O caminho do mar
1 A brisa
Trimm. Trimm. O som monótono do relógio ecoava por todo o quarto. Depois de três, quatro tentativas de acerto em seu botão, finalmente a mão escassa o atingia com prontidão. A luz raiava pela janela e insidia diretamente no aconchego do travesseiro que estava o garoto, iluminando toda a sua face. Foi questão de alguns, mas demorados minutos para que ele pudesse levantar. Embora conseguisse dormir por mais que oito horas seguidas, algo continuava em sua cabeça: a questão da noite anterior não estava resolvida. Após uma longa batalha para puder se levantar, a voz feminina, que nesse ponto já estava irritante, podia ser ouvida repetidamente. Era nítido que o café da manhã estava pronto. Enquanto escovava seus dentes, olhando fixamente a si mesmo pelo espelho, uma brisa gélida batia sobre os cabelos de Filippo, colocando-o rumo ao vento, e um frio percorria seu corpo. Relembrar do que aconteceu não era algo fácil, ainda mais quando não se tinha nitidez sobre o ocorrido. Na mesa, a mesma preocupação. Aquela frase repetia diversas e incansavelmente. Os noves lembraram-se de tudo e a história será mudada. Enquanto pensava, o menino não percebeu que seu café se esfriava. A voz feminina voltava a açoitar sua cabeça pensante, mas que teria que concordar com ela, pois estava atrasado. Quase esquecendo sua bolsa no quarto, o garoto pôs-se a rua com sua bicicleta e começou a pedalar sobre a grande Atenas, tentando limpar sua mente sobre o ocorrido e esquecer aquele sonho.
As ruas da cidade histórica, palco dos grandes filósofos do período antigo, estavam agitadas hoje. Enquanto descia a avenida, o garoto pode observar um noticiário da TV que o atraíra, mas não somente ele, e sim uma multidão de pessoas. Parando sua bicicleta próximo a calçada, conseguiu ver com claridade o que se passava. A notícia revelaria algo que deixou todos em silêncio, não somente no local, mas por toda a capital. A brisa que batia tornava-se mais forte, e o tempo escureceu-se, falando que ia chover. Enquanto o silêncio predominava no corpo de todos, imóveis e chocados, a voz do microfone ecoava e permitia a todos a tentarem entender o se passava na notícia, revelando que o corpo do guerreiro de Troia, Ulisses, não estaria enterrado sobre o castelo do rei Menelau, a qual confiara a missão para o garoto, e sim em outro local, desfazendo-se assim dos ditos de Homero, o grande poeta épico, que descrevera a jornada do garoto. Para alguns, tal fato não era relevante em sua vida, mas para a maioria aquilo era, pois os livros de Homero e seus contos dividiu a história da Grécia, e agora tudo aquilo que lhe foi descrito poderia ser uma farsa, ou seria apenas um erro?
Enquanto todos os corpos desfaziam-se da televisão para voltar a sua rotina, o corpo de Filippo ficava estático ali, pensando sobre o acontecido. Nenhum som saia de sua boca, embora seu coração aumentasse os bombeamentos cada vez mais rápido. Aquilo não poderia ser um sonho, pois tinha certeza que já estava acordado. A frase ecoava por seu corpo junto a imensidão da notícia e, quando aquilo estava prestes a engoli-lo em um colapso existencial, ele é acordado por uma voz amiga, que bate em seu ombro, chamando-o para a aula pois iria se atrasar. Graças aquilo, ele não foi imerso nas histórias de Homero, e pôs-se a continuar seu dia, embora ele não estivesse normal.
O dia seguiu seu fluxo normalmente, com aula atrás de aula, até o sinal da saída tocar. Agora o garoto estaria livre para pôr-se a fazer o que quiser. No corredor, as conversas sobre a mudança do corpo era o assunto principal, todos estavam animados, porém com medo do que aquilo poderia ser. Toda a história estaria mudada de um dia para o outro? A chuva finalmente caiu, e agora ele estaria preso na escola. Por sorte, isso não foi um fator desmotivador dele, que se colocou na biblioteca para ler um pouco mais de Ilíada e Odisseia. O sonho, a notícia, os noves.. Tudo aquilo estaria conectado, ou seria uma mera coincidência? A escola em breve fecharia e, mesmo com a chuva, ele teria que retornar para a casa. De baixo de seu guarda-chuva, havia um problema no sistema de esgoto da cidade, provavelmente um bueiro estava preso. A água não escorria e estava se acumulando, como se a cidade estivesse virando mar, mas por sorte era só nas duas ruas próximas da escola. Enquanto pensava, um trovão se intensificava e, no fim da rua, uma figura aparecia. A brisa oceânica se intensificava junto a chuva, que parecia que destruiria a cidade. Após o clarão de luz, pode-se ver o uniforme marrom, junto a uma arma de infantaria e, surpreendentemente, uma suástica nazista em seu braço esquerdo. Ambos ficavam se olhando por alguns minutos, até que a ficha caísse, ambos já haviam se vistos, mas não na vida real, e sim no sonho. Eram dois dos noves que mudariam a história.
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