Notas iniciais
É a primeira vez na vida que eu tento escrever algo seriamente. Críticas construtivas são Bem-vindas. ;)

— ELLEN

Em toda a minha vida eu nunca tinha ido a um funeral, e quando vou é o funeral do meu melhor amigo. Ben, o cara que sempre tinha um sorriso no rosto, o cara que deu um soco no Gilbert Fillds por ele ter me falado que eu nunca conseguiria ser uma cientista forense pois pelas palavras dele “lugar de mulher é na cozinha”.

O céu estava azul e sem nuvens, todos de preto, exceto a gangue de idiotas na qual eu estava dentro. Ben nos fez prometer que iriamos com as nossas roupas favoritas. Eu estava com o vestido vermelho que minha mãe usou no baile de formatura, Thomas usava sua calça samba canção que sua mãe nunca deixava usar pelo fato de ser muito espalhafatosa e o Scott, que depois da sua saída de armário icônica usava todas as roupas que um hétero não poderia usar, pelo que seu pai sempre dizia, “um homem de verdade deve usar roupas que mostrem sua masculinidade”. Ele usava uma blusa rosa choque, um terno azul com lantejoilas verdes e um jeans básico, que nas suas palavras não carregava muito o look.

É difícil ter de lidar com o fato de que seu melhor amigo não está só dormindo, pois para mim é o que parece, mas depois da minha crise de raiva no hospital queria provar para todos que eu era capaz, quero provar para ele que eu sou capaz. Por mais difícil que seja imaginar minha vida sem o cara que nunca falou o seu nome por inteiro para nenhum ser conhecido com exceção de nós, a gangue dos idiotas.

—

BEN

A escola sempre me pareceu um lugar seguro, o Sr.Phill lendo os anúncios da manhã, Thomas andando pelos corredores com os braços cheios de livros, Scott sendo comido mentalmente por todas as meninas do corredor e a Ellen revirando os olhos para todo mundo na escola.

Essas sempre foram as constantes na minha vida, por mais supérfluas que aparentem. E eu sempre gostei delas, minha mãe disse que eu não gosto de mudanças e eu concordo, lembro quando ela disse que iria se casar novamente e mesmo tendo 5 anos de idade ainda queria fugir para as montanhas. Mas Delie é legal. E me lembro muito bem do dia que Delie se apresentou, eu tinha me escondido de baixo da mesa e ela chegou para mim e disse:

— Ben, a vida é feita de mudanças ou você nada com elas ou você se afoga.

E foi isso que eu fiz, eu nado, literalmente.

— De’lion – a voz do treinador Hugges me faz acordar para a vida. — dá pra prestar atenção ou quer ficar tendo sua fantasia sexual com o esfregão? — e antes que eu possa responder com um comentário sarcástico ele começa o discuso de início de temporada – como todos vocês magrelos sabem, a temporada começou e com ela.. — vem o grande dever de vencer a próxima competição e bla bla bla, ele nunca me escolhe, eu sou o cara do banco. Quem fica no banco em natação?!

— Jonas vai ficar nos 200 metros livres, De’lion 200 metros de borboleta, José… — Ele disse meu nome?

— Treinador dá pra repetir?

— Sim De’lion você vai nadar, quero o seu melhor e não me venha com as desculpas de tontura ou sei la o que faça você ir para a enfermaria.

— A Sra. Lynds talvez...- diz Taylor, seguido de risadas por todo o time de natação, se referindo a bela escultura que é a enfermeira da escola. Apesar que nas últimas vezes parecia que minha cabeça ia realmente explodir, talvez seja a beleza dela me afetando.

— A competição é no próximo sábado e apesar de ser “só uma competição regional” quero que vocês nadem como se fosse as olimpíadas, entenderam?

Depois do treino segui para a aula de Biologia na sala da Sra. Rindy, ela é uma ótima professora, mas ela fala cuspindo fazendo com que a aula dela seja um castigo para todo mundo. A sala dela fica no primeiro andar da escola, o que é ótimo já que assim eu não preciso subir as escadas desnecessariamente enormes para a aula do Sr. Flyn, o outro professor de Biologia. Chegando na sala me deparo com a Ellen sentada no fundo com os fones ouvido e olhando bem mais concentrada que o necessário para a janela, ela não repara quando eu me sento no banco ao seu lado então eu continuo a olhá-la, ela tem um nariz pequeno e pontudo que dá vontade de apertar e fazer o barulho de uma buzina, o cabelo dela está – finalmente — na sua cor natural, um castanho que no momento está meio vermelho por causa da cor do sol da manhã vindo da janela, acho que ela já esgotou todas as cores possíveis de se pintar um cabelo. A professora entra na sala e Ellen tira os fones de ouvido e olha diretamente para mim, os olhos dela são de um preto que ficaria assustador se você não a conhecesse.

— Se divertindo Benzinho? — pergunta ela com a sombracelha esquerda levantada.

— Bastante... – disse apertando o nariz dela e fazendo um barulho agudo que chama a atenção de toda a turma e inclusive da Sra. Rindy.

— Quando eu concordei que vocês se sentariam juntos esse ano eu sabia que seria um grande erro. — disse a Sra. Rindy molhando a primeira fila de alunos enquanto se dirigia para os fundos onde nós estávamos.

— Então porque concordou Sra. Rindy? — perguntou Ellen cruzando os braços em cima da mesa. Já estou sentindo a desconfortável cadeira da sala direção.

— É uma coisa chamada gentileza Senhorita Legado, você devia usar de vez em quando. — disse a professora fazendo uma pausa para respirar, o que ela sinceramente não deveria ter feito pois ela só deu mais palha para a cabeça quente da Ellen.

— E a escola deveria dar um guarda-chuva para assistir sua aula, mas você não me vê reclamando. — disse a Ellen com o rosto vermelho.

— Uma capa de chuva também serve. – me vi dizendo e no mesmo momento me arrependendo amargamente. A sala toda estava nos encarando, alguns estavam tentando até mesmo disfarçar o riso.

— Os dois fora da minha sala, AGORA! – disse a professora de Biologia gritando a todos os pulmões e posso jurar que o cuspido dela chegou na janela atrás da gente.

A Ellen -que já tinha chegado na porta antes mesmo que eu pegasse a minha mochila me fazendo correr para alcançá-la — parecia possessa, ela sempre teve a cabeça quente. Aposto todo meu dinheiro, que deve chegar a 50 centavos, que vamos ficar de detenção, talvez não, mas já levamos duas advertências esse ano por causa do clube de A.r.t.e. então as chances são altas.

A direção fica logo na entrada principal da escola, o que nos dá uns 5 minutos de caminhada da sala de biologia até a sala do medo, mas com a Ellen basicamente marchando de raiva, duvido que demoremos 3 minutos.

— Ellen, que tal respirar fundo? — disse inseguro, quando ela está com raiva, qualquer um é um alvo em potencial.

— EU não quero RESpirar fundo – diz a Ellen num grunhido que faz com que o sotaque espanhol da família dela apareça.

— Mas você deve, se você chegar assim na sala do fortão duvido que vamos ser permitidos de vir pelo resto da semana. — ela para no meio do corredor e olha para mim com os olhos pegando fogo, eu consigo ver suas mãos fechadas em punho, e dou um passo para atrás só por segurança. — E talvez nos tenhamos sido um pouquinho mal educados com a professora. – disse olhando para o chão, aquilo lá dentro foi completamente desnecessário pensando agora – Era só ter pedido desculpas sabe… — termino a dizer levantando meus olhos, ela parece mais controlada agora, o que se traduz como uma vitória.

— Eu sei, mas eu não consigo me controlar. — disse ela no meio de um suspiro muito longo – E você não tinha nada que ficar falando pelos cotovelos sobre capas de chuva, fala sério, você só falou aquilo para não me deixar ir sozinha na detenção, o que foi bem mais desnecessário que tudo isso junto – disse ela mexendo as mãos do mesmo jeito que o pai dela faz quando ele está dando um sermão na igreja da família dela.

— Como se eu pudesse me controlar, eu defendo todos os meus amigos e você sabe disso. — disse dando o meu meio sorriso que acabou virando a minha marca registrada.

— Idiota...- disse ela mais calma, se fosse qualquer outra pessoa na minha frente eu receberia um abraço, mas Ellen não é de abraços, então tudo o que ela faz é virar para a direção da sala mortífera com semblante muito mais tranquilo.

Recebemos a detenção afinal, pelo menos a Ellen recebeu, eu fiquei de fora por causa do time, o diretor sabe que com uma detenção o treinador me tiraria da competição regional e a escola precisa de mais troféus, nem que seja do time de natação. Mas ainda faltam 20 minutos para a próxima aula, sentamos na sala de espera da direção, a garota de nariz pontudo estava bem mais tranquila, ela está mexendo no celular. Provavelmente ela não quer conversar sobre o motivo dela estar tão nervosa, então tudo o que eu faço é observar a sala, esperando que ela comece a conversação.

Não demora muito. Ela sabe que eu sei que tem algo de errado.

— Foi minha mãe. — ela começa, eu olho para ela que agora está com a cabeça apoiada na parede. — ela disse que depois da faculdade eu não preciso voltar para casa, pois eu não serei bem-vinda. E que uma filha como eu não é cria de Deus, e você já sabe o resto. — A família da Ellen é super religiosa, o que seria bom se eles não fossem tão conservadores. Para eles o fato dela não ser perfeita como as irmãs deixa os pais furiosos, e a Alice a irmã mais nova não ajuda muito, sempre culpando a Ellen por tudo e sendo uma espiã de tudo o que ela faz fora de casa, tudo isso com a desculpa de que tudo o que a garota faz é um pecado.

— Sinto muito. Você sabe que pode ir la pra casa quando quiser, até minha mãe já disse isso.

— Só pioraria as coisas e você sabe disso, eu teria que mudar de cidade para ficar em paz. — disse Ellen com os olhos lagrimejando.

Tudo que eu podia fazer no momento era segurar a mão dela e mostrar que eu estava ali. E foi isso que eu fiz, ela puxou os fones de ouvido do bolso, colocou um no meu ouvido e o outro no dela. E ficamos ali por vinte minutos escutando Duran Duran.

Notas finais
Se quiser pode deixar um comentário que eu não vou achar ruim. Espero que tenha gostado. ;) ps: Se você encontrar algum erro gramatical me avise, eu sou meio lerda :D