Notas iniciais
Autoria minha, um pequeno conto/oneshot que resolvi escrever. Quem for ler, tente descobrir o século/década em que a história se passa, e o por quê da solidão da menina. Deixe nos comentários que direi se acertou! Boa leitura e boa sorte!

Este é um conto da solidão. Ele começa há alguns anos , em uma cidadezinha que não era nem próxima, nem distante da metropóle. Uma garota, a quem não nos cabe nomear, lá vivia com sua família, composta apenas de sua mãe e ela.

Quão bela ela era! Atraia os olhares de todos os homens do vilarejo. Por isso mesmo, tinha dificuldades em conseguir amizades com o gênero feminino, que parecia não lhe querer entender a alma, mas apenas perceber seu exterior. A mãe cuidava dela efetivamente, mas sem também se aproximar. Parecia apenas fazer sua obrigação, sem se preocupar de verdade em se conectar com sua cópia de material genético.

Pode-se pensar que pela cobiça, tivera companhia de vários homens. Não era o caso. Faltando-lhe o pai e os irmãos, não sabia como lidar com eles. Recebeu carinhos e mimos, mas sem nunca retribuir ou entender. Se sentia sem ninguém, mesmo com vários homens ao seu redor.

Por isso mesmo, se autodenominava sozinha. Era somente bonita, somente infeliz, somente abandonada, somente incapaz. Era só. Queria ser mais que isso, que ser muito, queria ser tudo! Mas sonhos, na vida, são sonhos . E ela era apenas aquilo.

Havia algo que a alegrava, e a fazia sentir mais, no entanto. A sua arte trazia felicidade. Gostava de desenhar vários olhos, que penetrassem sua alma com seus belos olhares. Desenhava também corações, que batassem forte por ela. Ria-se dos meninos da sua idade, que apenas desenhavam genitálias. Havia tantas coisas mais intensas! Em seu papel, tudo se tornava realidade, ganhava forma, cor e vida. Para ela, o mundo não era singular: existiam os mundos, em plural,lugares em que se aventurava e tinha vidas. Tinha companhias. Virava uma pirata, que lutava contra guerreiros com tapa-olhos e papagaios. Era a policial destemida que salvava toda a humanidade de encontrar um fim terrível nas mãos de um assassino inteligente. Uma bailarina, que com sua dança, fazia multidões chorarem de emoção.

De emoção, inclusive, era lotada sua vida. Chorava todos os dias. Sorria para si mesma, jurando tentar novamente mais um dia. A mãe apresentava o mesmo ciclo de emoções. Às vezes, a protagonista deixava um ou dois desenhos com sua genitora, fazendo-a derramar lágrimas.

Na escola, os professores não pareciam perceber sua presença, algo que a deixava arrasada. Sempre chamavam todos os colegas para responder questões, faziam diversas brincadeiras, menos com ela. Era uma das melhores alunas da classe, então não entendia o por quê.

Seus colegas, no geral, não falavam muito com ela também. A deixavam sozinha. Gostava de se balançar no balanço do pátio da escola, durante o recreio, para não ter que ficar onde todo mundo estava, mas sem ninguém. Tinha uma garota de sua sala que de vez em quando a seguia, balançando ao seu lado, mas sem nunca dizer nada. Apenas sorria para ela. Nunca devolveu o sorriso.

Gostava também de ver a equipe de esportes da escola treinar. O jeito com que conversam, riam, e faziam tudo parecer tão simples. Tudo fluia num ritmo alegre, que quase podia ser sentido. Via todos os treinos e os desenhava, cada jogada. O técnico pedia seus desenhos emprestados, explicando posturas de ataque e defesa para o time. Adorava ainda mais estar lá durante esses dias.

Foi após um desses treinos, numa quarta-feira chuvosa, que Sozinha avistou um animalzinho na rua, e resolveu se aproximar. Sem saber como se comunicar, sentou a seu lado. O animal se tratava de um gatinho. Ficaram os dois sentados se olhando, como se entendessem tudo um do outro com aquele olhar. Aquele era o momento em que se sentia mais verdadeiramente completa em sua vida. O animal fez um barulho, como se sentisse o mesmo. Ela então começou a lhe contar sobre seus desenhos, e sobre todas as histórias que viveu com eles. Sabia que ele compreendia. Prometeu que ele seria o próximo protagonista de sua história, que seria um herói. Após um tempo, então, resolveu tocar-lhe. O gato se mexeu e tardou a correr. Ela correu atrás dele, não querendo perder a conexão.

A garota sentiu algo a atingir. Percebeu que estava no meio da estrada, e então, não sentiu mais nada.

Acordou deitada em uma cama dentro de uma sala branca, que estava meio turva. Aquele não era seu quarto. Quando olhou para cima, viu o rosto de sua mãe, com uma tristeza maior do que qualquer outra que já tivesse visto antes. Olhou para o lado, e lá estava o capitão do time da escola, e a menina do balanço, chorando e com olhares preocupados. Percebeu que devia estar dormindo já tinha um tempinho, se sentia magra e fraca. Levantou um pouco da cama, com dificuldade. Sua mãe logo a amparou. Os outros dois se aproximaram e temerosamente tocaram nela. Ela nem se moveu. Perguntaram se estava bem, e a menina balançou a cabeça. Desataram então a falar.

O capitão contou como os treinos não eram os mesmos sem seus desenhos. Que tinham perdido as últimas partidas, e isso provavelmente se devia à falta dela. Ela prometeu que desenharia mais para eles, quando estivesse totalmente sarada. Falou de algumas jogadas novas que andava pensando e como desenharia elas, em qual papel e com qual lápis. Ele disse que não via a hora.

A menina do balanço disse que sentia falta de ter companhia para balançar. Contou também que ela era desenhista, e queria muito que pudessem desenhar juntas um dia, talvez enquanto balançassem. Nossa protagonista disse que passaria a retribuir os sorrisos.

A mãe, no início, apenas chorou. A filha aguardou em silêncio. Disse então que a casa ficava vazia sem ela. Que nada fazia sentido. Que olhava seus desenhos todo dia, e via a filha pirata, a filha policial, a filha bailarina. Mas não via a filha desenhista. Queria ela por perto, para ficarem abraçadinhas, como ficavam quando ela era bebê. A menina disse que gostava de ficar abraçadinha. A mãe deu uma risada. Prometeu estar mais ao seu lado, disse que vinha fazendo aulas de pintura em segredo. Ia ensinar tudinho para a filha. Deu o abraço mais cheio de amor em sua filha, que tinha mais poder do que todas as personagens de suas histórias juntas. Os dois adolescentes se juntaram a elas.

Um gatinho olhava toda essa cena de um tronco de uma árvore. Decidiu então, por si mesmo, que aquela garota não podia mais se chamar Sozinha. Era agora Amada.

E dessa forma, nosso conto chega ao fim, para dar lugar à um novo conto. Um conto de união.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!