O caso de Eduardo Stone

1 O caso de Eduardo Stone


As mansões de Alphaville sempre atraíram sonhos, desejos e ambições daqueles que ouvem os relatos de sua grandeza e imponência. A alta sociedade paulistana cujas vidas supérfluas transpiram a distinta realidade ao do povo brasileiro. Entre este seleto grupo de escolhidos e abençoados pelos atos ilícitos ou exploratórios se encontra a imagem da perfeição, a concretização do paraíso em terra mortal.

Eduardo Stone, neurologista que renome mundial, grande herói de políticos, atletas, artistas que acometidos por algum infortúnio encontraram a salvação nas mãos de tão bondosa alma: homem, caucasiano, quarenta e cinco anos no apogeu de sua beleza e juventude. A própria imagem do deus Apollo e, como o tal, a grandiosidade estende-se a família.

Úrsula Deshayes, descendente de ciganos luxemburgueses que migraram para o Brasil durante a década de 40, fugitivos da guerra que assolava o mundo na época. Encontraram em terras brasileiras um lar, um recomeço. O tempo fez com que sua rica herança cultural fosse esquecida para que a nacional fosse abraçada, ou pelo menos, isto é o que ensinaram às filhas e netas. Porém, no paraíso, a realidade mora à porta. A verdadeira razão para mudança cultural foi o preconceito. Quando a neta, Úrsula, nasceu o preconceito aumentou: mulher, negra, cabelos de cachos volumosos e olhos verdes que refletiam as antigas bruxas européias. Infância e puberdade foram épocas duras, mas a glória vem para os que persistem.

Úrsula Deshayes, quarenta e dois anos, idônea oncologista, inúmeros artigos publicados nos principais jornais científicos do mundo, trabalho respeitado e admirado por todos. Para a hipocrisia não há espaço para preconceitos nem realidade; eis as razões para que ninguém suspeitou, ninguém imaginou que tamanha tragédia aconteceria.

Casados há sete anos, Úrsula e Eduardo esbanjavam a vida que tantos sonham e poucos concretizam. Que pena seria se fosse nada mais que uma máscara. Que pena seria se a realidade fosse a mesma de tantas outras.

Para Eduardo as aparências eram tudo de verídica importância, uma personalidade cruel e inescrupulosa, desdenhava de pacientes, atitudes ciumentas e possessivas para com a esposa simultâneas às sua amantes.

Anoitecer de uma sexta-feira de verão, ápice de uma crise de ciúmes movida pelo consumo excessivo da bebida. Companheira antiga. Para Úrsula seria apenas mais uma crise ignorada junto a um suspiro. A serenidade da consciência limpa.

Mas que pena, não era apenas mais um dia. Quando Eduardo usou de meios violentos, de agressão física contra a esposa que nada havia feito, a situação saiu do controle.

Nas duas semanas que se seguiram ao fatídico dia, maquiagem foi a solução para Úrsula Deshayes, enquanto a atuação de ambos ocorria como se nada houvesse acontecido. Mas aquele foi apenas o Ato I da peça teatral que fascina a alta sociedade.

Quatro, foi o número de vez que o ato se repetiu até que a quase infinita paciência da oncologista se findou.

Para uma médica de tamanho renome e influência, alguns comprimidos de cloreto de potássio não são difíceis de conseguir; na verdade, é algo tão simples quanto reconhecer uma metástase, ou quem sabe, respirar. A beleza do cloreto de potássio é tão deslumbrante e satisfatória para Úrsula quanto a medalha de ouro para um atleta olímpico em sua primeira consista.

Quando uma gastrite incomodou o doutor Eduardo Stone, ele se viu obrigado a abandonar, por um tempo, sua amada bebida, consumida sistematicamente em toda refeição noturna, eis a brecha que Úrsula ansiava. Durante o preparo do jantar, que a dedicada esposa fez questão de preparar, os comprimidos foram acidentalmente dissolvidos no copo de suco do marido.

Meia hora depois, quando o casal se preparava pra dormir, Eduardo deixou cair o livro que lia, já que sua mão não mais obedecia a seus comandos. Seus músculos contraíram seguidos da dor excruciante similar de uma intensa cãibra. Quem imaginaria que não era uma cãibra, mas o início da paralisia de seus músculos.

O cloreto de potássio, quando ingerido na quantidade que Úrsula tão cautelosamente serviu ao marido, faz com que a acetilcolina, neurotransmissor responsável por ativar as reações bioquímicas que contrai os músculos, entrasse em atividade elevada. Esta ativação envolve a troca dos íons cálcio por potássio nas células resultando na liberação de energia para o movimento de contração muscular, o potássio em excesso atrapalha este processo natural do corpo humano paralisando o músculo. Esta reação ocorre em todos os músculos do corpo, principalmente no mais ativo: o músculo cardíaco. Para Úrsula, o período de dor de seu marido foi mais rápido que o desejado, para ele, se arrastou por eras.

A dedicada esposa ligou aos prantos para a emergência, buscando socorro para o marido que sofreu de um ataque cardíaco, mesmo prestando os primeiros socorros aprendidos na faculdade.

A fama e o dinheiro lhe permitiram o papel de viúva destroçada, mas procedimentos padrões são necessários em todas as situações e Úrsula foi proibida de sair da cidade enquanto o laudo da perícia não era liberado, afinal, um médico de saúde impecável não deveria falecer tão precocemente.

Após o enterro, onde Úrsula recebeu todas as condolências prestadas e chorou como nunca se imaginava capaz, voltou para casa onde buscou suas malas e seu passaporte.

Cinco gramas de cloreto de potássio são fatais, sete gramas é precaução; quando o exame toxicológico descobrisse e as suspeitas se voltassem para a esposa, a polícia encontraria a mansão de Alphaville impecável como sempre, contas bancárias sem nenhum centavo e Úrsula Deshayes em Luxemburgo, um dos mais belos paraísos fiscais do mundo.

Notas finais
Texto escrito para o concurso literário que a minha faculdade realizou ano passado. Espero que tenham gostado!
Obrigado por lerem!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!