Notas iniciais
Entrecruzados

Todo mundo falava que Mocinha estava longe de ser uma mulher comum. Sempre que passava deixava no ar aquele aroma de infidelidade. Mesmo não sendo ainda casada, namorados e pretendentes aos montes rodeavam sua casa, porém, todos acabavam largando a jovem moça pelo mesmo motivo: adultério. A humilhação e a decepção eram tais que juras de morte, feitas pelos seus antigos pares enganados, não faltavam ao seu histórico de relacionamentos.

Marcelinho jogava bola como ninguém na região. Já fizera testes em diversos clubes e dessa vez tinha acertado a mão, ou melhor, o pé, no teste. Tinha sido considerado a grande descoberta do Atleticano Futebol Clube nos últimos tempos. Era um jogador de uma habilidade absurda, já reconhecida por seus amigos de pelada. Driblava correndo, olhava sempre em sua volta de cabeça erguida, chutava de três dedos, de chapa, de bico, sempre com a maior eficiência e objetividade. Seu futuro de sucesso era certo e a comprovação viria ao final do campeonato estadual com a proposta de um grande clube do futebol brasileiro. Era um fenômeno.

Ao final do campeonato eis que surge uma proposta milionária para a jovem revelação do futebol brasileiro. Dinheiro a dar com pau. Dinheiro e fama para tirar qualquer pessoa do rumo e da rotina dos menos propensos a fortuna. Fama que já se espalhara por toda a região, por todo o estado, por todo o país e estava preste a ganhar o mundo. Era batata, nada seguraria a nova revelação do futebol brasileiro de estourar no cenário esportivo mundial. O contrato já estava sendo aprontado e as bases salariais definidas. Em poucos dias teria de se mudar.

Dona Mocinha, apesar de não ser uma mulher comum, não era bonita. Mas tinha charme, sensualidade e muita depravação no seu comportamento. Cheirava a sexo, pura encarnação de um diabo a base de feromônio. Era pobre, desafortunada, sem modos e sem ambição. Ainda não tinha filhos, não sabia se por sorte ou por incapacidade. Manicura de profissão, não trabalhava muito, sabia muito da vida de todos e se exibia com o seu nome pronunciado pelos outros nas rodas de fofoca.

***

Duzentos e cinqüenta, trezentas pessoas. Essa era a estimativa para a festa de recepção do mais novo campeão do estado e mais ilustre morador do bairro. Vários amigos de infância e familiares foram convidados. Além dos curiosos e penetras que nunca faltam em qualquer festa. Voltando da casa de uma cliente onde fizera um serviço de manicura, Dona Mocinha vê o tumulto da festa. Sem querer vai se aproximando do portão de entrada bem no momento em que o ídolo do futebol e futuro milionário está chegando em casa, carregado nos braços dos amigos. Ela olha acanhada, mas logo depois reage encarando o homenageado como forma de retribuir o seu olhar fixo e seguro na sua direção.

-Entra! Vem aproveitar!

Fala ele ainda sendo carregado e com gestos indicando a festa que já estava pegando fogo.

Ela não entendeu a tamanha boa vontade, mas não titubeou e começou se a remexer no pagode que animava os convidados. A casa era pequena, mas tinha um quintal grande, o que facilitou dispersão, ficando mais confortável.

-Mocinha, você por aqui? Que coisa boa! Tome uma cervejinha, vá!

Falou um conhecido. Logo depois falou outro, e outro, e mais outro...

Ao perceber que tão conhecido quanto ele na região a moça era, o dono da festa se aproxima da sua convidada de última hora e se apresenta:

-Oi, sou Marcelinho! Sempre morei por aqui e nunca te vi... Como é seu nome?

-Márcia, mas todo mundo me chama de Mocinha.

-Você que é o jogador, né? Eu não sou muito boa nessas coisas de futebol, mas você tem aparecido até em revista de fofocas...

-Eu não te conhecia, mas já deu pra perceber que você conhece muita gente daqui da região, hein? Como que eu nunca te vi antes?

A conversa meio sem pé nem cabeça dos dois ficava cada vez mais tumultuada com a chegada de vários amigos a interromper o desenvolvimento do confuso diálogo.

-Grande Marcelinho, tudo certinho?

Falava um ao chegar perto do craque.

-Tá fazendo falta por aqui, viu rapaz?

Falava outro.

-E a seleção, será que ainda rola esse ano?

Insistia outro na atenção do anfitrião. Sempre com muita boa vontade o homenageado respondia a todos. Porém, perdia sempre o contato e o fio da meada do papo com a intrigante Márcia. Com todo esse assédio naturalmente o papo encerrou.

A festa continuava, o pagode rolava, o churrasco era servido e todos se misturavam. A festa ao mesmo tempo em que recepcionava o novo campeão brasileiro de futebol também carimbava a sua passagem para o universo dos ídolos do esporte. No dia seguinte ele embarcaria para ser apresentado no seu novo clube e lá ficaria por toda a temporada.

Porém, antes de embarcar, Marcelinho confessa a um amigo próximo que estava louco para encontrar novamente Mocinha. Prontamente, o amigo, sentindo um tom de admiração pela mulher na afirmação do craque, trata de avisa-lo:

-Marcelinho, meu irmão. Aquilo dalí é um buraco sem fundo. Tem gente que até hoje não parou de cair!

-Como assim?

Falou Marcelinho.

- Então, sabe essas mulheres que só prestam para serem dos outros? Que sabem enlouquecer e destruir a vida de um homem como ninguém?

-Sim, mas por que?

Indagou ainda sem querer entender o que o amigo queria dizer.

- Porque aquilo é um bicho. Na moral, você a acha bonita, elegante, inteligente, bem cuidada, simpática ou algo assim?

-Não, não... mas sei lá...

- Então, meu caro! Ninguém a acha. Mas todo mundo a quer de alguma forma. Por isso... vai cuidar de jogar bola, vai! Deixa esse mundinho miúdo daqui pra quem ainda faz parte dele.

***

É chegado o momento da apresentação da mais nova contratação do Clube para as próximas temporadas. Na sala de imprensa lotada de jornalistas um dirigente continuava a falar:

- Preparando o nosso time para um campeonato difícil como é a Libertadores da América, continuamos a busca por reforços de peso que façam da nossa equipe uma equipe capaz de enfrentar os grandes clubes do continente.

Falou o vice-presidente de futebol do Clube. E continuando, completou:

- A chegada de Marcelinho representa não somente uma aposta do Clube nos seus dribles, passes e arrancadas que fizeram todo o meio do esporte prestar atenção no seu talento, mas, também, uma grande chance e vitrine para que ele possa se firmar como uma estrela, que já é. Enfim, um casamento perfeito. É o que todos nós acreditamos.

Depois dos rasgados elogios e do depósito de uma enorme carga de responsabilidade no talento do craque, feito pelo seu novo vice-presidente de futebol, foi a vez dele falar que era um sonho sendo realizado jogar nesse clube, que a torcida poderia contar com todo o seu empenho e dedicação, que a estrutura era maravilhosa e que ele estava ainda pouco acostumado com a quantidade de jornalistas posicionados em prol de colher suas declarações. Previsível para um jogador de futebol. Porém, seus olhos pareciam revelar uma certa distração, estranha para esses momentos ditos tão eufóricos.

***

- Mocinha, eu tinha marcado com você às 9:00 e você chega agora? Já são quase 11:00.

Falou uma cliente antiga dos serviços de manicure da moca.

- Me desculpe, dona Fátima. Eu estou tão enrolada, viu? Nem sei quando tiver um filho. É muito trabalho, né? E eu já sou assim, tão enrolada...

-Olhe, minha filha, infelizmente não vou poder contar com seus serviços assim nessas condições, não. Já está muito tarde, tenho ainda que fazer todo o almoço e logo, logo o pessoal chega em casa.

Era mais um serviço que a desleixada manicure perdia.

Como se nada tivesse acontecido ela lembra que ainda não tivera voltado para casa depois daquela festa do sábado, e a metade da segunda-feira já se aproximava.

Entrou em casa, na hora do almoço. Sentou, comeu. Não falou com ninguém. Tomou banho e saiu para trabalhar no salão onde prestava seus serviços em alguns dias da semana pela tarde. Ao chegar no seu local de trabalho, tomou conhecimento que muitos já sabiam de sua mais recente aventura com um homem, casado, durante todo o dia de ontem depois da festa. E não duraria muito para que algum barraco estourasse entre a manicure e a mulher do sujeito. A vida seguia assim, o brilho de um universo cheio de glamour para um e o brilho vazio do que é comum para outro.

-Mocinha, me fala, mulher! Como foi a festa do jogador? Os meninos passaram hoje por aqui e falaram que você foi convidada... Você o conhece, é?

Perguntou uma companheira de trabalho transbordando curiosidade.

-Misericórdia, menina! Esse povo gosta de um babado, hein? Mas então, foi festa de gente grande, viu? Pagode, churrasco, cerveja e um monte de enxerido tirando fotos e dando entrevista.

Respondeu Mocinha sem conseguir esconder as pontadas de satisfação com sua moral elevada.

- Mas Mocinha, você foi de penetra ou foi na aba de alguém pra poder entrar na festa?

- Que aba, o que? Fui convidada pelo dono, minha filha! Tava voltando da casa da dona Lurdinha e vi aquele bando de gente em frente à casa da mãe dele. Nem sabia que ele morava lá. Quando ele me viu acabou me chamando pra entrar. Lógico que não recusei, né, mulher? Você me conhece!

- Eu, te conheço? Sei não, viu? Cada vez mais você me surpreende. Vem cá, sobrou pra você aquele coroa gatão, marido daquela mulher azeda, foi? Menina, todo mundo conta essa história por aqui, estão falando que ela está possessa, uma arara! Mas você também, hein, Mocinha? Só liberar o coitado agora, segunda-feira...

- Nem me fala, nem me fala... Deixa o povo falar o que quiser. Ninguém tem o que fazer, não? Até parece que é bonito ficar de olho na vida dos outros.

Confessou na tentativa de desconversar, a pobre.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.