O caminho
1 O caminho
Gritos e palavras obscenas eram jogados de uma mulher a um homem, e vice-versa. Era uma briga. Sempre era. Uma menininha de doze anos encontrava-se encolhida em seu quarto, perto de uma grande janela, aparentemente assustada, agarrava contra o peito um coelhinho de pelúcia. Ela sempre ficava por lá quando os adultos brigavam, segurando sua pelúcia e apreciando, pela janela, a floresta negra banhada pela lua e, mais especificamente, o caminho estreito que a permeava. Ninguém visitava aquele lugar, a pequena Rose sabia.
Sua mãe lhe contara há muitos anos, quando tudo estava em paz em seu lar, que a floresta negra era assombrada. A menina se lembrava bem desse dia: estava correndo para a floresta, no auge dos seus nove anos de idade, toda alegre e saltitante, quando sua mãe a persegue e começa a gritar "pare! o que está fazendo? É perigoso!", foi a frase que mais ouviu naquele dia.
—Por que não posso ir à floresta, mamãe? — perguntou Rose, quando já estava na casa de sua família a contragosto.
—É perigoso — sua mãe sussurra.
—Como assim? Sempre fazemos trilhas pelas florestas. — ela rebate, inocentemente.
—As pessoas que vão para lá, nunca mais voltam. Rose, querida, me prometa que nunca mais vai correr para aquele lugar monstruoso! Me prometa —falou firme.
—Mas por que? Alguém já sumiu? — a menina pergunta.
—Muitas pessoas. Muitas pessoas. Alguns acreditam que existam animais selvagens e famintos, outros creem que exista um assassino vivendo na floresta. Seja como for, nunca mais voltam. — diz tristemente.
E parecia ser verdade. Dias depois desse ocorrido, seu professor de português preferido, Ricardo, sumiu, foi percorrer aquele misterioso caminho. O que é engraçado é que a menina não sentia medo, mas sim, grande vontade de desbravar aquele lugar e viver grandes aventuras.
As lágrimas da menininha ainda escorriam, agora soluçando. Seus pais faziam o maior ruído se ofendendo e se xingando, sua mãe ameaçava o marido dizendo que chamaria a polícia. Olhando pela última vez para as árvores, que ladeavam o "caminho", a menina resolveu que era hora de ir, afinal, ela havia esperado anos para fazer isso e viver uma grande aventura. Hoje parecia um dia perfeito. Rose encontrou uma mochila velha no fundo do armário, jogou um casaco dentro dela, uma lanterna, um caderninho com uma caneta e o livro que seus pais proibiam-na de ler e que, mesmo assim, lia escondido. Então desceu bem de fininho para que seus pais (ainda brigando) não a ouvissem, ela logo pegou seus suprimentos (um pacote de batata frita, bombons, pirulitos, paçoca e marshmallow) e encheu sua mochila. A parte mais fácil foi surrupiar a chave e destrancar a porta. Rose avançou a passos largos em direção a floresta sem olhar para trás.
A garota estava lá, na entrada do "caminho". A lua ainda brilhava, esperando o sol chegar. O percurso foi curto, a menina estava sentindo uma grande empolgação e nenhum pingo de medo, porém, avistou um carvalho no qual poderia-se ler: Gabriela, Luis, Cassandra, Lucas, Thais, Danilo, Fernanda, Fabiano, Patrícia, Reinaldo, Luisa, Nathalia, entre muitos outros nomes. Seriam essas as pessoas desaparecidas? Rose se perguntou, logo depois sentiu um frio na espinha e a vontade de voltar começou a bater forte em seu coração, entretanto, o desejo de ir e viver aventuras venceu. Nesse momento lembrou-se de um trecho de seu escritor favorito, Lewis Carroll: a curiosidade geralmente traz problemas. Porém, as aventuras trazem histórias, Rose refletiu. E como num ímpeto de loucura, ela deu o primeiro passo dentro do caminho escuro.
A terra parecia entrar toda hora em seus sapatos, a lanterna iluminava as árvores retorcidas a frente, e algumas vezes, tropeçava e machucava suas pernas com algum graveto ou pedra, enquanto seus pés se cansavam. A noite (impressionantemente) parecia ficar mais escura do que o possível. Rose realmente pensou, várias vezes, em desistir; porém, se lembrava de seus pais brigando entre si, e esse lugar apesar de assustador, ainda era mais tranquilo.
Pisou em um graveto. Deu um pulo. Um ruído de um animal selvagem se fazia ouvir, era um uivo gutural: lobos, pensava ela, correu como se a sua vida dependesse disso, até parar perto de uma seringueira. Ouviu mais um uivo. Olhou para frente. Era um lobo. Branco.
O lobo estava sentado, fitando-a com seus olhos azuis, Rose então se lembrou de ficar quieta e sem se mexer, era isso o que National Geographic falava para se fazer quando dava de cara com animais selvagens, o suor lhe escorria frio da fronte, o lobo a encarava, chegou mais perto dela. Pequenas luzinhas amareladas apareceram, inundavam toda a floresta, vaga-lumes? Indagou-se ela.
Foi nesse momento que ouviu diversos sussurros, eles diziam a mesma coisa com uma voz doce:
—Rose, Rose... venha mais perto. — um milhão de vozes falavam.
O lobo então se afastou ganindo e nem sequer olhou para trás. O que eram essas vozes?
Os vaga-lumes fugiam, e as vozes aumentavam:
—Venha conosco, Rose, venha conosco — continuavam a dizer, todos juntos.
Ela colocou as mãos no ouvido, porém, continuava a ouvi-los, a intensidade da voz cada vez mais forte.
—Ficará segura, venha conosco... — repetiam como um mantra.
A lanterna, de repente e sem aviso, apagou. Só podia ser brincadeira, a menina então espancou a lanterna com toda sua força e se amaldiçoou porque havia esquecido as baterias extras, ela pensou em correr e voltar para sua casa, estava com frio, com fome, com todo seu corpo dolorido, com medo dos lobos, os sussurros aumentavam e Rose colocou as duas mãos em seus ouvidos:
—Não irá sobreviver se voltar. Há muitos deles por aí — diziam em sua cabeça.
Será que estou enlouquecendo? Rose pensou. Ela já havia ouvido falar sobre esquizofrenia e outros transtornos que causavam alucinações. Não, infelizmente não estou — respondeu a própria pergunta.
Então, um vaga-lume passou perto de seus olhos e a menina percebeu, que não eram vaga-lumes. Eram pessoas douradas. Pessoas pequeninas com asas. Fadas?
A garota piscou. Não sou esquizofrênica... não sou esquizofrênica... não sou... repetia mentalmente, entretanto, quando Rose conseguiu identificá-lo, o vaga-lume-fada começou a fugir e em um ímpeto de curiosidade a menina começou a correr atrás da luz.
Distanciou-se do caminho, as pernas foram cortadas pelos arbustos da floresta e um joelho ficou ralado, seu peito arfava depois de tanto correr, "Aí está você", pensou olhando o vaga-lume-fada na clareira, correu o mais rápido que conseguiu estendendo a mão para pegá-lo, um tombo se ouviu na floresta juntamente com um choro baixo; Rose havia tropeçado em uma pedra e quebrado seu tornozelo. O vaga-lume-fada se foi.
Sem luz, perdida, com um osso quebrado e muito frio (apesar de já ter colocado o casaco que levara), a única comida que restara era o pacote de batatas fritas, enquanto no fundo da mochila pousava seu caderninho e uma caneta. Ela pensou, deliberadamente, que poderia escrever as aventuras que viveu na floresta. "Agora, provavelmente vou ser devorada por lobos", refletia a menina, lágrimas grossas caindo abundantemente de seu olhos, molhando sua face que estava enterrada no chão.
—Voltem! — Rose gritava, a garganta ficando ainda mais seca — voltem! Não vou mais perseguir vocês! Voltem! — seu tom de voz diminuindo cada vez mais.
As luzes reapareceram, sem aviso algum, eram milhares de vaga-lumes-fadas em diversos pontos da clareira. Um deles, novamente, chegou bem perto de seu rosto.
Tinha olhos grandes, seus corpos diminutos eram totalmente dourados, não usavam roupas e em suas asas haviam símbolos pequenos. "Vocês são o que?", Rose se perguntou mentalmente.
—Fadas... fadas.... fadas — respondiam vozes individuais, telepaticamente para ela. Uma após a outra.
A garota sorri. Sempre achou que aquele "caminho" era mágico, contudo, o barulho dos lobos apagou seu sorriso.
—Vamos te proteger até o amanhecer.... te protegeremos — avisaram as fadas.
Esses seres tinham muito carinho por ela, refletiu, e logo em seguida se imaginou como uma delas, "Queria ficar com vocês", falou em sua mente. A família dela vivia brigando, era verdade, e até agora, Rose sabia, não se deram conta que ela havia saído. Nunca se importavam com ela quando estavam tão interessados em brigar entre eles. Nesses anos, ela já não sentia que possuía uma família.
—Durma Rose, durma — as vozes falaram — ficaremos com você até o amanhecer.
A menina fechou os olhos, se sentindo segura pela primeira vez nesses anos.
Rose estava na porta, chegando em casa, sua mãe e seu pai continuavam a brigar.
—Sua vaca — seu pai bradava, dando um tapa em sua mãe que caiu no chão.
Eles continuavam a gritar uns com os outros e a se agredir, nem sequer olhavam para a própria filha.
Abriu as pálpebras, arfava e chorava, pelo menos havia sido só um sonho. A menina se senta e percebe que o sol está nascendo, alguns vaga-lumes começam a desaparecer. "Não, esperem!", Rose pensa novamente, mesmo assim eles se vão um por um, ela mexe seu tornozelo que está, aparentemente, curado, se levanta devagar e anda alguns quilômetros até encontrar novamente o "caminho".
Quando chega ao final do percurso, começa a ouvir sirenes e avista carros de polícia em sua casa, e resolve se esconder atrás do carro da família. O que estava acontecendo, afinal? Ela se perguntava. Alguns minutos depois, dois policiais saem segurando firmemente os braço de seu pai.
—Me larga! Me larga — ele esperneava, tentando chutar os policiais enquanto o empurravam para a viatura.
—Você tem o direito de permanecer em silêncio, tudo o que disser poderá e deverá ser usado contra você no tribunal. Você tem o direito de ter um advogado presente durante qualquer interrogatório. Se não puder pagar um advogado, um defensor lhe será indicado. — disse um policial.
O carro se vai, levando seu pai e os dois policiais, de dentro da casa de Rose saem diversos outros oficiais, carregando materiais de perícia e retirando suas luvas.
—Que coisa horrível! — dizia a perita, com cabelos pretos e uniforme azul.
—É... matar a mulher desse jeito — balançava a cabeça um policial barbudo.
Rose colocou uma mão na boca. "Meu pai, matou mesmo minha mãe?" a pergunta passava por sua cabeça e lágrimas lhe saiam dos olhos, o estômago estava enjoado e a cabeça latejando. Outra coisa que lhe passou pela cabeça foi que ela deveria fugir dali, com quem ela ficaria? Não tinha parentes próximos, seu pai era um assassino e não possuía amigos. Correu, novamente, para a floresta negra.
"Sou filha de um assassino", ela se odiava, andando a passos largos, mas a menina já sabia o que fazer. Ela já sabia com quem ficar. Então sentou, respirou fundo diversas vezes, pensando na morte de sua mãe, em seu pai psicopata e em toda a sua vida por muitas horas. Quando já estava escurecendo, Rose pega o livro proibido na mochila, era O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger.
"E a vida é um jogo, meu filho. A vida é um jogo que se tem de disputar de acordo com as regras."
"Pois bem, não tenho regras a seguir", a garotinha pensa, depois de ler sua frase favorita.
"Fadas! Onde vocês estão?", ela as chama mentalmente.
Luzes de vaga-lumes se mostram na clareira.
"Não tenho ninguém", pensa, chorando, "quero ficar com vocês, por favor".
"Você teria de virar uma fada" — as vozes ressoam.
"Por favor..." — a menina implora, se jogando ao chão, chorosa.
Rose sente como se estivesse se desintegrando, e diversas asas começam a bater sobrevoando todo o "caminho", ela havia se transformado em diversas borboletas azuis, as filhas das fadas...
—E é por isso, meus caros — disse um professor em uma sala de aula — que a borboleta é considerada o símbolo da transformação.
—Professor! Mas porquê uma borboleta azul? — pergunta uma japonesa.
—Bem, a borboleta azul é um símbolo das transformações que o ser humano passa ao longo da vida. — responde, seriamente.
—Professor Ricardo, o senhor contou isso com tanta profundidade que estava aqui pensando... de onde você conhece essa lenda? — indaga um moço de cabelos loiros.
O sinal bateu.
—Essa é uma boa questão! Mas receio que deverá ficar para a próxima aula.
Os alunos logo saem da sala, apressados para degustar seus lanches. Ricardo chega perto de uma janela e uma borboleta azul se aproxima.
Ele sabe porquê viu acontecer, passou alguns anos pesquisando borboletas e fadas, naquele "caminho", que Rose, sua aluna mais inteligente, transformou-se em diversas borboletas azuis.
Ricardo, como uma criança, nunca duvidou da magia. Muito menos na magia presente nos significados da vida. Tomando um gole de café ele suspirou, observando a filha das fadas voar para longe dali.
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