O casarão no fim da rua
4 Regras do jogo
Notas iniciais
Capitulo 4
Assim que as portas se abriram, Daria sentiu um frio percorrer por sua espinha. O cheiro de mofo lhe fez lacrimejar em poucos instantes e o vento gelado vindo de lugar nenhum a fez se encolher dentro de seu casaco. A menina olhou ao redor: todos aparentavam animados e sorridentes; mas é claro que estaríam. Ela mesma estava.
Daria não havia feito nada demais até então. Fora uma semana muito monótona de férias. Passára o natal com seus amigos no prédio principal, comendo pizza e energético, e estudando. Estudando muito. Suas notas haviam começado a cair de uns tempos pra cá, e a estudante sentia que havia ido mal nas provas finais antes do feriado. Ela gostaria que tivesse uma família para ir visitar. Ela gostaria de ter a chance de esquecer um pouco sua vida universitária, seus problemas, dar uma folga. Não se pode ter tudo na vida, pensou, forçando-se a dar um sorriso e prestar atenção no que os outros diziam. Só então notou que sua melhor amiga, Alice, estava lhe contando algo.
– O que disse?
– Você não estava prestando atenção nenhuma ao que eu falei, não é?
Daria olhou para a amiga, que riu ironicamente.
– Ai Daria, querida — Alice sorria — você não tem jeito mesmo. – Ela olhou para os outros quatro jovens que seguíam Henry e Fred para dentro dos enormes halls.
Se o lugar por fora era assustador, por dentro conseguia ser ainda pior. O chão, que não possuía acabamento em seu piso era coberto por carpetes vermelho-escuro, detalhadamente costurados a mão. As paredes possuíam um denso forro negro, provavelmente destinado a proteger o cômodo do gelo invernal. Diferente de uma mansão abandonada que se vê em filmes de terror — dos quais Daria amava — não haviam quadros pela parede. Na verdade, não havia quase nada na sala principal. Há direita, havia um sofá pequeno de acabamento rústico, duas poltronas com almofadas destroçadas pelo tempo, e fechando o quadrado havia uma lareira que provavelmente não fora acesa por muitos anos. O lado esquerdo da ala principal havia uma grande mesa de jantar, novamente com um aspecto rústico e com um péssimo acabamento. Ao lado havia uma porta que, Daria pensou, provavelmente daria para uma cozinha.
– Muito bem, muito bem, já podem se calar agora — Fred interrompeu a conversação de todos.
– Ow Fred — Gritou o garoto Rob de algum lugar — Que merda é essa? Você ainda não explicou nada para a gente, nos arrasta para esse lugar que cheira a peido de velho e ainda quer que a gente se cale?
Fred revirou os olhos.
– Robert, você fica mais atraente quando está de boca fechada — Fred riu — então aproveita que as gatinhas estão aqui assustadas e cala a boca. — O lugar explodiu em risadas, e Rob corou. Pelo menos assim ele fica quieto por um tempo, pensou Daria. — Agora, meus amigos, prestem atenção. Eu sou uma pessoa muito atenciosa e preocupada com o bem estar de todos vocês — Isso não era de tudo mentira. Na verdade, a maioria das pessoas naquele lugar eram pelo menos um pouco amigas da dupla Fred e Henry. A própria Daria andava com os dois sempre que podia — E por isso, planejei esse pequeno jogo.
– Não duvidaría nada se você tivesse nos arrastado para alguma espécie de jogos mortais — riu Alice sarcasticamente. Aquilo não era um bom sinal, pensou Daria consigo mesma. Alice apenas ativava seu modo sarcástico em momentos de muita tensão, ou quando estava nervosa. Algo naquele lugar a estava fazendo nervosa.
– Bom, minha querida Alice — continuou Fred — você chegou bem perto, na verdade. Creio que aqui todos nós nos conhecemos, e, porque fiquei muito inspirado essas férias, decidi colocar minha ideia em prática. Entendam, já conheço esse lugar há um bom tempo — Ele fitou a todos — e não quero que façam perguntas a respeito. De qualquer forma, o jogo terá dois juizes, eu e o grandão aqui — Fred apontou para Henry — e várias gincanas variadas. O jogo terá uma duração de sete dias. E baseado na pontuação de cada jogador, um jogador será eliminado por dia. O ganhador será o último restante.
Todos voltaram a falar ao mesmo tempo, confusos.
– Ta bom, mas aonde iremos dormir?
– O que a gente vai comer?
– Como vamos nos aquecer? Não tem um único aquecedor nesse lugar, e duvido que a água tenha aquecimento.
– Como vamos sequer nos trocar?!
Fred se viu subitamente bombardeado por diversas perguntas de todos que estavam ali presentes. Se o garoto se abalou por algum instante, no outro já parecia perfeitamente bem, com tudo sob controle.
– Vocês realmente acham que eu não pensei nos detalhes, meus amigos? — ele sorriu — Pode ter certeza, haverá comida o suficiente para todos nós; e eu nunca disse que vocês não podem sair da casa. Claro, deverão ir e vir acompanhados ou com a permição de um de nós – a essas alturas todos já sabiam a quem Fred se refería ao dizer nós – e se ficarem fora por mais de duas horas, então serão eliminados do jogo automaticamente. Para o banho, já dei um jeito nisso. Os banheiros daqui estão funcionando (quase) perfeitamente. E quanto aos aposentos… Bem. No total, tem quatro quartos nessa casa. Todos no andar de cima. Em cada dormitório, cabem duas pessoas. Escolham com quem querem passar as próximas sete noites de suas vidas, e até as oito da noite vocês podem ir até suas respectivas casas pegar quaisquer utensilios que quiseram usar, malas, roupas e coisas como essas. Mas se não voltarem, já sabem o que irá acontecer.
Daria estava na verdade muito animada com a ideia. Estava sim, um pouco receosa, como todos ali, mas sabia que seria divertido. Sua colega de quarto óbviamente seria Alice — ambas já eram colegas na fraternidade que moravam — e aquela seria uma boa oportunidade para fazer novos amigos. A menina olhou para um grupinho meio isolado dos demais; Amber, Arthur e Melissa. Daria era até que bem amiga da garota de cabelos cacheados e olhos negros, mas não falava muito com os dois últimos. Mas ela gostaria de poder conhecê-los melhor — pareciam realmente muito interessantes e divertidos; já os ouvira conversando antes, e até já os cumprimentara uma ou duas vezes. Mas duvidava muito que sequer soubessem seu nome.
Fred interrompeu seus pensamentos.
– O primeiro jogo começará hoje, e-
– E porque iriamos querer jogar esse jogo? Ficar sete dias nesse fim do mundo? — Perguntou Alice — O que nós ganhamos com tudo isso?
– Qualquer coisa. — Disse Fred — No fim do jogo, o ganhador pode me pedir qualquer coisa relacionada a material escolar, trabalhos, cola, dinheiro e bolsa de estudos até o final do semestre. Qualquer coisa.
– E porque deveriamos confiar em você?
Fred, como de costume, sorriu sarcasticamente.
– Algum dia, minha cara Alice, eu descumpri alguma promessa?
Fale com o autor