O começo dos Cullen
2 Capitulo 2 - A dor da perda é pior que isso?
Notas iniciais
POV Edward.
Tudo doía, meus braços, minhas pernas, qualquer movimento brusco que eu fizesse. Acordado e não acordado, era como me encontrava. Acordado, porque sentia as pessoas em volta de mim e as ouvia, via a preocupação delas em suas vozes. E não acordado, porque não me mexia, eu falava muito pouco minha voz não saia direito, abria meus olhos algumas vezes. Pelo que ouvi de um dos médicos, eu estava com “gripe espanhola”, milhares de pessoas haviam pegado ela, e a maioria não sobreviveu. Minha mãe e meu pai estavam em um quarto separado de mim, sempre que eu podia perguntava sobre eles.
A enfermeira havia acabado de me dar medicamentos, percebi por que não gosto de agulhas, minha mãe falava que para um homem que queria ir para a guerra agulhas não eram nada. Ela tinha razão.
Estava cansado de ver a escuridão, então decidi abrir meus olhos, péssima ideia. Olhei para meu lado esquerdo, Meredith reconheceria aqueles olhos azuis cor de céu de qualquer lugar, ela estava numa sala ao meu lado rodeado de vidro, ao lado dela em outras camas estavam Meus tios e a pequena Cloe, mas havia algo errado, eles não se mexiam, seus olhos estavam parados, vidrados em algo e estavam todos pálidos, estavam mortos. Virei minha cabeça para o outro lado, não podia ver aquilo, era demais para mim. Então vi um médico, ele estava sentado em uma cadeira do me lado, não vi quando ele chegou ali, mas ele olhava, imagino eu, para o mesmo lugar que eu olhara. Ele olhou para mim, um rosto sem expressão e com olhos muito intimidadores, da mesma cor de um colar que minha mãe tinha, topázio. Ele se levantou do lugar onde se encontrava e eu o segui com o olhar, o médico puxou uma cortina que eu não havia percebido e fechou a janela. Ele era alto e seu cabelo era de um loiro claro, aparentava ser novo.
— Quem é o senhor? – Não sabia se ele iria entender minha pergunta, minha voz quase não havia saído direito.
— Sou o doutor Cullen, mas pode me chamar de Carlisle. Sou médico do período da noite, estou cuidando de você e de sua mãe Elizabeth. – A voz dele era calma e baixa e era bem cauteloso nas palavras.
— E meu pai? – Ele abaixou a cabeça. Senti como se meu peito fosse explodir eu já estava esperando o pior.
— Edward, seu pai estava muito mal. Ele chegou desacordado no hospital, não respirava direito. Não podíamos fazer mais nada.
Meu pai, meu espelho, não queria acreditar naquelas palavras, era demais para mim. Sabia que eu não podia desistir, por minha mãe. Tinha que ficar vivo por ela. Algumas lagrimas escaparam de meus olhos, mas logo as controlei. Ele colocou uma mão em meu ombro me confortando.
— Minha mãe já sabe? – Fiquei preocupado com ela. Como ela ia reagir a isso.
— Ela já sabe, me pediu para que eu viesse lhe falar.
— Muito obrigado doutor Carlisle.
— Por nada Edward. Agora descanse por favor. – Disse ele se levantando com olhos ternos.
Parecia que havia passado uma eternidade, mas só tinha passado um dia. Eu piorei nesse pouco tempo agora não conseguia mais falar, estava péssimo, era eu e meus pensamentos, meu corpo estava muito dolorido, pior que no dia passado e estava com muita febre, pelo que eu escutei, uma enfermeira disse que estava com 38 graus, me sentia com muito frio, mas os médicos disseram que não poderiam colocar algum cobertor por que queriam controlar minha temperatura. Queria me esquecer de tudo o que estava acontecendo comigo, eu acreditava que não viveria por muito tempo, a maioria das pessoas que pegaram essa gripe morreram. “Ela está matando mais que a primeira guerra mundial”, dizia um jornal a uma semana atrás antes de eu vir parar no hospital. Nunca pensei que morreria algum dia. Obvio todos nos morremos, mas nunca acreditamos que será agora ou amanhã, você espera que vá demorar bastante tempo, que antes de morrer você trabalhara, terá uma esposa, um filho. Mas isso provavelmente nunca acontecera comigo. Comecei a sentir medo, medo de morrer. Comecei a tentar prestar atenção na conversa de um médico com uma enfermeira, para expulsar esse tipo de pensamento.
— Doutor Cullen, ele não fala mais, e não sabemos se consegue escutar. – Disse uma mulher com uma voz baixa, tive que fazer um pouco de esforço para ouvir mais.
— Eu sei. Mas se ele puder escutar, o que eu realmente acredito que possa, ele tem o direito de saber de sua mãe. Pela forma que Elizabeth falou dele a uma hora antes de falecer eles eram muito unidos. A única família dele, seu pai e sua mãe morreram. Ele tem o direito de saber. — Disse o doutor, com uma voz doce.
Sozinho no mundo. A mulher que eu amara em todos meus 17 anos, faleceu, e eu nem sequer poderia prestar luto. Nunca agradeci a ela por todos os seus mimos, presentes, alegrias que ela me deu, nunca me deixou faltar nada. Pelo a contrário. Dois dias antes de eu desfalecer na sala de estar, eu havia discutido com ela, sobre os assuntos do exército, eu fiquei muito nervoso, pois ela disse que nunca me apoiaria sobre este assunto. Fiquei sem falar com ela pelo resto do dia, e antes de dormir ela entrou em meu quarto sorrateiramente abrindo de leve a porta. Disse que sentia muito, mas essa era verdade. Disse que me amava demais para me deixar ir à guerra. “Edward eu te amo meu filho, e isso nunca vai mudar”, essas foram suas últimas palavras. Mas como eu ainda estava nervoso simplesmente olhei para ela com um olhar irritado e virei-me na cama ficando de costa para ela. Eu nem sequer falei “eu te amo mamãe”. Sentimento de culpa passou por mim. Mas como eu acreditava que morreria logo, eu iria me encontrar com ela em algum lugar, eu ela e meu pai, como éramos antes disso acontecer, e então eu pediria desculpas a esta mulher maravilhosa que cuidou de mim.
Senti uma leve pressão apertando minha mão. Parecia estar muito frio, mas minha alta temperatura logo disfarçou o gelo. Parecia ser alguém, só não sabia quem.
—Edward se estiver escutando isso, eu sinto muito por sua mãe e seu pai. Ela pediu para que eu te dissesse que o amava.
Eu também te amo minha mãe. Tentei tirar o máximo de força que restava em meu corpo e apertei a mão do Dr. Carlisle, em um ato de agradecimento. Acho que deu certo pois ele á apertou ainda mais.
—Sua mãe também me pediu outra coisa, Só não sei se é certo faze-lo. Mas eu prometi que cuidaria de você de todas as formas possíveis que eu pudesse.
Não havia entendido o que ele quis dizer, ele não estaria fazendo todo o possível? Passou-se alguns minutos, ouvi ele se levantar da cadeira em que estava ao meu lado, ele trouxe minha mão para mais perto de meu peito e a outra colocou em meu cabelo fazendo — me inclinar a cabeça para traz.
—Eu sinto muito Edward, sinto muito mesmo. Espero que me perdoe. — O doutor sussurrou em meu ouvido. De repente senti algo muito afiado perfurar meu pescoço, pareciam laminas. Abri meus olhos instantaneamente depois de muito tempo. Uma dor que não podia ser comparada com nada, nem com a dor do corpo, nem a dor da culpa ou de egoísmo, nem mesmo a dor da perda era pior que isso. Meu corpo começou a se convulsionar com aquilo, eu gritei em protesto, e tentei me livrar do que me mantinha parado mas a pessoa que me segurava tinha uma força extraordinária eu não me mexi nem um centésimo.
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