O caos
1 o impacto
O IMPACTO
365 dias antes.
02h14min da madrugada – 21 de agosto de 2014.
Perdida e insegura. Essas palavras poderiam classificar bem como Lilian Evans se encontrava naquela noite.
A menina odiava festas, odiava mentir para os pais, odiava o como a bebida alcoólica fazia as outras pessoas agirem. Mas a cima de tudo, ela odiava ter deixado sua melhor amiga, Marlene, a convencer de ter ido aquele lugar. De todas as coisas que a menina queria fazer, a única era de fato ir embora.
Mas ela sabia que julgando pela movimentação e o entusiasmo das pessoas, aquilo tudo estava longe de acabar. Sendo assim, Marlene também estava longe de querer ir embora.
A menina tinha apenas 16 anos, ela nunca havia bebido uma gota de álcool, nunca havia tragado um cigarro ou nada alem disso, e muito menos usado drogas. O logo ‘’sexo, drogas e rock n’ roll’’, era algo que ela estava longe de estampar no peito. O mesmo não podia se dizer de sua melhor amiga.
Ambas conseguiam ser completamente diferentes. Marlene tinha cabelos loiros e tinha olhos azuis já Lilian tinha cabelos ruivos e olhos verdes, daqueles tão profundos que até esmeraldas se pudessem sentir, sentiriam inveja.
Se uma gostava de azul a outra gostava de amarelo. Se uma gostava de cachorro a outra preferia mais gatos.
Porém mesmo com tantas diferenças, ambas se conheciam desde os 7 anos, e gostavam da presença uma da outra. Na verdade Manuela amava sua melhor amiga, ela só não amava quando a mesma a arrastava para festinhas universitárias cheias de gente bêbada.
A menina gostava mesmo de ficar em casa assistindo suas series, lendo seus livros e interagindo no twitter sobre como o the voice estava cheio de gente talentosa.
Mas ali estava ela, após mentir para os pais que ia dormir na casa da amiga, pois ambas fariam uma maratona de series.
Talvez tenha sido um erro muito grande quando a mesma decidiu que não ia mais ficar sentada nos degraus da escada da casa onde ocorria a festa e iria interagir com alguém.
Na sala, que no momento era uma pista de dança improvisada, era onde se encontrava a maioria das pessoas. Muitas delas já caindo de tão bêbadas.
No corredor, que era onde a morena se encontrava no momento, estavam os casais. Muitos tão chapados que não se sentiam nem um pouco incomodados de ficar constrangendo alguém enquanto se pegavam.
A garota cogitou voltar a se sentar na escada enquanto ficava jogando seu candy crush. Mas além de sua bateria estar quase no fim, seu tédio era tão grande que quase fazia sua cabeça doer.
Por conta disso foi para a cozinha, e se surpreendeu, pois o local estava quase que vazio. Apenas algumas pessoas meio desmaiadas em cima da mesa e outras jogadas no chão abraçado em garrafas de catuaba.
A menina encarou umas garrafas de vodka barata, e cogitou beber, talvez assim ela se sentisse melhor e menos mal por estar naquele local. Foi na inocência de alguém que nunca tinha bebido antes que ela encheu um copo de cachaça, a cor a fez acreditar que aquilo era uísque. O primeiro gole que ela deu fez seu corpo se arrepiar, uma vontade imensa de vomitar e seus olhos se fecharem com força. Era o pior gosto que ela já havia sentido em sua vida.
E foi ai que ela desistiu.
01h30min da madrugada – 21 de agosto de 2014.
Existem muitos tipos de pessoas no mundo, inclusive existem muitos tipos de meninos e meninas.
Sirius Black era aquele tipo de menino que tem vários amigos, bonito, rico e em determinados momentos um completo idiota.
Ele amava beber, amava festas e amava sua vida de universitário. Aos 18 anos o menino descobriu que odiava humanas, não era bom em exatas e tinha pavor por biológicas. Porém ele gostava de animar as pessoas, gostava da agitação, por isso ele decidiu que iria ser DJ. Mas seus planos foram por água a baixo quando seus pais, médicos formados, o obrigaram a fazer uma ‘’faculdade decente’’,palavras deles.
Sendo assim, após dois anos de cursinho ele entrou no curso de direito em uma federal e passou a dividir um apartamento com seu melhor amigo. Porém seu sonho nunca morreu, sendo assim ele permanecia tocando como hobby nas festas universitárias.
Naquele dia seu melhor amigo, James Potter, havia acabado de descobrir que tinha sido traída pela,recentemente, ex-namorada.
A garota estava indo viajar para passar quinze dias nos Estados Unidos, e foi enquanto James e se despedia dela que ela simplesmente jogou a informação e foi embora.
Como dito, Joaquim às vezes conseguia ser um completo idiota, isso significa que ele tinha também, ideias idiotas. E foi no calor e na raiva do momento que ele convenceu James a dar uma festa na casa da garota que tinha feito isso com seu amigo. Como eles namoravam há um tempo à menina confiava o suficiente nele para ter lhe contato onde ela guardava a chave reserva da casa em que morava sozinha na grande Londres.
E foi assim que eles organizaram tudo, compraram muita bebida, e apenas saíram chamando um milhão de pessoas para o local. Antes das duas da manhã e tudo já estava completamente fora do controle. Mas era exatamente essa a intenção, eles queriam destruir a casa da ex de James,pois eles tinham essa ideia de que essa seria uma ótima forma de se vingar.
Plenos 21 anos e Sirius conseguia ter ideias tão babacas quanto às de uma criança que fica de mal com a outra,pela mesma ter roubado seus doces. Mas acontece, que ver seu melhor amigo chorando enquanto se embebedava na sala do apartamento que ambos dividiam tinha de fato lhe afetado.
Ele tocava animadamente para as pessoas que se entusiasmavam com seus mixes. Mas foi por volta das duas da manhã que todo mundo começou a ficar bêbado de mais,ele já não sabia onde seu melhor amigo estava e os meninos haviam chamado tanta gente que chegou a um ponto que tinha mais pessoas que ele não conhecia do que ele conhecia no local.
Por mais inconsequente que Sirius fosse,ele sabia que já estava na hora de parar. Ou talvez fosse o fato de que ele não estava chapado e não havia tido tempo para beber. Seu estado sóbrio o deixava assustado com o nível de alcoolizados que as pessoas estavam naquele local.
Uma menina quebrava vasos por pura inconsequência e ele já havia perdido a conta das pessoas que haviam dado PT. Apesar da grande quantidade de gente dançando,ele decidiu que se fosse continuar com aquilo,ele iria precisar de muito mais que três doses de tequila. Então ele deixou uma playlist no automático e foi até a cozinha.
E foi ali, perdida e insegura, que ele encontrou Lilian Evans.
—Você está bem ? – o menino disse se aproximando da garota
—Sim – ela disse quase que em um sussurro
—Você vai beber isso ? – ele apontou para o copo que estava a sua frente
—Não — A ruiva olhava para baixo
—ótimo – SIirus virou o copo com tranquilidade . Manuela se assustou com a facilidade que ele fazia isso, em seguida ele encheu outro.
—Você vai acabar se matando – ela falava com os olhos arregalados.
Black olhou para a garota de uma forma estranha
—É sua primeira festa ? — Ela apenas revirou os olhos, o que indicava para o menino que sim. – Não precisa ser muito inteligente para perceber que você não esta gostando nem um pouco de estar aqui
—Pois é – ela havia decidido que mesmo aquela não sendo a sua primeira festa, ela não daria muito engajamento para o menino continuar a conversa, a ultima coisa que ela precisava era de um bêbado achando que tinha moral com ela.
—Péssima festa te arranjaram, isso aqui está completamente fora do controle
—Concordo – Era incrível o tamanho de sua timidez misturado com sua indiferença sobre o menino naquele momento
—eu me lembro da minha primeira festa,vomitei por horas. Mas você não é esse tipo de pessoa,não é ?
Lilian gostava da forma como o menino dizia ‘’pessoa’’,invés de ‘’menina’’. Sem querer aplicar o como determinado sexo deveria se comportar só por ser um menino ou uma menina. Não era algo tão comum,mas era algo tão pequeno que apenas ela perceberia, pois Manuela gostava de reparar em pequenas coisas que faziam diferença. E foi ai que ela percebeu que estava pintando a imagem errada daquele garoto,ele era um cara legal, e era difícil achar pessoas legais em locais tão chatos como aquele.
—Classifique esse ‘’tipo de pessoa’’- ela disse, pela primeira vez, olhando para ele e sorrindo
—Pessoas que bebem para caralho,pessoas que curtem musicas altas e uma ressaca no dia seguinte
—Não. Assim como você não é esse tipo de pessoa – ela apontou para si própria – que perde horas lendo e comendo doritos enquanto assistindo o canal Fox
—Eu acho que todo estudante de direito perde horas lendo. Mas eu sempre preferindo mais fandangos e netflix
Ambos riram,não por acharem graça da situação, mas por pela primeira vez estarem se sentindo confortável naquela noite
—Prazer garoto dos fandangos – a menina estendeu a mão.
—Prazer garota do doritos – ele apertou sua mão em seguida.
Ambos sorriram
—Finalmente te achei, que droga – James chegou aos berros na cozinha
—Onde você estava ? – Sirius disse quebrando o pequeno vinculo entre ele e a menina a sua frente e começou a dar atenção a seu melhor amigo, que pela primeira vez em horas,havia dado as caras
—Estava tendo uma briga no quintal,eu tive que aparatar. Agora está todo mundo reclamando pois as bebidas que nós deixamos no bar improvisado acabaram, tá todo mundo irritado e além de tudo o DJ,vulgo você, sumiu – O menino dizia tudo quase que gritando,ele não sabia ao certo se estava com raiva ou querendo cair aos prantos. James sempre foi péssimo em situação as quais o deixavam pressionado.
—Certo. Eu vou voltar para lá e vou tentar animar o pessoal enquanto você vai comprar mais bebida com o meu carro – Joaquim disse organizando a situação , não entrando em pânico e dando a chave ao amigo
—Valeu parceiro – James pegou as chaves e já se virou com pressa
—Espera ai – ele chamou o amigo que parou e se virou com um olhar perdido – leva ela para casa também – ele apontou para a menina, que até então ele nem mesmo sabia o nome
—Oi ? – Lilian se pronunciou
—Vai embora, to bem nítido que isso é mais do que você está querendo,e pela pouca visão que eu tinha sua da escada, você já esta fingindo que está usando o celular há muito tempo,aposto que sua bateria está no fim. A aventura acabou,garota do doritos
—Minha amiga não vai querer ir embora – a loira balançou os ombros após se entusiasmar com a ideia e completamente envergonhada com o fato de estar sendo observada durante a noite,porem lembrando-se de Sabrina logo em seguida
—O James vai carrega-la até o carro a força se for preciso
—eu vou ? – Seu amigo disse confuso
—Você faria esse favor para o seu parceiro ? – Sirius sorriu para o menino
—Claro – ele retribuiu o sorriso, e ambos fizeram um toque – vamos nessa, ainda temos que achar sua amiga – James disse para a menina
—Muito obrigada – Lilian disse saindo do local junto com James e deixando seus agradecimentos ao até então menino que ela conhecia como ‘’garoto do doritos’’.
Ao saírem os olhos da garota passaram a percorrer todo corredor,porém Sabrina não estava lá. Então ela foi para a sala.James apenas a saguia,já que ele não tinha como ajudar, por não conhecer Marlene. Novamente Lilian olhou por cada canto daquele local,até achar a amiga deitada,dormindo em um sofá.
—É ela – A morena gritava no ouvido do garoto que lhe daria a carona,pois a musica que tocava estava alta. James apenas pegou Marlene no colo e o trio saiu em direção à saída da casa.
No mesmo momento Sirius retornava a assumir o papel de DJ da festa.
Um dos últimos momentos de lucidez que Lilian teria em um bom tempo foi à visão do garoto subindo no palco e sorrindo pelo entusiasmo do publico de jovens chapados a sua frente.
01h35min da madrugada – 21 de agosto de 2014.
Marlene sempre tivera sérios problemas respiratórios. Naquela noite Marcela, a mãe da mesma percebeu que sua filha tinha esquecido sua bombinha reserva para controlar a asma.
Aos sete anos uma de suas bombinhas havia acabado no meio da aula de artes do jardim a infância, causando uma quase morte em Marlene. Desde então sua mãe morria de preocupação que o caso se repetisse. Por conta disso, tentou ligar para a garota para avisar que mesmo tarde, levaria o medicamento a ela.
Mas foi após cinco tentativas falhas que ela decidiu ligar para a casa de Lilian, ou melhor, a casa da melhor amiga de sua filha e também o local onde ela deveria estar naquela noite,
Mas foi após uma conversa de menos de cinco minutos com Marcia, a mãe de Lily, que ambas perceberam que foram enganadas pelas filhas.
A primeira coisa que fizeram foi contar aos seus maridos.
Jorge, pai de Marlene ficou extremamente revoltado com a filha. Enquanto João, pai de Lilian, se mostrava mais preocupado e aflito que qualquer coisa.
Jorge trabalhava na policia civil, ele era um dos melhores investigadores em sua área, e era também completamente neurótico, por conta disso, no natal daquele mesmo ano ele havia dado a sua filha um celular novo. Marlene provavelmente o teria destruído se soubesse que seu pai tinha posto um chip dentro.
Foi no desespero e na preocupação extrema que ambos os pais decidiram ir atrás de suas filhas.
Já era tarde, mas Marcela e Jorge fizeram questão de passar na casa de Márcia e João e os pegarem para enfim poderem ir atrás de Manuela e Sabrina.
01h40min da madrugada – 21 de agosto de 2014.
Marlene estava desmaiada nos bancos de trás do carro,Lilian já estava sentindo seus olhos quase se fecharem lentamente, ela estava de fato exausta.
—Então, onde eu deixo vocês ? – James disse a menina
—Nós meio que mentimos para os nossos pais, eu disse que dormiria na casa dela ela na minha. Fazemos isso normalmente.
—E onde exatamente vocês realmente ficam quando fazem isso ?
—Nós passamos a noite na casa da minha madrinha, geralmente ela encobre a gente. Às vezes, eu acho que Marlene só ainda anda comigo pois eu estou sempre arranjando um jeito de limpar a barra dela – aquilo meio que saiu como um desabafo da boca da menina,ela de fato amava sua amiga mas algumas atitudes que a mesma tinha, lhe cansavam. Ela estava tão cansada que não tinha mais controle de nada do que dizia, tudo estava saindo meio que ao automático.
—Então porque você ainda anda com ela ? – o menino disse,sem medo nenhum de talvez estiver sendo indiscreto
—ela é minha melhor amiga – a menina apenas balançou os ombros
—talvez fosse hora de ela deixar de ser –James olhou para a menina e sorriu para ela – Mas me diz, onde é a casa dessa sua madrinha ?
Uma leve chuva caia já há um tempo, a menina passou o endereço.
Ele estava em uma velocidade baixa, justamente pois sabia que ainda estava um pouco alto pelo álcool que havia consumido a umas horas atrás, e também pelo fato de que estava digitando o endereço que a garota havia lhe passado no GPS. A estrada estava completamente vazia. Foram só cinco segundos de distração da parte de James.
Dez segundos antes desse momento, do outro lado da faixa estava um carro cinza com quatro adultos aflitos. O motorista corria com desespero e no banco de trás os passageiros reclamavam com medo, ele se virou apenas por um instante para a mulher que estava ao seu lado para manda-la calar a boca. Foi só cinco segundos de descuido.
E então aconteceu.
Os carros colidirão.
O grito desesperador de Lilian.
O coração de James batendo mais forte.
E em questão de segundos, não era só Marlene que estava inconsciente.
Enquanto o carro cinza que os acertou deu três voltas e capotou uma vez, causando uma morte instantânea em duas pessoas que ali estavam e desmaio nos outros dois passageiros. O carro de James, que era mais frágil deu dois rodopios pela rua e capotou três vezes.
Um dos três corpos foi arremessado pela janela e se encontrava jogado no acostamento. Outro permaneceu intacto , e o ultimo atravessou a janela da frente e estava largado no capo em meio aos cacos de vidro.
Muito sangue e um silencio se estabeleceu após os sons de arrancadas de pneus e o estrondo causado pela batida. E por um misero instante a noite se tornou mais escura. A morte pairava naquele local.
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