Notas iniciais
Mais de 20 anos se passaram desde a Batalha de Hogwarts e Harry Potter ainda enfrenta muitos desafios no Ministério da Magia.Chefe dos Aurores já há alguns anos, Potter organiza uma emboscada na antiga casa dos Riddle, ao lado de Ron Weasley, o novato Teddy Lupin e de Leonardo "Leo" Marcus, um auror brasileiro.

A lua cheia erguia-se sobre a névoa noturna. Os contornos da velha casa recortavam a paisagem ao longe, dando a Leonardo Marcus um mau pressentimento.

"Vai ser uma noite difícil", pensou, "tomara que sobrevivamos a ela".

Eles sabiam que estavam sendo cercados. É claro que sabiam, afinal essa era a técnica deles há muitos anos atrás. Os Comensais da Morte podiam ter se aposentado há muito tempo, mas mesmo assim, como dizia o ditado, "velhos hábitos custam a morrer".

Uma minúscula modificação na corrente de ar denunciou a chegada de alguém. A aparatação em si não fez barulho algum por um motivo muito simples: o recém-chegado vieram em uma chave de portal. Pouco ortodoxo e muito trabalhoso, mas silencioso e eficaz. Protocolo padrão para ataques furtivos. Incomum ao gosto de Marcus, mas ele sabia que Potter não chegara ao topo da cadeia de aurores mantendo velhos costumes ativos. Para ele, ao contrário dos Comensais, velhos hábitos deveriam morrer.

A voz grave de Ronald Weasley cortou os pensamentos dele.

Boa noite, Marcus.

Boa noite, Weasley.

Weasley mirou a velha casa à distância e ergueu a gola do casaco, protegendo-se do vento frio.

Sinistra, né?

Leo concordou com a cabeça. Perto dali um cemitério estranho abrigava os ossos que fizeram ressurgir o Lorde das Trevas há mais de vinte anos. Desde aquela época ninguém pisava naquelas terras... Até agora.

Weasley não chegara sozinho, mais dois vinham com ele: Roger Johnson e...

Oh, Deus, não.

E aí, curupira, beleza? Teddy Lupin costumava chamá-lo assim desde que soubera da misteriosa raça de curupiras no Brasil. Em todas as oportunidades em que se encontravam ele gostava de irritá-lo, principalmente quando estava de folga e não podia prendê-lo por desacato (na verdade em nenhum momento Leo poderia prendê-lo, na verdade, sendo afilhado de quem era). Mas o garoto tinha o dom de transformar não só o rosto como também a voz para irritá-lo da pior forma possível. Tinha o péssimo hábito de chamar atenção por onde passava. Principalmente com os cabelos azuis que gostava de ostentar.

O que está fazendo aqui? sussurrou Marcus.

Teddy passou no exame, que Deus nos ajude respondeu Johnson.

É auror Lupin, agora, Roger, se me faz o favor retrucou o rapaz com um sorriso arrogante Sou o mais novo auror do Ministério.

Será o mais novo defunto do Ministério se não calar essa boca uma voz respondeu no meio deles.

Harry Potter apareceu do nada, retirando a capa da invisibilidade de uma vez e olhando feio para todos. Depois de um momento de tensão, virou-se para o afilhiado.

Acho que deveríamos fazer silêncio aqui, não? Não aprendeu nada no treinamento, garoto?

Teddy abaixou a cabeça numa falsa resignação. Ainda era possível ver uma linha de sorriso em seus lábios.

"Ele confia demais no padrinho", pensou Leo. "Isso pode dar um baita problema um dia".

Há quanto tempo estava aí? perguntou Ron Weasley.

Desde antes de você chegar. Estava observando o terreno.

"Observando a mim, você quer dizer", Leo pensou novamente. Desde que chegara do Brasil e assumira o cargo de Inominável na Cooperação Internacional (graças a uma forcinha Hermione Weasley), Harry Potter o seguia onde ia com os olhos. Na verdade, Potter sempre espiava cada novato que podia. Leonardo achava que a desconfiança havia passado meses atrás, mas depois dos boatos de terroristas bruxos vindos da América tudo pesara sobre ele novamente.

Semanas atrás o pior ato de terrorismo em décadas acontecera em Londres. Depois de anos de inatividade (principalmente devido aos esforços de Potter para colocá-los na cadeia) pretensos Comensais da Morte invadiram furtivamente a casa de Kingley Shacklebolt, Ministro da Magia e tentaram matá-lo. Obviamente fora uma péssima ideia.

Quim Shacklebolt era (e ainda é) um duelista notável. Em poucos segundos ele os pôs em nocaute e saiu ileso, mas com dezenas de perguntas a serem respondidas. Entre elas aquela que causara a maior de todas as crises diplomáticas dos últimos vinte anos: o principal atacante era membro do Departamento de Aurores da Organização Mágica da América (o Ministério da Magia do outro lado do Atlântico) e o pior de tudo: o desgraçado era brasileiro.

Dali para desconfiarem do novato Leonardo Marcus, recém-chegado da Cooperação Internacional foi um pulo, principalmente depois que aquela idiota da Skeeter deixara vazar a informação da nacionalidade do sujeito. Os olhares atravessados que enfrentava todos os dias no saguão do Ministério eram uma verdadeira tortura. Acabara se redimindo com os aurores ao descobrir um núcleo de apoio aos Novos Comensais operando na região do nascimento de Voldemort, o que levara-os àquela fatídica noite fria que agora enfrentava junto aos colegas aurores.

Está tudo pronto? Leo foi incisivo.

Sim respondeu Harry, convicto e encarando-o. Depois virou-se para os outros Tenho três homens que vão atacar a partir daquela área disse apontando para algo que deveria ser um jardim mal cuidado Assim que dermos o sinal vocês entram pelas janelas.

Entrar pelas janelas? Johnson perguntou Como?

Com isso ele jogou no chão três vassouras tiradas sabe-se lá de onde. Corria o boato que os bolsos do casaco de Harry Potter traziam de tudo desde que ele aprendera a fazer corretamente o feitiço de extensão indetectável. Na verdade ele estava sempre preparado para tudo. Alguns diziam que era tão ou mais paranóico que o finado Alastor Moody. Leo não chegara a conhecer Moody, mas se fosse mais paranóico que Harry Potter deveria ser realmente um maluco.

Por que não simplesmente aparatamos lá dentro? perguntou Teddy.

"Perguntas idiotas. Alguém sempre deve fazê-las". Foi isso o que Leo pensou antes de responder.

Bloqueamos o local para aparatações há meia hora. Feitiços de proteção sólidos.

Ótimo falou Lupin pegando uma vassoura.

Você não retorquiu Potter, tirando a vassoura da mão do rapaz de supetão e entregando a Leo Você fica aqui.

O quê?! Mas eu...

Shh, silêncio Weasley interrompeu a conversa Abaixem-se.

Abaixaram-se atrás de uma lápide e observaram a casa. Uma estranha movimentação na janela denunciava a presença de alguém lá dentro. Uma luz azul de movia dentro do quarto.

Será que nos viram? perguntou Teddy, assustado.

Talvez tenham visto seu cabelo azul e desconfiaram de alguma coisa Leo respondeu.

Teddy o olhou com uma raiva latente, mas Leo sabia que não havia sido culpa do garoto. Provavelmente um deles havia tentado desaparatar e depois de não conseguir, desconfiara que algo estava errado.

Quantos são? inquiriu Potter, sério.

Leo puxou a varinha e concentrou-se:

Homenium Revelio.

Uma fraquíssima luz azul se formou no meio deles. Quatro miniaturas surgiram ali, paradas da mesma forma como deveriam estar dentro da casa, pequenas versões azuladas das pessoas que estavam lá dentro. Um estava acima dos outros três, pairando no ar. Este era o que estava no segundo andar, observando pela janela. Os demais conversavam no andar de baixo. Todos os quatro empunhavam varinhas, apontadas para baixo. Estavam de prontidão, mas não alarmados.

Na verdade, Leonardo reparou que pareciam concentrados. Estavam fazendo alguma coisa. Mas o que era? Seu senso de perigo começou a apitar.

Tem alguma coisa estranha... Potter também havia percebido.

O quê? Teddy Lupin não conseguia ficar calado.

Estão reunidos em pé em volta de alguma coisa. O homem no segundo andar está de guarda. Os demais não devem estar conversando, estão executando algo. Veja como movem as varinhas.

Parece um feitiço.

Leonardo aproximou-se. O mau pressentimento o assaltou. Isso não pode ser bom.

Precisamos interromper isso agora!

Vamos esperar respondeu Potter.

O senso de perigo o alertava cada vez mais forte.

Uma voz o alertava na mente: "Interrompa agora. Interrompa agora".

Uma sensação de medo iminente o impeliu num pulo.

"Interrompa já!"

Sem esperar sinal algum, Leonardo subiu na vassoura, e sem ligar para as reclamações de Harry Potter, impulsionou-se rumo à casa. Calculou mal o impulso e quase raspou na grama (não tinha intimidade com vassouras), mas com uma guinada para cima partiu em direção à janela mais próxima. O homem que a guardava assustou-se e lançou uma luz verde na direção dele, mas felizmente não tinha uma mira muito boa. Leonardo apontou a varinha e berrou:

Estupefaça!

Vidro e homem foram empurrados para trás com violência e ele passou ileso pela janela estilhaçada. Pulou da vassoura em pleno ar e apontou para a porta.

Colloportus!

A porta trancou-se magicamente e o quarto ficou lacrado. Ninguém fugiria por ali. O homem permanecia desacordado no chão de madeira. Uma máscara cobria seu rosto. Leonardo aproximou-se e, sem pensar duas vezes, arrancou a máscara, expondo quem a vestia.

Não o reconheceu. Era um rapaz magricela, com olhos desfocados e uma pele pálida e macilenta. Os dentes eram um pouco grandes para o rosto e se sobressaíam na boca semiaberta. Johnson entrou pela janela com a vassoura logo depois e ao perceber o homem caído pareceu surpreso.

Você ficou louco? Tem ideia do que acabou de fazer?

Você o reconhece?

Johnson aproximou-se do homem caído.

Lumos. Parece Paul Nott. O pai dele era Theodore Nott, um Comensal que está preso em Azkaban. Ele testemunhou contra o pai. O irmão está sob suspeita.

Ouviu-se um estampido no andar de baixo. Não havia tempo a perder.

Fique de olho nele. Eu já volto.

Como assim? Para onde...

Leonardo apontou para baixo.

Deprimo!

O chão abaixo de seus pés rachou e ele caiu como uma pedra na sala de estar, coberto de poeira e lascas de madeira. Cinco pessoas estavam ali. Um comensal desacordado e dois de pé, apontando para os três aurores que haviam arrebentado a porta. Durante um mísero momento todos olharam para ele. Isso não foi bom para os comensais. Os outros aurores aproveitaram para atacar.

Estupefaça!

Os comensais caíram no chão, desacordados. No meio da sala, o estranho objeto ainda brilhava com uma luz verde e tóxica. Os aurores olhavam para ele, fascinados pelo brilho.

Não olhem para isso! Fechem os olhos! Fechem agora! alertou.

Eles não obedeceram. Estavam como que enfeitiçados. Leo apontou para uma das cortinas e ela obedientemente caiu sobre o objeto, cobrindo sua luz e erguendo uma nuvem de poeira. Harry Potter entrou pela porta principal, seguido por Weasley e por Lupin, que de tão assustado mudara os cabelos para laranja fluorescente.

O que foi isso? O que está fazendo, Marcus? Colocou em risco toda a operação! Explique-se!

Os aurores começavam a voltar a si. Seus olhos abaixaram-se para o objeto no meio da sala.

Que negócio é esse? perguntou Weasley.

Leo abaixou-se e descobriu o objeto cuidadosamente, que agora não emitia brilho algum. Potter deu dois passos para trás.

Mas isso... Isso deveria estar em Hogwarts! Como foi que saiu de lá?

Isso eu não sei. Mas o que eles queriam fazer com ele é que me preocupa.

Potter olhou fixamente para aquele espelho que, um dia, o havia fascinado. O Espelho de Ojesed não era um objeto estranho, muitos o conheciam... Mas o que estaria fazendo ali? Na Casa dos Riddle?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.