sorridente e recebeu a resposta em forma de um selinho roubado e surpreso para si, não achou que o mais novo faria algo desse tipo.
‘Foi por você’ disse serio segurando os ombros de Erika com delicadeza ‘Acho que finalmente entendo o que é sentir amor, é estranho, mas me deixa feliz. Eri eu te amo, também te amo muito, de verdade’ um beijo selou novamente aquelas palavras, a casa ficou com um clima de felicidade ‘Eri eu li que quando você se apaixona por alguém, tem que casar com essa pessoa. Você aceita casar comigo Erika ?’ perguntou fazendo a mais velha abrir os olhos em surpresa, mas as lagrimas logo voltaram, só que mais fortes ‘E-Eri, o que foi ? E-Eu fiz algo errado, você não quer ?’
‘É logico que eu quero seu bobo, isso são lagrimas de felicidade’ disse pulando nos braços maiores novamente selando os lábios uma e outra vez, e novamente até que estivesse satisfeita.
Ambos se casaram na casa mesmo, não foi uma cerimonia oficial, mas os anéis dourados foram trocados e o beijo selando a reação foi dado, assim que tudo terminou a paz entre eles estava mais do que nunca estabelecida, haviam criado um pequeno jardim para não terem que irem até a cidade, só iam quando necessário, infelizmente a felicidade durou pouco.
‘Ei Eri acha que esse tomate está maduro ?’ Atla virou procurando a esposa, mas a encontrou a frente da porta em mais uma de suas crises de tosse, ao ver a cena logo desesperou-se jogando o fruto no chão e correndo em socorro da menor ‘ERI, ERI AGUENTE !’ gritava já com a mesmo nos braços levando ao quarto de ambos, uma janela tinha sido aberta ao lado da cama central, abriu-a para ter mais ventilação e colocou Erika na cama com cuidado, sangue saia de sua boca, mas a tosse já havia cessado.
‘A-tla, tudo...bem, já passou’ falou segurando a mão que estava a seu apoio e sorriu confiante ‘Vamos, logo o inverno vai chegar e temos que cuidar da colheita’ disse se sentando, mas Atla não estava confiante quanto aquilo, ao ver a expressão do marido pegou a mão do mesmo acariciando a palma e delineando o anel no anelar já a quase 2 anos ali ‘Vamos amor ?’
‘Sim !’ deu-lhe um beijo casto e a ajudou a levantar, e assim foram para fora colher, claro que a todo momento Atla ficava olhando Erika a procura de qualquer crise, mas não aconteceu mais naquele dia.
Infelizmente os dias foram passando e o tempo esfriando para o inferno que chegaria, tinham previsto que seria um inverno rigoroso. Erika a cada dia sentia-se mais e mais fraca, não conseguia mais sair de casa para olhar a plantação, Atla era quem verificava tudo, cuidava da esposa quando voltava pra casa, nas noites via-a tremer mais que o normal com o inverno e se comprometia em abraça-la desejando que logo melhorasse e voltassem a ter a vida calma de antes e assim adormecia.
Numa manha de inverno Atla abriu os olhos após mais uma noite de crises de tosse e frio de Erika, a mesma sempre dizia que estava tudo bem, que logo iria melhorar, mas sabia que era mentira, algo estava errado, e naquele momento algo realmente estava errado. O quarto estava ainda meio escuro por ser madrugada ainda, mas pequenos raios de sol já marcavam o horizonte mostrando o sol nascendo, não estava nevando como na noite passada o que era bom, mas Erika não estava na cama como toda manha.
‘Eri.....ERI, CADÊ VOCÊ ?’ gritou, mas quando não recebeu nenhuma resposta o desespero bateu, saiu do quarto indo a sala, a cozinha, o banheiro, nada. Correu pra fora levando o sobretudo da mulher e o seu próprio, Erika não estava em casa, só poderia estar do lado de fora, mas onde ? ‘Eri por favor, me responda’ pensava voltando a gritar o nome da amada com força, foi quando no meio da floresta encontrou um rastro de sangue ‘Não, não....outra crise...ERIKA ME RESPONDA, ERI !’ correu desesperado a procura de qualquer mexa de cabelo castanho ou movimento na floresta ‘ERIKA !’ exclamou ao achar o corpo pequeno caído em uma clareira coberto da fina neve que caia.
‘A-Atla’ sussurrou o nome ao ouvir a voz do amado, o maior correu ao socorro da amada, pegando-a nos braços ajoelhado e contatando o frio da pele, colocou o sobretudo por cima para aquece-la de fora rápida, mas não estava funcionando ‘Atla e-eu te amo tanto !’
‘Eu também, vem, vamos pra casa’ falou tentando mostrar um sorriso, mas não conseguia ‘Porque isso está acontecendo ? O que há com você Eri ?’
‘A-Acho que estou pagando o que prometi’ disse rouca, mas quando Atla ia eleva-la para levar ambos para casa, recebeu uma negação ‘Atla quero fica aqui mais um pouco, podemos ? Aqui é tão bonito’ olhou em volta fazendo o outro seguir o olhar vendo que realmente era um lugar lindo, uma clareira cheia de luz e as arvores em volta brancas pela neve assim como o chão, com apenas uma ou outra graminha se esforçando para sair, era magnifico ‘Achei esse lugar um dia antes de você acordar, foi aqui que rezei para que você pudesse nascer e por algum motivo quis voltar pra dar uma olhada se ainda continuava o mesmo, vejo que sim’ a morena sorriu mostrando um brilho nos olhos esmeraldinos e na pele branca em contraste com a neve em seus cabelos.
‘Então v-vamos ficar um pouco’ sentou-se mesmo triste pelo estado da mulher, mas o sorriso dela era o que o desmanchava todo, não tinha como dizer não aquele sorriso, muito menos com a sensação de que tinha que fazer aquilo pela amada, não estava gostando daquilo, mas faria para ver Erika feliz, encaixou o corpo menor nos braços como uma criança e ficou a inspirar o cheiro de orquídeas que a mesma exalava.
‘Sabe Atla, cada momento que passei com você foi uma benção, nos primeiros dias foi bem difícil...hahha’ riu fraco, mas o esforço fez uma tosse seca se seguir, mas controlou ‘V-Você era muito curioso, mas sempre que via você fazendo algo errado pensava que era muito fofo, acho que me apaixonei por você antes de acordar’ declarou colocando a cabeça no peito do maior e ouvindo o Tique do coração ‘Te amo tanto, não quero sair do seu lado, não quero....’ lagrimas se formavam em seus olhos sentindo o peito apertar tanto pela crise que queria vir como pela dor dos pensamentos que a adornavam.
‘Eu também, Eri....eu te amo, por favor não vá, nunca se vá do meu lado’ Atla sentia o peito arder, as lagrimas da menor caiam em cima de si, seus olhos ardiam e pequenas gotículas de água começaram a transbordar, nunca tinha acontecido isso antes e assustou-se ainda mais ‘E-Eri não vá, eu....eu não quero viver sem você Eri, veja estou com defeito veja, você não pode me deixar, ERI !’ gritou o nome embalando o corpo mais forte ao seu.
‘Atla você n-não está com defeito e sabe disso, são lagrimas’ sorriu a menor segurando o rosto do loiro com a força que lhe restava ‘Sabia que sempre adorei seus olhos ? Você, desde o primeiro momento em que te ouvi dizer meu nome tive a certeza que você era minha luz, sou grata por todos os momento que passei ao seu lado Atla, cada beijo que trocamos, cada caricia, cada briga e cada reconciliação, agradeço a entidade que me permitiu ter esse anjo a meu lado e espero no futuro poder te reencontrar novamente’ falava sentindo-se cansada, como se o corpo pedisse para descansar por um tempinho, mas sabia que se fechasse os olhos agora nunca mais os abriria, fixou o olhar no rosto do loiro e a imagem dele chorando lhe deu certa felicidade, porque era o rosto da pessoa amada que veria pela ultima vez.
‘Não Eri, por favor, lembra ? Prometemos cuidar um do outro sempre, na saúde ou na doença, na felicidade ou na tristeza, até que a morte nos separe, EU NÃO QUERO QUE ELA NOS SEPARE ERIKA !......Por...favor fique comigo, não quero viver uma vida sem você ao meu lado, você foi meu anjo, a primeira imagem que tive de ti foi uma mulher descabelada, cansada, mas mesmo assim a mulher mais linda de todas, diferentes das atendentes das lojas, das mulheres da cidade, de todas. Eu só quero você ao meu lado Erika !’ a declaração atingiu como um raio o coração da menor, a dor pareceu ter sumido, mas sabia que não havia desaparecido, uma felicidade a alastrou assim como um sentimento de tristeza. a morte do s
Não queria deixa-lo, não queria ir embora, não queria ter que abandonar o único que lhe vez sorrir após eu irmão, mas não se arrependia de ter prometido dar tudo para que ele acordasse, mesmo que sua vida seja o preço não se importava, Atla se tornou importante de mais para que pensasse num mundo sem ele, num mundo em que não tivesse o amor dele.
Sorriu novamente puxando o rosto choroso próximo do seu e juntou os lábios por uma ultima vez, as lembranças dos anos que passaram juntos voltando, o dia em que ele acordou, quando tentou colocar a mão na tomada, quando se escondeu atrás de si no dia que foram comprar as primeiras roupas para o menino e as atendentes ficaram em cima do outro, quando ele subiu na arvore e não soube como descer, exatamente como um gato, o dia em que se declararam um para o outro e o primeiro beijo de muito após, o casamento humilde e com um churrasco com varias brincadeiras entre eles, as noites dormindo abraçados, das caricias, dos beijos apaixonados, dos momentos na cozinha ajudando um ao outro no preparo da comida acabando por uma bagunça geral que chegava na sala, os momentos de paz no sofá, tudo, tudo voltava como se acontecesse naquele momento, o beijo revivendo tudo.
Atla se prendia a cada memoria que passava em sua mente com o beijo, os momento em que riram juntos de alguma besteira, do dia em que Erika cortou o dedo e ele lambeu a ferida deixando a outra constrangida, as cocegas que a mesma lhe dava quando era ‘muito fofo’ pelas palavras dela. Quando percebeu os lábios menores se soltaram fazendo a cabeça pender com um ultimo suspiro solto com uma palavra solta ao vento, uma ultima palavra que ficaria a ecoar em sua mente por anos e mais anos a fim na mente do jovem robô agora um completo humano, um ultima frase, pequena e simples, porem com um grande significado.
‘Te amo Atla, por toda....a....eternidade.....’ os olhos foram fechando-se lentamente, a pele perdia a cor enquanto os lábios semi abertos eram marcados pela linha de sangue, e por fim o grito de dor e desespero da perda da vida amada foi ecoado por toda a floresta, todos os seres por perto sentiram a dor daquele terrível grito, toda a tristeza, a magoa, a solidão e o desespero daquele grito tão masculino, tão doloroso, tão....humano, e assim a própria floresta que conviveu com aqueles dois seres por anos ficou em luto, nenhum som foi ouvido, até mesmo o vento tinha parado de passar e a neve caia lentamente como se quisesse tentar amenizar o sofrimento ali presente, mas não conseguiu, mais e mais gritos eram soltos enquanto Atla abraçava o corpo já sem vida da amada, chorando cada vez mais até o corpo ceder e acabar com próprio coração parando com tamanha tristeza, não tinha como viver sem aquela que o trouxe a vida, não tinha como continuar sem ela.
Ambos os corpos ao chão daquela clareira, a neve os abraçando como uma mãe embalando seus filhos, de mãos dadas e o luto de duas vidas tão amadas por aquele lugar que perderam suas vidas por amor, uma pequena luz caiu sobre ambos desejando que um dia, numa época mais distante ambos pudessem se reencontrar e viver uma vida sem nenhuma intervenção, e assim a lenda da menina e o robô foi passada de geração em geração como somente um conto, mas a verdade era que ambos agora descansavam juntos numa eternidade juntos esperando o dia em que suas almas pudessem voltar, pois mesmo Atla tendo sido um robô ele tinha uma alma tanto quanto qualquer outro ser humano, e assim Erika e Atla puderam mais uma vez declararem-se um para o outro, casarem e tiveram filhos em suas outras vidas juntos, por toda a eternidade que se seguiu.
Notas finais
Gostaria muito de comentários dizendo se gostaram ou choraram, ou os dois ? OuO
Beijos de Atla e um abraço de Erika, que nas próximas vidas ambos vivam felizes um ao lado do outro outra vez ♥
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