O colar
2 Outono
Meu corpo dói, minha cabeça parece pronta para explodir, coloco meu braço esquerdo sobre o olho tentando amenizar a dor. Como a noite de ontem se acabou não sei, voltei para a praia? Como voltei para casa? Uma onda de agonia percorre por meu corpo ao me lembrar de como eu e aquele cara caiamos no mar, de como a agua que parecia quieta de repente ficou revolta.
Meu pulmão dói ao me lembrar de como agua entrava dentro de mim, de como eu tentava e respirar. Segundos antes de eu apagar, pensei que aquele era meu fim. Escuto vozes ao fundo, pessoas gritando, e dizem '' Náufragos'' o que isso significa, não sei, deve ser uma nova gíria dos surfistas. O garoto emburrado que estava comigo se debatia e ate me acertou algumas vezes, na tentativa de escapar, eu jogava meu corpo para os lados batendo as costas em algo muito duro, como se declarando nossa morte, o garoto segura em minhas mãos e nos deixamos morrer.
Meu coração gela, mãe e pai devem estar preocupados, desesperada me sento e quase caio para trás com o terror. Não é meu quarto e muito menos o de um hospital, a cama é enorme de madeira rustica e vermelha, lençóis branquíssimos. Já a parede pelo céus, é de tijolo cinza com tapeçarias de pele de bichos.
Uma cortina de um tecido fininho e transparente balança com a brisa. Deixando a dor de lado me levanto como, e ando como uma bêbada, atravesso a cortina e me seguro na parede para não cair, estou em uma torre alta, muito alta.
A brisa é gelada e me arrepia, lá embaixo as arvores me encantam com suas folhas laranjas, o gramado esta cheio delas, algumas pessoas passeiam. Só que o mais bizarros é que as mulheres usam vestidos pomposos e homens todos elegantes com uma vestimenta não tão bonito como um terno, mas algo parecido. Eles caminham calmosamente e sem nenhuma preocupação. Volto para dentro do quarto indo em direção ao espelho da penteadeira, estou usando um roupão que me cobre do pescoço ate os pés, minha pele mais branca do que sempre esteve e meus cabelos centímetros mais longos, sendo que ate ontem eles batiam abaixo da cintura.
Saio do quarto, me deparo com um extenso corredor, sigo reto passando por algumas mulheres com banjas, assim que abro a boca para perguntar onde estou, elas arregalam os olhos e fazem uma reverencia desajeitadas, murmuram um Bom dia senhorita e saem correndo. Estou ficando ainda mais aterrorizada, continuo seguindo meu caminho, abrindo portas e mais portas, indo para a esquerda e direita, subindo escadas e descendo muitas outras. Quando já estou exausta e com vontade de chorar encontro um tipo de salão, também rustico e com uma mesa gigante e com uma quantidade exorbitante de comida depositada nela.
Comendo estão umas dez mulheres e muitos homens que não consegui contar, e nos cantos do salão empregados estão parados sorrindo enquanto o restante come e tagarela tranquilamente. Então sem pensar passei pela soleira da porta, as mulheres me olharam vermelhas, umas ate engasgaram e esconderam os rostos. Os homens, esses me olharam de olhos arregalados, me contemplando de cima a baixo como se eu estivesse nua.
—Bom dia. — sussurro incomodada. — Onde estou?
Todos olham horrorizados para um homem sentado na ponta com cabelos ate os ombros e olhos claríssimos, ele sorri e a pele pálida de suas bochechas queimam em vermelho, ele se levanta e vem ate mim.
—Bom dia senhorita. — Ele segura minha mão e leva aos lábios, mas sem encostar de verdade. — Estou muito feliz que tenha recobrado a consciência, mas devo alerta-la de que ainda deveria estar em repouso.
Embasbacada olho para ele esperando ouvir um '' 1° de Abril'' ou '' Você acabou de cair na pegadinha do Canal...'' Mas ele não muda a posição, simplesmente me olha com aquele olhar '' Pobre criatura''
—Onde estou?
Sinto que essa pergunta saio carregada de lagrimas com direito a carinha de criança, pois em segundos ele estralou os dedos e as pessoas se retiraram, assim que ficamos sozinhos sua mão vão respeitosamente ate minhas costas me guiando ate a mesa, mas sem encostar em minha pele. O homem puxa uma cadeira onde o prato esta Limpo para que eu me sente, e todo pomposo e lindo se senta do meu lado.
Ele me serve de uma xicara de chá, colocando uma colher de açúcar e logo em seguida passa uma geleia amarela em um pão caseiro e coloca em meu prato.
—Coma, e logo conversaremos. — Diz.
Sem nem pestanejar, pego o pão e em segundos não tem nem migalhas em meu prato. Seguro a xicara quente com as duas mãos, para esquenta-las, beberico um pouco sentindo meu corpo começar a esquentar conforme a bebida desce.
—Assim esta melhor. — Ele sorri. — A fome nos deixa um pouco confusos.
Sorrio sem saber o que falar, não me sinto confortável, estou com medo e quero ir para casa. E mesmo assim algo naquele homem me passava confiança, eu não me sentia tão desesperada quanto a segundos antes.
—Estou bem melhor. — Sorrio. -Mas com medo.
—Medo? — Ele arqueia a sobrancelha. — Não se sente confortável em minha companhia?
—Não, quer dizer sim... Estou em um lugar que não conheço, sem meus pais, estou confusa. -Declaro. — Agradeço sua hospitalidade, mas quero ir para casa.
—Eu entendo, e prezo muito para que volte sã e salva para seu reino. — Ele se serve de uma xicara de chá. — Me conto o que houve com seu navio?
—Navio? — Sorrio. — Irônico, aquele barquinho fedido virou e nós caímos.
—Não fui irônico.
—O que?
O Homem me olha preocupado, ele não foi irônico ao chamar aquele barco em navio? Tipo navio mesmo?
—Recebemos uma carta pelo nosso mensageiro que um navio da Europa naufragou em nossas terras, e vimos vocês em beira a mar, quando procurávamos por sobreviventes.
—Vocês? — Me levanto. — Ele esta aqui?
—Seu prometido? Sim, esta no quarto ao lado o seu. — Ele levanta. — Sei que não é do decoro uma dama dormir ao lado de um lorde, mas não sabíamos o que fazer.
—Preciso falar com ele. — Vou em direção a porta, mas paro e digo. — Poderia me levar ate lá?
O homem sorri e assente com a cabeça, me oferece seu braço, simplesmente pego em sua mão e puxo-o para a saída, ele vermelho pigarreia e segue o caminho em silencio.
Ao chegarmos em frente a porta do quarto, o homem bate três vezes e logo o moreno do barco sai assustado nos olhando, é claro que quando me olha sente um certo alivia, é ótimo saber que alguém esta junto com você na roubada.
—Não acho apropriado conversarem sozinhos no quarto, principalmente em trajes tão reveladores. — Ele nos olha. — A criada lhes fará companhia.
Reveladores? O homem da de costas para nos e vai embora, enquanto eu e o garoto do barco nos olhamos tentando decidir o que á de revelador em nos. Como eu já havia visto, meu roupão é literalmente do pescoço ate os pés e o do garoto uma calça em tom de amarelo desbotado e uma camisa larga e branca.
—Revelador? — O garoto sussurra. — Até minha avó não usaria isso.
Ele sorri apontando para mim, reviro meus olhos tentando não dizer um palavrão e entro no quarto dele.
—Onde estamos? — Logo pergunto.
—Não sei.
—Como viemos parar aqui?
—Não sei.
—Você vai responder isso em todas as minhas perguntas? — Reviro os olhos.
—Não sei. — Ele sorri. — Mas algo esta estranho.
—Acho que isso passo no estranho para mim. — Sento na cama.
—As pessoas são diferentes, falam engraçado e agem como se estivem em um jogo de RPG medieval. — Ele me olha. — Não estamos longe de casa, é impossível a correnteza ter nos arrastado para muito longe, não com nos dois vivos.
—Acho que estamos em alguma ilha de loucos que gostam de faz de contas. — Penso. — Na minha cidade sempre tem algumas convenções sobre.
O garoto me olha profundamente só desvia atenção quando a porta se abre e uma menina não muito mais velha que nós entra, e para no canto como se fosse invisível.
—Bom dia. — Digo sorrindo.
A jovem arregala os olhos e fica vermelha, mas logo retribui meu bom dia e abaixa a cabeça. O garoto do barco sorri de repente e vai ate a menina em sua melhor pose de cara bonito.
—Olá gatinha. — Ele pisca para ela que abre a boca em completo horror. — Qual a boa para hoje?
—Seu libertino! — Só vejo na garota puro e completo desespero, ela passa as mãos pelos lados do vestido e sai segurando o choro.
—O que foi isso? — Pergunto.
—Falei algo errado? — Ele olha para a porta.
—Não sei...
Algo brilha azul em cima do criado mudo, me levanto e vou ate lá. Um fleche passa por minha cabeça, antes do colar aparecer a explosão e depois outra e logo estávamos nos afogando, mas eu me lembrava de ser uma concha azul e não uma folha azul. Pego o pingente entre meus dedos e um arrepio me percorreu.
—Por que sinto que é tudo culpa desse colar? — O garoto esta atrás de mim e também olha para a folha. — Não era uma concha azul?
Me viro e olho em seus olhos, sinto que estamos perdidos muito mais longe de casa do que sentimos. Saio do quarto e ando ate encontrar uma criada.
—Em que ano estamos?
Ela sorri como se eu estivesse brincando, mas logo seu sorriso morre e gaguejando ela responde e saia. 1835?
—O que?- O garoto esta atrás de mim. — Esse povo leva o rpg a serio.
—Não sei. — Viro-me para ele. — Algo me diz que é muito mais que um rpg.
—A para! — Ele ri. — Não vai me dizer que acredita que voltamos no tempo.
—Não sei como, mas acho que sim. — Suspiro.
—Não caia nisso, é só uma ilha de pessoas loucas. — Ele passa a mão no cabelo. — Sabe...Não sei seu nome, qual seu é nome?
Reviro meus olhos, jura que nesse momento ele quer passar pelo estagio '' Comprimentos e trocas de nome''? Bem nesse momento, onde não temos ideia do que esta acontecendo?
—Brunne.
—Brunne, legal, o meu é Lucas...
—Nossa! — Coloco a mão na testa.
—O que?- Ele preocupado vem para meu lado. — Esta sentindo algo?
—Não, só que no momento em que trocamos nossos nomes tudo fez sentido.
—Serio? Sabe como podemos voltar?
—Não. — Sorrio inocente. — Só sei que você é bem louco e que estamos em meio a uma crise, mas age como se estivéssemos em um encontro tomando sorvete no parque.
—Não é isso. — Ele se afasta magoado. — Eu te chamaria do que?
—De qualquer coisa, tanto faz, não estou aqui para sermos amigos, na verdade quero ir para casa. Maldita! Maldita hora em que minha mãe decidiu passar esse final de semana na praia.
—Eu também não estou feliz de estar aqui com uma garota chata e mimada, sem falar em ladra de barcos. — Ele das as costas anda um passo, mas volta. — Maldita a hora em que pegou O MEU BARCO!
Lucas me da as costas novamente e me deixa com vontade de quebrar sua cara em socos e entra no quarto batendo a porta feito uma criança birrenta.
Vou para o meu quarto e choro, estou com medo e meu corpo ainda não se acostumou com a mudança de estação um dia verão e no outro outono. As dores no corpo parecem terem retornado com mais força agora que estou deitada. Aperto o colar que ainda esta em minha mão, sei que não estamos em outra ilha, que não são loucos nesse castelo. Estou longe de casa e não são kml, e sim décadas e muitas.
Semanas se passaram desde que cheguei nesse castelo, as coisas ainda estavam bem confusas. Depois de nossa briga Lucas e eu decidimos que teríamos pelo menos que tentar desvendar o que nos trouxe aqui. Percebemos depois de alguns dias que isso não é uma convenção de rpg e que de alguma forma, sim voltamos ao passado. Nossas roupas sumiram desde que fomos encontrados então o rei Ian Gallatuns é quem nos proporciona lindas vestimentas (Da época deles), casa e comida.
Não contamos de onde viemos na verdade confirmamos termos saído do naufrágio da Europa, agora Lucas e eu somos irmãos. Como dizemos "Estamos vivendo em um grande jogo Rpg'', tentamos viver ao modo deles, mas quando estamos sozinhos pensamos em teorias que poderiam nos levar para casa.
Quase toda noite me pego chorando e pensando naquele ultimo dia em minha casa, lendo e pensando em como a minha vida era boa e simples e sem novidades, eu não precisava me sentir andando em chão de vidro, eu me sentia confortável com a monotonia.
—Podemos dar um passeio pelo jardim, senhorita?
Estou sentada no sofá da grande biblioteca que passou a ser meu refugio, não estou lendo, apenas sentada olhando para as capas aleatórias em minhas mãos, quando Rei Ian esta de pé em minha frente.
—Passeio pelo jardim? — ''Não gosto de plantas'' penso. — Que divertido.
—Sim. — Ele sorri. — Um belo lugar para passear.
—Claro que sim. — Minto. — Mas acho que esta frio la fora.
—Sim. — Ele pensa. — Mas tenho muitos casacos de bichos, eles nos manterão aquecidos.
—Claro. — Sorrio fingida. — Adoraria.
Depois de 20 minutos estamos do lado de fora do castelo, as folhas laranjas cobrem o caminho de pedras, por vez e outra o vento sopra forte, elevando as folhas a palmos do chão.
—Esta um lindo dia.
O rei olha para o céu e fecha os olhos, olho para o auto também e não vejo nada de bonito, esta um dia cinzento e morto, daqueles que te faz sentir vontade de estar deitada em sua cama vendo series.
—Sim, esta lindo.
—Esta muito linda hoje, senhorita. — Ele declara.
Estou aprendendo a gostar dos vestidos, na verdade eu amava ler romances épicos e vivia imaginando como seria usar os vestidos e sapatinhos de cristal. Mas descobri que eles não são tão confortáveis, são varias camadas de roupas apertadas. Hoje no caso, uso um vestido rosa bebe com pequenas flores brancas, comparando os outros diversos outros que agora tenho, ele seria aquele trapinho que usando naqueles dias de folga, aqueles confortáveis e feios.
—Obrigada. — Sorrio. — Eu acho esse vestido o mais bonito de todos.
—Não senhorita. — Ele para de caminhar. — Eu não me referia ao seu vestido, ele é bonito, mas só acrescenta sua beleza que já é extraordinária.
Sorrio e abaixo a cabeça envergonhada, e continuo a caminhar o rei me segue.
—Não quis deixa-la constrangida.
—Eu sei, apenas não estou acostumada a receber elogios.
Ian me olha como se minha revelação fosse uma grande mentira, mas não comenta nada. O que era para ser apenas um passeio no jardim se transformou em um passeio ate a praia. Paramos em uma grande roça que fica ao meio do cais, sento-me nela passando a mão no vestido, habito que peguei nessa minha jornada.
—Foi aqui que nos encontraram? — Pergunto olhando para o mar.
—Foi sim.- Ele olha também. — Sente falta de casa?
—Sim. — Digo com sinceridade. — Fico pensando o que mamãe e papai estão passando, no que pensam que fiz e para onde fui. -Sorrio. — Estou com saudades dos meu irmãos, o que pensei que nunca diria.
—Pelo menos tem o Lorde Lucas . — Ele esclarece.
—Sim, tenho o Lucas. — Sorrio. — Mas queria todos juntos, como antes.
—Logo voltara para casa. — Ele segura em minha mão. — Acredite nisso, eu vou te ajudar, quer dizer você e Lorde Lucas.
—Obrigada. — Sorrio. — Eu quero muito agradecer o que tem nos feito.
—Ainda fiz pouco, Lady Brunne.
Sorrio e me levanto seguindo a praia, algo dentro de mim esta mudando e não é de hoje, e eu não estou gostando.
—Precisamos voltar, ou meu irmão ficará bravo.
Seguimos o caminho de volta para o castelo sem muita conversa, apenas olhando para as folhas caídas. O casaco de pele realmente nos manteve aquecidos e chegando em meu quarto entreguei o que usava para o rei e entrei.
—Onde esteve ?
Lucas esta sentado em minha cama lendo um livro de capa marrom, logo o deixa de lado, vem ate mim e pega uma folha laranja de meu cabelo.
—Apreciando a natureza? Não sabia que gostava disso.
—Você não sabe muita coisa sobre mim. — sorrio fingida. — Muita mesmo.
—Sabe Bruh, estamos aqui juntos, mas nos sentimos sozinhos. — Ele senta novamente na cama. — Acho que devíamos tentar melhorar nossa relação.
—Temos uma ótima relação de irmãos.- Digo sentando na penteadeira.
—Na verdade não temos, fingimos quando tem alguém, mas sempre estamos sozinhos. — Ele suspira. — Nesse momento só podemos contar um com o outro, eu quero conversar com alguém e sei que você também.
—Eu quero voltar para casa, antes que as coisas saiam do caminho. — Olho para ele do espelho. — E se ficarmos aqui para sempre?
—Teremos que para sempre contar um com o outro.
Olho para o colar em suas mãos pela primeira vez, segurando o choro.
Fale com o autor